Afonso Dias

reflexões in verso

Afonso Dias

manifesto II

manifesto II

daqui deste pedestal
vou cantar-vos um romance
de mor largueza e alcance
que a navegação do gama 

é um jogo de aventuras
ponto a ponto renovado 

fala de passos e gestos
e de gente e de ladeiras
e da senhora de fátima
poisada nas açoteias
a acenar ladaínhas 

e vos declaro o intento
de ir de fio a pavio
pela seda e pela lama
pelo embalo da ideia
pelo ermo de qualquer estrada
pelo mistério que ateia
a luz que alumia o nada
que entope a consciência 

e nessa longe distância
vou falar-vos da epopeia
do pranto heroico da fome;
e da poesia ausente
do sofrimento dos ermos
e da peçonha do medo;
e da insónia do deserto
de veneno metralhado;
e também da grã bravura
branca flor de resistência
a pontuar os caminhos
onde mora a ignomínia;
e mais do gozo da pele     

na doçura dos sentidos
sorriso de liberdade
à tona do pensamento. 

tremei de desassossego
e subireis encantados
té aos altos delirantes
que nem a magia alcança 

se os olhos tiverdes cegos
libertai músculo e nervos
dai-me a vossa companhia
vinde em leveza de nuvem
nesta viagem sem termo 

e na rota sinuosa
pois que o olhar se liberte
e a vista ao largo se estenda 

não vos deixo ao desamparo 

havemos de ter à proa
o archote da poesia
que à poesia estou sujeito 

é um fado é o meu fado
tomai-o por manifesto
tal e qual me é imposto
e por gosto ou contra-gosto
mandamento e catecismo
té pelas pedras embalo
refém que sou do consolo
da melodia dos sonhos 

eleita e aclamada
na alvorada da surpresa
a poesia é proclamada
fada maior dos caminhos
que chora e veste de azul
que ri e sangra novelos
que de morte são por vezes
mas sempre de amor a rodos;
que flutua no orvalho
dos segredos descobertos
e em camadas desfiados
por pontes e por veredas
do caminho que alumia;
que rente aos canaviais
com raízes na ideia
nos conduz até ao cume
aonde a verdade habita: 

e pela  qual vale pena
a viagem a labuta
 

27.8.2020