reflexões in verso


romance I (no mercado)
Afonso Dias

O Romance é uma forma poética construída em versos de sete sílabas métricas - Redondilha Maior - e que, geralmente, conta uma história ou fantasia a partir de situações reais ou imaginadas: júbilos e desgostos amorosos, sorte e azar, aventuras e tormentas, vitórias e fracassos, chacotas e lamentos...
A origem do Romance leva-nos à Idade Média europeia, designadamente a Espanha e a Portugal, onde se impôs nos Séc. XV e XVI e evoluiu até hoje. Foi, em tempos mais remotos, cultivado por Gil Vicente, Camões e muitos outros e, sobretudo, manteve e estendeu raízes na criação popular.
São inúmeros os Romances recolhidos da tradição oral por literatos e académicos desde há séculos. Há um precioso espólio preservado em dezenas de publicações.
No Séc. XX muitos foram os poetas que mantiveram o Romance nas suas escrituras: Lorca, Gedeão, Ary, Cecília Meireles, são exemplos disso.

Tal corrente ainda não foi quebrada. Quer por escritores de poesia, que por repentistas populares que continuam a debitar as suas décimas com mote. No Alentejo, no Minho, nas Beiras, nos Açores.

Trago-vos um modesto Romance e, nas próximas edições, seguirei por aqui.

romance I
(no mercado)

o filho está em bordéus
a filha nem sabe aonde
e ele bebe vinho rasca
aos loros pelo mercado 

“se fosse surrealista
era picasso” decerto
e dá num passo de dança
uma pincelada heróica
nas meninas d’avignon 

“dê licença que me sente
que o mar anda marafado
à reboleta na escada
e o vento lá fora é bruto
gelado como uma bruxa
com aranhas no vestido
e até a chuva é azul
azul azul como o gelo
que nos olhos da maldade
é um bisturi desabrido
que fere o que está ferido 

agora que vou para velho
e a cinza do cabelo
não brilha com o sol de lado
cá dentro liberto um fado
e a madrugada adormece
no colo do esquecimento 

fique sabendo o amigo
sem vinho não aguento
e o dia grande é castigo
vale sem fundo ou abrigo
maior do que longe e  tempo 

não se esqueça do que digo” 

não me esqueço meu amigo 

1.11.2018

* imagem: detalhe de Les Demoiselles d'Avignon (1907) de Pablo Picasso