Música e Palavras


Chopin, um compositor superior
Francisco Afonso Rita

As definições são gaiolas para as coisas, mais ainda quando se trata de arte. Como só utilizam palavras, e a arte tem momentos inexpressáveis, tudo o que se possa dizer está destinado a ser incompleto. Ainda assim, gostaria de construir esta gaiola abstrata com a minha definição do que é a música, e explicar porque considero Chopin um compositor superior. E para evitar más interpretações, convém notar que a música a que me refiro é a música sem palavras, seja ela absoluta ou programática. 

Começando com uma definição muito geral, a música é um conjunto de sons e silêncios. Mas tratando-se de uma arte, que é uma criação do Homem, a música tem que ser humana. Por isso mesmo podemos particularizar mais e dizer que é um arranjo inteligente de sons e silêncios. E é a inteligência posta na sua criação que distingue a música de outros sons belos, como o som de um riacho a correr ou o canto dos pássaros. 

Pode-se continuar a particularizar esta definição, tornando-a cada vez mais específica. Por exemplo, a música varia enormemente de região para região do Mundo. A música clássica Indiana é fundamentalmente um jogo de melodia e ritmo. Para a música clássica Europeia, a harmonia, totalmente omitida na Índia, desempenha um papel fundamental, sendo um dos pilares da criação musical. Contudo, e ciente de que esta definição está condenada a ser incompleta, a introdução da componente da inteligência já a torna suficientemente completa para fins deste texto. 

A simplicidade ou complexidade de uma peça correlaciona-se, na maioria dos casos, com o nível ou quantidade de inteligência empregue na sua criação. Obviamente, uma música pode ser complexa com pouco esforço intelectual, por exemplo através da sobreposição de padrões de notas simples com durações diferentes. Contudo, a sobreposição de várias camadas musicais gera caos, o que rapidamente se torna desagradável, e inevitavelmente conduz a uma reorganização da música ou reformulação dos padrões utilizados, até que o resultado seja satisfatório. Por outras palavras, um elevado grau de complexidade implica um maior emprego de inteligência quando se quer produzir música.  

No Mundo atual, em pleno século XXI, o mercado da música é fortemente dominado pela economia. Com a globalização e as estratégias de marketing, consegue-se abranger um público cada vez maior, desta forma forçando e moldando a popularidade das músicas e os gostos das pessoas. Como consequência existe uma uniformização e simplificação crescente da maior parte da música consumida. Isso é facilmente observável através da análise harmónica das músicas comerciais, onde se verificam uma série de padrões a nível de progressões de acordes e ritmos. E esses acordes maioritariamente surgem em tríades maiores e menores, ou seja, em formas muito pouco elaboradas. Em suma e sem entrar em grandes detalhes, a maior parte da música consumida nos dias de hoje é de uma simplicidade quase absurda dada a capacidade cognitiva do ser humano. É por esta razão que existem tantas músicas semelhantes entre si; porque são fáceis de fazer, musicalmente, e consequentemente muito substituíveis. Num sketch musical, o trio The Axis of Awesome evidencia esta semelhança geral hilariante. Claro que, em defesa da música ligeira, o seu objetivo é ser ligeira, assim justificando a sua simplicidade! Ainda, esta é uma análise puramente musical, e por isso mesmo incompleta, porque ignora o seu elemento principal, que são as palavras. E aqui a música encontra-se com a poesia e a literatura, e o mérito criativo espalha-se por outras artes, que não são o foco deste texto. 

Mas mesmo na música sem palavras a tendência para a simplificação pode ser verificada, em compositores populares como Yiruma, Yann Tiersen e Ludovico Einaudi. Claro que as suas obras são deliberadamente simples, dado que se destinam a ser músicas fáceis de ouvir ou de ambiente, e não seguem nenhuma estrutura clássica. E, de novo, nada contra a música ambiente, que aliás foi criada pelo famoso (e excêntrico!) compositor Erik Satie, que na altura lhe chamou musique d’ameublement, ou música de mobiliário numa tradução literal. Mas ao contrário de Satie, este tipo de música domina a obra destes novos compositores, que a ela se dedicam fundamentalmente, tornando-os muito ligeiros no seu todo. 

Sem mais elaboração passemos para o outro extremo em termos de complexidade; a música clássica contemporânea (não minimalista). Aqui encontram-se compositores que elevam o nível intelectual da composição a pontos quase inacessíveis, o que em geral requer muito conhecimento para se apreciar verdadeiramente. Um exemplo de um pioneiro neste tipo de música é Arnold Schoenberg e um exemplo extremo será Pierre Boulez. Tudo é difícil nesta música, tudo parece ter poucos padrões e repetições (e de facto tem, propositadamente) ao ponto de parecer quase aleatório. Aliás, no princípio do século XX foi mesmo criado um tipo de música denominada música aleatória. E porque a simetria, harmonia de proporções, repetições e padrões são intrinsecamente satisfatórios para o ser humano, peças como a segunda sonata para piano de Pierre Boulez são muito difíceis de apreciar requerendo um esforço atento e uma intelectualização da experiência de ouvir música. 

Neste ponto creio que surge uma questão natural: Se há música tão simples que possa ser descartada por aqueles que nela não encontrem qualquer desafio intelectual que lhes proporcione satisfação, e música tão complexa cujo desafio transcenda a intelectualidade de algumas pessoas, que dela também não retiram qualquer satisfação, então haverá uma quantidade óptima de complexidade e inteligência que torne a música de um compositor o mais abrangente possível? 

Ser abrangente não creio ter que ver com o número absoluto de pessoas que admiram uma música ou um artista, mas sim com o número de tipos de pessoas que o fazem. Por exemplo, se uma obra é admirada por um músico de jazz, um de rock, por um leigo em música e por um melómano, então essa é uma obra mais abrangente do que outra que não seja apreciada por um grupo tão diverso, ainda que esse grupo possa ser maior em número absoluto.  

Ora retomando a questão anterior, uma das muitas respostas encontrar-se-á, naturalmente, entre a música comercial e a música contemporânea mais elaborada. Terá que haver um compositor que satisfaça os desejos mais básicos e nos presenteie com harmonias simples e melodias contínuas. Um compositor que utilize repetições, padrões e cadências de acordes que transmitam plenitude. Contudo terá de incorporar elementos desafiantes, para que aqueles que buscam um complexidade maior também se sintam satisfeitos. Para que, de vez em quando, surja uma surpresa na música, como um acorde inesperado ou uma melodia emergente, uma mudança de ritmo, ou até que exista uma certa ausência de forma! No fundo, uma música que possa ser apreciada por todos, que tenha um desafio inerente e uma satisfação atingível. 

E é claro que há um grande número de compositores cuja música se revê nesta definição, com estas limitações. E de entre todos os que consigo pensar, Frédéric Chopin adequa-se particularmente bem. 

Chopin é admirado pelos mais eruditos, estudiosos e virtuosos. Ainda assim é capaz de ser entendido, na honestidade da sua música, pelos mais simples também. Por aqueles que não estudam música e até pelos que não percebem muito de música mas acham que percebem! Também há músicos de outros géneros musicais, desde pop a jazz que o admiram. Para tal basta reparar em músicas como I Get Along Without You Very Well, I’m Always Chasing Rainbows, Till the End of Time, e tantas mais. Também duas ilustres senhoras Portuguesas manifestaram o seu amor por Chopin em obras de carácter bem distinto! Florbela Espanca em poemas como Sombra e Chopin, e Bertha Rosa-Limpo, a criadora do famoso O Livro de Pantagruel, que no prefácio liga a música à arte da cozinha. É um compositor tão abrangente que até as crianças conseguem gostar da maior parte da sua música! Foi um homem admirado no seu tempo e continua a sê-lo até aos dias de hoje. Dá o nome a uma das competições de música mais importantes do mundo e deste modo está intimamente ligado a todos os seus grandes vencedores. E para quem pense que por ter composto maioritariamente peças para piano solo isso o torne um compositor mais limitado, lanço o convite a abordar este facto de forma inversa e pensar em como é possível dominar tantas formas musicais e até criar outras, usando tão pouco a voz e os outros instrumentos para além do piano. 

E em todas as (mais de trezentas) peças que Chopin escreveu se pode perceber o quão brilhantes são e de que modo a simplicidade se cruza com a complexidade num balanço fantástico. Por isso vou pegar numa só e tentar explicar brevemente porque se trata de uma obra de um compositor maior. Aproveito simultaneamente para mostrar por que razão acho erradíssima a ideia popular de que esta peça é um exemplo em que Chopin não estava no seu melhor. 

Concerto para piano e orquestra op.11 nº1 em mi menor - I. Allegro Maestoso 

O primeiro andamento quebra uma “regra” ao utilizar a forma-sonata de um modo “errado”. Chopin decide não fazer a transição natural para a relativa maior (sol maior) no princípio do concerto, e em vez disso alterna entre mi menor e mi maior até perto do final do andamento, onde finalmente passa para sol maior. Enquanto isto apresenta sempre o terceiro tema, que é o tema mais “alegre” dos três presentes no andamento, interrompendo-o com uma modulação abrupta de mi maior para mi menor. Linguagem musical à parte, o efeito que isto tem é que nunca há um sentimento de conclusão e o ouvinte cai sempre no vazio, como uma criança a quem lhe foi feita uma promessa vã. Mas no final, Chopin utiliza estes dois efeitos em conjunto e culmina numa explosão de satisfação. Neste ponto ele completa o terceiro tema (finalmente, já passados mais de 15 minutos!), e fá-lo utilizando uma progressão de acordes extremamente simples (bastante utilizada na música pop de hoje em dia), e ainda por cima na escala para onde deveria ter partido logo no princípio (sol maior), que é a mais natural dado o contexto harmónico da obra. Em suma, numa jogada extremamente criativa, Chopin aplica um ideia básica e como que nos diz “Esperai, já vos revelo o que está por debaixo do pano!”. É possível deduzir muitas características de um objecto coberto por um pano, tais como a sua dimensão ou forma, mas não é possível saber outras, como a sua cor ou textura. Mas nem tudo são brincadeiras e jogos de crianças, pois mal termina este culminar tão pleno, segue-se, sem qualquer pausa, uma secção final com material completamente novo, de harmonias diferentes e melodias rápidas com um ritmo bastante irregular, que terminam numa secção apressada e aparentemente desorientada. Mas a peça é conduzida a um fim; A um bom fim. E mesmo este incremento no tempo e complexidade é bastante hábil, e é o que dá o golpe final no coração de quem a ouve. Ao suceder o momento em que a plenitude é finalmente atingida, e ao não terminar a música nesse momento, impede forçosamente que esse estado de êxtase se prolongue. E o génio está em entender muito bem como funciona a mente humana; A plenitude é altamente volátil, porque por natureza o Homem vive numa incessante busca da novidade e num aperfeiçoamento que nunca chega a ver o perfeito. 

Por isso, Chopin, na sua superioridade, constrói o caminho para a perfeição, e prova que não tem um destino. Dá-nos mistérios e dissabores, incertezas e certezas, dá-nos paz e, acima de tudo, relembra-nos do que é ser Homem. 

21-08-2019