Daniela Graça

Espelho Cinemático

Daniela Graça

Cléo de 5 à 7

Cléo de 5 à 7 (título português: Duas Horas na Vida de Uma Mulher) é um filme francês de 1962 realizado e escrito por Agnès Varda. Varda foi uma figura marcante da Nouvelle Vague e uma das realizadoras mais importantes do cinema do século XX, sendo uma das vozes femininas mais influentes na Sétima Arte.

Cléo de 5 à 7 é a segunda longa-metragem que realizada por Varda e segue a vida de Cléo, uma jovem cantora de música pop, enquanto espera ansiosamente pelo resultado de um exame médico. O filme tem uma duração de 90 minutos e a narrativa decorre em tempo real, iniciando-se às 17 horas e concluindo às 18 horas e 30 minutos.  Filmado inteiramente a preto e branco (com a exceção do genérico que consiste numa cena de leitura do tarot) e com uma montagem fluída e precisa, Varda emprega um realismo elegante ao capturar Paris dos anos 60 e a jornada emocional da protagonista.

Acompanhamos o quotidiano de Cléo que foi obscurecido pelo medo da morte enquanto a jovem se tenta distrair: desde as viagens de táxis às idas a cafés, das conversas com amigos às reações a estranhos, dos ensaios de música às deambulações por parques. Varga utiliza estas situações mundanas do dia-a-dia para explorar o mundo interior da personagem. Cléo de 5 à 7 é um olhar íntimo sobre a vida de uma mulher, sobre as preocupações com a carreira (desejo por sucesso e reconhecimento do seu talento), sobre as preocupações relativas à vida amorosa (o seu companheiro é um homem bem-sucedido mas não lhe dá atenção). A Cléo é retratada com honestidade e fragilidade: é mimada, vaidosa, supersticiosa e exagerada, no entanto, ela é consciente destas falhas, o que gera empatia para com a personagem.

A sombra da morte paira sobre Cléo, infligindo-a com ansiedade e acuidade sobre o que a rodeia. Quando Cléo conhece, por sorte do acaso, Antoine, um soldado que partirá em breve para a Guerra da Argélia, floresce entre os dois um sentimento de pertença e compreensão. Na reta final do filme, e apesar da incerteza do futuro, a ansiedade de Cléo finalmente dissipa-se e dá lugar a esperança e felicidade. A Cléo emerge desta experiência uma pessoa mudada.

Apesar da premissa fatalista, o filme é uma mescla espirituosa entre melodrama e humor, sendo marcado por jovialidade e leveza. Destaca-se as cameos divertidas de Jean-Luc Godard e Anna Karina, a banda sonora de Michel Legrand, a edição experimental com sequências poéticas e a cinematografia harmoniosa. O movimento de câmara é marcado por uma leveza exemplar ao deslizar por entre cafés e ruas repletas de pessoas, ao capturar introspetivamente a sentimentalidade de Cléo quando canta, passeia sozinha no parque ou cria laços com Antoine.

Ao longo de Cléo de 5 à 7, acompanhamos as oscilações entre pavor e esperança da Cléo, como a ameaça da morte influencia como interage com o que a rodeia. Desta forma, Cléo de 5 à 7 aborda o tempo, a mortalidade e o ponto de vista feminino. É um filme existencialista e poético, que por ser dotado de naturalidade e sensibilidade não cai no pretensiosismo.

Cléo de 5 à 7 é um dos melhores filmes de Agnès Varda e uma obra imperdível da Nouvelle Vague. Quase sessenta anos depois da sua estreia o filme continua a ser refrescante e moderno devido ao seu conteúdo e estilo.