Daniela Graça

Espelho Cinemático

Daniela Graça

Tudo Acaba Agora (2020)

Tudo Acaba Agora é uma das mais recentes, e uma das melhores, produções cinematográficas da Netflix. O filme, cujo título original é I’m thinking of Ending Things, estreou a 4 de setembro na plataforma de streaming e marcou o regresso do aclamado argumentista e realizador Charlie Kaufman. Kaufman é um dos artistas mais irreverentes do cinema americano, tornou-se uma figura-chave do cinema de culto ao escrever os argumentos de Queres Ser John Malkovich? (1999), Inadaptado (2002) e O Despertar da Mente (2004).  Tudo Acaba Agora é o terceiro filme realizado por Kaufman depois de Sinédoque, Nova Iorque (2008) e Anomalisa (2015).

Tudo Acaba Agora foi produzido, escrito e realizado por Charlie Kaufman e é baseado na obra literária homónima de Iain Reid. A narrativa aparenta ser simples: uma jovem mulher (Jessie Buckley) pondera acabar a relação com o novo namorado, Jake (Jesse Plemons), durante uma viagem até à quinta remota dos pais dele – mas rapidamente torna-se claro que nada é o que aparenta ser à superfície e que há algo profundamente estranho e maligno nesta viagem. A jovem, cujo nome nunca é definido, tratada por Lucy, Lucia, Louisa e até mesmo Ames, começa não só a questionar o que julga conhecer sobre o namorado, mas também sobre si mesma e o mundo.

A jovem mulher pondera várias vezes ao longo do filme durante o monólogo interior terminar a relação com Jake, pois considera que o relacionamento não tem futuro. A sua linha de pensamento é constantemente interrompida pelo namorado, que parece conseguir ouvir os seus pensamentos, para discutirem poesia, musicais, cinema, teorias sociais e científicas. O diálogo é viciante e robusto, levanta questões existenciais e simultaneamente transborda com informação e referências, e sempre dotado de uma qualidade constrangedora e desconfortante devido à falta de química propositada entre o casal, que mesmo sentados lado a lado no carro, têm entre eles um fosso abismal de distância. Este constrangimento é enaltecido pela escolha de proporção de tela 4:3 que confere uma sensação de aprisionamento.

À medida que o enredo principal avança, ao atravessar o nevão que gradualmente se intensifica, explorar a quinta sombria e conhecer os pais bizarros de Jake, Kaufman intercala um enredo secundário sobre a vida mundana de um velho auxiliar de uma escola. Pessoas e linhas temporais convergem neste filme errático, estranho e surreal. O tecido do tempo e da realidade é elástico e mutável (durante o jantar os pais de Jake avançam e regridem no tempo, ora jovens, ora idosos); pessoas, vivências e infâncias tornam-se uma amálgama compartilhada por um todo, por Jake, pelo auxiliar, pela jovem mulher, porque “Tudo é igual visto de perto (…) Tu, eu, ideias. Somos todos uma coisa.” Tudo Acaba Agora é sobre uma questão de perspetiva, não é um filme literal, mas sim abstrato, em que o tudo é tingido pelo que foi, o que é, o que será, o que poderia ter sido e o que nunca irá acontecer. É uma fantasia idealizada criada pela necessidade, alimentada e alicerçada por todos os tipos de media, de conhecimento, de arte e de memórias porque, no fundo, como a jovem mulher afirma: “Os outros animais vivem no presente. Os humanos não conseguem, por isso, inventaram a esperança.”

Tudo Acaba Agora é um filme pouco convencional, marcado durante as 2 horas e 15 minutos de duração por uma estranheza palpável que culmina num ato final imprevisível. O filme explora o âmago da psique humana, é um ensaio sobre solidão, estagnação, passagem do tempo, individualidade e a formação de carácter.  O diálogo e execução de Kaufman é cortante e memorável, alcançado com os desempenhos cruciais do pequeno, mas talentoso elenco, que conta com Jessie Buckley e Jesse Plemons como personagens principais e David Thewlis e Toni Colette como pai e mãe respetivamente.

O novo filme de Kaufman é o melhor trabalho do cineasta, provou-se igualmente o melhor filme de 2020 até à data. Da mesma forma que arte abstrata não agrada a todos o mesmo acontece com este filme, mas quem acompanhar esta viagem com certeza sentir-se-á recompensado no final uma vez que Tudo Acaba Agora é um dos filmes mais interessantes do ano, que levanta perguntas e inicia discussões.