Fábio d'Abadia de Sousa

Memórias do Futuro

Fábio d'Abadia de Sousa

Memórias de um menino que vivia num bordel
O último Natal sem presentes

Era época de Natal. Eu tinha uns seis ou sete anos, não lembro a idade exata. Mas lembro que eu sempre ficava meio ansioso. Era época de sonhar com presentes. E eu sonhava muito. Eu tinha sempre a esperança de que o novo Natal seria diferente dos que eu vivi em anos anteriores. Sim, desta vez, o Papai Noel se lembraria de mim, e eu ganharia muitos brinquedos! Eu mentalizava infinitos tipos de presentes que eu gostaria de ganhar: bolas de futebol, carrinhos, roupas e sapatos novos, um par de patins (meu Deus, como eu queria patinar pelas ruas!) ou, quem sabe, uma bicicleta novinha!  Mas o Natal passou e eu, novamente, fui esquecido pelo Papai Noel! Eu via as outras crianças se divertindo com os brinquedos ganhados no dia 25 de dezembro. Eu ficava triste, é claro! Mas não derramava nenhuma lágrima! Lá no fundo eu já sabia que os presentes nunca chegariam para mim! Com a cabeça baixa, eu aceitava o descaso do papai Noel comigo com certa resignação. “Deixa pra lá!”

 Mas aquele Natal não foi totalmente triste.  Eu conheci a Dona Leontina, a senhora baixinha que frequentava todas as missas na igreja em frente à praça onde minha mãe e meus tios se embriagavam. Eu não sabia, mas estava diante de um anjo! Eu não tinha sido totalmente ignorado pelo Papai Noel! Àquela altura, Dona Leontina já tinha falado com o Padre Lancísio para que me levasse para o orfanato dele, em Silvânia, cidade nas proximidades de Leopoldo de Bulhões, onde minha família morava. Estava tudo já devidamente arranjado. Eu poucos dias eu deixaria para trás aquela vida de total miséria!

Os sinos da igreja tocaram com mais insistência naquele dia! A missa de Natal se encerrava! Eu gostava de ouvir os sinos! Cada badalada parecia falar comigo. E, de repente, alguém realmente veio conversar comigo! Era Dona Leontina! Ela disse que minha mãe tinha me autorizado a almoçar em sua casa. Ela era uma senhora baixinha e que andava meio curvada e apoiada em uma bengala, como se tivesse algum problema grave na coluna. Então, lá fui para a casa de Dona Leontina. Ao chegar lá, eu fui surpreendido com um almoço farto e com comidas variadas e gostosas.  Tinha muitas carnes, arroz colorido com uvas passas, doces variados e muito refrigerante! Uma delícia! Era realmente uma fartura inédita para mim! Mas o que mais me fascinou naquela casa com quintal enorme e cheio de árvores frutíferas foi o presépio. Meu Deus, como era lindo! O menino Jesus e seus pais eram cercados por dezenas de outras  pequenas esculturas de santos e animais!  Eu passei muito tempo admirando aquilo tudo!  O presépio me fascinou mais do que a comida abundante!

Então, Dona Leontina perguntou: “Fábio, você gostaria de morar no internato do Padre Lancísio? Lá você vai estudar, vai ter comida boa todo dia, vai ter amiguinhos, roupa limpa, tudo”.  É claro que eu disse sim, sem nem mesmo pensar! Naquela época eu sonhava muito com brinquedos, mas eu sonhava mais ainda em ir para a escola. Como eu invejava as crianças que passavam por mim a caminho do colégio, com seus uniformes limpos, pastas escolares nas costas e lancheiras coloridas. Meu Deus, era tudo que eu queria! “Então, arruma suas roupas que, no próximo domingo, você vai com o Padre. Eu já falei com sua mãe, ela autorizou. Está tudo arranjado! Vem comer mais doce”, disse ela.

 Hoje, quando lembro desse dia, eu sinto a certeza de que eu nunca fui esquecido pelo Papai Noel! Naquele Natal eu fui agraciado com um presente que compensou todos os outros natais em que não ganhei nenhum brinquedo. O meu presente foi algo mais fantástico do que qualquer brinquedo! Eu ganhei um futuro, algo que definitivamente eu não tinha ao lado da minha família.

Hoje, quando lembro daquele dia, eu sou invadido por um imenso sentimento de gratidão e pela sensação de que nunca estive realmente sozinho, abandonado e desprezado, como já cheguei a achar, muitas vezes, que estava! Não maldigo a família que tive.  Como já disse, se eu eu tivesse que renascer e tivesse a opção de escolher a minha mãe, eu escolheria a mesma Dona Irani e meus tios heróis. Na minha jornada pela vida eu conheci muita dor, mas conheci muitos anjos também. Dona Leontina e o Padre Lancísio foram alguns desses anjos, mas minha mãe e meus tios também foram os melhores anjos que eu poderia ter! Eu nunca estive abandonado! Eu nunca estarei! Sempre que caio. E eu caio muitas vezes! Lá vem os meus anjos a me ajudar a levantar e a retomar a minha jornada novamente! Eu nunca conseguirei expressar toda a gratidão dentro de mim! Eu não tenho o direito de não acreditar em milagres!

No domingo seguinte, eu arrumei a minha mala: um saco de papel feito para embrulhar pão, onde coloquei toda a roupa que tinha: uma calça boca-de-sino azul, um shortinho e uma camiseta. E lá fui eu esperar o padre Lancísio. Minha mãe não compareceu. Foi a última vez que vi a Dona Leontina e os meus tios.  O padre olhou para mim e perguntou: “Cadê a sua mala? Eu mostrei o saquinho de pão. “Entra, meu filho!” Minha vida nunca mais seria a mesma.


Memórias de um menino que vivia num bordel
Meus três tios heróis

Dizem que toda família tem pelo menos um indivíduo que destoa completamente, em termos de personalidade e comportamento, dos outros membros do clã. Esta pessoa, como todos sabem, é chamada preconceituosamente de “ovelha negra”, termo considerado politicamente incorretíssimo no Brasil de hoje. Perdoem-me, mas ainda recorro a ele por falta de expressão que explique melhor o que quero dizer. Pelo o que eu sei, minha mãe teve seis outros irmãos, quatro rapazes e duas garotas. Entre os sete irmãos não havia uma “ovelha negra”, mas cinco delas. E parece-me que quem liderava o rebanho dos “desgarrados” era a minha mãe. Dois dos sete irmãos dela se casaram e foram ter aquilo que se chama de “vida normal”. Não os mencionarei mais, pois tive pouquíssimo contato com eles. Além disso, “vida normal” não me interessa! Tenho que mencionar, é claro, a quinta “ovelha negra” da família, a irmã caçula da minha mãe, que não conheci e cujo nome nunca soube (pois as pessoas se referiam a ela apenas pelo apelido de “Nenê”), e que faleceu em frente ao bordel de Dona Tonica, em Anápolis (GO), atropelada por um caminhão. A morte trágica e prematura da irmã era apenas uma das grandes dores que acompanhavam minha mãe. Empurrada pela miséria, “Nenê” também se tornou prostituta e seguiu os passos da irmã mais velha. Quando se referia à irmã caçula, minha mãe, além do pesar, quase sempre demonstrava também um pouco de culpa pelo o que aconteceu com a caçulinha adorada por ela.    

A solidão e a falta de apoio familiar de minha mãe só eram amenizadas pelo grande carinho de três dos seus irmãos: Manuel (Mané), Sebastião (Bastião) e Valdomiro (Domiro). Este trio, sempre que tinha uma folga no trabalho árduo da lavoura, fazia questão de visitar minha mãe. Juntos e com algumas garrafas de cerveja e cachaça, eles formavam uma família que tentava se divertir e ser feliz, independentemente das críticas e dos olhares de desprezo do restante do clã! Constatar a forte ligação dos quatro é importante para entender o que viria a acontecer com Vicente. Para os três rapazes, as surras aplicadas por Vicente contra a minha mãe era algo inadmissível! Mesmo que não tenham sido julgados e condenados pelo assassinato de Vicente, os meus três tios não saíram impunes. A vida não os deixou sem nenhuma sentença condenatória! E nem àqueles que conviviam com eles.

Depois do assassinato de Vicente, a decadência da minha família se acelerou consideravelmente. É fato que ninguém conhecia a prosperidade na nossa família, mas o nível de miséria cresceu tanto que a falta de comida se tornou algo freqüente. Dormir com fome quase virou regra, inclusive para mim. Faltava tudo em casa, menos a cachaça. Como eu nunca bebi cachaça, dormia de barriga vazia mesmo! Minha mãe e seus irmãos, que antes se embriagavam nos finais de semana, passaram a ficar bêbados de segunda a segunda. Meus tios nem se davam ao trabalho de voltar para casa, um humilde barraco abandonado, sem água encanada e sem energia elétrica, que eles invadiram na periferia da pequena cidade de Leopoldo de Bulhões (GO). Eles passavam a maior parte do tempo acampados na principal praça da cidade, em frente à maior igreja local e, é claro, em frente ao bares onde compravam o veneno que os matavam em doses: a pinga.

Mas nem sempre foi assim, os irmãos de minha mãe eram lavradores recatados, dignos, honestos, equilibrados e que sobreviviam capinando, roçando, fertilizando, colhendo e ensacando café em fazendas dos municípios de Leopoldo de Bulhões e Silvânia (GO). Com enxadas, foices e machados, eles trabalhavam desde que eram meninos bem pequenos, pois quase sempre acompanhavam o pai deles, o meu avó Otávio, na árdua missão de tirar alimentos da mãe Terra. Eram lavradores esforçados. Para mim, foram e ainda são heróis.  Eles jamais foram à escola. Pobre não ia à escola no Brasil dos anos 40 e 50, época em que meus tios eram crianças e adolescentes. A miséria do País era bem distribuída para eles. Roupas, tinham pouquíssimas! Poucos dentes sobreviviam em suas bocas. Eram arrancados sempre que doíam! No entanto, eles pareciam felizes. Quando juntos, estavam sempre sorrindo e falando piadas engraçadas, mesmo sob o sol escaldante, enquanto capinavam lavouras ao longo da vida. Eu e minha mãe, às vezes, os acompanhávamos na lavoura, como na colheita e na fertilização de cafezais. Odiava vê-los bêbados! Mas hoje entendo! Bebiam para suportar a vida difícil que tinham. Trabalhavam, trabalhavam, mas mal ganhavam para comer e vestir com decência.  Bebiam, bebiam porque queriam, apesar de tudo, estar sempre felizes! Eles jamais cortariam seus pulsos! Não eram covardes! Aceitavam a vida do jeito que ela se apresentava: cruel, implacável e injusta, muito injusta! Lembro um dia em que o dono de uma fazenda e seus capangas os perseguiram, armados com espingardas, para impedir que eles fossem embora de uma propriedade onde trabalharam três meses sem receber nenhum salário. Foram obrigados a trabalhar até o final da colheita de café sem ganhar nada em troca, exceto uma comida que parecia mais uma ração para porcos. Infelizmente, os resquícios da escravidão contiuaram e ainda permanecem hoje, em plena década de 20 do século XXI, no Brasil.

Sim, meus tios mataram o Vicente, mas, acima de tudo, mataram suas consciências tranqüilas! Depois da morte de Vicente, suas vidas miseráveis perderam a tranqüilidade, o único bálsamo que ainda lhes restava na alma. Eles mataram o Vicente, mas jamais os verei como assassinos! Eles mataram o Vicente, mas acima de tudo, mataram a si mesmos! Se mataram em vida: a pior das mortes! Eles mataram também um pouco do meu grande amor por eles! Mas eu jamais os condenarei! Eles já tiveram a pior das condenações: nasceram na parte mais miserável de um País muito rico e totalmente injusto! Quem sou eu para julgá-los! Dos meu três tios heróis, tento guardar suas tagarelices, suas piadas e suas tentativas desesperadas de serem felizes! Eles foram um pouco do pai que nunca tive! Eles foram um pouco da família que nunca tive! Eles são um pouco da lembrança de que uma família apóia uns aos outros! Eles mataram o Vicente para apoiar a minha mãe! Mas acho que ela foi quem mais morreu!

 A vida é assim: estranha e cheia de paradoxos inconciliáveis! Mas uma grande lição meus tios me deixaram: a vida não é para ser questionada, pois jamais haverá respostas satisfatórias! A vida é para simplesmente ser vivida! Embriagado ou não! Miserável ou não (há vidas não miseráveis?)! E se eu não me embriago, como eles, o problema é meu! Talvez eu apenas sofra um pouco mais!


Memórias de um menino que vivia num bordel
Um príncipe tira minha mãe “daquele lugar”

A canção “Eu vou tirar você desse lugar”, do cantor Odair José era uma das mais ouvidas, nos primeiros anos da década de 70, nos bordéis da cidade de Anápolis (GO). Em plena ditadura militar, quando a censura não permitia que se falasse, em uma canção, as palavras cabaré, bordel, zona etc. No entanto, até um menino de seis anos, como eu naquela época, entendia que o “desse lugar” se referia a um local de prostituição. A canção narra a história de um homem que foi a um prostíbulo porque “precisou de carinho” e que ele se apaixonou pela mulher com quem fez sexo. Então, ele promete: “Eu vou tirar você desse lugar\ Eu vou levar você para ficar comigo\ e não interessa o que os outros vão pensar...”

Pelo que eu ouvia das conversas de minha mãe com suas colegas, quase todas as prostitutas tinham o sonho de serem tiradas “daquele lugar”, apesar de não acreditarem muito em príncipes encantados. Minha mãe, no entanto, foi surpreendida pela vida com um “príncipe” que a tirou “daquele lugar” e que a levou (com filhos e tudo) para ficar com ele. Vicente, este era o nome do príncipe de minha mãe, também não se interessou pelo que os outros pensaram da sua atitude, inclusive sua família. Aliás, Vicente tinha uma família que possuía uma casa bonita e grande em um bom bairro de Anápolis. Mas, para viver com minha mãe, ele teve que sair de sua bela casa. Eu não lembro direito qual era a profissão de Vicente, se é que ele tinha alguma definida, mas, com seu trabalho, conseguia pagar o aluguel de barracões em bairros da periferia de cidade e colocar comida na mesa, como um pai de família decente faz.  Eu lembro, por exemplo, de ele levar minha mãe, eu e minha irmã para fazer grandes compras de alimentos no supermercado. Vicente adotou a família de minha mãe como se fosse sua!

No entanto, Vicente também cumpriu a profecia popular que diz que todo príncipe vira sapo! Uma pena! Minha irmã e eu éramos felizes sob os cuidados de Vicente. Minha mãe tinha muitas afinidades com Vicente, inclusive o gosto pela bebida alcoólica em excesso! Nossas vidas funcionavam relativamente bem durante a semana. Mas, quando chegavam o sábado e o domingo, sempre tinha confusão! Os dois, como se diz na linguagem popular, “bebiam até cair!” E caiam tanto que, às vezes, os donos dos imóveis que alugávamos simplesmente nos expulsavam de casa sem nem mesmo darem um prazo razoável para fazer a mudança.

Mas o pior eram as brigas dos dois. Vicente, quando bêbado, adorava quebrar os móveis e louças da casa. Gostava de quebrar também a cara de minha mãe, que sempre estava com um olho roxo e escoriações pelo corpo. Às vezes, no meio da noite, minha mãe pegava a minha irmã e eu, e fugíamos em direção a alguma delegacia de polícia, na qual ela jamais tinha coragem de entrar e denunciar Vicente. Na segunda-feira, minha mãe sempre voltava para Vicente e nossas vidas seguiam normalmente, até que chegava um outro sábado ou domingo.

Certo dia, um dos vários irmãos de minha mãe soube do que estava acontecendo. Ele apareceu em nossa casa e obrigou minha mãe a deixar Vicente. Então, mudamos com ele para a pequena cidade de Leopoldo de Bulhões (GO), onde viviam outros três irmãos de minha mãe. Apesar das surras, minha mãe amava absolutamente o seu “príncipe” Vicente.  Ele também a amava absolutamente. Uma semana após chegarmos a Leopoldo de Bulhões, lá aparece Vicente! A se humilhar e a implorar por perdão, Vicente jurava que não a espancaria mais! Mas o problema é que Vicente tinha duas personalidades bem distintas. Quando sóbrio, era realmente um príncipe! Mas, quando alcoolizado, virava um monstro, que não chamarei de sapo para não ofender os bichinhos!

Vicente prometeu algo que o seu lado obscuro não conseguiria cumprir jamais! As noitadas regadas a muito pinga logo voltaram. E com elas, os espancamentos de Vicente contra minha mãe. Até que um dia, três dos quatro irmãos de minha mãe se juntaram e atraíram Vicente para uma emboscada, onde o mataram a golpes de machado, como soube posteriormente! A família de Vicente nunca pode enterrar o seu corpo, que jamais foi encontrado. Este foi o fim do príncipe de minha mãe! Ela nunca mais seria amada como Vicente a amava. Ela nunca mais seria esmurrada como Vicente a esmurrava! E assim terminou talvez a maior história de amor da vida da minha mãe. Na época, talvez para suportar o peso da situação, fiquei totalmente indiferente! Até porque não podia fazer nada. Mas hoje percebo que minha mãe sofreu muito em seu relacionamento com Vicente. Percebo também que a vida dos dois foi um “microcosmo” da crueldade da sociedade brasileira, que cria os meninos exatamente para serem como Vicente foi: um monstro que expressa a sua virilidade por meio de gritos, chutes, murros, pontapés, facadas, pauladas e tiros. Sim, minha mãe sofreu! Mas Vicente também foi vítima desta sociedade extremamente violenta e que produz anualmente estatísticas assustadoras de mutilações e assassinatos de mulheres e, é claro, também de homens! Somos seres criados para o fracasso da vida em família! Somos criados para nos agredirmos e nos matarmos! Que sociedade infeliz!

E o pior é que, cerca de 45 anos após a morte de Vicente, pouco mudou no caráter violento da vida social brasileira. Há mais ou menos um ano (em agosto de 2019), por exemplo, eu andava nas proximidades do terminal rodoviário da cidade de Goiânia, a capital de Goiás, quando, ao atravessar uma feira improvisada de roupas, me deparei com um vendedor ambulante agredindo violentamente a sua companheira. O rosto dela já estava ferido e ensanguentado e ela apenas cuspia sangue e chorava como uma criança totalmente desamparada. Dezenas de pessoas ao redor simplesmente ignoravam o drama da mulher espancada. Em vez de me envolver na situação, como já fiz várias vezes ao longo da vida, eu saí correndo em direção a um posto policial localizado a mais ou menos 500 metros de onde ocorria o espancamento. Eu simplesmente queria que aquele homem fosse preso em flagrante!

Eu estava chocado e as lembranças dos espancamentos de Vicente contra a minha mãe, sempre me vêm à mente em situações como esta! Mas o meu choque foi maior ainda quando, ofegante, narrei a situação para os dois policiais em plantão no posto. Eles riram, desdenharam e um deles, diante da minha insistência, apenas disse: “Não vamos intervir, não adianta, mulher gosta de apanhar!” Boquiaberto e incrédulo, eu saí correndo em direção a uma delegacia de polícia localizada a mais ou menos uns 900 metros de onde estava, para pedir ajuda para aquela mulher, que, naquele momento, era como se fosse minha mãe. Novamente, eu fui recebido com indiferença e sarcasmo e policiais civis se recusaram a tomar qualquer providência. Eu estava sem telefone celular, mas, felizmente, em frente à delegacia de polícia, havia um telefone público que ainda funcionava (um milagre!). Liguei o número de emergência e minha denúncia, mais uma vez, foi ignorada. Chorei de raiva, chorei pela minha mãe e xinguei muito! Foi só o que pude fazer!  Esta é a sociedade brasileira! Um Estado omisso e cúmplice nos atos de violência contra as suas cidadãs!  Isso em 2019!  Até quando?

Um filho que já viu sua mãe ser espancada jamais esquece o horror que é a situação! Mas, como estou no Brasil, eu tenho de agradecer por não ter presenciado minha mãe ser assassinada na minha frente, como milhares de crianças vêem todos os anos por todos os cantos do país! Em relação ao Vicente, eu peço que sua alma perdoe a nossa família! Mesmo com tanta violência e tanta dor ele foi o príncipe que minha mãe pôde ter! Ele não teve muito a ver com os príncipes de contos de fada! Mas teve a ver com os príncipes possíveis em uma terra encantada chamada Brasil! Descanse com os anjos, Vicente!


Memórias de um menino que vivia num bordel
A estrela mais brilhante

Houve momentos na minha vida de criança que minha mãe me magoou muito. Mas hoje quando penso na vida que ela teve, eu fico chocado com o quanto ela também foi magoada e maltratada em sua rápida e absurdamente cruel existência. Eu ainda sofro quando penso na única vez em que ela me visitou no orfanato – quatro ou cinco anos após ela permitir que eu fosse (felizmente) levado para lá. Eu fugi quando apareceu lá aquela mulher, completamente açoitada pela decrepitude física a afirmar ser minha mãe! “Não, ela não é minha mãe”, gritei e saí correndo para longe! Somente admiti vê-la depois que as freiras insistiram muito comigo! Mas muito mesmo! Minha mãe estava esquálida (talvez com fome), suja, maltrapilha, doente, desdentada, aparentemente alcoolizada e calçava uma sandália havaiana incrivelmente surrada e que não protegia mais seus pés empoeirados e feridos! Aquela mulher morena e linda que me trouxe ao mundo, lá no bordel da Dona Tonica, na existia mais! Eu não lembro nada do que ela me disse naquele dia e nem se eu disse alguma coisa a ela. Eu devia ter uns nove ou dez anos. Eu só queria chorar! Eu só queria chorar um mar de lágrimas, talvez para curar um pouco as suas dores e suas chagas tão expostas e, quem sabe, também para limpar a minha vergonha e o meu constrangimento de que todos estavam vendo que eu era filho de uma pessoa completamente diferente daquela mulher da qual eu falava a respeito para todo mundo. Hoje, o meu constrangimento é por ter constrangido ela! Eu não lembro direito como eu a descrevia para as pessoas do internato, mas eu sempre falava de uma mulher muito bonita, muito forte, muito capaz, muito rica! E que um dia me buscaria daquele orfanato. De repente, aparece lá a Dona Irani (este era o lindo nome dela: Irani), tão diferente da mãe que eu ostentava com doces, amáveis (e talvez mentirosas palavras) para todos no internato! Eu só queria chorar um mar de lágrimas! Eu só queria morrer! Mas não morri!

Ela, sim, morreu poucos meses depois da visita, na cidade de Leopoldo de Bulhões (GO), a uns 50 quilômetros Silvânia, onde ficava o internato. Quando soube, talvez um ano depois, eu não sofri muito. O sofrimento foi chegando somente com o meu amadurecimento, depois dos 30 anos, quando comecei a parar de culpá-la pela minha miséria ao longo dos anos. Quando comecei a assumir, de fato, a minha própria vida com o que conquistei de bom e ruim, é que entendi o significado daquele dia. Hoje sei que foi muito bom vê-la, mesmo que já semi-morta, a se esforçar para se despedir de mim. Foi um gesto de muito amor! Não lembro nada do que dissemos um ao outro, mas a presença dela foi uma maneira de falar que era eu especial para ela. Eu era especial para alguém no mundo! Hoje, entre outras coisas, imagino que ela não tenha me visitado antes talvez pelo simples fato de não ter dinheiro para pagar uma passagem de ônibus, por exemplo! Naquele tempo, era comum pessoas, como minha mãe e seus irmãos, se deslocarem de uma cidade para outra a pé. Eu mesmo já fui com eles a algumas dessas viagens! Eram horas e, às vezes, dias sob o sol escaldante ou chuva fria! De qualquer forma, ela sabia que eu estava vivendo muito bem sob os cuidados dos padres, freiras e irmãos Maristas. Ela sabia que eu tinha todas as refeições necessárias à sobrevivência digna de uma pessoa a cada dia, um luxo que, com certeza, ela não possuía!

A vida profissional de uma prostituta dura tanto quanto a sua beleza e o viço de sua pele! E a fase de decadência de minha mãe começou e se acelerou à medida em que ela foi se viciando em álcool. Ela chegou a ser expulsa do bordel da Dona Tonica por causa da bebida. E aí sua vida piorou drasticamente! Ela nunca mais teve estabilidade. Vivia mudando de cabaré em cabaré! Era enxotada de uns, fugia de outros! O dinheiro que ganhava mal dava para pagar pessoas para cuidar de mim e de minha irmã, quatro anos mais nova, e que nasceu enquanto eu tinha sido adotado por uma família de pequenos agricultores no interior de Goiás. Depois que essa família me rejeitou e me devolveu para minha mãe, um longo inferno astral se abateu sobre minha mãe e, consequentemente, sobre as suas crias. Assim como eu, minha irmã também não tinha qualquer ajuda por parte de pai. Sequer soubemos os seus nomes! Hoje a Justiça brasileira obriga os homens a pagarem pensão alimentícia a seus filhos, basta que um exame de DNA comprove a paternidade. Mas naquela época, início dos anos 70 do século passado, a omissão e covardia masculinas eram completamente impunes. Ainda mais quando a mãe era uma prostituta!

Então, minha mãe tinha que bancar tudo sozinha! Às vezes, fico imaginando o pesadelo que deveria ser para ela ter que sustentar filhos sem nenhuma ajuda! Então, à medida que minha mãe ia decaindo na profissão, eu e minha irmã íamos sendo cuidados por gente mais pobre e despreparada ainda. Numa dessas casas eu fui estuprado por um pedófilo filho da mulher que minha mãe, tão sofridamente, pagava para ela supostamente cuidar de mim. Os pedófilos faziam a festa, já que naquela época, eu acho, que isso nem era crime! E se era, ninguém denunciava! Quanto mais miserável e barato era o lugar em que eu e minha irmã morávamos, mais ficávamos vulneráveis a maus tratos. Numa outra casa, minha irmã e eu passamos a ser violentamente espancados pela mulher paga para cuidar de nós. Sim, ela cuidava, mas com pauladas, varadas, sapatadas, chineladas e cintadas.

Por fim, fomos morar num bairro muito distante da região central de Anápolis, que deveria ser habitado apenas por pessoas com hanseníase, local apelidado de Vila dos Leprosos, onde permanecemos por um bom tempo no meio de pessoas com narizes, dedos, mãos e outros membros se desprendendo do corpo! Nessa época, as vítimas de hanseníase eram obrigadas a viver em isolamento. Por incrível que pareça, a vida neste lugar foi maravilhosa, pois tivemos um pouco de estabilidade e éramos muito bem alimentados e bem cuidados! Mesmo criancinha, aprendi a ter um respeito enorme por esses brasileiros vítimas da hanseníase. Acostumei-me tanto com a situação, que passei a conviver com naturalidade com aquelas pessoas em extremo desamparo! Este foi um episódio de minha vida que não considero sofrimento! Acho que foi até um privilégio conviver com tanta gente maravilhosa e com incrível capacidade de resiliência e de enfrentamento da vida! Não me lembro de ver nenhuma das vítimas da hanseníase triste por causa da doença em si. Tinham moradia e comida boa, e isso bastava para maioria deles. Também nunca tive medo de pegar a doença. Aliás, não sei como não peguei e não sei até hoje (com o Google e tudo) se criança pega esta doença. E nem quero saber! De qualquer forma, não vi nenhuma criança com hanseníase durante os meses em que morei com os doentes! Aprendi com eles que a natureza nos anestesia quando a dor é insuportável! Fisicamente, eles não sofriam enquanto seus membros caíam. Sou grato a todos eles pelo acolhimento e pelas lições de vida! Fui feliz!

Mais feliz fiquei ainda quando minha mãe apareceu no bairro dos doentes de hanseníase e disse que estava indo embora de Anápolis! Ela não disse que estava deixando a prostituição, mas isso me pareceu óbvio! Fomos, finalmente, embora da cidade onde nasci!

Hoje, quando reflito sobre os acontecimentos daquele dia em que minha mãe me visitou no internato onde morava com os padres, freiras e irmãos Maristas, me chama a atenção a lembrança que tenho dos seus olhos incrivelmente tristes, vermelhos e quase sem vida. Hoje eu reflito que naqueles tristes olhos vermelhos e pele excessivamente queimada pelo sol estava o rosto que mais me amou neste mundo! Ninguém jamais me amará como aqueles pés machucados e sujos! Eu lembro que ela me abraçou! Eu tentei fugir! Apesar da recusa, aquele foi o abraço mais frágil e amoroso que eu jamais vou experimentar ao longo da minha existência! Aquela era Dona Irani! Aquela foi para mim a mulher mais especial, mais batalhadora, mais forte, mais guerreira, mais poderosa, mais bonita, mais linda, mais cheirosa, mais rica, mais pura e mais angelical que eu jamais conheci! Naquele corpo, que diante de mim se apresentava fraco e já quase sem vida, eu passei longos e maravilhosos novos meses a sugar a essência do Universo! Todo ser humano é uma estrela viva! Mas as mulheres são estrelas mais brilhantes ainda! Os homens são como o Sol! Já as mulheres são Super-Novas que espalham a vida por todo o Universo! E para mim, a minha mãe, foi a estrela mais brilhante que pôde existir! Ah, Betelgeuse, como você é ínfima perto da Dona Irani!


Memórias de um menino que vivia num bordel
As muitas surras e a minha grande vingança

Quando digo, hoje, que o bordel de Dona Tunica era um lugar incrível é porque tenho principalmente recordações boas daquele local e daquele tempo!  Mas, é claro, a vida não era perfeita lá. É do Cabaré de Dona Tunica que trago uma lembrança de um dos espancamentos mais violentas que já sofri na vida.  E autora desta surra inesquecível foi minha própria mãe. Não lembro com exatidão a idade que tinha, mas suspeito que eram três ou, no máximo, quatro anos.

Foram muitos tapas, chutes, murros, cintadas, varadas e gritos. O que fiz para merecer tal surra? Eu quase fui atropelado por um fusca que surgiu em altíssima velocidade enquanto eu atravessava a rua para comprar doces no mercadinho em frente ao bordel. Hoje, no Brasil, existem leis que protegem as crianças de espancamentos e qualquer ato de violência que os pais venham a praticar contra os filhos, mas, naquela época, educar era sinônimo de espancar. E eu era educado assim. Tanto que, no dia do quase atropelamento, que minha mãe presenciou da calçada de frente ao bordel de Dona Tunica, eu fugi e me recusava a voltar para casa. Eu vi a expressão no rosto dela. Eu sabia que levaria uma surra terrível!

Mas, sorrateiramente, minha mãe foi atrás de mim, com palavras gentis e muito carinhosas e afirmações de que eu não apanharia, de “forma nenhuma”. E eu acreditei! Assim que ela colocou as mãos mim, as agressões começaram, tudo ainda no meio da rua. Fui apanhando até chegar no quarto em que morávamos, onde a minha situação só piorou! Depois, ainda fiquei de castigo sentado numa cadeira por horas a fio! Acho que o carro em cima de mim não faria tanto estrago! Como eu rezei para ter sido atropelado neste dia. Mas, infelizmente, não fui! Assim que aprendi a falar “mãe”, eu lembro que sempre chorava pronunciando esta palavra. Eu não deixei de amar a minha mãe! Mas depois desse dia, eu nunca mais chorei balbuciando a palavra “mãe”.

Aparentemente, acho que as surras levadas de minha mãe não me deixaram tão traumatizado assim! Até porque agressões piores vieram depois, quando fui morar com outras pessoas ao longo de minha infância nômade.  Geralmente tinha agressões, por exemplo, nas dezenas de casas de cuidadoras de crianças pelas quais passei, à medida em que crescia, já que os bordéis nos quais minha mãe morou, depois do da dona Tunica, não aceitavam a presença de crianças. A mulher da família de agricultores que me adotou, e que depois de um ano (mais ou menos) me devolveu para minha mãe, também me espancava severamente de vez em quando, geralmente com pedaços de pau. Nunca esqueci também uma surra dada por meu avô num período em que morei com ele numa fazenda de café em que ele era lavrador. Um menino do local, filho de outro lavrador, causou confusão comigo, e o pai dele reclamou com meu avô. A surra de varas de pé de café me deixou com marcas pelo corpo todo por vários dias. Mas acho que eu ainda não tinha aprendido o que era uma surra de verdade até chegar ao internato do Padre Lancísio, em Silvânia, Goiás, para onde fui enviado talvez aos sete ou oito anos. Lá também apanhei muito, especialmente em duas ocasiões – as duas aos 10 anos de idade - quando, enfurecido, um dos homens que era um dos cuidadores das crianças, me derrubou no chão e, descontroladamente, passou a me desferir murros e chutes, inclusive na cabeça.

Sei que, infelizmente, ainda guardo na alma algumas feridas por todas essas agressões, inclusive do ano em que passei como escravo numa casa de uma família branca de Goiânia. Mas não são as dores e o rancor o que prevalece em mim, mas a gratidão a Deus e ao Universo por ter sobrevivido a tanta fúria. Todas essas pessoas também foram respeitosas comigo na maioria do tempo em que convivi com elas! É a gratidão o que prevalece em mim. Se fosse o ódio, eu me destruiria.

Hoje, aos 52 anos de idade, vivo plenamente um período da minha existência que chamo de fase do perdão e da gratidão. Depois de anos em busca de culpados por todas as situações que acho que foram incrivelmente injustas, doloridas e trágicas em minha vida, cheguei à conclusão, lá pelos 30 anos, de que não há nenhum responsável por meus infortúnios. Eu me recuso a culpar qualquer pessoa. Se eu culpo alguém, eu me coloco no pior dos papéis: o de vítima. E eu não sou vítima! De ninguém! Nem do meu próprio ódio! Durante muito tempo eu só me concentrei nos aspectos negativos das coisas da vida. Mas, aos poucos, eu fui sendo amansando, domado, por mim mesmo, o que resultou numa mudança total de estratégia, pois o que prevalece na minha vida são vitórias e não derrotas.

E se eu não tivesse mudado, há muito eu já teria sucumbido, como tentei, por exemplo, fazer aos 19 anos de idade, quando joguei tudo que possuía no lixo e fui para o meio do mato, com uma corda, para me enforcar! Nesta época (depois de ter passado anos a limpar banheiros na casa de uma família rica na cidade de Goiânia) eu já tinha um emprego com um salário razoavelmente decente numa firma de consórcios de automóveis, e morava e comia com um certo conforto nunca antes experimentado por mim. Mesmo assim, eu sentia dores terríveis na alma! Às vezes, à noite, quando chegava em casa, eu apenas chorava! Às vezes, por horas a fio! Até adormecer! Eu não queria viver, eu não suportava viver, eu odiava viver! Eu odiava tudo o que me fez viver, inclusive minha mãe e o próprio Deus! Mas neste dia eu fui muito covarde! Depois de horas em cima de uma árvore, com um corda no pescoço, eu fui inepto para consumar o suicídio! “Então”, com toda a ênfase do mundo, eu disse para mim mesmo: “assuma a sua vida, mas assuma mesmo!”. Foi nesta hora que eu percebi que minha vida e minhas dores eram somente minhas e que ninguém se importaria se eu a jogasse fora ou não. Também percebi que não era vítima de ninguém! Então, a mudança começou! Aos poucos! Mas começou!

No outro dia, eu fui para o trabalho na firma de consórcios! Fui com a mesma roupa – um pouco suja – a única que sobrou, pois o caminhão de lixo já tinha levado tudo o que era meu, inclusive documentos pessoais. Eu não tive coragem de contar aos colegas o que realmente aconteceu. E menti para eles dizendo que todas as minhas coisas tinham sido furtadas por alguém que invadiu a minha casa! No dia seguinte, ao chegar ao trabalho novamente, meus colegas me surpreenderam com uma grande quantidade de roupas: todas novas! Eles recolheram dinheiro entre si e compraram lindas camisas, calças e até um par de sapatos! No escritório, parecia uma festa de aniversário! A vida nova começou! Foi o meu renascimento!

Voltei a estudar. No ano seguinte, eu fui aprovado no vestibular para o curso de Jornalismo da melhor e mais concorrida universidade pública de Goiás! Entre todas as profissões, só me interessava ser jornalista. Eu queria contar histórias das vidas das pessoas! Na minha visão, todo ser vivo, principalmente o humano – o que, para mim, é o que mais sofre – é um grande livro escrito sob o olhar atento das estrelas!

E foi olhando para as estrelas que grande parte da minha dor foi se dissipando! Ao aprender, com Carl Sagan, na série Cosmos, exibida na televisão nos anos 80, que todo o material que nos constitui foi jogado pelo espaço na explosão das gigantescas Supernovas. Então, eu conclui: “eu tenho biliões de anos! Eu tenho a idade do Big Bang!” Houve muito esforço para que eu estivesse aqui hoje! E, devagarinho, ao longo dos anos, muita da minha dor foi desaparecendo! Eu passei a honrar a minha vida! Tão preciosa! Feita pelas estrelas! Os choros ainda existem, mas não são mais predominantemente de ódio e sofrimento: são principalmente de agradecimento e deslumbramento! E esta é a fase do perdão e do agradecimento! Esta é a minha grande vingança! Eu me vingo ao agradecer por tudo de bom que acontece a mim ao mundo! Eu me vingo ao agradecer pela mãe que tive e pelas dificuldades que enfrentei. Eu me vingo ao agradecer por viver na mesma época que Chico Buarque e Madonna, e outros seres admiráveis por aí nas mais diversas áreas da vida humana! Eu me vingo ao não temer a morte, pois sei que apenas voltarei para a eternidade da qual sempre fiz parte! Eu me vingo ao agradecer porque vou morrer como uma criatura que buscou melhorar e que irei embora melhor do que quando era aquele bebê que veio ao mundo lá no bordel da Dona Tunica! Eu me vingo ao agradecer porque o ódio não me destruiu! Eu me vingo ao agradecer, que mesmo tendo feito doutorado e pós-doutorado, eu não deixei a pretensão e a soberba me fazer acreditar que sei alguma coisa dos mistérios da vida e da mente humanas ou do esplendoroso Universo! Eu me vingo ao fazer fotos incríveis de mim mesmo! Eu me vingo ao dizer que sou muito feliz, mesmo que por poucos momentos, como quase todo mundo, mas que sei que nesses momentos há sempre um toque do eterno! Eu me vingo ao agradecer por ter a melhor profissão do mundo: a de professor! Eu amo absolutamente os meus alunos!

Eu ainda choro, choro muito diante da dor de pessoas arrebatadas pelas mais diversas formas de miséria que nos atingem diariamente! Mas choro também ao ler livros e ver filmes românticos e novelas “açucaradas” brasileiras, mexicanas e portuguesas! Choro ao sentir o amor e o amor próprio, e eles existem mesmo! Choro pelos animais e pelas árvores e plantas, feitos do mesmo material estelar que os humanos, mas tratados por nós como se estivessem em situação de inferioridade! Choro pelo uso profano do nome de Deus! Choro ao lembrar que a água salgada que sai do meu olho pode ter estado já algum dia ao redor de um quasar ou de em buraco negro! Eu choro em agradecimento pelo Sol que, em muitas manhãs e em muitos finais de dia, suavemente acarecia a minha pela e a pinta de ouro! Eu choro por quase tudo! E quanto mais eu choro, mais eu me vingo! Eu nunca fui e nem sou vítima de nada! Eu sou apenas um filho de uma puta e das estrelas!


Memórias de um menino que vivia num bordel
Um bordel é um lugar incrível

Cabaré, puteiro, bordel, inferninho, casa da luz vermelha, zona do baixo meretrício, ou simplesmente, “zona”. Esses são alguns dos adjetivos que se usava (e acho ainda se usa) para se referir a casas de prostituição, como a que nasci, no centro da cidade de Anápolis, Goiás, no Centro-Oeste brasileiro.  Confesso que não sei mais se esse local, que era uma espécie de pequeno bairro, com alguns quarteirões, onde a prostituição feminina era liberada e tolerada, ainda existe, pois fui levado de Anápolis aos seis anos de idade e nunca mais voltei. O Brasil melhorou muito economicamente desde 1968, o ano que nasci, mas ainda é um país com milhões e milhões de miseráveis, as principais vítimas da prostituição.

Mas o que importa é que, na minha mente, os vários bordéis por onde minha mãe e eu moramos ainda existem, e são locais incríveis. São construções enormes, com longos corredores e vários quartos onde dezenas de trabalhadoras do sexo vivem e trabalham. A casa onde acho que realmente nasci, o bordel da Dona Tonica, que ficava numa rua próxima a uma caixa d’água enorme, era a maior delas. Na entrada, tinha um salão imenso, com vários sofás, mesas e cadeiras, onde se recebiam os clientes.  Quando escurecia, eu era colocado para dormir, e geralmente dormia. Mas houve situações em que vi, pelo menos por um pouco, o salão em pleno funcionamento.  Além disso, mesmo que as pessoas tentassem disfarçar, eu sempre ouvia, no dia seguinte, trechos de histórias do que tinha ocorrido em cada noite. As crianças são muito mais espertas do que os adultos imaginam.  

O salão do cabaré da Dona Tonica era um lugar onde a radiola (o aparelho de som da época) tocava canções sertanejas dançantes no volume máximo.  Havia luzes coloridas e piscantes, principalmente vermelhas.  E havia, é claro, a luz negra. Esta me fascinava absolutamente, porque ela deixava florescentes e brilhantes as roupas brancas das pessoas. Era mágico!  Os cheiros das mais variadas bebidas se uniam ao dos cigarros e ao dos inebriantes e fortes perfumes das damas.

E também, é claro, havia o odor dos perfumes baratos dos homens. Os rapazes também faziam questão de colocar as suas melhores roupas e águas de cheiro. O chapéu era um acessório bastante comum entre eles, a maioria jovens trabalhadores rurais da região rural de Anápolis, geralmente solteiros. Mas muitos casados também eram frequentadores assíduos do bordel da Dona Tonica. As mãos cheias de calos, provocados pelas enxadas e foices, e a pele embrutecida pelo excesso de sol, eram o comprovante de que se tratava de seres respeitáveis e que queriam apenas um pouco de felicidade em suas vidas sofridas de lavradores explorados por um trabalho quase medieval e com aspectos de escravidão. Se há vilões na prostituição, acho que não são eles. Teve um tempo em que eu os odiava. Mas com o desenrolar dos anos (muitos anos!), deixei o meu desprezo de lado e passei a respeitar esses homens, talvez pelo simples motivo que, entre eles, há um que é o meu pai. Eu nunca saberei qual, e nunca soube se minha mãe também saberia apontá-lo. Mas gosto de imaginar que ele era um homem esforçado e que trago muitas das suas características, pois eu também já enfrentei muitos trabalhos estafantes e próximos da escravidão.

Logo que esses lavradores e vaqueiros entravam no salão do cabaré de Dona Tonica, com suas botas e botinas pesadas e com os bolsos cheios de dinheiro, já eram abordados com palavras e gestos de acolhimento e sedução. Eles escolhiam as mulheres que mais lhes agradavam, dançavam, bebiam, gritavam, pagavam tudo adiantado e iam para os quartos se divertirem, tudo com o tempo cronometrado! Quem quisesse passar a noite toda com uma dama tinha que pagar uma pequena fortuna para a Dona Tonica. A dona do bordel sempre estimulava as mulheres a induzirem os homens a beber o máximo possível, de preferências as bebidas mais caras, como o whisky, vendido em pequenas e caríssimas doses. Mas Dona Tonica não admitia excessos e escândalos. Nem por parte das mulheres e nem por parte dos homens. Quem se excedesse era expulso da casa, sem possibilidade de retorno. Um bordel é tudo menos um lugar bagunçado e sem regras! As damas não podiam roubar os cavalheiros, e eles não podiam ser violentos com elas.  Com pulsos firmes, Dona Tonica mantinha a paz no local. Até mesmo policiais militares e soldados do exército e aeronáutica, também grandes frequentadores do local, não ousavam contrariar Dona Tonica. Quem a visse durante o dia não acreditaria que aquela mulher, de mais ou menos 50 anos e aparência frágil, era detentora de tanto poder. “Ela falou, água parou”, dizia-se na época. Ela tinha um enorme carinho por mim. “Fábio, vai comprar carne para o biscoito”, bradava ela.  O biscoito era o gatinho de estimação dela, “o único amor de sua vida”.  Se a carne não fosse fresca e moída na hora, ela me fazia devolvê-la para o homem do açougue. Eu ficava feliz quando era convocado por Dona Tonica, pois sempre ganhava uma moeda com a qual comprava alguma guloseima no mercadinho, principalmente o doce de abóbora em formato de coração. Ah, quanta saudade desse doce! Um dia, minha mãe e ela ficaram desesperadas porque eu engoli uma das moedas que Dona Tonica me deu. Felizmente não morri, pois tinha muito a aprender sobre o bordel e sobre a vida. Onde andará Dona Tonica? No céu, é claro! Se houver justiça no pós-vida, toda prostituta vai direto para lá, sem a menor possibilidade de passar pelo purgatório!

As prostitutas são pessoas completamente comuns. O trabalho com o sexo não as torna melhores nem piores do que os outros seres humanos. Sofrem e choram, tem grandes e pequenas alegrias, amam e odeiam como qualquer pessoa “respeitável” da sociedade, e acreditam que o futuro vai ser sempre melhor, mas sem príncipes encantados, afinal muitas caíram na prostituição por causa dessa ilusão. Acho que prostitutas são um pouco melhores do que os outros mortais talvez por terem menos preconceitos. Não julgam muito as pessoas, já que são julgadas ao extremo. Ninguém escolhe ser puta! Uso a palavra “puta” não para diminuí-las, mas para engrandecê-las! Acho que elas têm um poder sobre os homens (e sobre a vida) que as mulheres comuns jamais experimentarão. Elas, sim, são donas de suas vaginas! São Marias Madalenas, mas geralmente sem arrependimentos!

Cada uma tem uma história dolorida que as empurraram para os cabarés onde chegaram. No caso da minha mãe, por exemplo, o próprio pai dela a expulsou de casa ainda muito jovem, quando ele soube que ela “se perdeu”. Amo esse expressão, que significa “perdeu a virgindade fora do casamento”, porque, para mim, ela denota exatamente o contrário. Acho que quem se perdeu, na verdade, se encontrou! Descobriu a força mais poderosa da vida, que é a própria vida a manifestar sua ânsia de perpetuação. Descobriu também o poder sobre os homens, algo inadmissível desde que sociedade tornou-se patriarcal. Talvez por isso, tanta humilhação às mulheres que quebram as monótonas regras do “casamento puro”.  

Acho que nós, homens, empurramos as mulheres para a prostituição não só por vingança pelo poder que possuem, mas principalmente porque a vida sem o gozo oferecido pelas prostitutas é muito entediante e sem tempero! Acho que, sem elas, a maioria das relações “abençoadas pelas igrejas”, seriam insuportáveis. Aquele papo de “profissão mais antiga do mundo” talvez devesse ser mudado para “profissão mais essencial do mundo”.

A minha vida no bordel foi muito dolorida! A vida da minha mãe foi mais sofrida ainda! Ser colocada na prostituição pela própria família é algo nefasto demais!  Não desejaria esse tipo de vida para outras pessoas! Mas se nascesse mil vezes, mil vezes escolheria nascer no mesmo bordel da Dona Tonica! Mil vezes escolheria ser filho de uma puta, e com muito orgulho! A vida que tive na infância e que se resvala, absolutamente, no ser que hoje sou, é, para mim a melhor vida de todas! Eu tenho orgulho da minha jornada pela existência, principalmente do início!

Assim como no comovente filme do diretor italiano Roberto Benigni, A vida é bela (1997), em que um prisioneiro judeu de um campo de concentração nazista cria, durante a Segunda Guerra Mundial, um mundo ilusório para tentar proteger o seu pequeno filho (também prisioneiro) da enorme tragédia que viviam, minha mãe também se esforçava para criar uma vida de faz de conta, para que eu não percebesse que vivia num bordel. Ela jamais pronunciou a palavra cabaré ou sinônimos para mim! Ela jamais se disse prostituta!

Oh, mãe! Eu sempre soube de tudo! Acho que desde o momento em que minha consciência se despertou para a vida!

E tudo bem! Eu nasci num lugar incrível! Onde mais eu teria tantas luzes coloridas? E tantos espaços inusitados para brincar com meus balões? Onde eu teria a Dona Tonica para me dar moedas? Onde eu teria tantos amiguinhos para brincar? Onde mais eu teria uma mãe tão poderosa como você?


Memórias de um menino que vivia num bordel
O pior de todos os dias

Dizem que nossas memórias, principalmente as da infância, são quase todas meio ficcionais. Como desejaria que isso fosse verdade! Acho que os principais defensores desta idéia são aquelas pessoas que tiveram, nos primeiros anos de suas vidas, uma forte rede de proteção, a ponto de terem passado os primeiros anos de suas vidas a brincar prá lá e pra cá e a experimentar a maldade e o desamparo apenas de bruxas e monstros que povoam os contos de fada e filmes da televisão e cinema. Gostaria, por exemplo, que a falta do nome de um pai em minha certidão de nascimento fosse apenas uma “ficção”! Desejaria que a ausência absoluta desse pai fosse apenas um “jogo de faz de conta”! Gostaria que as marcas de espancamentos brutais, estupros (ah, foram tantos!) e outras violências mil que sofri por parte de dezenas de pessoas, ao longo dos meus primeiros anos neste mundo, fossem apenas “imaginárias”! Gostaria que os dias de fome pelos quais passei – e foram muitos, tivessem sido apenas “simples pesadelos” de um menino que gostava de dormir no escuro.

Ah, como eu desejaria não ter passado um ano como escravo (isso mesmo, escravo!) na casa de uma família branca de classe média na cidade de Goiânia, Goiás! Isso nos últimos anos da década de 1970 (que não me lembro qual), quase 100 anos do fim da escravidão no Brasil. Neste caso, será que foi ficção que, numa bela manhã de sol, um lindo casal chegou ao orfanato onde morava, havia dois anos, e insistiu para me adotar e, que, assim que cheguei na casa deles, fui transformado em empregado doméstico? Eu não tinha mais do que oito ou nove anos! Esta família de escravocratas só me devolveu ao orfanato porque eu passei a me auto-mutilar com fortes mordidas no braço, e eles, ao perceberem que não teriam um “escravinho” por muito mais tempo, me levaram de volta ao internato. Ao lembrar dessas situações, elas não me parecem nada ficcionais, senhores discípulos de Freud! Algumas fortes marcas, físicas e na alma, subsistem! Mas eu não me concentro nelas!

Só recordo das situações negativas que atravessei quando faço enorme esforço e, se fosse possível, não me lembraria de forma nenhuma. Ah, não lembraria mesmo! Como estratégia de sobrevivência, aprendi que focar em coisas negativas faz com que essas coisas se tornem mais monstruosas do que são. Se minha vida teve muitas tragédias, ela também teve grandes milagres e foram eles que contribuíram para que eu crescesse saudável e feliz! E a minha felicidade vem da gratidão por Deus (ah, quantas vezes eu fui resgatado do vale da sombra a morte!) e todo esse infinito Universo, que me criaram, me protegeram e que fizeram com que o que prevalecesse em mim fosse a luz e não as trevas! É por isso que sou absolutamente grato! Grato por tudo! Pelo bem e pelo mal (que me fez mais forte e orgulhoso da minha trajetória)! Sou grato especialmente pela mãe que tive! Se minha trajetória foi difícil, a dela deve ter sido mais ainda! Eu sei muito pouco da vida dela! Há pessoas espiritualistas que dizem que escolhemos os nossos pais. Gosto de acreditar nisso! E mesmo que não tenha escolhido a mãe que tive, tenho plena consciência, já há alguns anos, que ela foi a melhor mãe que eu poderia ter tido. Eu a escolheria milhares de vezes! Mas eu tive outra mãe ao longo da vida, e é dela que vou falar agora.

Quando morava no bordel com minha verdadeira mãe, na cidade de Anápolis, Goiás, época em eu tinha provavelmente uns quatro ou cinco anos, ela me entregou para a adoção. Naquele tempo, as adoções não passavam pela aprovação do Judiciário, e os pais “davam” os filhos para quem quisessem. Então, eu fui “dado” para um casal de agricultores e seus quatro filhos, que viviam numa pequena propriedade rural no município de Silvânia, Goiás. Eles tinham três meninas e um menino, e queriam mais um garoto, para brincar com o menino, já que na época não era muito aceitável um menino brincar com garotas! Eu acho que morei com essa família por mais ou menos um ano. Eu me adaptei de imediato a eles. Passei a chamar a mulher (dona Estelita) de mãe e, o homem (senhor José Rodrigues), de pai. E as crianças (Guilherme, Márcia, Marlene e Marcilene), para mim, tornaram-se meus irmãos. Eu amava todo mundo e eles eram, para mim, a família perfeita. Eu amava viver com eles no meio das árvores, rios, vacas, cavalos, noites estreladas (desde muito pequeno gosto de contemplar as estrelas) e todas as belezas que a vida numa fazenda propicia. Era maravilhoso pertencer a uma família!

Mas, de repente, num belo dia, eles simplesmente me devolveram para a minha verdadeira mãe! Inacreditável! Essa foi uma das situações mais tristes e doloridas da minha vida. Recordo que, quando fui entregue à minha mãe, eu comecei a chorar e não parei mais. Acho que chorei um dia inteiro, e, se parei, foi por exaustão. A minha vontade era de chorar para sempre, até morrer! Sim, acho que foi o dia mais triste da minha vida! Não consigo lembrar de ter atravessado um luto tão dolorido em toda a minha existência. Tempos depois soube o motivo da minha devolução: os meus pais adotivos não aceitaram o fato de eu gostar de brincar também com as meninas! Já adulto, soube que o meu irmão adotivo, o Guilherme, aos 18 anos, foi assassinado em um conflito de terras, quando a família dele mudou de Goiás para o Pará. Quando era estudante de graduação, no curso de jornalismo da Universidade Federal de Goiás, uma pessoa da cidade de Silvânia soube da minha história e disse que os meus ex-pais adotivos tinham um grande pesar pelo que fizeram e que queriam, muito, entrar em contato comigo! Mas eu recusei, e recuso qualquer aproximação! Acho que tenho esse direito! Não é que não os perdôo! É que tenho respeito pelas lágrimas que derramei durante dias após a minha devolução. A sensação que tenho é que não foi justo! Não foi justo mesmo!

Apesar da dor imensa que a rejeição por parte dessa família me causou, hoje percebo que talvez tenha sido melhor eu retornar para a minha mãe! Lá no fundo, eu tenho mais orgulho de ter vivido num bordel e de ser o “filho de uma puta” do que ter vivido no seio de uma família conservadora. Se fosse hoje, eu não derramaria nenhuma lágrima por causa do meu retorno para a minha verdadeira mãe! Ah, Se fosse hoje!


Memórias de um menino que vivia num bordel
O melhor dia de minha vida (2.ª parte)

O despertar, na manhã seguinte, foi incrível. Um homem, moreno baixo e de voz forte, gritava e batia palmas. “Acorda, garotada! Rápido! Vocês só têm uns 10 minutos! Todo mundo escovando os dentes... e rápido!” Assim, pelo menos uns 50 meninos com cara de sono, aos poucos e preguiçosamente, se levantavam! Lentamente, se dirigiam ao banheiro com suas escovas de dente. Eram dezenas de pias e chuveiros com água fria. Imóvel, eu apenas olhava tudo aquilo com estupefação. De repente, aquele homem olhou para mim e gritou bem alto: “você que é Fábio?” Assustado com tantos olhares voltados para mim, eu apenas balancei a cabeça num gesto afirmativo. “Vá escovar os dentes, menino! Rápido! O que você está esperando?” Timidamente, eu respondi que não tinha escova de dente. Então, ele me chamou até ele e abriu um armário, de onde retirou um sabonete, uma toalha, um dentefrício (era assim que chamávamos o creme dental naquela época; às vezes falávamos apenas pasta) e uma escova de dentes. “Cuida bem deste material. Se perder alguma coisa você vai ficar de castigo! Ouviu! Agora vai escovar os dentes e limpar essa cara! Rápido!”

Eu não lembro de ter tido uma escova de dentes antes (nem mesmo no período quando fui adotado por uma família de agricultores, algo que contarei mais à frente). Eu mal coloquei a escova na boca e o monitor, o qual chamávamos de assistente, bradou: “todo mundo em fila indiana, rápido! Você também, moleque”, disse ele, se referindo a mim. E, em fila, e em silêncio, fomos para o refeitório, onde foi designado um lugar para mim numa das dezenas de mesas. Lá encontramos outra fila com uns 40 meninos. Eles dormiam em outro dormitório e, por serem mais velhos que os garotos do meu dormitório, eram chamados de “maiores”. Era assim que funcionava: os menores quando iam crescendo, mudavam para o dormitório dos maiores.

O café da manhã era constituído de um pão com manteiga e um copo de leite. Eu gostei muito daquela que era apenas a primeira de quatro refeições que tínhamos ao longo do dia. Após o café da manhã, éramos conduzidos, sempre em filas, para as salas de aula. E eu, como disse que já tinha estudado antes, quando morei com a família de agricultores, então, em vez de entrar no pré-primário, fui designado para a primeira série. A professora era uma freira que não usava hábito (aquela roupa típica de freira) chamada de Maria José. Ela era considerada uma professora muito brava, pois dava palmatórias com uma enorme régua de madeira nos alunos que faziam bagunça durante a aula. Eu gostava dela. Ela jamais me agrediu, pois eu era excelente aluno e sempre tirava as melhores notas.  Estar naquele internato, chamado na época de Aprendizado Agrícola São José, foi maravilhoso demais para mim, pois, além de comer, com regularidade, refeições deliciosas e balanceadas, algo que não acontecia quando morava com minha mãe, eu ainda fazia a coisa que mais amava na vida: estudar.

 Como sou grato por ter ido morar naquele internato. É tanta gratidão que não consigo expressar em palavras. E agora, enquanto escrevo estas lembranças, lágrimas escorrem dos meus olhos. Essas lágrimas, mais do que palavras, dão uma idéia da enorme gratidão que tenho aos Céus, e aos anjos que sempre me guiaram, por terem me levado para aquele lugar. Eu não consigo nem imaginar o que teria acontecido comigo se não tivesse ido para lá. Obrigado Deus! Obrigado Universo! Obrigado Padre Lancísio! Obrigado Dona Leontina!


Eu amo Jane Fonda!

Ao navegar pela rede social Instagram, deparei-me com uma foto da atriz e ativista norte-americana Jane Fonda, algemada e conduzida pela polícia norte-americana. Fiquei um pouco chocado e fui ver o restante da informação.  Tratava-se já da segunda prisão da atriz, por fazer protestos em frente ao Capitólio, edifício onde funciona o Congresso dos Estados Unidos, em Washington(D.C.); estranhamente, um prédio público onde não se permitem manifestações. Inspirada pela adolescente sueca Greta Thunberg, Jane Fonda tentava chamar a atenção contra a destruição do meio ambiente. Eu comentei a foto: “I just love her”.  Imediatamente, alguém com um perfil republicano, perguntou-me, em tom de sarcasmo e ironia: “Só por curiosidade, por que você a ama, mesmo?” Sem querer polemizar muito, eu respondi: “o amor, assim como o ódio, não tem muita explicação lógica. Eu simplesmente a amo”. Mas motivos não faltam pela minha grande admiração por Jane Fonda.

Ultimamente, o meu amor por ela tem sido mais em virtude da sua participação na série da Netflix Grace e Frankie. Esta série, lançada em 2015 e que está na sexta temporada, é uma das pouquíssimas dedicadas ao público sênior. Nela, Jane, lindíssima aos 81 anos, mostra que a velhice, sem eufemismo nenhum, pode, sim, ser a melhor fase da vida de um ser humano. Assim como faz fora das telas, Jane vive Grace, uma mulher ativista por uma vida plena. A separação do marido, vivido por Martin Sheen – cujo personagem se assume gay aos 75 anos e se casa com outro homem – é a oportunidade que ela tem de riscar todo o tipo de hipocrisia de sua vida.

Grace, que antes da aposentadoria era uma implacável mulher de negócios na área de cosméticos, faz renascer seu espírito de empresária ao lançar um vibrador desenhado especialmente para mulheres mais velhas. Sim, as mulheres se masturbam, inclusive as mais velhas!  Grace adora o seu consolo anatômico, mas ela quer mais. Ela quer ser amada por um homem de verdade. É dificílimo de encontrar, mas ela prefere morrer tentando.

Ao lado da amiga Frankie, vivida pela maravilhosa Lily Tomlin, a irreverente Grace vive situações típicas de quem está envelhecendo e que se defronta com uma sociedade que negligencia e abomina a velhice. Por trás de cada risada, a série discute, algum drama bastante real daquilo que, eufemisticamente, chamamos no Brasil de terceira idade ou “a melhor idade”. Com Grace e Frankie, a velhice é realmente a melhor idade! E quem está a envelhecer, como é o meu caso, perde grande parte do medo de enfrentar esta fase que pode, sim, ser a melhor da vida!

Na década de 1980, Jane Fonda destacava-se pelos seus vídeos de ginástica para mulheres balzaquianas (na faixa dos 30 anos). Tanta malhação talvez tenha sido o motivo de ela chegar à sua oitava década de vida esbanjando saúde, beleza e consciência de cidadã. “Talvez passe o meu aniversário de 82 anos na cadeia”, disse ela, no final de 2019, para um programa jornalístico da televisão brasileira, ao ressaltar que sua militância em defesa do planeta Terra só está começando. Nos anos 60, quando era considerada uma das mulheres mais sexy do planeta, Jane chegou a ser declarada inimiga pública dos Estados Unidos, por causa de seus insistentes protestos contra a Guerra do Vietnã. No dia 4 de janeiro de 2020, lá estava Jane novamente, começando o Ano Novo em frente ao Capitólio, a protestar contra o ataque inconseqüente de Donald Trump ao general iraniano Qasem Soleimani. “Não queremos mais guerras!”, gritava ela, sob o frio de zero grau, acompanhada de uma multidão entusiasmada. Assim como inspirou milhares de pessoas a cuidarem do corpo nos anos 80 do século passado, hoje, Jane Fonda, na vida real e na ficção, nos provoca a envelhecermos com prazer, dignidade, consciência de cidadania e responsabilidade com o planeta. E, é claro, com muito botox no rosto!

Estes são apenas alguns dos motivos que fizeram com que eu declarasse, no Instagram, o meu respeito e o meu amor por Jane Fonda. Numa época em que governantes racistas, mentirosos, misóginos, homofóbicos e inimigos do planeta Terra são eleitos, inacreditavelmente, pelo voto direto, em países como o Brasil e os Estados Unidos, a militância de Jane Fonda é uma boa lembrança de que o mundo é habitado também por pessoas contrárias à destruição e ao apocalipse. O planeta não é só dos haters (pessoas que só espalham o ódio)! Inspirada pela menina Greta Thunberg, a nova fase de militância de Jane Fonda é a prova de que as gerações mais velhas não são compostas apenas de gente indiferente, omissa e preconceituosa. Nossas rugas e nossos cabelos brancos não destruíram a nossa capacidade de nos indignar. Obrigado Jane Fonda por nos inspirar! I just love you!


Memórias de um menino que vivia num bordel
Capítulo 1 - O melhor dia de minha vida

Somente nos últimos meses, depois de mais 45 anos do ocorrido, é que eu percebi que aquele foi o dia mais importante de minha vida. Foi o dia que definiu o que eu sou hoje e o dia no qual eu me livrei de uma espécie de maldição que sempre rondou a família da qual eu faço parte. Depois de meses a implorar ao padre Lancísio que me levasse para viver no orfanato do qual ele era diretor, finalmente, Dona Leontina teve êxito em sua insistente demanda. “Padre, esse menino não pode continuar a viver no meio destes bêbados. Logo estará bebendo pinga também!”. 

Dona Leontina correu até a praça da pequena cidade de Leopoldo de Bulhões, onde minha mãe e seis de seus irmãos acampavam, pois não tinham casa, nem mesmo das mais pobres, e bradou: “O padre vai levar o menino hoje. Cadê as roupas dele?” Minha mãe, meio alcoolizada, não apresentou nenhuma resistência. Rapidamente, esvaziou um saco de pão, e colocou uma camiseta, um shortinho e uma calça boca de sino feita em tergal azul.

Não lembro de nenhuma palavra ou gesto de despedida. Dona Leontina, muito ofegante, saiu correndo pela praça e alcançou o padre já dentro de sua Kombi branca, um pouco impaciente com a suposta demora. Já era noite, ele tinha que voltar para a cidade de Silvânia, onde ficava o internato onde eu iria passar os próximos sete anos de minha vida. “Ele só tem isso de roupa?”, perguntou o padre para Dona Leontina ao apontar para a minha pequena mala: o saco de pão. “Ele é pobre, padre!”.

Dona Leontina afastou-se do veículo e o padre acelerou o motor, e lá fomos nós rumo ao Aprendizado Agrícola São José. Eu nunca mais veria Dona Leontina novamente. Eu nunca mais teria a chance de agradecê-la pessoalmente. Certa vez, aos 15 anos, quando saí do internato e fui morar na capital do Estado de Goiás, Goiânia, eu fui a Leopoldo de Bulhões para dizer a ela de minha gratidão. Mas já era tarde demais. Dona Leontina já havia morrido fazia alguns anos.

Quando a conheci, ela já era bastante idosa. Talvez estivesse na faixa dos 70 anos. Ela era branca, baixinha e andava com uma bengala. Mesmo assim caminhava com agilidade, quando era necessário. Nunca vou esquecer o quanto sua casa, apesar de pequena, era linda. O que mais me chamava a atenção era o quintal enorme e com várias árvores frutíferas. Havia mangueiras, bananeiras, jabuticabeiras, pés de laranja e mixirica, entre outras plantas com belas flores. Outra coisa que me chamava a atenção em sua casa era o presépio enorme que montava na época de Natal. Tudo o que era colorido e brilhava ela colocava como enfeite, extremamente católica, ela jamais perdia uma missa. E foi à caminho da igreja que ele me conheceu ali na praça onde minha mãe e seus irmãos bêbados passavam a maior parte do tempo. Sou eternamente grato a senhora, Dona Leontina!

Em relação à minha mãe, eu ainda a veria uma única vez. Quatro anos depois de eu ter sido levado para o internato, ela lá apareceu para fazer-me uma visita. Foi uma situação muito constrangedora, pois eu corri dela. Não queria vê-la de forma nenhuma. Ela estava esfarrapada, desdentada e parecia bêbada e doente.

 Ainda sofro pela atitude que tive! Somente muitos anos mais tarde, percebi que foi uma visita de despedida, pois ela morreu meses depois, em conseqüência do alcoolismo. Aquela senhora que apareceu de surpresa no internato para visitar-me não correspondia em nada à mãe idealizada que vivia em minha cabeça. Se eu pudesse voltar no tempo, em vez de correr dela, eu a abraçaria, beijaria e diria da minha gratidão por ser filho dela. Falaria do quanto ela era linda e que, entre todas as mulheres da Terra, eu a escolheria, infinitas vezes, para ser a minha mãe. Dona Irani foi uma alcoólatra e uma prostituta, mas, para mim, foi a mulher mais honrada que já viveu! Ela apenas sucumbiu à crueldade do mundo, principalmente com as mulheres.


Memórias de uma orquídea que foi jogada no lixo
Fábio d'Abadia de Sousa

“Da vida eu tive o melhor e pior”, conforme dizem algumas orquídeas e pessoas ao fazerem um balanço de suas vidas.  Mas, além do pior e do melhor, eu tive o lixo.  Não existe um adjetivo para descrever a sensação de ser jogada lixo. É o pior do pior, mas é o melhor do melhor. Eu fiquei uma semana no lixo, com as raízes expostas ao sol e com as folhas misturadas com fraldas sujas e restos de comida. No primeiro dia, eu só rezeva para morrer. Mas, apesar de tanta ânsia pela morte, eu não morri. Com o passar do tempo, no entanto, eu deixei de lutar contra a dor de estar no lixo, e eu fui descobrindo a maravilhosa e libertadora sensação de não ter absolutamente nada a perder.

É como nadar entre os peixes coloridos dos corais das ilhas do Caribe e voar entre as aves e coloridas borboletas e por entre as estrelas, tudo ao mesmo tempo.  É como romper todas as fronteiras que eu acreditava existir entre as coisas: o dia se mistura com a noite, o mar com a terra, o amor com o ódio, as pessoas viram árvores e as plantas viram pessoas, tigres e sardinhas. Então, eu descobri algo que acho que seria aquilo que as orquídeas e as pessoas chamam de essência ou sentido da existência. Mas antes de falar disso, quero contar o que acreditava ter sido o melhor e o pior da minha vida.

Pelo o que eu me lembro, tudo começou na maravilhosa cidade de Faro, no Algarve, Portugal, um dos lugares mais ensolarados e lindos da Europa e que é o berço de uma civilização humana de mais de três mil anos.  Fenícios, romanos, árabes, lusitanos são alguns dos povos que originaram a população que hoje vive nesta região.  Eu amava o clima do Algarve, para mim, até então, o melhor do mundo. Antes de ter sido dada de presente a uma noiva por seu pretendente apaixonado, eu acreditava que o melhor da minha vida era estar no viveiro com milhares de outras orquídeas.  Mas eu sempre pressenti que a minha vida tinha que ter outros propósitos, como, por exemplo, fazer outros seres felizes. Um dia, eu fui colocada num caminhão junto com outras irmãs, e fui enviada para uma loja de flores no centro da cidade.

Muitas das pessoas que passavam na calçada em frente à vitrine onde eu fui colocada, às vezes, paravam e ficavam a me admirar! Como eu ficava vaidosa! Nossa! Eu não sabia que era tão bonita assim!  “Obrigada, obrigadinha!”, dizia eu para todo mundo! Até que eu dia, um homem parou por mais de meia hora em frente à vitrine! Eu cheguei a ficar envergonhada com tanta admiração! Então, ele entrou, chamou a vendedora, e disse: “É a flor mais linda que já vi em minha vida! Vou levá-la para a minha noiva!” Nossa, o termômetro que mede o calor da minha vaidade quase explodiu! Eu, além de linda, era um símbolo de amor, o sentimento mais nobre entre os humanos! Quando a noiva me recebeu de presente, lágrimas desceram de seus lindos olhos castanhos! E também, é claro, eu fiquei emocionada, pois não sabia que era capaz de provocar lágrimas em humanos!

Duas semanas de pura felicidade se passaram. Então, numa manhã fria e nublada, a minha dona chegou até mim chorando copiosamente! Era um choro estranho, exagerado! Fiquei com medo! ”Aquele monstro, que jurou me amar pelo resto da minha vida, me traiu, e o pior: com um homem! Eu vou matá-lo!” De repente, ela avançou sobre o vazo onde eu morava e me atirou pela janela da sala de estar do apartamento, que ficava no quarto andar do prédio. Eu caí, de cabeça para baixo, a uns sete metros do edifício, exatamente, num monte de lixo que ficava na calçada, em frente a um terreno abandonado!  Cacos do meu vazo chegaram a atingir um gato preto que comia restos de comida chinesa que estava espalhada no local! O meu choque foi imenso! Comecei a gritar por ajuda às pessoas que passavam  prá lá e prá cá! “Socorro! Eu sou uma orquídea linda! Alguém me ajude, por favor! Eu sou bonita! Olhem para mim, por favor!” Ninguém olhou. Eu continuei a gritar: “Socorro! Socorro!”

Foi inútil. Ninguém me ajudou! De repente, ao cair da noite, um senhor idoso se aproximou com seu lindo cachorro da raça São Bernardo! “Graças a Deus! Serei resgatada!” Mas ele nem mesmo me viu! Para piorar, o cachorro, enorme, urinou em cima do pouco que restou de minhas pétalas! “As minhas folhas ficaram quase intactas, mas as flores praticamente não existiam mais! Meu Deus! Como eu fiquei feia e fedorenta!” Eu chorei a noite toda! Com o raiar do sol, renovaram-se minhas esperanças de ser resgatada por alguém. Centenas de pessoas passaram em frente a mim, mas ninguém olhava na minha direção. E assim foram os meus próximos seis dias. Até que no sétimo dia, quando eu já começava a morrer, pois minhas raízes estavam expostas ao sol, um senhor negro parou em frente a mim e começou a conversar comigo.

“Meu Deus, o que você está fazendo aí?” Perguntou ele, com um sotaque brasileiro. Ele me pegou, com todo o carinho, juntou o que foi possível da terra que me sustentava e colocou em um saco plástico que ele colheu ali perto. Então, eu desmaiei. Quando acordei, estava debaixo de uma torneira, em um vazo novo e com terra nova. Eu bebia daquela água com todo o desespero de quem voltava da morte!

Os dias foram passando e eu comecei a ficar com minhas folhas brilhantes novamente. Então, depois de uma semana, vi o meu dono arrumando as suas malas, pois ele iria retornar para o Brasil, já que tinha concluído o curso que fora fazer na Universidade do Algarve. Ele pegou-me do jeito que eu estava, com vazo e tudo, enrolou-me com jornal e colocou-me dentro de um pequeno balde, o qual tapou e lacrou com fita adesiva. De repente, fez-se uma escuridão total, mas eu ainda o ouvi dizer: “Você vai para o Brasil comigo!” Eu perdi a noção do tempo, mas foram mais de dois dias naquela situação de breu, confusão e barulho ensurdecedor de motor de avião.  Eu pensei fazer um escândalo na alfândega para avisar que uma cidadã portuguesa estava sendo contrabandeada para o Brasil. Mas desisti rapidamente desta idéia. No meu íntimo, eu tinha certeza que estava sendo levada para algum lugar onde eu seria muito feliz! E não é que minha intuição estava certa?

Quando voltei a ver a luz novamente, eu estava numa varanda, no trigésimo andar de um prédio lindo, na cidade de Goiânia, no Centro-Oeste brasileiro, onde o sol brilhava esplendorasamente.  Eu fui saldada por várias outras plantas que falavam com sotaque brasileiro. Uma espada de São Jorge logo me perguntou: “É verdade que você veio de Portugal? Todas nós aqui somos plantas que o nosso dono catou no lixo! Você também foi catada no lixo? Exausta, mas deslumbrada, eu respondi: “Sim! Eu fui catada no lixo! Ainda bem que fui jogada no lixo! Foi a melhor que já me aconteceu!”

Agora que vocês entenderam o que foi o melhor e o pior da minha vida, volto às minhas reflexões sobre as epifanias que tive a partir da minha experiência de ter sido jogada fora. Por exemplo, foi numa noite estrelada, enquanto jazia ao lado de restos de comida apodrecida, que eu entendi aquilo que Edith Piaf canta na canção Je ne regrette rien.  Quando ela diz que tanto o bem quanto o mal são, para ela, a mesma coisa, eu percebi que talvez ela tenha querido dizer que tanto o bem quanto o mal são essenciais ao nosso crescimento. Talvez o mal seja mais importante ainda. É ele que nos torna fortes. No monte de lixo, eu perdi tudo, mas principalmente todos os medos que tinha, inclusive o de não agradar aos outros depois de me esforçar muito para atender às suas expectativas. As expectativas alheias não são problemas meus. Eu ainda quero agradar aos seres com os quais eu convivo, mas não sofro se não tiver êxito nisso.

Eu deixei no lixo os dois maiores medos que podemos ter: o do futuro e o da morte.  Não tenho mais medo do futuro porque sei que haverá o bem e o mal em cada esquina que cruzar, e ambos serão bem-vindos para o meu crescimento. Não tenho mais medo da morte porque sei que não morrerei.  Nada nem ninguém - nem mesmos os deuses chicoteadores de orquídeas e pessoas incrédulas -, vão conseguir apagar o que foi a minha existência e o orgulho que eu tive dela! Isso está registrado em algum lugar do espaço-tempo, e pronto! Isso é mais dos que suficiente para satisfazer o meu desejo de eternidade. Enquanto começava a me decompor naquele monte de lixo, em vez de dor, eu sentia o Universo me abraçando através dos braços da mãe Terra. Foi o abraço mais maravilhoso que já experimentei!

Sim, cheguei a lamentar não ter morrido! Mas não lamento ter sobrevivido! Agora vejo tudo com mais clareza e só tenho um único medo: o de ter medo! Acho que o sentido da minha vida é esse: não ter medo! Se não tivesse sobrevivido, eu não poderia contar a minha história! E eu tenho muito orgulho dela! Hoje me sinto conectada a tudo e a todos, tanto no presente quanto no passado e no futuro! Não sou apenas uma orquídea que carrega bilhões de anos de informações em seus genes!  Sou um ser que faz parte de todos os outros seres e de todas as estrelas e corpos celestes do Universo! Como agradecer por tudo isso? Sendo uma flor, sem medo!


Muito obrigado, Roberto Leal!
Fábio d'Abadia de Sousa

Aos seis anos de idade, em plena década de 70 do século passado, numa cidade do interior do Centro-Oeste brasileiro, eu aprendi que Lisboa, a capital portuguesa, era uma cidade “cheia de encantos e belezas”. Quem me ensinou isso foi o cantor Roberto Leal, com a canção Lisboa antiga (composição de autoria de José Galhardo, Amadeu do Vale e Raúl Portela).

 Quarenta e quatro anos depois eu pude comprovar, pessoalmente, as observações de Roberto Leal sobre Lisboa. Foi com Roberto também que aprendi muitas outras coisas sobre Portugal, como por exemplo, que o sotaque dos nativos portugueses causou em mim, nas primeiras vezes que o ouvi, a impressão de que se trata de uma língua muito mais bonita do que a que se fala no Brasil, e que parece que não é falada, mas cantada!

E quando ouvia a Língua Portuguesa, cantada na voz de Roberto Leal, parecia mais linda ainda. Linda e alegre! Como o meu primeiro contacto com a canção Lisboa antiga foi através de Roberto Leal, que era um cantor muito popular no Brasil, tive uma impressão diferente da que teria se tivesse conhecido a mesma canção na versão da genial Amália Rodrigues, que é um fado - e que só vim tomar conhecimento muitos anos mais tarde.  O ritmo dançante de Roberto fez com que a primeira de impressão que tive de Lisboa foi a de uma cidade alegre, o que pude comprovar anos depois. É claro que a capital portuguesa também se apresenta, em certos lugares, vestida num forte figurino de fado. Entre as várias capitais europeias que conheci, como Londres, Paris, Madrid e Roma, Lisboa me pareceu a mais alegre. 

Nunca consegui ver Roberto Leal como estrangeiro, pois cresci ouvindo e assistindo ao seu trabalho na televisão e rádio brasileiros, assim como acompanhava a carreira de Roberto Carlos. O estilo dançante e sorridente de Roberto Leal combina muito com a alegria brasileira, principalmente das crianças, como eu, aos seis anos de idade, que tentava imitar um pouco das belas coreografias de Roberto. “Ai, bate o pé\ bate o pé\bate o pé\Ai, bate o pé, faça assim como ...”.

Senti muito a partida de Roberto Leal. Ele faz parte de um período que foi, para mim, de descobrimentos do mundo. Com sua voz e suas danças, eu conheci muito de Portugal, um lugar que parecia, para mim, muito, muito distante. Mas não era! O cantor me guiava pela “Lisboa de ouro e de prata”, cujo “semblante se retrata no cristalino azul do Tejo”. O Portugal de Roberto era tão encantador quanto o Portugal que conheci há dois anos. E enquanto caminhava pelas ladeiras da cidade que ressurgiu das cinzas, já aos meus 49 anos, o canto de Roberto Leal fazia renascer o menino de seis anos e o artista me guiava: “olhai, senhores, esta Lisboa de outras eras...”

Parece que Roberto era, no fundo, um grande elo que unia Brasil e Portugal. Sem pretensão nenhuma de ser um embaixador, ele mostrava, através de sua arte, que no fundo não existem fronteiras entre o Brasil e Portugal. Aliás, para a arte não existe fronteira nenhuma. Nem entre um menino e um homem. E nem mesmo entre a vida e a morte. A voz de Roberto continuará ecoando pelas eternidades! Muito obrigado, Roberto! Muito obrigado!

Socorro, socorro, o meu país está em chamas!
Fábio d'Abadia de Sousa

Geralmente, só percebemos o real valor das coisas quando as perdemos. Eu nunca imaginei que o ar fresco poderia faltar no planeta! Mas ele começa a faltar para mim! Pelo menos é assim que me sinto no meu país! Neste país, que é um dos que apresentam algumas das mais exuberantes florestas da Terra, o que se vê no horizonte é aproximação de uma grande onda de destruição. Implacável e avassalador, o tsunami de fogo, poeira, fumaça, tiros (e muito ódio) se aproxima! Eu tento fugir! Mas tropeço e caio! Tento ignorar, como muitos fazem - inclusive o Supremo Tribunal Federal, a Câmara dos Deputados e o Senado - mas não consigo!

São tantas agressões diárias e recorrentes a grupos minoritários, como os indígenas, gays, idosos, jornalistas, artistas, estudantes, professores, negros, mulheres, sobreviventes das torturas da ditadura militar de 1964, etc. Como fingir que isso não está acontecendo? Impossível! Principalmente quando o oxigênio começa a faltar no ar. Todo vez que lembro que mais de 50 milhões de eleitores votaram nesta pessoa que lidera a gigantesca onda de destruição, o ar me falta completamente. Quase desmaio! Essa pessoa jamais escondeu sua ideologia nazi-facista. Então, há mais de 50 milhões de cúmplices desta massiva onda de ódio que toma conta do meu país. Esta constatação é a que mais entope os meus pulmões com o gás carbônico da floresta em chamas.

Enquanto a fauna e flora riquíssimas viram cinza, eu fico imaginando até quando a cumplicidade desta multidão rancorosa vai continuar. Até a última árvore das terras dos indígenas queimar? Até o último jovem negro ser assassinado? Até o último homossexual ser apedrejado em praça pública pela enorme horda de evangélicos (com a bíblia debaixo do braço) que apóia o “mito”? Até o último jornalista ser censurado? Até o último artista ser agredido no palco? Até o último professor ser afrontado em sala de aula pelos defensores da “escola sem partido”? Até o último opositor ser preso? Até o último crítico ser calado nas redes sociais pelos linchadores virtuais?

A estratégia dos militantes do Partido do Ódio é serem extremamente agressivos com qualquer um que os contrarie ou ameace (real ou imaginariamente), mesmo que seja apenas uma inofensiva professora, como foi o caso da primeira dama da França Brigitte Macron, esposa do presidente Francês Emmanuel Macron, um dos poucos líderes estrangeiros a chamar a atenção para a completa falta de preparo daquele que assumiu a presidência do meu país. Aliás, polidez e elegância não fazem parte do vocabulário e do comportamento dos bárbaros à frente do governo do meu país. Mil desculpas professora Brigitte Macron! Muito obrigado Emmanuel Macron!

Enquanto isso, a floresta queima! Os meus pulmões ardem e a minha respiração falha. Mas, mesmo sufocado, vou lutar e me posicionar contra o Partido do Ódio! Enquanto tiver força, vou enfrentar! Mesmo que me matem, o que importa para mim é que não fui omisso diante dos nazi-fascistas que tomaram conta do meu país.

No meu país, a exuberante floresta arde em chamas e eu mal consigo respirar...

* Foto: Ramon Aquim in https://amazoniareal.com.br


Saudades de Portugal e a alegria de assistir a uma telenovela portuguesa na televisão aberta brasileira
Fábio d'Abadia de Sousa

A televisão aberta brasileira, mais especificamente a Band, está a exibir, desde 15 de julho de 2019, em horário nobre, a telenovela portuguesa Ouro Verde, de autoria de Maria João Costa e direção de Hugo de Sousa. Esta telenovela é um marco, pois parece iniciar uma fase em que o Brasil, que há anos tem suas telenovelas exibidas na TV portuguesa, agora tem a oportunidade de assistir a uma novela feita em Portugal.

Estrelada pelos atores Diogo Morgado, Joana de Verona e Ana Sofia Martins, Ouro Verde também conta em seu elenco com atores brasileiros, como a maravilhosa Zezé Motta, entre outros. Lisboa e Rio de Janeiro e uma imensa fazenda de criação de gado na região amazônica são os principiais cenários da trama envolvente e que é recheada com os elementos clássicos do folhetim capazes de prender a atenção dos telespectadores.

Infelizmente, a telenovela portuguesa é dublada (apesar da opção de ser ouvir o som original). Esta situação tira do grande público brasileiro a oportunidade de conviver com o maravilhoso sotaque da língua portuguesa falado em Portugal. Em Xica de Silva, novela de Walcyr Carrasco, exibida originalmente na extinta TV Manchete, em 1996 e que foi um dos maiores sucessos da TV brasileira, metade do elenco tinha o sotaque português e isso não afetou a audiência da telenovela.

De qualquer forma, a exibição de Ouro Verde na TV brasileira é um fato que deve ser comemorado, pois, de alguma forma é uma maneira sutil de aproximação de parte da audiência brasileira do país que “criou” o Brasil. Uso aqui a palavra “criou”, (em vez dos termos usuais dos historiadores, como “colonizou”, “descobriu”, “conquistou”, “explorou”, “escravizou”, “dizimou”, etc), pois sou um brasileiro que já viveu em Portugal e que se apaixonou profundamente pelo povo português e que, talvez por esta paixão tão forte, consegue ver no povo português principalmente a figura do desbravador de indomáveis oceanos e terras longínquas que se acreditavam indomáveis.

Sei que a colonização teve momentos de extremismos de violência, principalmente contra os nativos brasileiros e os escravos dilapidados da Mãe África. Nunca negarei isso! Mas depois de morar em Portugal, não consigo mais não relativizar a relação Brasil-Portugal. Quem expulsou Dom Pedro II do Brasil, na minha opinião, a partir da leitura de autores  de clássicos sobre o assunto, foi uma elite que queria tomar o poder com objetivo de se locupletar e não de distribuir a enorme riqueza do Brasil com os brasileiros! Prova disso é que o país é um dos 10 mais opulentos do mundo, mas um dos piores em termos de distribuição de renda, e lá se foram 130 anos desde a partida de Dom Pedro II, na minha visão, o maior governante que o Brasil já teve, depois de Luiz Inácio Lula da Silva. Como não puderam expulsar Lula, prenderam-no injustamente!

Depois de morar em Portugal, passei a compreender também o lado dos homens e mulheres portugueses, movidos por uma das condições humanas mais avassaladoras, o desejo de descobrir o que está além, talvez para desafiar a morte e tornar-se parte daquilo que assusta e fascina. É esta característica humana, forjada lá no nosso DNA, que um dia vai nos levar para outros pontos do oceano sem fim, que é o restante do Universo. E, do Alenterra, quem não lembrar do feito inicial dos portugueses  estará sendo injusto e tendencioso. Os portugueses e portuguesas não tinha escolha a não ser jogarem-se no mar, pois covardia nunca combinou com este povo, que também traz em sua linhagem o sangue dos fenícios, dos árabes  e dos romanos.    

Sou um brasileiro de 51 anos, professor do curso de Jornalismo na Universidade Federal do Tocantins e que morou em Portugal parte do ano de 2018, para a realização de um curso de pós-doutoramento na excelente Universidade do Algarve, em Faro. Fui tratado com tanto carinho e respeito -espontâneos e autênticos - pelos portugueses, que jamais tive a sensação de estar num país estrangeiro, mas que estava de volta para casa, uma casa que eu não conhecia, mas que parecia reconhecer que nas minhas veias corre um pouco do sangue dos desbravadores de séculos atrás. Nos olhares acolhedores e no sotaque doce e que, às vezes, parece estar cantando uma canção de ninar, eu sempre me senti acolhido. Cheguei a comentar com os meus orientadores, os maravilhosos professores doutores Carolina Sousa e Francisco Gil, que eu tive, muitas vezes, a sensação de já conhecê-los. Os dois formam para mim uma síntese do povo português que conheci em várias regiões do País: pessoas reservadas, simples, esforçadas (pois trabalham muito), acolhedores e carinhosos com a família e até com estranhos (como foram comigo!). Exatamente a família que gostaria de ter!

Antes de morar em Portugal, eu sempre fazia questão de me definir fisicamente apenas como um negro-índio (e com muito orgulho!), apesar de que nos meus traços físicos predominam características mais acentuadas do elemento africano. Mas a ciência já comprovou que, queiramos ou não, nós, brasileiros típicos, (antes das grandes imigrações italiana, alemã e japonesa e de outros povos afetadas pelas duas grandes guerras mundiais do século XX), temos, quase todos, o sangue formado pela junção dos DNAs de portugueses, indígenas e africanos.

Depois da minha estada em Portugal, eu faço questão de reconhecer que tenho também o sangue português. Gosto de brincar comigo mesmo que agora sou completo, pois herdei do negro a resiliência a situações difíceis; do indígena, me veio uma ligação profunda com a Terra e a Natureza; e, do português, a capacidade de sonhar, principalmente em desbravar mundos distantes nos quais a felicidade parece se esconder. Mas, com os portugueses aprendi também que o Brasil tem um vínculo eterno com Portugal. Um vínculo que vem do sangue de nossos antepassados comuns e que elites egoístas, gananciosas e que só pensam em poder não são capazes de dissolver!

Em Portugal, os portugueses têm enorme respeito pelo Brasil e pelos brasileiros e adoram ressaltar a nossa grandiosidade (que nem sempre nós, brasileiros, prestamos atenção). Mas, eu gosto, sempre que posso, de ressaltar que grandes são os portugueses, que um dia deixaram suas terras, se jogaram no oceano e realizaram feitos incríveis, como a “criação” do Brasil!

É por isso que comemoro a chegada ao Brasil da telenovela Ouro Verde! Espero que venham muitas outras novelas portuguesas (sem dublagem, pelo amor de Deus!) para que possamos, nós, brasileiros conhecer um pouquinho melhor este país que nos “criou”! Amo absolutamente o povo português! Obrigado por terem me tratado como se eu fosse especial!


O que teria acontecido com Bette Davis?
Fábio d'Abadia de Sousa

Uma das vaidades humanas mais intrigantes é a de desejar não ser esquecido após a morte. E não é que as novas tecnologias da informação têm tornado um pouco mais real esta aspiração! Indiferentes se estamos vivos ou não, nossas poses e trejeitos, ostentados nos nossos selfies e vídeos, permanecem nas redes sociais. Numa eventual situação de falecimento, por exemplo, caso um familiar do morto não solicite formalmente a retirada das imagens das redes, elas lá continuam, numa sobrevivência simbólica, através de suas imagens.

Acreditamos que essa “sobrevida simbólica” começou desde que os franceses anunciaram, em1839, a invenção da fotografia, chamada, então, de daguerreótipo, numa referência a Louis Jaques Mandé Daguerre (1787-1851), o francês que aperfeiçoou o processo de captação, pela luz, de cenas da realidade visível, iniciado por vários inventores ao redor do mundo, mas principalmente por Joseph Nicéphore Nièpce (1765-1833).

Parece que, com as redes sociais e a suposta “eternidade” das imagens, a morte não apaga mais totalmente aquilo que fomos. Pelo menos na rede é possível a nossa continuidade! E isso não é pouco, já que os contatos via plataformas digitais se intensificam cada vez mais e, em muitos casos, já substituem as relações reais. Caso tenhamos saudades de alguém falecido que amávamos (e/ou continuamos a amar), uma rápida visita ao seu perfil no Facebook ou no Instagram talvez amenize um pouco a dor da separação. Será?

De qualquer forma, as redes sociais - que têm modificado o comportamento humano em quase todos os ramos - parece que também têm influenciado a nossa forma de lidar com a morte. Percebe-se, por exemplo, que aumentamos o nosso culto aos mortos que um dia foram celebridades no cinema, televisão, música, artes plásticas, esportes, etc. Isso ocorre talvez em virtude da disponibilidade de acesso quase ilimitado a informações visuais dessas pessoas, antes restritas a pequenos grupos da mídia.

Nas redes sociais, são milhares de páginas e canais dedicados a exaltar, diariamente, com fotografias e vídeos, pessoas como Elvis Presley, Marilyn Monroe, Vivien Leigh, Fred Astaire, Elisabeth Taylor, John Lennon, Frank Sinatra Ayrton Senna, Michel Jackson, Amy Winehouse, Frida Kahlo, etc. Esta última é detentora de perfis feitos por pessoas das mais variadas partes do mundo. Surpreendentemente, Frida (1907-1054), que, em vida, dedicou-se mais às artes plásticas, é cultuada, principalmente por jovens, talvez pela sua personalidade forte e insubordinada e, é claro, pela sua original elegância na forma de se apresentar em público, com roupas e acessórios de moda feitos por ela mesma, até hoje considerados chiques e de extremo bom gosto. Considerada uma das pioneiras do feminismo, a artista mexicana também inspira a juventude por ter sido uma pessoa que não se deixou abalar pelos enormes percalços que enfrentou em vida depois de ter sido atropelada por um veículo pesado.

Uma das estrelas do cinema já falecida e com mais seguidores no Instagram parece que é a norte-americana Bette Davis (1908-1989). Considerada uma das melhores atrizes de todos os tempos, a artista é referência principalmente por sua atuação como mulher malvada e de olhos incrivelmente lindos e sedutores. Em muitas de suas entrevistas, cujos trechos são compartilhados diariamente nas redes sociais, Bette Davis fazia questão de ressaltar que o exemplo de beleza feminina invejável no cinema não era ela, mas Audrey Hepburn (1929-1993). Os milhares de criadores de perfis e de seguidores de Audrey Hepburn concordam absolutamente com Betty Davis. O culto a Audrey a coloca num patamar superior a qualquer estrela do cinema que já viveu, acima, inclusive, de Marilyn Monroe (1926-1962), outra campeã de acessos nas redes sociais.

Os adoradores dessas celebridades não as tratam como pessoas que já faleceram, mas como gente absolutamente viva. Mas será que não estão vivas mesmo? As redes sociais potencializaram para outras celebridades aquele mito que só Elvis Presley (1935-1977) parecia ter conquistado: o de que está vivo e recluso em algum lugar e que, a qualquer momento que achar conveniente, poder aparecer.

Será que esta situação paradoxal de aparente indiferença se uma celebridade está morta ou viva pode chegar também a nós, mortais comuns? Talvez sim! Quem um dia foi fotografado, e esta imagem está acessível a alguém, não morre completamente, pois sua lembrança continua em outras pessoas. De alguma forma, a fotografia nos trouxe um pouco de eternidade, quer os deuses gostem ou não! E as redes sociais potencializaram isso! Então, assim como Bette Davis, Frida Kahlo, Audrey Hepburn e Elvis Presley, parece que conquistamos o direito de não morrermos completamente.


O que somos senão uma coleção de memórias?
Fábio d'Abadia de Sousa

“Se você pudesse, você abriria mão das suas memórias mais tristes e desagradáveis?” Ao ouvir esta pergunta, feita a mim, por um amigo, no final do ano passado, sem pensar muito, eu dei uma resposta afirmativa. Mas, depois, comecei a refletir melhor e percebi o quanto memória é assunto sério e complexo.

A chegada aos 50 anos, em 2018, foi, para mim, um momento divisor de águas. Por mais que tentasse me esconder de Chronos, constatei, com mais atenção, que ele (implacavelmente) esteve sempre ao meu lado e começou a ressaltar em mim os traços característicos desta idade: cabelos brancos, calvície, rugas, pele flácida, etc.

Mas nada disso me assustou tanto quanto uma crise de perda de memória. Passei a esquecer coisas simples do dia a dia, mas fundamentais para a sobrevivência de uma pessoa que, como eu, optou por morar só (optei mesmo: antes só que mal acompanhado), como, por exemplo, desligar o gás ou trancar a porta de casa antes de sair ou dormir. Passei a perder cartões de banco e smartphones quase todas as semanas. Esquecia até de comer!

Certo dia, quando tirava a poeira de alguns móveis da sala incrivelmente bagunçada, encontrei, debaixo de uma panela de barro que serve como artefato de decoração, uma quantia de R$ 500,00, o que corresponde a mais ou menos a cem euros. Para um brasileiro, é uma quantia considerável (é a metade de um salário mínimo, a remuneração de quase metade da população brasileira economicamente ativa). As duas únicas possibilidades de esse dinheiro ter sido encontrado na minha casa eram: ou eu o coloquei lá ou o Papai Noel me visitou. Eu sempre acreditei em milagres e magias, e situações vividas ao longo de minha existência comprovam que, para mim, eles existem! Mas, no caso específico do dinheiro encontrado, sou mais tentado a pensar que eu mesmo saquei a referida quantia e a guardei, mas simplesmente esqueci que fiz isso.

Esta situação me deixou muito alarmado, principalmente depois que uma médica me advertiu que talvez pudesse ser o início de um caso de demência. “Mas aos 50 anos?” “Sim, há casos de Mal de Alzheimer até mesmo antes desta idade”, respondeu a neurologista. Tive que me submeter a vários exames para comprovar ou não a suspeita. Enquanto os resultados não saíam, passei a imaginar as conseqüências assustadoras da falta de memória. Foram 15 longos dias de apreensão. O mais tenebroso para mim seria depender de outras pessoas. Logo eu, tão orgulhoso de ser dependente apenas de Deus e de mim mesmo!

Acredito que a resposta para seja lá o que somos, fomos ou seremos está na nossa memória, e perdê-la ainda em vida é perder a nós mesmos. Henri Bergson, na obra Matéria e memória (Martins Fontes, 1999, p. 88-90) aponta que temos dois tipos de memória: uma que imagina e outra que repete “A primeira registraria, sob forma de imagens-lembranças, todos os acontecimentos de nossa vida cotidiana à medida que se desenrolam...”. O segundo tipo de memória é a que, ao invés de representar o nosso passado, ela o encena. “Para evocar o passado em forma de imagem, é preciso poder abstrair-se da ação presente, é preciso saber dar valor ao inútil, é preciso querer sonhar”.

Pelo o que eu entendi da minha situação de falta de memória, e que pareceu comprometida foi a do primeiro caso detalhado por Bergson, a que registra acontecimentos rotineiros. Tal situação teria ocorrido, conforme constatei posteriormente, em virtude da necessidade de produção de trabalhos acadêmicos em tempo muito exíguo, já que sou um procrastinador e que, geralmente, deixo quase tudo para a última hora. Quando mais jovem e sob pressão, eu sempre conseguia produzir muito em pouco tempo, mas agora não. Outra conseqüência da chegada ao meio século de vida!

Quando, finalmente, recebi os resultados dos exames neurológicos, respirei aliviado. Foi descartada, pelo menos por enquanto, qualquer possibilidade de Mal de Alzheimer. Passei a tomar alguns remédios, conforme prescrição médica, e percebo que a memória já está menos falha. Tal situação foi importante para que eu refletisse melhor sobre as dificuldades que enfrentam as famílias com pessoas com Alzheimer. Passei também a prestar mais atenção sobre o quanto somos definidos pelas memórias acumuladas ao longo da vida. Boas ou ruins, somos uma coleção de lembranças acumuladas na nossa existência.

Não, eu não abriria mão de minhas memórias de situações difíceis que atravessei. Depois de refletir muito sobre o assunto, conclui que o melhor que se pode fazer a respeito é lutar para que os eventuais traumas sejam superados e que, assim como as cicatrizes físicas, elas se tornem apenas lembranças de que superamos momentos difíceis e que ficamos mais fortes e sábios por causa disso.