António Marçal Grilo

Estórias da História

António Marçal Grilo

PANDEMIAS E AS MEMÓRIAS DO TEMPO
O INFERNO DE DANTE

Corria o princípio do ano de 1918 e decorria um dos maiores dramas da história do século XX, uma guerra devassava o velho continente, assistia-se ao drama de uma guerra mundial especialmente cruel, na qual milhões de homens foram feridos e mortos em batalhas sangrentas travadas em multíplices frentes, e, a tudo isto, veio juntar-se uma gigantesca tragédia.

Uma pandemia.

Tal como nos tempos atuais, cedo foi diagnosticada como gripe, escapando ao fluxo habitual desta entidade, surge com uma forma extraordinariamente maligna, matando em pouco meses, em todo o mundo, mais de quarenta milhões de pessoas, mais do dobro do que a própria guerra tinha feito em quatro anos.

Exprime mais de um terço do que a peste em seis séculos, os serviços de saúde, habituados na altura, a combater as grandes epidemias, particularmente as bacterianas, com quarentenas, isolamento dos contactos, restrições à liberdade de movimento entre outros não tiveram capacidade para limitar a pandemia e só precocemente tomaram medidas avulsas que nada influíram sobre a evolução do processo, como possivelmente aconteceria hoje em todos os países do mundo se uma gripe com as características de 1918 voltasse a aparecer.

Terminada a epidemia nos princípios de 1919, uma cortina de silêncio desceu sobre o acontecimento, e se não fosse o renascer dos novos medos e dos novos vírus e o avanço da tecnologia que permitiu estudar as suas particularidades que desde então se têm manifestado e que se têm combatido nomeadamente o HIV, o Ébola, a gripe das aves (H5N1), a gripe suína (H1N1) entre outros, toda esta tragédia seria olvidada.

 A de 1918, provavelmente não se voltaria a falar de análogo cataclismo, a afirmação de que “a memória dos povos é curta” parece ter aqui um bom exemplo e especialmente à atual e inesperada pandemia que neste momento assola o mundo,  devastando todos os estados, todas as economias e pondo em causa todos os princípios  fundamentais do relacionamento humano em todas as vertentes da sociedade, destacando-se  particularmente o inter-relacionamento familiar pondo em risco todas as contexturas sagradas que lhe são mais queridas e transformando o seu dia a dia num autêntico inferno de Dante.


Anexação do Algarve
Fixação dos limites territoriais do Reino de Portugal

Em 1263 o problema do reconhecimento do Reino do Algarve na coroa portuguesa conhece novos factos e novas circunstâncias que permitem a Afonso III de Portugal e Afonso X de Leão e Castela assinar um tratado de paz. Corria o ano de 1263 e os dois soberanos entenderam transpor um pacto em que fossem relevados os seguintes termos, que citamos [1]:

“Salvo quatro regalias eminentes de Afonso X, enquanto vivo, o senhorio da terra passava ao seu recém-nascido neto D. Dinis, com a obrigação de prestar ao avô, em caso de guerra, o auxílio militar de 50 lanças. Para penhor deste compromisso, que tinha seu ressaibo feudal, ficavam os castelos de Tavira, Loulé, Faro, Paderne, Silves e Aljezur, em terçarias [2], sob o comando de dois nobres cavaleiros portugueses, D. João Peres de Aboim e seu filho, que juravam nas mãos de Afonso X cumprir o compromisso militar de Afonso III”.

Deste modo foi dado um passo decisivo para que Portugal almejasse a tão ambicionada posse de todo o território do Algarve, reconhecido não só pelos outros reinos ibéricos como pelo papado.

A própria obrigação feudal de cinquentas lanças apenas tocava ao Algarve e impendia, não sobre o rei, mas sobre o infante menino, então com dois anos de idade.

Com efeito, logo no ano seguinte, em setembro de 1264, na ratificação do tratado de paz, cedeu Afonso X ao genro, Afonso III de Portugal as quatro regalias que reservara em vida sobre todas as terras do Algarve, apenas revalidando a obrigação militar para segurança da qual continuaram os castelos em terçarias.

Em 1265, quando Afonso III de Portugal se apercebeu da intenção de Afonso X em organizar uma cruzada no norte de África, entendeu, como hábil político que era [3], “…mandar em socorro do avô de Castela o netito, D. Dinis, feudatário dos Algarves, à testa duma grossa hoste de lanças e uma frota de navios de guerra. Concluindo-se os aprestos, parte para Sevilha a hoste portuguesa sob o comando nominal do herdeiro ao trono de Portugal o infante-menino D. Dinis, de cinco anos de idade.
Tal passeio militar do infante-menino, surtiu para Afonso III, o desejado efeito. Enternecido com a graça, o velho avô castelhano Afonso X, reteve o neto junto de si durante dois anos ao fim dos quais, rendido às suas suplicas, aquiesceu em se consagrar com o pai…”.

Em fevereiro desse ano encontram-se os dois monarcas em Badajoz onde por convenção, Afonso X renuncia sem reservas a todos os seus direitos ao território do Algarve cedendo Afonso III de Portugal os castelos de Aroche e Aracena ao sogro.

Estabelecia-se assim definitivamente a fronteira a sul do reino seguido pelo curso do rio Guadiana. Com o tratado de paz a fixação dos limites era o complemento das longínquas pazes de Zamora traçados por D. Afonso Henriques e o Imperador Afonso VII de Leão e Castela a 5 de outubro de 1143, confirmado posteriormente pela bula papal “Manifesti Probatum” pelo Papa Alexandre III em 1179 onde se declara definitivamente a independência de Portugal.

Consumava-se enfim juridicamente o edifício territorial do Reino de Portugal. Começava agora e com o futuro rei D. Dinis consumar organicamente, consoante as tradições, as condições geográficas-marítimas, agrícolas e económicas do Reino caucionar uma posição política perante a cristandade.

Com o acesso total da costa algarvia o reino de Portugal detinha a plataforma ideal para nos reinados posteriores ter uma visão atlântica da conquista dos mares, um período que culminaria com a época e história dos descobrimentos, que só finaria no século XX, quase 600 anos depois com a entrega primeiro das ilhas Canárias, de Goa, na Índia, com a entrega da Guiné, Angola, Moçambique, Cabo-Verde, São-Tomé e Príncipe em África, com Timor e por último Macau no oriente em 1999.

[1] Alexandre Herculano, História de Portugal.
[2] Caução em poder de terceiros: formula medieval para territórios em litígio.
[3] Alexandre Herculano, História de Portugal.


O Reino do Algarve e a Coroa Portuguesa
D. Afonso III de Portugal

A questão do Algarve, sopitada, mas não resolvida, voltara a inquietar os ânimos. Corria o ano de 1256 e Afonso III, previdente repara nas fronteiras militares do Sul, preocupado com possíveis retaliações de D.Afonso X seu sogro. Resolvida nas Cortes de Leiria a situação da cidade de Beja o Rei manda-a restaurar militarmente, reconstruindo e ampliando as muralhas e o castelo, ocupando-o com uma forte guarnição, reedifica e aumenta o burgo, repovoando-o, colocando esta cidade como Praça Forte estratégica para qualquer eventualidade que fosse necessária.

No que refere a Lisboa, cidade predilecta de Afonso III que se avantajava às demais cidades do Reino já densamente povoada, caraterizada por uma grande atividade naval, mercantil e burguesa que tanto apoiara o Bolonhês na conquista da coroa, começa a figurar como residência habitual da corte e capital política do Reino.

Uma das grandes prioridades de D Afonso III foca-se na sua marinha militar naval (1). Construíram-se sob a direção de mestres estrangeiros navios de alto bordo para as frotas militares do rei. E a frota de navios grossos que ajudara a tomada de Faro (2), as fustas as barcas, as caravelas, deviam em caso de guerra defender eficazmente não só o estuário do Tejo, mas toda a costa incorporada ao reino.

Em 1261, um levantamento das populações mouras nos estados do Sul de Afonso X de Castela, dá ao rei de Portugal a oportunidade para voltar às armas em defesa dos seus direitos ao Algarve.

Afonso III nesse ano promove nova expedição militar ao sul para se reapossar dessas terras e sabe-se que a ofensiva partiu da hoste portuguesa, a guerra foi devastadora e durou poucos meses, mas não trouxe grande vantagens para os contendores, a intervenção de D. Paio Peres Correia, mestre da ordem de Santiago, homem muito respeitado por ambas as partes, Afonso III de Portugal e Afonso X de Leão e Castela, tomou a iniciativa de promover as pazes entre os dois grandes monarcas.

(1) Quirino da Fonseca, Os portugueses no mar, vol.1, p.37.
(2) António Brandão, Monarquia Lusitana.


Conclusão da conquista do Algarve – D. Afonso III de Portugal

Em fins de março de 1249, os freires das ordens, nomeadamente Gonçalo Magro, Comendador-Mor dos Espatários em Portugal avançam e conquistam Albufeira, Porches e outras praças fortes a oeste de Faro.

Por sua vez os Hospitalários saídos dos castelos de Moura, Serpa e Mértola tomam o condado de Niebla, Aracena e Aronche, território entre o Guadiana e o Odiel.

Com a queda de Faro, os Freires do Mestre de Santiago o grande comendador D. Paio Peres Correia, reforçados com novos contingentes avançam e conquistam a praça-forte de Salir, importante ponto estratégico face à proximidade que a mesma tinha de Silves.

Releva-se que a cidade de Silves era considerada como a urbe mais importante e a mais populosa de todo o Algarve ocidental, era uma praça-forte com um sistema defensivo muito sólido, com fortes estruturas bem implantadas que não era de todo um objetivo militar fácil de subjugar.

Por esse motivo D. Paio Peres Correia delineou uma estratégia enganadora com um pretenso ataque ao arraial da praça-forte de Estômbar, o Mestre, conhecedor dos movimentos do exército muçulmano, levanta cerco a Paderne, engana Ibn Mahfuz, Rei de Niebla que vinha em socorro com um exército, ataca de surpresa a cidade de Silves que se encontrava desguarnecida e toma-a sem grandes esforços. A grande Shilb, cidade orgulhosa, opulenta e formosa, soberana em todo o território do Al-Faghar, cai por fim definitivamente no domínio das forças cristãs.

Com a ocupação destes últimos castelos consuma-se assim a conquista militar de todo o território do Algarve. As fronteiras de Portugal atingiam enfim o limite da sua extensão até ao oceano.

No entanto o reconhecimento desses limites por parte do Reino de Leão e Castela vai demorar ainda umas décadas1 e vão ser motivo de contendas entre os dois reinos2.  Com efeito estas décadas são marcados por profundos desacordos sobre o domínio do Algarve entre D. Afonso III de Portugal e Afonso X de Castela.

(1) Alexandre Herculano, História de Portugal, Liv.III
(2) Cronica de D. Alonso el Sabio, loc. Cit; Çurita, Anales, L, 3,c 48.


Conquista do Algarve pela coroa portuguesa – D. Afonso III de Portugal

Com a hoste real concentrada em Aljustrel, peonagem dos concelhos, cavaleiros prestameiros, de uma só lança, algumas mesnadas de ricos-homens com os seus cavaleiros e outros homens de armas conjuntamente com a cavalaria das Ordens de Santiago e Calatrava, parte Afonso III em marcha para oeste do Algarve com uma estratégia pessoal muito bem definida, com propósitos especiais muito pessoais tendo como objetivos o aumento das terras conquistadas e a preservação dos grandes centros populacionais, tendo em conta os meios já existente, como da sua população, vitais à economia dos recursos estratégicos dos territórios do Reino.

Afonso III inteligente e perspicaz precisava da incorporação das gentes e tinha uma necessidade absoluta de que as cidades conquistadas fossem incorporadas no Reino, intactas para que cumprissem os objetivos que ele próprio tinha delineado - aumento da riqueza do reino, e população suficiente para o povoamento e arroteamento desses territórios. Cidades conquistadas e destruídas, populações massacradas de nada lhe serviriam e seriam um sorvedor de despesas e homens para repor a normalidade.

A 9 de Março os mouros, colhidos de improviso pelo ataque, cedem sem combate à hoste real que foi conquistada de uma forma muito peculiar (1).

O cerco de Faro demorou alguns dias, e Paio Peres Grão-mestre da ordem de Santiago tencionava um choque brutal, tinha prometido aos seus homens de armas todo o saque da cidade, e dos seus tesouros, a violação das lindas donzelas, matar as gentes, inimigas da Fé de Cristo. Afonso III de Portugal era de todo contra esta violência e que punham em causa a sua própria estratégia e a sua pretensão pela salvaguarda da cidade e das suas gentes objetivos máximos para a boa administração do Reino. Neste interregno do cerco de Faro, Afonso III Portugal desaparece nada se sabendo do seu paradeiro. As tropas de cerco furiosas interrogam-se sobre o paradeiro do Rei de Portugal e temendo pela sua vida acolhem-se a uma das portas de Faro atacando-a, incendeiam-na com fogueiras e fazem os preparativos para o ataque à cidade. É neste momento que Afonso III surge numa das torres continua à porta com as chaves da cidade proclamando-a como sua, que havia efetuado um acordo em que todos podiam entrar na cidade mas que não se podia fazer mal a ninguém, que tinha ficado acordado que o tributo que era pago ao Rei de Marrocos seria pago a Portugal e que os nobres muçulmanos continuariam a ser nobres na corte de El-Rei D. Afonso III de Portugal. .

(1) José Hermano Saraiva. Extrato de documentário – A Alma e a Gente RTP 2003


A conquista definitiva do Reino dos Algarves pela coroa portuguesa

D. Afonso de Portugal

De dor e saudade, morrera aos 38 anos o invencível conquistador do Gharb, que, vítima dos desatinos do Pai (Afonso II), mais ainda o fora da sua irresolução e desacertos perante a crise orgânica do reino. Esta tibieza, porém, logo se desvanecia à testa dos seus homens de armas para acometer o infiel.

E, no que respeita à história da conquista do território do Reino só nele interessa o príncipe que, faz renascer a atividade militar povoadora da dinastia para acometer os inimigos da cristandade.

A morte de Sancho II, sem filhos legítimos, firmava definitivamente na cabeça do usurpador a coroa de Portugal. Afonso Duque de Bolonha personalidade mais preparado nas lides diplomatas, perspicaz e arguto com uma consciência plena das forças do reino, treinado nas crises europeias e conhecedor de inúmeros problemas da sua época tem plena consciência do estado calamitoso em que a guerra civil deixara o reino.

Afonso III, príncipe diplomata e grande administrador, atendeu com caracter urgente desde logo à conclusão da conquista do Algarve e acudir à tomada de Silves, Faro e Loulé entre outras praças por forma a honrar não só os compromissos de Paris, mas a mais urgente e importante a de se precaver à rapidez das conquistas do rei de Castela no sul da península que poderiam por em risco os territórios a sul da península Ibérica.

No início de 1249, no forte de Ourém concluiu-se os preparativos para a conquista militar do Algarve. Além dos homens de armas que por préstimos e soldos deviam servir o Rei (1) foram convocadas as tropas dos concelhos e a frota de galés de Lisboa. Os freires de Calatrava, em Avis e os espatários, no castelo de Aljustrel arsenal da Ordem tinham acumulado muitas armas, homens e cavalos. Os burgueses do Porto escusaram-se por dinheiro. Alguns hominizados, entre eles Gonçalo Peres Magro, comendador de Santiago e o próprio infante D. Pedro, tio do rei, acudiram à chamada.

(1) Alexandre Herculano, História de Portugal, Liv.v


A conquista dos Algarves pela coroa portuguesa

A última campanha de D.Sancho II

Com os cavaleiros de Santiago, Sancho II parte à conquista do litoral do Gharb acometendo a vila de Aljustrel sensivelmente a 20 léguas de Alcácer que é tomada aos mouros e doada de imediato aos espatários em recompensa dos altos serviços prestados por D. Paio Peres Correia mestre da Ordem. Em 1238 Sancho II saudoso já dos arraiais de guerra juntamente com os freires do Hospital seus fidelíssimos, convoca as suas tropas e avança para sul pelas ribas do Guadiana onde chega ao forte castelo de Mértola, tomando-o aos mouros e doando-o aos hospitalários que desde logo transferem para lá a casa capitular da ordem. Nesse mesmo ano, Sancho II chega ao mar e toma os castelos de Alfajar de Pena e Ayamonte alargando o domínio português para lá do guadiana até às margens do Odiel. O senhorio das novas terras doa à Ordem dos Hospitalários que ficam com o encargo de as defenderem.
No ano seguinte, Sancho II de volta às lides de guerra avança sobre Cacela e Tavira que conquista.

Assim se vai cerrando a oeste um férreo círculo de castelos em torno dos fortes castelos de Faro e Silves que por terra se achavam já cercados e isolados da Andaluzia pouco faltando para a inteira posse do Algarve.

Sancho II já planeava para o ano seguinte coroar a sua carreira militar com a conquista e posse definitiva do extremo ocidental da península propondo-se acometer sobre Silves, Faro e Loulé simultaneamente por mar com a sua frota de galés e por terra com todas as guarnições dos castelos e com as suas mesnadas e tropas reais, mas tal empresa não viria a acontecer;
Sancho II um brilhante guerreiro tinha descurado as coisas do reino, a governação do território, o exercício da justiça do reino, o desamparo dos municípios, o poder descontrolado dos nobres, uma igreja dividida e discricionária, pusera em causa toda a sua legitimidade e toda a sua autoridade pondo em dúvida a sua própria pessoa, a sua própria autoridade como Rei. O usurpador, seu irmão Afonso, Duque de Bolonha que há muito conspirava com as forças do reino a tomada do poder ia negociando com as diversas forças a sua subida ao trono.

O reino estava exausto, repartido por ódios entre nobreza e clero, o povo injustiçado pelos desmandos de toda a ordem, a anarquia militar, as deploráveis contendas da nobreza que não respeitava nem as ordens reais, nem isenções da igreja, nem os foros municipais vão ter por consequência a guerra civil e, por fim, a deposição de Sancho II que procura o seu desterro em Toledo onde acaba por falecer, protelando-se assim a conquista do Algarve, para o reinado de seu irmão, o futuro rei Afonso III de Portugal que lhe sucede.


As Campanhas de D. Sancho II

Em 1226, de acordo com o rei leonês, prepara-se a primeira expedição. Na primavera marchou D. Sancho II sobre Elvas, com a hoste real, comandada pelo alferes-mor Martim Anes e pelo arcebispo de Braga, assolava-se os campos em volta, enquanto os leoneses atacavam Badajoz, os capitães de Sancho punham cerco em Elvas.

Acometendo pessoalmente as muralhas, o moço rei revelou-se aí esforçado e bravo até à temeridade. Em certo assalto, esteve mesmo em grave perigo de vida, tendo-o salvado outro valente cavaleiro, Afonso Mendes Sarracines, que para lhe valer se arremessou aos fossos da praça. A vila caiu por fim em poder dos portugueses, mas como se aproximasse o inverno e os leoneses tivessem abandonado a empresa de Badajoz, o exército de D. Sancho II, desprotegido de flanco teve de abandonar também Elvas, depois de a desmantelar.

Na primavera de 1230, Sancho aproveitando a nova investida de Leão e Castela contra os mouros, e sem mesmo esperar pelas mesnadas dos barões do norte, avança em marcha com os seus homens de armas sobre o Alentejo, para ganhar tempo. Mas os mouros, que tinham voltado a habitar Elvas, ao saberem do avanço da hoste portuguesa, abandonaram logo, sem combate, não só Elvas como Juromenha.

No mesmo dia que Mérida caía em poder dos leoneses, Elvas e Juromenha eram ocupadas pelas tropas de Sancho II. A fronteira do sul corria, enfim, pelo Guadiana até Juromenha e, infletindo por Évora e Alcácer até o sado, numa linha regular e continua que desde Sancho I se desejara estabelecer. No fim do ano, D. Sancho II, infatigável, juntava em Elvas novas tropas para a campanha do ano seguinte, quando a morte de Afonso IX de Leão, pelas sérias consequências que acarretava à política do reino, o forçou a abandonar o seu arraial de guerra e adiar a campanha para ocasião melhor.

Em 1232, D. Sancho II, à testa da sua hoste e dos bons freires da ordem dos hospitalários, atravessa o guadiana e marcha sobre Moura e Serpa. Ajudado pelos freires, ataca Moura, que ao fim de breve cerco lhe abriu as portas. Pouco depois, mais ao sul, a vila de Serpa rende-se-lhe também. A defesa das duas praças foi confiada aos hospitalários, que, nesse mesmo ano, por doação real, fundam os castelos do Crato e Castelo de Vide, para guarda da fronteira sul, e base de operações em futuras campanhas. Nos anos seguintes (1234-1235), apesar das intrigas, do mal-estar geral do reino, da hostilidade do clero, da crise latente, D. Sancho II vai continuar gloriosamente a guerra, desta vez associando-se aos cavaleiros de Santiago.

(continua no próximo número)


O Reino dos Algarves na perspetiva árabe

O distrito de Chenchir ou Al-Faghar, assim os árabes denominavam o nosso moderno Algarve, era um jardim estendido sobre a costa, e apoiado contra um muro de serras que o defendem dos ventos do norte. A guerra não conseguira mirrá-lo, como sucedeu à costa fronteira da Berbéria, retalho de África, cindido pelo mar. No Algarve tinham os árabes achado um pedaço da sua pátria, o clima, a fauna e a flora não eram bem europeus e quem, nos fins do século XII, visitasse Chelb (Silves) dir-se-ia transportado a uma cidade oriental.

De entre as várias raças que tinham chegado à Península, foram os árabes do Iémen, que particularmente a povoaram. Chelb ao sul e Hayrun (Faro) mais ao norte, eram as duas cidades principais do Al-Faghar, mas a primeira suplantava em muito a segunda. Contava cerca de trinta mil habitantes, era próspera, opulenta em tesouros e formosa em construções. Davam-lhe a primazia entre as urbes da Espanha árabe. Vestida de palácios coroados pelos terraços de mármore, cortada de ruas com bazares recheados de preciosidades orientais, rodeada de pomares viçosos e jardins, Chelb era a pérola de Chenchir, onde os pródigos da Mauritânia vinham gozar com as mulheres formosas, os seus ócios luxuosos. Era, no entanto, um território onde as praças eram temivelmente fortificadas garantindo assim uma formidável defesa às suas populações.

(No próximo número: Campanhas de D. Sancho II)