Espelho Cinemático


"Variações"
Daniela Graça

“Variações” foi o filme português mais esperado do ano e finalmente estreou a 22 de agosto. O filme biográfico sobre António Variações é realizado por João Maia e protagonizado por Sérgio Praia.

O filme segue a vida do cantor (nascido António Ribeiro) desde a infância até à sua morte em 1984, devido a complicações resultantes de SIDA. A cronologia não é linear e a narrativa não incide muito sobre os anos de sucesso de Variações, optando por se focar no caminho do cantor até ao sucesso e o final da sua curta carreira.

É um olhar intimista sobre a vida de António que evoca com sucesso a paixão que o cantor tinha pela música e o êxtase, angústia e solidão que esse sonho lhe trazia. Dá-nos a conhecer as suas origens, a sua aldeia, como era apaixonado por música desde criança, a sua vida em Lisboa e na Holanda, as suas relações pessoais e as suas inspirações. Mostra o seu processo criativo e o caminho penoso, mas necessário, que teve de percorrer para melhorar a sua arte e alcançar o sucesso. O filme mostra os vários obstáculos que o artista teve de superar: ele tinha a voz e a paixão, mas faltava-lhe a técnica, as mudanças de bandas e as diferenças com a editora. O filme transmite a ânsia e vontade de vingar de Variações que foi capaz de ultrapassar todas as barreiras pois a música era a sua vida.

António brilhava enquanto cantor, barbeiro, pessoa e persona.  Tinha em si uma enorme sensibilidade, ternura e tristeza que transbordavam nas músicas que escrevia. O filme demonstra e explora eficazmente como a sua infância e aldeia, a sua mãe, e o seu relacionamento complicado, porém cheio de carinho, com o seu amante marcaram o cantor. 

Sérgio Praia encarna na perfeição António Variações, a sua atuação é a jóia deste filme. Conseguiu dar vida à personalidade tão peculiar, única, extravagante e intoxicante que foi Variações e fazer-lhe justiça.

Para além dos cenários e do guarda-roupa que recriam os anos 70 e 80, a cinematografia é um dos melhores aspectos do filme, que captura com sucesso e vivacidade a vida noturna dos anos 80, a energia dos ensaios, a ânsia e melancolia de Variações, a calma e beleza idílicas da terra natal do cantor que ele tanto amava, e os momentos de ternura entre Variações e Ataíde, o seu amante.

O filme destaca-se nos momentos em que António canta para o público. A qualidade da representação de Sérgio Praia aliada ao trabalho de câmara criam momentos de verdadeira emoção que transborda do ecrã para o público. O filme cria momentos inesquecíveis em que não só compreendemos, como também sentimos como a música pode tocar as pessoas

“Variações” não é um filme excelente e tem as suas falhas: as personagens secundárias têm pouca profundidade, a narrativa tem um ritmo desequilibrado, não aborda muito a homofobia existente num país extremamente tradicional.

Não é excelente, mas é um filme bom, sensível e respeitoso, que homenageia um dos artistas mais importantes e irreverentes do nosso país. É uma homenagem a todos os loucos que ousam sonhar e que persistem mesmo face à dor que advém de perseguir esses sonhos, tal como Variações.

António Variações é inesquecível e inigualável, e este filme é imperdível pelo seu valor cultural e artístico.

(2019-08-28)