Espelho Cinemático


“A vida é curta”: Ikiru (1952)
Daniela Graça

Ikiru é um filme japonês de 1952 de Akira Kurosawa - um dos grandes mestres do cinema - e é uma das suas obras mais aclamadas.
O filme tem uma premissa simples, porém pesada: o Sr. Kanji Watanabe é diagnosticado com cancro no estômago e é forçado a questionar o significado da sua existência nos últimos dias que lhe restam.
Esta é a história de um homem ordinário que durante a maior parte da sua vida existiu como um defunto. É a certeza iminente da morte que abre os olhos a Watanabe e à insignificância e dormência que ditou a sua vida.  Foi engolido pela máquina burocrática, onde durante 30 anos se dedicou ao seu trabalho e, no entanto, ao olhar para trás, apercebe-se agora que não alcançou coisa nenhuma. As suas relações pessoais são quase inexistentes, não tem amigos e o seu próprio filho é quase como um estranho.
Watanabe, atormentado por medo, desespero e confusão, embarca numa viagem com tempo limite em que questiona o seu propósito. As interações com um escritor desconhecido e uma colega de trabalho peculiar mostram-lhe facetas da vida que durante anos desconheceu. Watanabe quer sentir-se vivo antes de morrer, e num momento de clareza, decide que tem de fazer algo verdadeiramente útil no seu trabalho. Domado por persistência e vontade, dedica o resto do seu pouco tempo a construir um parque infantil na sua comunidade.
O guião co-escrito por Akira Kurosawa, Shinobu Hashimoto e Hideo Onugi é minuciosamente ponderado e origina um dos estudos de carácter humano mais hipnotizantes e cortantes presentes na Sétima Arte. A inevitabilidade da sua morte dentro de um período de meses desperta uma introspeção angustiante, crua e nua, da sua vida, que por sua vez origina uma metamorfose necessária para alcançar expiação e paz. Watanabe aceita a sua morte em paz, cantando a sua canção favorita “A vida é curta/ Apaixonem-se, donzelas”, no baloiço do parque que construiu enquanto neva. A noite é fria, mas o seu coração está quente e cheio, porque encontrou o seu propósito e levou-o ao fim, finalmente sentiu-se vivo.
É um filme inesquecível pela sua narrativa e pelo desempenho de Takashi Shimura, que interpretou a transformação do velho moribundo. Shimura desempenhou um papel cheio de nuances, explorando o conflito interno e construiu detalhadamente a personagem desde os maneirismos à postura, mas foram os olhos de Watanabe que mais marcaram, falaram mais alto que palavras. A cinematografia a preto e branco reflete a velocidade de Tóquio em crescimento e simultaneamente a melancolia do protagonista.
Ikiru é uma critica à burocracia, um retrato de Tóquio no pós-guerra, e é acima de tudo, um filme sobre a condição humana. Watanabe é uma das personagens mais empáticas e inspiradoras do cinema. Independentemente da idade ou da nacionalidade do espectador é uma obra comovente porque é um filme humanista. O mundo está cheio de Watanabes por despertar e este filme levanta uma grande questão “Estás mesmo a viver? O que é que te vai acordar para a vida?”. O filme obriga-nos a refletir a nossa existência.
Ikiru significa Viver e é incrivelmente triste, e incrivelmente belo, este é um sobre filme o espírito humano.

(2019-09-28)