Espelho Cinemático


O círculo vicioso do ódio em “La Haine”
Daniela Graça

“La Haine” (1995), em português “O Ódio”, é um filme francês do realizador Mathieu Kassovitz. É um filme sobre vingança que é poderoso e reflexivo. É uma crítica social e um triunfo artístico, têm estilo e substância. O enredo passa-se em 24 horas e segue a vida de três jovens nos subúrbios urbanos de Paris: o judeu Vinz, o africano Hubert e o árabe Said.

A discriminação racial e a polícia abusiva governam nos subúrbios e a raiva ferve, e o Vinz é quem melhor encapsula esse sentimento. Ele encontrou a arma que um polícia perdeu no confronto do dia anterior, e sedento por retribuição e cego com raiva, jura matar um polícia se o seu amigo Abdel morrer devido aos ferimentos que sofreu ao ser espancado pela polícia.

Vinz ferve em pouca água, odeia a sociedade e principalmente a polícia, ele quer provar que é forte, que é capaz de puxar o gatilho da arma. Quem o contesta e tenta mostrar-lhe a razão é o Hubert, que lhe diz “ódio gera ódio”. O Hubert é pugilista e mais maduro que os outros dois rapazes. O Said é o meio-termo entre o Vinz e o Hubert, sendo por vezes impulsivo como o Vinz ou mais maduro como o Hubert.

“La Haine” é um retrato da juventude imigrante oprimida e rebaixada, de todas as frustrações que rodopiam na selva de cimento que são os subúrbios de Paris, e do caos, violência e falta de rumo que marcam estes jovens. O filme mostra sem rodeios o abuso do poder dos polícias e a falta de confiança que os imigrantes têm nos mesmos, quando um polícia diz a Hubert que “os polícias estavam só a fazer o seu trabalho, a proteger” o jovem responde-lhe com “e quem nos protege de vocês?”.

Tanto em conteúdo como em forma “La Haine” é uma obra de arte. O filme é inteiramente a preto e branco, com uma estrutura cuidadosamente calculada, um argumento cativante que é encarnado por um elenco talentoso, e uma cinematografia harmoniosa e bela, que faz o melhor uso possível da luz e da paisagem citadina de Paris. A câmara move-se com suavidade e precisão elevando a narrativa, o que resulta em cenas formidáveis, como a notável cena em que o Vinz, à frente do espelho, reencena o famoso monólogo do Robert De Niro em “Taxi Driver”(1976), que reflete a personalidade sonhadora e raivosa de Vinz, ou a cena em que sobrevoamos sobre o bairro onde os jovens moram enquanto um DJ toca o seu “set”, cena que caracteriza o movimento artístico de uma geração e demonstra a situação social.

“La Haine” é um espelho da nova França multiétnica. É um filme emotivo e marcante, que evoca reflexão sobre a sociedade e o círculo vicioso do ódio. Haverá maneira de contornar este círculo ou até mesmo quebrá-lo? Ou estaremos condenados a permanecer neste círculo odioso? O final de “La Haine” é inesquecível, as palavras de Vinz ecoam no escuro depois dos tiros: «É uma história sobre uma sociedade que cai, mas que se vai dizendo, para se tranquilizar: “Até aqui tudo bem, até aqui tudo bem, até aqui tudo bem. O importante não é a queda. É como se aterra”». Ódio é um sentimento definidor e destruidor da humanidade.

Passaram 24 anos desde a estreia de “La Haine” e continua a ser uma história relevante na nossa atualidade, é uma história sobre a condição social, a renúncia da autoridade e ódio que se aplica ao passado, ao presente e ao futuro.

(2019-07-29)