reflexões in verso


egipto
Afonso Dias

estive no Egipto, gostei e trouxe isto:
egipto

na rota do cairo
só os camelos passam
pelo cu benzido da agulha
e arrastam a cinza do deserto
rumo a mais deserto
e a mais cinza
todavia
adivinha-se um fogo
na moleza da cáfila

e é perfeita a luz

devoto mahmadou
muçulmano bom
amigo farto
erguido em poucos dias
doou-me o sorriso
mais limpo que se pode

e há uma infusão de menta
a santificar o entendimento

esgotada a pedincha
o preço é revelado
e a perfeita serenidade
releva longínquas
reverências
a navegar
secura

sobre os egípcios
empilham-se
gigantescas
as sombras
de pedra
de submissão
e de martírio
com vales de reis
e pirâmides
em mágica
maravilhosa
e absurda criação

uma massa de
anos e anos
e séculos
e mortos
e ossos
e mortos
mais ossos
mais pedras
e sangue
e mais pó
e oásis
que só há
muito longe
e não se pode

quanta dor
transportou
nefertiti
e Cleópatra
até ao folclore
nas margens do corão
com mar vermelho
wind surf
e bikini
que as mulheres dali
mal ousam

e muitas são
as mulheres que recolhem
trejeitos e sorrisos
nas vestes de noite
e menoridade
litúrgica e sombria

- apenas se adivinha um vislumbre
de lágrimas -

divido-me entre
a beleza
plena e sublime
e o mar
vermelho de dor
daquele deserto infindo

e ali à beira
a palestina
de lágrimas acesas
a arábia de petróleo
meca
e esperança inerte
a síria sempre mártir
em mar vermelho
de sangue
navegada

e israel a pairar
sob o “céu cinzento”
da american navy
sempre em riste

o sorriso limpo
de mahmadou
   de doçura tanta
é esperança pouca
que ele merecia ter
muita

e que eu não trouxe

porque não havia

21.7.2019