Carla Marçal Grilo

Asclépio

Carla Marçal Grilo

Parou-nos a boneca!

As alterações de saúde mental são consideradas as doenças sociais mais inquietantes da atualidade, tanto pelo aumento de morbilidade como por afetarem de forma aguda a tranquilidade, o bem-estar e o equilíbrio da vida familiar e da comunidade.

Segundo a OMS (2002), a saúde mental é “o estado de bem-estar no qual o indivíduo realiza as suas capacidades, pode fazer face ao stress normal da vida, trabalhar de forma produtiva e frutífera e contribuir para a comunidade em que se insere”.

O sentimento de bem-estar é diferente e subjetivo de indivíduo para indivíduo, dependendo do contexto económico, social, cultural e político em que se insere.

A saúde mental é fundamental para o bem-estar do indivíduo e é inseparável da sua saúde física, sendo necessário encontrar uma saudável harmonia entre a mente, o corpo, os comportamentos e as relações.

A evidência científica aponta para um impacto na saúde mental de 25% do total de população afetada pela pandemia num futuro a longo-prazo, principalmente em crianças e jovens, que colocam em perigo a sua sociabilização geracional. A sala de aula contribui para a igualdade e socialização, para que crianças e jovens escapem um pouco a meios familiares mais desfavorecidos. Quantas crianças e jovens não estão a sofrer de solidão, tédio, violência doméstica e fome?

O isolamento é importante para proteger a saúde física, impedindo o contágio de um vírus, mas quanto mais tempo estivermos isolados maiores serão os riscos de doenças psiquiátricas. O confinamento pode ter originado sintomas psicopatológicos (depressão, ansiedade, medo, irritabilidade, insónia, entre outras) em indivíduos com condições mais vulneráveis. As condições económicas decorrentes da pandemia, nomeadamente o risco de desemprego está associado a um agravamento da saúde mental da população e ao aumento de stress pós-traumático. Devido às medidas preventivas de saúde pública, muitos familiares e amigos ficaram privados dos abraços, dos afetos, da socialização. Até no luto se viram privados da despedida do seu ente querido.

Fechados numa bolha auto-suficiente, em que tudo o que está para além da porta das nossas casas não tem relevância!

Cidades, vidas e economias estão suspensas!

Parou-nos a boneca!

O medo é paralisante. É preciso acabar com o discurso do medo. A incerteza e o medo estão a minar a saúde mental dos indivíduos e as suas relações interpessoais.

Qual será o verdadeiro impacto da pandemia na saúde mental e os seus efeitos colaterais? A nível anatómico cerebral, como serão afetadas as áreas de associação pré-frontal, parieto-temporal ou límbica? Estaremos a caminhar pelo desconhecido, sem bússola?

É muito importante cuidar da saúde físico-mental, porque estão intrinsecamente ligadas. 

A vida é a maior empresa do mundo. Só você pode evitar que ela vá à falência.