Daniela Graça

Espelho Cinemático

Daniela Graça

Honey Boy (2019)

Honey Boy é uma produção norte-americana que estreou em 2019 no Sundance Film Festival. O filme foi realizado por Alma Har'el e escrito pelo ator Shia Labeouf. Honey Boy é um filme semiautobiográfico, uma história fictícia inspirada pela infância de Labeouf e o subsequente internamento para curar a dependência alcoólica em adulto.

Honey Boy acompanha o ator Otis em duas alturas cruciais da sua vida: aos 12 anos, representado por Noah Jupe, quando se estava a estabelecer como ator enquanto lidava com o relacionamento tóxico que tinha com o pai, e aos 22 anos, representado por Lucas Hedge, quando é internado para reabilitação e diagnosticado com Stress Pós-Traumático. Para Otis vencer o alcoolismo e tratar os problemas psicológicos e emocionais é necessário fazer terapia e confrontar a origem da sua dor: o seu pai. Shia Labeouf representou o próprio pai, James, um veterano da Guerra do Vietname, criminoso com um passado de abuso de substâncias que trabalhou em circos.

Shia Labeouf escreveu grande parte do guião do filme durante o seu internamento para reabilitação da dependência alcoólica, em que teve de escrever sobre os momentos mais negros da sua vida. O filme Honey Boy é como uma sessão de terapia pública que reconta e expõe trauma para poder cicatrizar, em que dor é transformada em arte. O filme traça relações de causa-efeito ao descortinar as razões do sofrimento de Otis durante as sessões de terapia.

A realizadora Alma Har’el guia o filme através do uso recorrente de paralelismos entre o Otis em criança e adulto. Estes paralelos narrativos são normalmente puramente visuais, em que as situações são as mesmas, mas as circunstâncias diferentes. Como por exemplo, o Otis ser alçado com cordas e puxado para trás num set de um estúdio em criança e adulto ou o Otis a gritar de raiva, contorcido sobre si mesmo, em adulto ou a gritar com os braços no ar e cabeça erguida, com a vida toda pela frente, em criança.

Honey Boy é profundamente pessoal e intrinsecamente honesto, é um filme catártico tingido por uma nudez emocional. Estas qualidades são especialmente notáveis no guião de Labeouf e no seu desempenho a representar o pai, mas também nos dois atores que representam Otis. São estas características que tornam Honey Boy tão especial e empático, em que não se julga as personagens, mas há sim uma tentativa para entendê-las. O pai, apesar de todo o sofrimento que causou e de todas as falhas que tem, não é um vilão nem um monstro. É apenas um homem com vários problemas, capaz de proporcionar tanto momentos de felicidade ou dor ao filho. E o filho nada mais deseja do que ser amado e entendido pelo pai.

Honey Boy é sobre sarar feridas profundas infligidas pela família, é sobre um filho reconciliar-se com o pai, com a dor que este lhe causou e com o amor inerente que sente pelo mesmo. É sobre aceitar que dor e amor coexistem por mais paradoxal e tortuoso que esta noção seja. É um filme semiautobiográfico, mas o seu tema é universal: trauma geracional, um ciclo de dor que passa de pai para filho. Honey Boy é sobre quebrar esse ciclo.