Daniela Graça

Espelho Cinemático

Daniela Graça

Tenet (2020)

Depois de vários adiamentos devido à pandemia Covid-19, o filme mais antecipado do ano, Tenet do realizador Christopher Nolan, finalmente estreou em 70 países, incluindo Portugal, a 26 de agosto. Nolan regressa ao grande ecrã e debruça-se novamente sobre o seu conceito favorito, o tempo, tal como fez previamente com Memento (2000), Inception (2010) e Interstellar (2014).

A nova adição à filmografia de Nolan é um thriller de ficção-científica e ação que envolve o mundo da espionagem internacional e segue o Protagonista, um agente da CIA que é recrutado por uma organização secreta intitulada Tenet, encarregado com a missão de impedir que a Terceira Guerra Mundial aconteça e armado apenas com a palavra Tenet. A Terceira Guerra Mundial será causada por pessoas no futuro que desejam destruir o passado e desta forma impedir a extinção da humanidade no futuro, ou seja, é uma tentativa desesperada de apagar os erros cometidos no passado. Andrei Sator é o contacto entre o presente e o futuro e para o parar e salvar o mundo o Protagonista utiliza a inversão do tempo, uma manobra desenvolvida no futuro e enviada para o passado, que consiste em inverter o fluxo de entropia de um objeto ou pessoa e consequentemente inverter o fluxo do tempo.

Em Tenet, Nolan desconstrói e desdobra o tempo, apresentando a ideia de que o tempo não é linear, mas sim circular e sobreposto, em que várias realidades existem simultaneamente no mesmo plano. Os mesmos objetos ou pessoas, ou melhor, as várias versões dos mesmos objetos ou pessoas, coexistem e por vezes cruzam-se, no mesmo plano de existência ora movendo-se para a frente ou para atrás através da inversão do tempo.

Tenet é um filme de espionagem centrado à volta de teorias e paradoxos temporais. É o filme mais ambicioso e complexo de Nolan, é um verdadeiro quebra-cabeças desafiante que exige toda a atenção da audiência e requere uma reflexão profunda. Em termos técnicos destaca-se a cinematografia de Hoyte van Hoytema que proporciona um grandioso espetáculo visual com sequências de ação inovadoras e a banda sonora composta por Ludwig Göransson. O elenco é um componente fulcral para o sucesso de Tenet onde se destacam os desempenhos de John David Washington (o Protagonista), Robert Pattinson (Neil) e Elizabeth Debicki (Kat).

Tenet é um bom filme, mas não é uma obra-prima apesar de todas as suas qualidades positivas. O ritmo acelerado da narrativa e o constante bombardeamento de novas informações e detalhes dificultam o seguimento e compreensão do enredo. A mistura do som é desagradável já que por vezes os efeitos sonoros sobrepõem-se ao diálogo das personagens tornando-se difícil discernir as falas. No fundo, a sobre-exposição constante de informação torna-se cansativa. Por outro lado, algumas das personagens, com exceção de Kat, são emocionalmente rasas e poderiam e deveriam ter sido mais exploradas nesse sentido.

Tenet é sem dúvida o filme mais ambicioso de Christopher Nolan, mas está longe de ser um dos melhores filmes do realizador, como Memento (2000) ou Dunkirk (2017), porque carece de elegância, poder imersivo e densidade emocional na narrativa. No entanto, é um filme único e imperdível, um puzzle temporal visualmente deslumbrante, que deve ser apreciado no grande ecrã.