Daniela Graça

Espelho Cinemático

Daniela Graça

“Mãe e filha. Que mistura terrível de sentimentos, confusão e destruição”: Sonata de Outono

Sonata de Outono (título original: Höstsonaten) é um filme sueco de 1978 realizado e escrito por Ingmar Bergman, um dos autores mais importantes do cinema europeu e um dos grandes mestres da Sétima Arte.

O filme é um drama que se foca em duas personagens femininas e na sua relação de mãe-filha. Charlotte Andergast, uma pianista bem-sucedida, depois de perder o companheiro Leonardo, reencontra-se pela primeira vez em sete anos com a filha, Eva, quando esta lhe escreve a pedir que a visite durante alguns dias. Eva está casada com um clérigo e vive numa pequena cidade. As duas mulheres têm uma relação complicada que se torna ainda mais tensa quando Charlotte descobre que a sua outra filha Helena, que sofre de uma doença terminal que a deixou paralisada e incapaz de falar, foi retirada da instituição e vive agora com Eva. O reencontro desencadeia um confronto entre Charlotte e Eva.

Ingmar Bergman disseca a relação entre as duas personagens ao abrir feridas do passado e expô-las pela primeira vez numa discussão longa e dolorosa. Charlotte desprezou o papel de mãe para se focar na carreira de pianista e Eva cresceu sem conhecer carinho, conhecendo apenas o controlo em forma de críticas da mãe, o que incutiu na jovem um sentimento de fraqueza e impotência desde cedo, e Eva despreza a mãe por não conseguir lidar com a situação de Helena.  Ambas são marcadas pela falta de afeto e pelo desejo do mesmo, a herdança de mãe para filha é a dor.

O passado condiciona o presente de Eva e Charlotte desde os seus relacionamentos às suas personalidades. Em Sonata de Outono, os planos gerais são compostos como quadros clássicos e a iluminação é pálida o que confere uma sensação de longinquidade e alienação. Estes planos são sempre usados quando Eva recorda o passado, a captação pitoresca ressalta como o passado aprisiona, mas ao mesmo tempo é intocável, como um sonho distante.  Quando estes planos são usados no presente é como se as personagens, por vezes, desvanecessem no meio em que se encontram.

Sonata de Outono é um escrutínio angustiante da relação repleta de incongruências de amor e ódio, desejo e repúdio que existe entre Eva e Charlotte. A forma como ambas são capturadas é quase cruel, Ingmar Bergman não nos permite desviar o olhar da fealdade que decorre ao usar grandes planos fechados, com a câmara a centímetros das faces das atrizes, durante os momentos de confronto, em que a raiva outrora adormecida explode.

A intensidade e honestidade emocional de Sonata de Outono recai não só na direção precisa de Ingmar Bergman, mas também nas atuações das conceituadas atrizes Liv Ullmann e Ingrid Bergman nos papeis de Eva e Charlotte, respetivamente.

Tal como o título indica, o filme é pautado por uma banda sonora exemplar, escolhida a dedo para as tonalidades emocionais certas, composta por peças de Händel, Chopin e Bach.

Sonata de Outono termina com um retorno ao início, com Eva a escrever uma carta para a mãe após esta partir abruptamente depois de terminarem a discussão, e num tom ambivalente, marcado por esperança e desilusão, nascido do confronto que era há muito necessário nesta relação conflituosa entre mãe e filha.


“Eu sou grande! Os filmes é que ficaram pequenos”: Sunset Boulevard

“Sunset Boulevard”, cujo título em português é “O Crepúsculo dos Deuses “, é um filme de 1950 da autoria do realizador Billy Wilder, é um dos grandes clássicos do cinema americano e uma das obras fílmicas noir mais aclamadas. “Sunset Boulevard” é uma reflexão sobre a indústria do cinema, a sede pela fama e a incapacidade de encarar a realidade, no fundo, o filme é um pesadelo hollywoodesco.

Um grande filme é o culminar de vários fatores e decisões artísticas, mas a história é a essência da obra. “Sunset Boulevard” foi escrito por Billy Wilder, Charles Brackett e D.M Marshman Jr. e é considerado por muitos uma das melhores narrativas que nasceu de Hollywood, é uma história inesquecível com diálogo cortante. O filme é sobre a relação perigosa que se desenvolve entre o argumentista fracassado e endividado Joe Gillis e Norma Desmond, uma estrela do cinema mudo que caiu no esquecimento e na ilusão de magnificência.

“Sunset Boulevard” é marcado por um tom sombrio e fatalista, inicia-se com o assassínio de Joe Gillis e é narrado pelo mesmo, que retrocede no tempo para mostrar como chegou àquele fim. É uma reflexão sobre a indústria implacável de Hollywood e sobre todos os que a compõe desde os argumentistas aos atores, dos fãs aos jornalistas, e uma critica ao Star System, ao processo criativo e ao estado da indústria.

É um comentário ao papel do argumentista, que é muitas vezes esquecido pela audiência, e que se tem de submeter ao modelo dos estúdios que procuram apenas o lucro, prescindindo assim da originalidade e liberdade artística. Joe Gillis é um homem cínico e procura apenas sobreviver através da sua escrita, no entanto, ele muda quando conhece a jovem Betty Schaefer, uma aspirante a argumentista cheia de paixão que se foca na mensagem e honestidade necessária para criar uma boa história e não nas exigências dos estúdios. Betty e Joe são duas faces da mesma moeda, são as duas fases dos argumentistas face à máquina de Hollywood.

“Sunset Boulevard” é uma obra que mostra o lado negro da fama e como esta destrói artistas. Norma Desmond foi esquecida pelo mundo e vive sozinha na sua grande mansão, repleta de fotos de quando era jovem e outros artefactos dos seus tempos de glória, acompanhada apenas pelo seu mordomo Max, que é posteriormente revelado ser o realizador que a tornou famosa. Esta é uma mulher de meia-idade presa ao passado e incapaz de enfrentar o presente, obcecada com preservar a sua beleza e reprimir o envelhecimento, é uma megalomaníaca consumida por ilusões de grandeza que acredita no seu regresso ao grande ecrã, algo que nunca irá acontecer. Norma Desmond é interpretada por Gloria Swanson, que foi uma grande estrela do cinema mudo e regressou ao grande ecrã para este papel. A interpretação de Swanson é imbatível e solidificou Norma Desmond como uma personagem icónica, a sua expressividade facial e corporal e a loucura no seu olhar são assombrosas, são características únicas pertencentes a uma verdadeira estrela do cinema mudo.

Para além de Swanson o elenco é também composto por figuras do cinema mudo como o realizador Cecil B. DeMille que se interpreta a si mesmo no filme, Erich von Stroheim que interpreta o mordomo Max e H.B Warner, Buster Keaton e Anna Q. Nilsson que fazem aparições como os velhos contemporâneos da Norma Desmond. Os atores William Holden e Nancy Olson que interpretam Joe Gills e Betty Schaefer respetivamente têm desempenhos naturais que são perfeitos em oposição aos maneirismos dramáticos de Norma Desmond.

A cinematografia convenciona o tom sombrio da narrativa enquanto simultaneamente captura a riqueza e ostentação ofuscante a que Norma Desmond desesperadamente se agarra.

“Sunset Boulevard” é um filme sobre os artistas no grande ecrã e atrás das câmaras. É um olhar cru e critico sobre a indústria de Hollywood que engole e cospe pessoas, descartando-as. É um filme que nos compele do início ao fim, e que tem uma das sequências finais mais fortes do cinema com Norma Demonds a ser devorada pela loucura e pela ilusão de fama que fabricou, ela vive apenas para a glória das câmaras. “Sunset Boulevard” obriga a encarar a realidade e relembra que o motor para fazer cinema deve ser a devoção à arte de criar boas histórias e não à fama.


O triunfo técnico e artístico de “1917”

O épico de guerra “1917” do realizador Sam Mendes foi inspirado pelas histórias da Primeira Guerra Mundial que o avô lhe contara. O filme tem sido criticamente aclamado. Mendes foi eleito melhor realizador nos prémios do Sindicato de Realizadores de Hollywood e “1917” é um dos grandes concorrentes dos Óscares com 10 nomeações, incluindo Melhor Filme e Melhor Realizador.

“1917” conta a história de dois soldados britânicos, o cabo Blake (Dean-Charles Chapman) e cabo Schofield (George MacKay), encarregados com a missão aparentemente impossível de atravessar território inimigo para transmitir uma mensagem que irá parar a investida de um batalhão de 1600 soldados britânicos, entre os quais se encontra o irmão de Blake, e salvá-los de cair numa armadilha mortífera alemã.

É um enredo convencional: missão suicida e contrarrelógio. Mas o que distingue e eleva “1917” é a mestria técnica alcançada através da direção arrojada de Sam Mendes e da visão de Roger Deakins, considerado um dos melhores diretores de fotografia da atualidade. O filme foi rigorosamente arquitetado de forma a dar a ilusão de ter sido filmado em dois planos-sequência, o único corte no filme acontece quando um dos soldados fica inconsciente, desta forma a audiência acompanha a história em tempo real e tal como os protagonistas não tem tempo para processar e parar devido à natureza da guerra, o que intensifica a ação. Este feito é uma tarefa árdua que requere planeamento, precisão e organização de todas as partes envolvidas durante todo o processo de gravação e montagem.

O triunfo artístico e técnico de “1917” não só é impressionante como é também fundamental para a cimentação do filme como uma experiência imersiva, na qual o espetador é forçado a confrontar a realidade bélica. A audiência acompanha os protagonistas, segue-os no seu encalço e coloca-se nos seus lugares, ao atravessar as trincheiras, frias e inóspitas, lotadas de homens desgastados, feridos e cadáveres; ao vivenciar a horripilante Terra de Ninguém, a quietude e beleza dos campos de França e a destruição de vilas e casas.

“1917” começa e termina com um plano de um campo cheio de flores, uma visão serena que contrasta severamente com a carnificina da guerra. O filme explora de uma forma intimista a jornada física, mental e emocional destes jovens, expondo a desolação sentida, a ânsia por sobreviver, o desespero por suceder, a dor das mortes de companheiros, mas também o confronto encontrado na camaradagem e nas piadas, histórias e canções saudosas sobre casa.

A cinematografia de Deakins captura tanto a beleza campestre como o terror e frenesim da guerra de uma forma assombrosa, recorta silhuetas com paisagens e luz criando imagens inesquecíveis. “1917” é uma proeza visual que é fortificada pela trilha sonora exemplar composta por Thomas Newman, pelo elenco constituído por talentos como Colin Firth, Mark Strong, Benedict Cumberbatch, Andrew Scott e Richard Madden (que têm participações curtas no ecrã, mas marcantes) e pelos dois atores principais, George MacKay e Dean-Charles Chapman, que se destacam com os desempenhos naturais, convincentes e emotivos.

É pela mestria técnica e a audácia artística que “1917” se consagra como um dos grandes épicos de guerra, é uma obra imersiva sobre o inferno travado por entre lama, balas e cadáveres. “1917” reflete sobre a magnitude das perdas e a inutilidade da guerra e recorda os valores, os atos e os homens, porque guerras não são ganhas por massas anónimas, mas sim pelo esforço coletivo e contínuo de homens que carregam muito mais do que as suas mochilas e armas às costas.


“Une femme est une femme” em memória a Anna Karina

A atriz Anna Karina faleceu a 14 de dezembro de 2019 aos 79 anos. Anna é um ícone do cinema e o seu falecimento é uma enorme perda para o mundo da Sétima Arte.

Anna nasceu na Dinamarca e emigrou para Paris aos 17 anos. Para além de uma carreira extensa enquanto atriz foi também modelo, realizadora, cantora e escritora. Mas é no cinema, e ao lado do realizador francês Jean-Luc Godard, que criou o seu maior legado e os filmes pelos quais mais se destaca. Anna, uma atriz de talento inegável, é considerada por muitos a cara que representa a Nouvelle Vague. Foi a musa de Godard e sua esposa entre 1961 e 1967. Protagonizou vários filmes do cineasta como “Le Petit Soldat“, “Une femme est une femme”, “Vivre sa Vie”, “Pierrot le Fou”, “Alphaville” e “Bande à Part”.

A atriz maravilhou audiências com o seu charme e beleza representado várias personagens inesquecíveis, cada uma com as suas idiossincrasias, e através das quais brilhou ao explorar uma amálgama de nuances como sentimentalidade, timidez, jovialidade, melancolia, impertinência, um sentido de humor irresistível, entre tantas outras mais. 

A Anna Karina era carismática, elétrica e hipnotizante, e penso que a maioria dos espectadores nunca se esquece da primeira vez que a vê atuar, o que foi o meu caso e a razão por querer refletir sobre “Une femme est une femme”, o primeiro filme em que a conheci e uma obra que revisitei muitas vezes.

“Une femme est une femme” traduzido para português significa “Uma mulher é uma mulher”. O filme estreou em 1961 e é a segunda colaboração de Anna Karina com Godard, sendo, no entanto, a primeira a estrear devido à censura imposta em “Le Petit Soldat”. O Festival Internacional de Cinema de Berlim premiou a obra com o Prémio Especial do Júri e Anna Karina com o Prémio de Melhor Atriz por demonstrar qualidades raras numa atriz que tinha acabado de iniciar a carreira.

“Une femme est une femme” é um filme de comédia, drama, romance e um musical. É uma obra marcante da Nouvelle Vague e uma das grandes obras-primas de Godard. É um filme inovador e criativo que continua a ser uma lufada de ar fresco décadas depois, cimentando-se como único e irreverente.

O enredo do filme é bastante simples: Angela (Anna Karina), uma dançarina de cabaret, deseja desesperadamente ter um filho com o seu namorado Émile (Jean-Claude Brialy), mas este é relutante à ideia e para alcançar o seu sonho seduz o amigo Alfred (Jean-Paul Belmondo), que está apaixonado por ela, provocando ciúmes em Émile. O triângulo amoroso questiona, ao longo da ação, se o que estão a viver é uma comédia ou uma tragédia, questionando o amor e a relação complexa entre homem e mulher.

É um filme vibrante em forma e conteúdo, que se destaca por ser o culminar de vários talentos sob a visão arrojada e visionária de Godard. As trocas de diálogo são inteligentes, repletas de humor e atrevidas sendo acompanhadas por uma banda sonora que exalta o cariz bizarro das discussões. No entanto, a banda sonora tem uma particularidade muito singular já que é marcada pela dissonância: começa e termina abruptamente, e em momentos que esperamos ouvir som há apenas o silêncio, como por exemplo, na atuação da Angela no cabaret que quando começa a cantar a música desaparece restando apenas a sua voz. O filme é uma homenagem aos musicais clássicos e simultaneamente quebra as regras convencionais dos mesmos.

Nesta carta de amor ao cinema, Godard desafia convenção atrás de convenção criando assim o seu estilo único e experimental, fazendo meta-referências a filmes da sua autoria e referências a outras obras e figuras do cinema; as personagens estão conscientes da presença do espetador e quebram constantemente a quarta parede ao olharem para a câmara, dirigindo-se e falando diretamente com a audiência. É um filme deslumbrante com uma mise-en-scène harmoniosa que nos revela imenso sobre quem as personagens são e o desempenho do trio de atores é exemplar e fascinante.  A cinematografia de Raoul Coutard captura toda a vivacidade das cores ricas que sobressaem no grande ecrã, das personagens, e da Paris dos anos 60.

“Une femme est une femme” mantém-nos agarrados ao ecrã desde da sequência de introdução até ao fim do filme, com Angela a dirigir-se à audiência e piscar-nos o olho uma última vez, depois de retorquir ao namorado “Je ne suis pas infâme, je suis une femme” (não sou infame, sou uma mulher), que para além de ser um trocadilho inteligente, é também relevante, já que a grande questão do filme é a mulher e a beleza, confusão, impertinência e desejos que a caracterizam.

Anna Karina desempenha em “Une femme est une femme” uma das melhores atuações da sua carreira e é um dos elementos-chave para a excelência e magia deste filme. Angela é uma personagem cheia de conflitos internos encarnada com leveza, ternura e tremenda beleza por Anna. Os maneirismos, olhares, expressões e hábitos com que compõe a personagem permanecem connosco, resultando numa atuação apaixonante e memorável.

Com o seu charme a talento, Anna Karina encantou o público e marcou o grande ecrã durante anos e em troca o Cinema cristalizou-a no tempo e imortalizou-a. Obrigada, Anna, e até sempre!

“Eu soube que tu pintavas casas”: O Irlandês

O novo filme de Martin Scorsese estreou na plataforma Netflix a 27 de novembro. “O Irlandês” irá estar no grande ecrã apenas num pequeno número de cinemas pelo mundo e Portugal não faz parte dessa seleção.

Scorsese volta à ação com um filme sobre mafiosos, um género pelo qual se distinguiu, e com caras que estamos habituados a ver em filmes da sua autoria: Robert De Niro e Joe Pesci. A estes grandes atores junta-se Al Pacino, de igual calibre, que colabora pela primeira vez com o realizador.

À semelhança de “Tudo Bons Rapazes” e “Casino” a nova obra de Scorsese tem toda a ação, violência e sangue característicos dos seus filmes sobre gangsters, mas há um novo elemento na sua equação, um componente que tinge e modifica o sentimento presente ao longo do filme e que o diferencia: este é um filme reflexivo, este é um filme que confronta a fealdade e finalidade da morte.

A obra cinematográfica inicia-se com Frank Sheeran (De Niro), velho e débil, encarcerado a uma cadeira de rodas num lar, onde conta-nos a sua vida em retrospetiva e como passou de um simples condutor de camiões a “pintor de casas”, código para quem assassina a ordens da máfia. Sheeran, o Irlandês, narra a sua história a partir da década de 50 quando conhece o mafioso Russel Bufalino (Joe Pesci), que o graceja com a sua confiança e orientação, e que mais tarde, o põe a trabalhar para o presidente da maior união sindical dos Estado Unidos, Jimmy Hoffa (Al Pacino). Estes três homens desenvolvem laços estreitos de amizade e respeitam-se mutuamente.

Mas o mundo da máfia é implacável e toda a ação tem uma reação. Quando Hoffa se insubordina contra os desejos da máfia ele tem de ser eliminado e essa tarefa cabe a Sheeran. Russ e Sheeran tentam desesperadamente salvar Hoffa, fazê-lo entender que tem de mudar os seus comportamentos, mas o velho sindicalista recusa-se a ouvir e inevitavelmente sofre as consequências.

Em “O Irlandês” o glamour e ostentação da máfia não domina o ecrã, mas sim a melancolia, o peso das ações. É uma história densamente ligada a noções de amizade e família, lealdade e traição que são subjugadas ao mundo do crime organizado. Hoffa desaparece e é esquecido pelo mundo, os mafiosos são presos (por razões nunca ligadas ao desaparecimento de Hoffa) e morrem na prisão com a exceção de Sheeran. Ao contrário dos protagonistas em “Tudo Bons Rapazes” e “Casino”, Frank Sheeran não tem direito a um recomeço, não tem um final remotamente positivo. É castigado pela idade, repudiado pela sua família, abandonado à solidão e aos seus pecados, resta-lhe apenas as suas memórias, o conforto da religião e o caixão verde que o aguarda.

“O Irlandês” é o filme mais contemplativo de Scorsese, é o produto do estilo característico do realizador conjugado com a reflexão que advém da velha idade. As sequências elétricas, os movimentos de câmara deslizantes, a trilha sonora exemplar e a cativante narração do protagonista estão agora embutidas de uma sensação funesta que paira durante toda a duração do filme e se intensifica no final. Com uma duração de 3h30mins o filme salta entre linhas temporais, avança e recua na história, a um ritmo contido e narrado por um mafioso vergado pela velhice. Para além da direção sublime com que Scorsese orquestra o filme também o desempenho dos atores deve ser louvado, principalmente o Joe Pesci que maravilha ao encarnar um mafioso racional e ponderativo, em oposição aos seus outros papéis de mafiosos que fervem em pouca água. A nova entrada para a filmografia de Scorsese é um grande filme, a única falha apontável é que apesar do CGI conseguir rejuvenescer as caras do trio principal de atores as suas capacidades motoras não podem ser modificadas, e isto é notável quando Sheeran pontapeia o merceeiro lentamente e sem força.

“O Irlandês” é dotado de um sensibilismo que deixa o seu traço em cada momento. É um filme que se despede com um plano inesquecível que ecoa dentro do espetador: o corredor escuro e a porta entreaberta para o quarto de Sheeran com este sozinho e no silêncio, deixado apenas com as represálias das suas ações e a sua consciência, à espera da inevitável morte e o consequente esquecimento.


Família e Sonhos em “Little Miss Sunshine”

“Little Miss Sunshine”, cujo título em português é “Uma Família à Beira de um Ataque de Nervos”, é um filme de comédia e drama realizado por Jonathan Dayton e Valerie Faris em 2006. É sobre uma família disfuncional determinada a atravessar o país até à Califórnia, numa velha carrinha Volkswagen, para levar a sua filha Olive às finais de um concurso de beleza infantil.

O filme apresenta-nos assim uma família peculiar e caótica com membros muito individualistas, cada um com os seus sonhos, problemas, temperamentos e filosofias. Olive, a filha de sete anos, quer participar no concurso “Little Miss Sunshine”; Dwayne, o filho adolescente, fez um voto de silêncio para pilotar na “U.S Air Force”; Richard, o pai, desesperadamente tenta que o seu negócio tenha sucesso; Sheryl, a mãe, é sobrecarregada com stress; Frank, o tio, é um ex-professor universitário suicida e Edwin, o avô, é viciado em heroína.

Os pontos fortes de “Little Miss Sunshine” são o guião (pelo qual Michael Arndt ganhou o Óscar de Melhor Argumento) e o elenco composto inteiramente por atores excecionalmente talentosos (Greg Kinnear, Toni Collette, Steve Carell, Paul Dano, Abigail Breslin e Alan Arkin, tendo os dois últimos sido nomeados a Óscares que Arkin venceu) que criaram um retrato memorável de uma família com laços frágeis à beira da bancarrota. O enredo desenvolve-se como uma montanha-russa alternando entre os altos e os baixos a um ritmo aliciante. O desenlace da história e as várias dinâmicas entre os membros da família tanto suscitam risos com situações descabidamente bizarras e cómicas, momentos reconfortantes ou situações excruciantes de tristeza. É um filme cativante desde o início ao fim, com uma banda sonora que exalta a miscelânea de sentimentos eufóricos e disfóricos e uma cinematografia que captura coloridamente a excentricidade desta família.

Os desejos que guiam cada indivíduo, para além da dinâmica da família, são o tema central de “Little Miss Sunshine”. Existe uma grande luta dicotómica (Ganhar Vs. Perder) presente vincadamente no Richard (pai) que defende que “só existem dois tipos de pessoas neste mundo, perdedores ou vencedores”, que todos os que não são vencedores são falhados e desistiram de si próprios. Richard age, e citando o próprio Michael Arndt, como o “antagonista filosófico” do enredo e o filme desconstrói a filosofia que ele defende, a vida não é um concurso e não se resume a perder ou ganhar.

O filme afirma verdades difíceis de aceitar, apesar de todo o esforço nem todos os objetivos são concretizáveis. Todas as personagens são confrontadas com as suas limitações e com a dor e frustração de ver os sonhos a desmoronarem-se, e subsequente, é desencadeado transformações internas e a aceitação da realidade. No entanto, o que realmente importa não é ganhar, mas sim tentar e continuar em frente, encontrar felicidade mantendo-nos fiéis a nós próprios independentemente das expectativas da sociedade. Estas ideias são expostas no clímax do filme em que todos os membros da família apoiam Olive, que está a ser ridicularizada no concurso por não se enquadrar no “padrão” e por ser ela própria, ao juntarem-se todos no palco a dançar gerando caos no evento. Olive não ganha o concurso, mas termina a experiência feliz e com o apoio da sua família.

Esta é uma história de uma família que fortifica os seus laços outrora quase quebrados numa viagem tumultuosa, entendendo-se agora mutuamente e a si mesmos. A velha carrinha Volkswagen amarela que tem vários problemas mecânicos e só pega se for empurrada por todos os membros é uma analogia para o funcionamento da família, encontramos catarse ao vê-los a trabalhar em conjunto e seguir caminho apesar dos sofrimentos pessoais.

É um filme energético, engraçado e melancólico, é uma amálgama de sentimentos que resulta num dos filmes de “roadtrips” mais memoráveis de sempre. “Little Miss Sunshine” é agridoce, mas reconfortante.

(2019-10-28)


“A vida é curta”: Ikiru (1952)
Daniela Graça

Ikiru é um filme japonês de 1952 de Akira Kurosawa - um dos grandes mestres do cinema - e é uma das suas obras mais aclamadas.
O filme tem uma premissa simples, porém pesada: o Sr. Kanji Watanabe é diagnosticado com cancro no estômago e é forçado a questionar o significado da sua existência nos últimos dias que lhe restam.
Esta é a história de um homem ordinário que durante a maior parte da sua vida existiu como um defunto. É a certeza iminente da morte que abre os olhos a Watanabe e à insignificância e dormência que ditou a sua vida.  Foi engolido pela máquina burocrática, onde durante 30 anos se dedicou ao seu trabalho e, no entanto, ao olhar para trás, apercebe-se agora que não alcançou coisa nenhuma. As suas relações pessoais são quase inexistentes, não tem amigos e o seu próprio filho é quase como um estranho.
Watanabe, atormentado por medo, desespero e confusão, embarca numa viagem com tempo limite em que questiona o seu propósito. As interações com um escritor desconhecido e uma colega de trabalho peculiar mostram-lhe facetas da vida que durante anos desconheceu. Watanabe quer sentir-se vivo antes de morrer, e num momento de clareza, decide que tem de fazer algo verdadeiramente útil no seu trabalho. Domado por persistência e vontade, dedica o resto do seu pouco tempo a construir um parque infantil na sua comunidade.
O guião co-escrito por Akira Kurosawa, Shinobu Hashimoto e Hideo Onugi é minuciosamente ponderado e origina um dos estudos de carácter humano mais hipnotizantes e cortantes presentes na Sétima Arte. A inevitabilidade da sua morte dentro de um período de meses desperta uma introspeção angustiante, crua e nua, da sua vida, que por sua vez origina uma metamorfose necessária para alcançar expiação e paz. Watanabe aceita a sua morte em paz, cantando a sua canção favorita “A vida é curta/ Apaixonem-se, donzelas”, no baloiço do parque que construiu enquanto neva. A noite é fria, mas o seu coração está quente e cheio, porque encontrou o seu propósito e levou-o ao fim, finalmente sentiu-se vivo.
É um filme inesquecível pela sua narrativa e pelo desempenho de Takashi Shimura, que interpretou a transformação do velho moribundo. Shimura desempenhou um papel cheio de nuances, explorando o conflito interno e construiu detalhadamente a personagem desde os maneirismos à postura, mas foram os olhos de Watanabe que mais marcaram, falaram mais alto que palavras. A cinematografia a preto e branco reflete a velocidade de Tóquio em crescimento e simultaneamente a melancolia do protagonista.
Ikiru é uma critica à burocracia, um retrato de Tóquio no pós-guerra, e é acima de tudo, um filme sobre a condição humana. Watanabe é uma das personagens mais empáticas e inspiradoras do cinema. Independentemente da idade ou da nacionalidade do espectador é uma obra comovente porque é um filme humanista. O mundo está cheio de Watanabes por despertar e este filme levanta uma grande questão “Estás mesmo a viver? O que é que te vai acordar para a vida?”. O filme obriga-nos a refletir a nossa existência.
Ikiru significa Viver e é incrivelmente triste, e incrivelmente belo, este é um sobre filme o espírito humano.

(2019-09-28)


"Variações"
Daniela Graça

“Variações” foi o filme português mais esperado do ano e finalmente estreou a 22 de agosto. O filme biográfico sobre António Variações é realizado por João Maia e protagonizado por Sérgio Praia.

O filme segue a vida do cantor (nascido António Ribeiro) desde a infância até à sua morte em 1984, devido a complicações resultantes de SIDA. A cronologia não é linear e a narrativa não incide muito sobre os anos de sucesso de Variações, optando por se focar no caminho do cantor até ao sucesso e o final da sua curta carreira.

É um olhar intimista sobre a vida de António que evoca com sucesso a paixão que o cantor tinha pela música e o êxtase, angústia e solidão que esse sonho lhe trazia. Dá-nos a conhecer as suas origens, a sua aldeia, como era apaixonado por música desde criança, a sua vida em Lisboa e na Holanda, as suas relações pessoais e as suas inspirações. Mostra o seu processo criativo e o caminho penoso, mas necessário, que teve de percorrer para melhorar a sua arte e alcançar o sucesso. O filme mostra os vários obstáculos que o artista teve de superar: ele tinha a voz e a paixão, mas faltava-lhe a técnica, as mudanças de bandas e as diferenças com a editora. O filme transmite a ânsia e vontade de vingar de Variações que foi capaz de ultrapassar todas as barreiras pois a música era a sua vida.

António brilhava enquanto cantor, barbeiro, pessoa e persona.  Tinha em si uma enorme sensibilidade, ternura e tristeza que transbordavam nas músicas que escrevia. O filme demonstra e explora eficazmente como a sua infância e aldeia, a sua mãe, e o seu relacionamento complicado, porém cheio de carinho, com o seu amante marcaram o cantor. 

Sérgio Praia encarna na perfeição António Variações, a sua atuação é a jóia deste filme. Conseguiu dar vida à personalidade tão peculiar, única, extravagante e intoxicante que foi Variações e fazer-lhe justiça.

Para além dos cenários e do guarda-roupa que recriam os anos 70 e 80, a cinematografia é um dos melhores aspectos do filme, que captura com sucesso e vivacidade a vida noturna dos anos 80, a energia dos ensaios, a ânsia e melancolia de Variações, a calma e beleza idílicas da terra natal do cantor que ele tanto amava, e os momentos de ternura entre Variações e Ataíde, o seu amante.

O filme destaca-se nos momentos em que António canta para o público. A qualidade da representação de Sérgio Praia aliada ao trabalho de câmara criam momentos de verdadeira emoção que transborda do ecrã para o público. O filme cria momentos inesquecíveis em que não só compreendemos, como também sentimos como a música pode tocar as pessoas

“Variações” não é um filme excelente e tem as suas falhas: as personagens secundárias têm pouca profundidade, a narrativa tem um ritmo desequilibrado, não aborda muito a homofobia existente num país extremamente tradicional.

Não é excelente, mas é um filme bom, sensível e respeitoso, que homenageia um dos artistas mais importantes e irreverentes do nosso país. É uma homenagem a todos os loucos que ousam sonhar e que persistem mesmo face à dor que advém de perseguir esses sonhos, tal como Variações.

António Variações é inesquecível e inigualável, e este filme é imperdível pelo seu valor cultural e artístico.

(2019-08-28)


O círculo vicioso do ódio em “La Haine”
Daniela Graça

“La Haine” (1995), em português “O Ódio”, é um filme francês do realizador Mathieu Kassovitz. É um filme sobre vingança que é poderoso e reflexivo. É uma crítica social e um triunfo artístico, têm estilo e substância. O enredo passa-se em 24 horas e segue a vida de três jovens nos subúrbios urbanos de Paris: o judeu Vinz, o africano Hubert e o árabe Said.

A discriminação racial e a polícia abusiva governam nos subúrbios e a raiva ferve, e o Vinz é quem melhor "encapsula" esse sentimento. Ele encontrou a arma que um polícia perdeu no confronto do dia anterior, e sedento por retribuição e cego com raiva, jura matar um polícia se o seu amigo Abdel morrer devido aos ferimentos que sofreu ao ser espancado pela polícia.

Vinz ferve em pouca água, odeia a sociedade e principalmente a polícia, ele quer provar que é forte, que é capaz de puxar o gatilho da arma. Quem o contesta e tenta mostrar-lhe a razão é o Hubert, que lhe diz “ódio gera ódio”. O Hubert é pugilista e mais maduro que os outros dois rapazes. O Said é o meio-termo entre o Vinz e o Hubert, sendo por vezes impulsivo como o Vinz ou mais maduro como o Hubert.

“La Haine” é um retrato da juventude imigrante oprimida e rebaixada, de todas as frustrações que rodopiam na selva de cimento que são os subúrbios de Paris, e do caos, violência e falta de rumo que marcam estes jovens. O filme mostra sem rodeios o abuso do poder dos polícias e a falta de confiança que os imigrantes têm nos mesmos, quando um polícia diz a Hubert que “os polícias estavam só a fazer o seu trabalho, a proteger” o jovem responde-lhe com “e quem nos protege de vocês?”.

Tanto em conteúdo como em forma “La Haine” é uma obra de arte. O filme é inteiramente a preto e branco, com uma estrutura cuidadosamente calculada, um argumento cativante que é encarnado por um elenco talentoso, e uma cinematografia harmoniosa e bela, que faz o melhor uso possível da luz e da paisagem citadina de Paris. A câmara move-se com suavidade e precisão elevando a narrativa, o que resulta em cenas formidáveis, como a notável cena em que o Vinz, à frente do espelho, reencena o famoso monólogo do Robert De Niro em “Taxi Driver”(1976), que reflete a personalidade sonhadora e raivosa de Vinz, ou a cena em que sobrevoamos sobre o bairro onde os jovens moram enquanto um DJ toca o seu “set”, cena que caracteriza o movimento artístico de uma geração e demonstra a situação social.

“La Haine” é um espelho da nova França multiétnica. É um filme emotivo e marcante, que evoca reflexão sobre a sociedade e o círculo vicioso do ódio. Haverá maneira de contornar este círculo ou até mesmo quebrá-lo? Ou estaremos condenados a permanecer neste círculo odioso? O final de “La Haine” é inesquecível, as palavras de Vinz ecoam no escuro depois dos tiros: «É uma história sobre uma sociedade que cai, mas que se vai dizendo, para se tranquilizar: “Até aqui tudo bem, até aqui tudo bem, até aqui tudo bem. O importante não é a queda. É como se aterra”». Ódio é um sentimento definidor e destruidor da humanidade.

Passaram 24 anos desde a estreia de “La Haine” e continua a ser uma história relevante na nossa atualidade, é uma história sobre a condição social, a renúncia da autoridade e ódio que se aplica ao passado, ao presente e ao futuro.

(2019-07-29)


“Persépolis” e a importância da essência
Daniela Graça

“Persépolis” é um filme francês de animação de 2007, e é baseado na banda desenhada autobiográfica com o mesmo título da autoria de Marjane Satrapi, que juntamente com Vincent Parannoud realizou o filme.

O filme segue a história da pequena Marjane até se tornar numa adulta. É um filme de pequena duração, com pouco mais de 1 hora e meia, mas que encapsula uma grande história, não só a de Marjane como a da sua família e país. É uma obra cativante pela sua forma e conteúdo, pela sua personagem principal cheia de vivacidade e personagens secundárias caricatas e intrigantes.

“Persépolis” é contado através dos olhos da jovem, como ela perceciona os acontecimentos e as opiniões dos seus familiares, e inicia-se com a Revolução Iraniana de 1979 e com a queda do regime do Xá. Marjane cresce e o mundo muda, um regime opressor e violento instala-se e uma guerra, que irá ceifar milhares e milhares de vidas, desenrola-se. Ela continua a crescer, a questionar-se a si mesma e ao mundo, muda-se para Viena onde se sente isolada no frívolo e frio Ocidente. Volta para casa no Irão onde se sente desconexa.

Crescer é uma tarefa árdua e confusa por si só e Marjane cresceu em circunstâncias assustadoras, perdeu parte da sua família nas mãos de um regime tirânico, experienciou a guerra, foi oprimida e controlada por uma ditadura sexista e religiosa. A jovem passou por momentos em que se perdeu, se isolou e até negou a sua identidade, momentos em que parou de lutar. “Persépolis” é sobre Marjene e as suas convicções, gostos, crises de identidade, falhanços amorosos, depressão, raiva e alienação tanto no estrangeiro como na sua terra natal, e é também sobre o mundo que a rodeia, o país em ruína, guerra, imigrantes, família, raízes e ideais. É um filme provocativo com uma animação que transborda de estilo e criatividade.

A animação é maioritariamente a preto e branco, exceto as poucas cenas passadas no presente que são coloridas. A animação no estilo de banda desenhada demonstra eficazmente tanto o mundo fantasioso de uma criança como a sanguínea realidade da guerra, joga com a luz e escuridão, enquadra e contrasta criativamente, e faz uso de silhuetas, sombras e reflexos, assemelhando-se por vezes a um teatro de sombras. A animação exalta a história convoluta e o diálogo inteligente, tocante e humoroso.

“Persépolis” é tremendamente multifacetado, desenvolve os mais variados assuntos, mensagens e valores. É um filme pessoal e honesto, o que o torna tão marcante e emotivo, e com muito por onde refletir. É uma homenagem sobre a nossa essência, as nossas origens, aquilo em que acreditamos e aqueles que viveram e morreram pelos ideais justos. É um manifesto sobre ter orgulho de quem somos e nunca esquecer de onde viemos, tal como a avó de Marjene lhe disse “permanece sempre digna e integra perante ti mesma”. Nunca devemos perder a essência de quem somos, mesmo nos momentos em que nos falta esperança e força. Devemos seguir em frente, sempre, tal como Marjene.
(2019-06-29)

 

Como “Os Filhos do Homem” (2006) se distingue no género de ficção-científica
Daniela Graça

“Os Filhos do Homem” (2006) do realizador Alfonso Cuarón é um filme de ficção-científica que engloba drama, suspense, ação, política e guerra.
O enredo do filme é simples: é 2027 e o mundo caiu no caos porque a humanidade é infértil. A Grã-Bretanha tem uma política extrema de anti-refugiados. E Theo, um ex-ativista, concorda em ajudar a jovem imigrante Kee, que milagrosamente está grávida, e levá-la até um santuário fora da Grã-Bretanha onde ela e a criança estarão protegidas.
A premissa simples de “Os Filhos do Homem” é o que o distingue do típico filme de ficção-científica, não existe um mundo fantasioso com uma história e mitologia complexa, criaturas sobrenaturais ou tecnologia avançada. O filme apresenta-nos uma distopia duma realidade familiar à nossa passada no futuro muito próximo. É devido a essa mesma proximidade ao que conhecemos que o filme se torna arrepiante.
A história é elevada através das personagens, todas elas extremamente bem desenvolvidas refletindo a humanidade no seu pior e melhor, e os respetivos atores que as encarnam talentosamente. Tanto os atores principais Clive Owen (Theo) e Clare-Hope Ashitey (Kee), como o elenco secundário Michael Caine (Jasper), Julianne Moore (Julian) e Chiwetel Ejiofor (Luke) têm performances magníficos, demonstrado a intrínseca complexidade da natureza humana face ao desastre e as suas diversas reações.
Cuarón cria um mundo sem futuro e assombrado pelo passado, um mundo com escolas e parques vazios, sem risos de crianças. A humanidade está estagnada, sem esperança e sem rumo. Em Londres vemos pessoas esgotadas, ruas sujas, e bombas explodem. Instalou-se uma severa política que discrimina e persegue refugiados, são criados campos de concentração onde são retidos. As forças militares são violentas e xenófobas. Grupos radicais extremistas surgem para combater a desigualdade com violência. Neste ambiente nocivo o bebé milagre de Kee seria usado como peão político, e como tal, eles têm de escapar da Grã-Bretanha.
O filme alterna fluidamente entre momentos de reflexão, demonstrado o desânimo inerte, e os momentos de fuga e de luta pela vida, em que a camara segue as personagens tremendo e é atingida por sangue, como num documentário de guerra, magnificando o perigo em que se encontram. A cinematografia tem como palete de cores tons frios, sombrios e esbatidos evocando o sentimento de decadência. A trilha sonora exalta o caos, um exemplo marcante foi “In the Court of the Crimson King” de King Crimson, uma canção mística e fúnebre, que ecoa sobre planos da precariedade de Londres, uma cena tão assombrosa que me causou arrepios.
Cuarón demonstra eficazmente em “Os Filhos do Homem” como a humanidade engolida por medo e desespero se prejudica ainda mais, caindo em violência e caos, perseguindo e magoando-se uns aos outros. Mas no meio de toda essa angústia quando a esperança finalmente surge, como um ténue raio de luz, consegue mover o coração humano mesmo nas situações mais adversas.
O filme tem uma grande carga emocional e o espetador fica investido devido às personagens. É ficção-científica, mas os temas são reais e importantes na nossa atualidade, faz nos questionar a situação e a moralidade de políticas de refugiados e guerra, faz nos refletir sobre o Homem e as suas atitudes, sobre o nosso futuro, ou melhor, a falta de existência do mesmo.
“Os Filhos do Homem” é revigorante, é um dos filmes de ficção-científica mais distintos e refletivos do nosso século. É sentimental sem cair em dramas supérfluos, é filosófico sem se tornar elitista ou massacrante. É acima de tudo refletivo, honesto e humano.
(2019-06-08)


O sonho de Wadjda
Daniela Graça

“O sonho de Wadjda” (2012) é um filme de drama e comédia realizado por Haifaa Al-Mansour. É a primeira longa-metragem realizada por uma mulher na Arábia Saudita. A história segue a vida da jovem rapariga Wadjda que sonha em comprar uma bicicleta e andar nela livremente.

No entanto a Wadjda vive numa sociedade machista e patriarcal que a restringe em vários aspectos, sendo um deles, o simples acto de andar de bicicleta. Este sonho é desaprovado pelos seus pais, professores e sociedade porque “não é uma coisa de meninas”. Só o vizinho e amigo dela, o Abdullah, a apoia. É uma premissa simples, mas contada com muito coração.

A Wadjda é um espírito-livre e não desiste, engendra vários planos para poupar dinheiro como vender cassetes, pulseiras e implorar à sua mãe (o que não resulta). Quando estes falham ela entra no concurso de leitura do Corão cujo prémio monetário é o suficiente para comprar a bicicleta.

Um dos aspectos que mais gostei foi a direção de fotografia que proporcionou uma composição de fotografia harmoniosa, agradável e colorida, o que reflete imenso a Wadjda e toda a sua juventude, humor, rebeldia e força de vontade.

O filme mostra uma realidade que muitas mulheres vivenciam, mostra como se têm de tapar para não serem vistas por homens, como não podem cantar para não serem ouvidas por homens, como não podem conduzir, enfim, como são restringidas em tantas coisas. Mas mostra também a beleza da juventude, das amizades e da relação mãe-filha. E mais importante, mostra como os sonhos, os nossos objetivos e aspirações, são uma parte fundamental de quem somos e que por mais que tudo esteja contra nós, devemos persistir e continuar a lutar.