António Marçal Grilo

Estórias da História

António Marçal Grilo

O Reino dos Algarves na perspetiva árabe

O distrito de Chenchir ou Al-Faghar, assim os árabes denominavam o nosso moderno Algarve, era um jardim estendido sobre a costa, e apoiado contra um muro de serras que o defendem dos ventos do norte. A guerra não conseguira mirrá-lo, como sucedeu à costa fronteira da Berbéria, retalho de África, cindido pelo mar. No Algarve tinham os árabes achado um pedaço da sua pátria, o clima, a fauna e a flora não eram bem europeus e quem, nos fins do século XII, visitasse Chelb (Silves) dir-se-ia transportado a uma cidade oriental.

De entre as várias raças que tinham chegado à Península, foram os árabes do Iémen, que particularmente a povoaram. Chelb ao sul e Hayrun (Faro) mais ao norte, eram as duas cidades principais do Al-Faghar, mas a primeira suplantava em muito a segunda. Contava cerca de trinta mil habitantes, era próspera, opulenta em tesouros e formosa em construções. Davam-lhe a primazia entre as urbes da Espanha árabe. Vestida de palácios coroados pelos terraços de mármore, cortada de ruas com bazares recheados de preciosidades orientais, rodeada de pomares viçosos e jardins, Chelb era a pérola de Chenchir, onde os pródigos da Mauritânia vinham gozar com as mulheres formosas, os seus ócios luxuosos. Era, no entanto, um território onde as praças eram temivelmente fortificadas garantindo assim uma formidável defesa às suas populações.

(No próximo número: Campanhas de Sancho II)