Fábio d'Abadia de Sousa

Memórias do Futuro

Fábio d'Abadia de Sousa

Memórias de um menino que vivia num bordel
O melhor dia de minha vida (2.ª parte)

O despertar, na manhã seguinte, foi incrível. Um homem, moreno baixo e de voz forte, gritava e batia palmas. “Acorda, garotada! Rápido! Vocês só têm uns 10 minutos! Todo mundo escovando os dentes... e rápido!” Assim, pelo menos uns 50 meninos com cara de sono, aos poucos e preguiçosamente, se levantavam! Lentamente, se dirigiam ao banheiro com suas escovas de dente. Eram dezenas de pias e chuveiros com água fria. Imóvel, eu apenas olhava tudo aquilo com estupefação. De repente, aquele homem olhou para mim e gritou bem alto: “você que é Fábio?” Assustado com tantos olhares voltados para mim, eu apenas balancei a cabeça num gesto afirmativo. “Vá escovar os dentes, menino! Rápido! O que você está esperando?” Timidamente, eu respondi que não tinha escova de dente. Então, ele me chamou até ele e abriu um armário, de onde retirou um sabonete, uma toalha, um dentefrício (era assim que chamávamos o creme dental naquela época; às vezes falávamos apenas pasta) e uma escova de dentes. “Cuida bem deste material. Se perder alguma coisa você vai ficar de castigo! Ouviu! Agora vai escovar os dentes e limpar essa cara! Rápido!”

Eu não lembro de ter tido uma escova de dentes antes (nem mesmo no período quando fui adotado por uma família de agricultores, algo que contarei mais à frente). Eu mal coloquei a escova na boca e o monitor, o qual chamávamos de assistente, bradou: “todo mundo em fila indiana, rápido! Você também, moleque”, disse ele, se referindo a mim. E, em fila, e em silêncio, fomos para o refeitório, onde foi designado um lugar para mim numa das dezenas de mesas. Lá encontramos outra fila com uns 40 meninos. Eles dormiam em outro dormitório e, por serem mais velhos que os garotos do meu dormitório, eram chamados de “maiores”. Era assim que funcionava: os menores quando iam crescendo, mudavam para o dormitório dos maiores.

O café da manhã era constituído de um pão com manteiga e um copo de leite. Eu gostei muito daquela que era apenas a primeira de quatro refeições que tínhamos ao longo do dia. Após o café da manhã, éramos conduzidos, sempre em filas, para as salas de aula. E eu, como disse que já tinha estudado antes, quando morei com a família de agricultores, então, em vez de entrar no pré-primário, fui designado para a primeira série. A professora era uma freira que não usava hábito (aquela roupa típica de freira) chamada de Maria José. Ela era considerada uma professora muito brava, pois dava palmatórias com uma enorme régua de madeira nos alunos que faziam bagunça durante a aula. Eu gostava dela. Ela jamais me agrediu, pois eu era excelente aluno e sempre tirava as melhores notas.  Estar naquele internato, chamado na época de Aprendizado Agrícola São José, foi maravilhoso demais para mim, pois, além de comer, com regularidade, refeições deliciosas e balanceadas, algo que não acontecia quando morava com minha mãe, eu ainda fazia a coisa que mais amava na vida: estudar.

 Como sou grato por ter ido morar naquele internato. É tanta gratidão que não consigo expressar em palavras. E agora, enquanto escrevo estas lembranças, lágrimas escorrem dos meus olhos. Essas lágrimas, mais do que palavras, dão uma idéia da enorme gratidão que tenho aos Céus, e aos anjos que sempre me guiaram, por terem me levado para aquele lugar. Eu não consigo nem imaginar o que teria acontecido comigo se não tivesse ido para lá. Obrigado Deus! Obrigado Universo! Obrigado Padre Lancísio! Obrigado Dona Leontina!


Eu amo Jane Fonda!

Ao navegar pela rede social Instagram, deparei-me com uma foto da atriz e ativista norte-americana Jane Fonda, algemada e conduzida pela polícia norte-americana. Fiquei um pouco chocado e fui ver o restante da informação.  Tratava-se já da segunda prisão da atriz, por fazer protestos em frente ao Capitólio, edifício onde funciona o Congresso dos Estados Unidos, em Washington(D.C.); estranhamente, um prédio público onde não se permitem manifestações. Inspirada pela adolescente sueca Greta Thunberg, Jane Fonda tentava chamar a atenção contra a destruição do meio ambiente. Eu comentei a foto: “I just love her”.  Imediatamente, alguém com um perfil republicano, perguntou-me, em tom de sarcasmo e ironia: “Só por curiosidade, por que você a ama, mesmo?” Sem querer polemizar muito, eu respondi: “o amor, assim como o ódio, não tem muita explicação lógica. Eu simplesmente a amo”. Mas motivos não faltam pela minha grande admiração por Jane Fonda.

Ultimamente, o meu amor por ela tem sido mais em virtude da sua participação na série da Netflix Grace e Frankie. Esta série, lançada em 2015 e que está na sexta temporada, é uma das pouquíssimas dedicadas ao público sênior. Nela, Jane, lindíssima aos 81 anos, mostra que a velhice, sem eufemismo nenhum, pode, sim, ser a melhor fase da vida de um ser humano. Assim como faz fora das telas, Jane vive Grace, uma mulher ativista por uma vida plena. A separação do marido, vivido por Martin Sheen – cujo personagem se assume gay aos 75 anos e se casa com outro homem – é a oportunidade que ela tem de riscar todo o tipo de hipocrisia de sua vida.

Grace, que antes da aposentadoria era uma implacável mulher de negócios na área de cosméticos, faz renascer seu espírito de empresária ao lançar um vibrador desenhado especialmente para mulheres mais velhas. Sim, as mulheres se masturbam, inclusive as mais velhas!  Grace adora o seu consolo anatômico, mas ela quer mais. Ela quer ser amada por um homem de verdade. É dificílimo de encontrar, mas ela prefere morrer tentando.

Ao lado da amiga Frankie, vivida pela maravilhosa Lily Tomlin, a irreverente Grace vive situações típicas de quem está envelhecendo e que se defronta com uma sociedade que negligencia e abomina a velhice. Por trás de cada risada, a série discute, algum drama bastante real daquilo que, eufemisticamente, chamamos no Brasil de terceira idade ou “a melhor idade”. Com Grace e Frankie, a velhice é realmente a melhor idade! E quem está a envelhecer, como é o meu caso, perde grande parte do medo de enfrentar esta fase que pode, sim, ser a melhor da vida!

Na década de 1980, Jane Fonda destacava-se pelos seus vídeos de ginástica para mulheres balzaquianas (na faixa dos 30 anos). Tanta malhação talvez tenha sido o motivo de ela chegar à sua oitava década de vida esbanjando saúde, beleza e consciência de cidadã. “Talvez passe o meu aniversário de 82 anos na cadeia”, disse ela, no final de 2019, para um programa jornalístico da televisão brasileira, ao ressaltar que sua militância em defesa do planeta Terra só está começando. Nos anos 60, quando era considerada uma das mulheres mais sexy do planeta, Jane chegou a ser declarada inimiga pública dos Estados Unidos, por causa de seus insistentes protestos contra a Guerra do Vietnã. No dia 4 de janeiro de 2020, lá estava Jane novamente, começando o Ano Novo em frente ao Capitólio, a protestar contra o ataque inconseqüente de Donald Trump ao general iraniano Qasem Soleimani. “Não queremos mais guerras!”, gritava ela, sob o frio de zero grau, acompanhada de uma multidão entusiasmada. Assim como inspirou milhares de pessoas a cuidarem do corpo nos anos 80 do século passado, hoje, Jane Fonda, na vida real e na ficção, nos provoca a envelhecermos com prazer, dignidade, consciência de cidadania e responsabilidade com o planeta. E, é claro, com muito botox no rosto!

Estes são apenas alguns dos motivos que fizeram com que eu declarasse, no Instagram, o meu respeito e o meu amor por Jane Fonda. Numa época em que governantes racistas, mentirosos, misóginos, homofóbicos e inimigos do planeta Terra são eleitos, inacreditavelmente, pelo voto direto, em países como o Brasil e os Estados Unidos, a militância de Jane Fonda é uma boa lembrança de que o mundo é habitado também por pessoas contrárias à destruição e ao apocalipse. O planeta não é só dos haters (pessoas que só espalham o ódio)! Inspirada pela menina Greta Thunberg, a nova fase de militância de Jane Fonda é a prova de que as gerações mais velhas não são compostas apenas de gente indiferente, omissa e preconceituosa. Nossas rugas e nossos cabelos brancos não destruíram a nossa capacidade de nos indignar. Obrigado Jane Fonda por nos inspirar! I just love you!


Memórias de um menino que vivia num bordel
Capítulo 1 - O melhor dia de minha vida

Somente nos últimos meses, depois de mais 45 anos do ocorrido, é que eu percebi que aquele foi o dia mais importante de minha vida. Foi o dia que definiu o que eu sou hoje e o dia no qual eu me livrei de uma espécie de maldição que sempre rondou a família da qual eu faço parte. Depois de meses a implorar ao padre Lancísio que me levasse para viver no orfanato do qual ele era diretor, finalmente, Dona Leontina teve êxito em sua insistente demanda. “Padre, esse menino não pode continuar a viver no meio destes bêbados. Logo estará bebendo pinga também!”. 

Dona Leontina correu até a praça da pequena cidade de Leopoldo de Bulhões, onde minha mãe e seis de seus irmãos acampavam, pois não tinham casa, nem mesmo das mais pobres, e bradou: “O padre vai levar o menino hoje. Cadê as roupas dele?” Minha mãe, meio alcoolizada, não apresentou nenhuma resistência. Rapidamente, esvaziou um saco de pão, e colocou uma camiseta, um shortinho e uma calça boca de sino feita em tergal azul.

Não lembro de nenhuma palavra ou gesto de despedida. Dona Leontina, muito ofegante, saiu correndo pela praça e alcançou o padre já dentro de sua Kombi branca, um pouco impaciente com a suposta demora. Já era noite, ele tinha que voltar para a cidade de Silvânia, onde ficava o internato onde eu iria passar os próximos sete anos de minha vida. “Ele só tem isso de roupa?”, perguntou o padre para Dona Leontina ao apontar para a minha pequena mala: o saco de pão. “Ele é pobre, padre!”.

Dona Leontina afastou-se do veículo e o padre acelerou o motor, e lá fomos nós rumo ao Aprendizado Agrícola São José. Eu nunca mais veria Dona Leontina novamente. Eu nunca mais teria a chance de agradecê-la pessoalmente. Certa vez, aos 15 anos, quando saí do internato e fui morar na capital do Estado de Goiás, Goiânia, eu fui a Leopoldo de Bulhões para dizer a ela de minha gratidão. Mas já era tarde demais. Dona Leontina já havia morrido fazia alguns anos.

Quando a conheci, ela já era bastante idosa. Talvez estivesse na faixa dos 70 anos. Ela era branca, baixinha e andava com uma bengala. Mesmo assim caminhava com agilidade, quando era necessário. Nunca vou esquecer o quanto sua casa, apesar de pequena, era linda. O que mais me chamava a atenção era o quintal enorme e com várias árvores frutíferas. Havia mangueiras, bananeiras, jabuticabeiras, pés de laranja e mixirica, entre outras plantas com belas flores. Outra coisa que me chamava a atenção em sua casa era o presépio enorme que montava na época de Natal. Tudo o que era colorido e brilhava ela colocava como enfeite, extremamente católica, ela jamais perdia uma missa. E foi à caminho da igreja que ele me conheceu ali na praça onde minha mãe e seus irmãos bêbados passavam a maior parte do tempo. Sou eternamente grato a senhora, Dona Leontina!

Em relação à minha mãe, eu ainda a veria uma única vez. Quatro anos depois de eu ter sido levado para o internato, ela lá apareceu para fazer-me uma visita. Foi uma situação muito constrangedora, pois eu corri dela. Não queria vê-la de forma nenhuma. Ela estava esfarrapada, desdentada e parecia bêbada e doente.

 Ainda sofro pela atitude que tive! Somente muitos anos mais tarde, percebi que foi uma visita de despedida, pois ela morreu meses depois, em conseqüência do alcoolismo. Aquela senhora que apareceu de surpresa no internato para visitar-me não correspondia em nada à mãe idealizada que vivia em minha cabeça. Se eu pudesse voltar no tempo, em vez de correr dela, eu a abraçaria, beijaria e diria da minha gratidão por ser filho dela. Falaria do quanto ela era linda e que, entre todas as mulheres da Terra, eu a escolheria, infinitas vezes, para ser a minha mãe. Dona Irani foi uma alcoólatra e uma prostituta, mas, para mim, foi a mulher mais honrada que já viveu! Ela apenas sucumbiu à crueldade do mundo, principalmente com as mulheres.


Memórias de uma orquídea que foi jogada no lixo
Fábio d'Abadia de Sousa

“Da vida eu tive o melhor e pior”, conforme dizem algumas orquídeas e pessoas ao fazerem um balanço de suas vidas.  Mas, além do pior e do melhor, eu tive o lixo.  Não existe um adjetivo para descrever a sensação de ser jogada lixo. É o pior do pior, mas é o melhor do melhor. Eu fiquei uma semana no lixo, com as raízes expostas ao sol e com as folhas misturadas com fraldas sujas e restos de comida. No primeiro dia, eu só rezeva para morrer. Mas, apesar de tanta ânsia pela morte, eu não morri. Com o passar do tempo, no entanto, eu deixei de lutar contra a dor de estar no lixo, e eu fui descobrindo a maravilhosa e libertadora sensação de não ter absolutamente nada a perder.

É como nadar entre os peixes coloridos dos corais das ilhas do Caribe e voar entre as aves e coloridas borboletas e por entre as estrelas, tudo ao mesmo tempo.  É como romper todas as fronteiras que eu acreditava existir entre as coisas: o dia se mistura com a noite, o mar com a terra, o amor com o ódio, as pessoas viram árvores e as plantas viram pessoas, tigres e sardinhas. Então, eu descobri algo que acho que seria aquilo que as orquídeas e as pessoas chamam de essência ou sentido da existência. Mas antes de falar disso, quero contar o que acreditava ter sido o melhor e o pior da minha vida.

Pelo o que eu me lembro, tudo começou na maravilhosa cidade de Faro, no Algarve, Portugal, um dos lugares mais ensolarados e lindos da Europa e que é o berço de uma civilização humana de mais de três mil anos.  Fenícios, romanos, árabes, lusitanos são alguns dos povos que originaram a população que hoje vive nesta região.  Eu amava o clima do Algarve, para mim, até então, o melhor do mundo. Antes de ter sido dada de presente a uma noiva por seu pretendente apaixonado, eu acreditava que o melhor da minha vida era estar no viveiro com milhares de outras orquídeas.  Mas eu sempre pressenti que a minha vida tinha que ter outros propósitos, como, por exemplo, fazer outros seres felizes. Um dia, eu fui colocada num caminhão junto com outras irmãs, e fui enviada para uma loja de flores no centro da cidade.

Muitas das pessoas que passavam na calçada em frente à vitrine onde eu fui colocada, às vezes, paravam e ficavam a me admirar! Como eu ficava vaidosa! Nossa! Eu não sabia que era tão bonita assim!  “Obrigada, obrigadinha!”, dizia eu para todo mundo! Até que eu dia, um homem parou por mais de meia hora em frente à vitrine! Eu cheguei a ficar envergonhada com tanta admiração! Então, ele entrou, chamou a vendedora, e disse: “É a flor mais linda que já vi em minha vida! Vou levá-la para a minha noiva!” Nossa, o termômetro que mede o calor da minha vaidade quase explodiu! Eu, além de linda, era um símbolo de amor, o sentimento mais nobre entre os humanos! Quando a noiva me recebeu de presente, lágrimas desceram de seus lindos olhos castanhos! E também, é claro, eu fiquei emocionada, pois não sabia que era capaz de provocar lágrimas em humanos!

Duas semanas de pura felicidade se passaram. Então, numa manhã fria e nublada, a minha dona chegou até mim chorando copiosamente! Era um choro estranho, exagerado! Fiquei com medo! ”Aquele monstro, que jurou me amar pelo resto da minha vida, me traiu, e o pior: com um homem! Eu vou matá-lo!” De repente, ela avançou sobre o vazo onde eu morava e me atirou pela janela da sala de estar do apartamento, que ficava no quarto andar do prédio. Eu caí, de cabeça para baixo, a uns sete metros do edifício, exatamente, num monte de lixo que ficava na calçada, em frente a um terreno abandonado!  Cacos do meu vazo chegaram a atingir um gato preto que comia restos de comida chinesa que estava espalhada no local! O meu choque foi imenso! Comecei a gritar por ajuda às pessoas que passavam  prá lá e prá cá! “Socorro! Eu sou uma orquídea linda! Alguém me ajude, por favor! Eu sou bonita! Olhem para mim, por favor!” Ninguém olhou. Eu continuei a gritar: “Socorro! Socorro!”

Foi inútil. Ninguém me ajudou! De repente, ao cair da noite, um senhor idoso se aproximou com seu lindo cachorro da raça São Bernardo! “Graças a Deus! Serei resgatada!” Mas ele nem mesmo me viu! Para piorar, o cachorro, enorme, urinou em cima do pouco que restou de minhas pétalas! “As minhas folhas ficaram quase intactas, mas as flores praticamente não existiam mais! Meu Deus! Como eu fiquei feia e fedorenta!” Eu chorei a noite toda! Com o raiar do sol, renovaram-se minhas esperanças de ser resgatada por alguém. Centenas de pessoas passaram em frente a mim, mas ninguém olhava na minha direção. E assim foram os meus próximos seis dias. Até que no sétimo dia, quando eu já começava a morrer, pois minhas raízes estavam expostas ao sol, um senhor negro parou em frente a mim e começou a conversar comigo.

“Meu Deus, o que você está fazendo aí?” Perguntou ele, com um sotaque brasileiro. Ele me pegou, com todo o carinho, juntou o que foi possível da terra que me sustentava e colocou em um saco plástico que ele colheu ali perto. Então, eu desmaiei. Quando acordei, estava debaixo de uma torneira, em um vazo novo e com terra nova. Eu bebia daquela água com todo o desespero de quem voltava da morte!

Os dias foram passando e eu comecei a ficar com minhas folhas brilhantes novamente. Então, depois de uma semana, vi o meu dono arrumando as suas malas, pois ele iria retornar para o Brasil, já que tinha concluído o curso que fora fazer na Universidade do Algarve. Ele pegou-me do jeito que eu estava, com vazo e tudo, enrolou-me com jornal e colocou-me dentro de um pequeno balde, o qual tapou e lacrou com fita adesiva. De repente, fez-se uma escuridão total, mas eu ainda o ouvi dizer: “Você vai para o Brasil comigo!” Eu perdi a noção do tempo, mas foram mais de dois dias naquela situação de breu, confusão e barulho ensurdecedor de motor de avião.  Eu pensei fazer um escândalo na alfândega para avisar que uma cidadã portuguesa estava sendo contrabandeada para o Brasil. Mas desisti rapidamente desta idéia. No meu íntimo, eu tinha certeza que estava sendo levada para algum lugar onde eu seria muito feliz! E não é que minha intuição estava certa?

Quando voltei a ver a luz novamente, eu estava numa varanda, no trigésimo andar de um prédio lindo, na cidade de Goiânia, no Centro-Oeste brasileiro, onde o sol brilhava esplendorasamente.  Eu fui saldada por várias outras plantas que falavam com sotaque brasileiro. Uma espada de São Jorge logo me perguntou: “É verdade que você veio de Portugal? Todas nós aqui somos plantas que o nosso dono catou no lixo! Você também foi catada no lixo? Exausta, mas deslumbrada, eu respondi: “Sim! Eu fui catada no lixo! Ainda bem que fui jogada no lixo! Foi a melhor que já me aconteceu!”

Agora que vocês entenderam o que foi o melhor e o pior da minha vida, volto às minhas reflexões sobre as epifanias que tive a partir da minha experiência de ter sido jogada fora. Por exemplo, foi numa noite estrelada, enquanto jazia ao lado de restos de comida apodrecida, que eu entendi aquilo que Edith Piaf canta na canção Je ne regrette rien.  Quando ela diz que tanto o bem quanto o mal são, para ela, a mesma coisa, eu percebi que talvez ela tenha querido dizer que tanto o bem quanto o mal são essenciais ao nosso crescimento. Talvez o mal seja mais importante ainda. É ele que nos torna fortes. No monte de lixo, eu perdi tudo, mas principalmente todos os medos que tinha, inclusive o de não agradar aos outros depois de me esforçar muito para atender às suas expectativas. As expectativas alheias não são problemas meus. Eu ainda quero agradar aos seres com os quais eu convivo, mas não sofro se não tiver êxito nisso.

Eu deixei no lixo os dois maiores medos que podemos ter: o do futuro e o da morte.  Não tenho mais medo do futuro porque sei que haverá o bem e o mal em cada esquina que cruzar, e ambos serão bem-vindos para o meu crescimento. Não tenho mais medo da morte porque sei que não morrerei.  Nada nem ninguém - nem mesmos os deuses chicoteadores de orquídeas e pessoas incrédulas -, vão conseguir apagar o que foi a minha existência e o orgulho que eu tive dela! Isso está registrado em algum lugar do espaço-tempo, e pronto! Isso é mais dos que suficiente para satisfazer o meu desejo de eternidade. Enquanto começava a me decompor naquele monte de lixo, em vez de dor, eu sentia o Universo me abraçando através dos braços da mãe Terra. Foi o abraço mais maravilhoso que já experimentei!

Sim, cheguei a lamentar não ter morrido! Mas não lamento ter sobrevivido! Agora vejo tudo com mais clareza e só tenho um único medo: o de ter medo! Acho que o sentido da minha vida é esse: não ter medo! Se não tivesse sobrevivido, eu não poderia contar a minha história! E eu tenho muito orgulho dela! Hoje me sinto conectada a tudo e a todos, tanto no presente quanto no passado e no futuro! Não sou apenas uma orquídea que carrega bilhões de anos de informações em seus genes!  Sou um ser que faz parte de todos os outros seres e de todas as estrelas e corpos celestes do Universo! Como agradecer por tudo isso? Sendo uma flor, sem medo!


Muito obrigado, Roberto Leal!
Fábio d'Abadia de Sousa

Aos seis anos de idade, em plena década de 70 do século passado, numa cidade do interior do Centro-Oeste brasileiro, eu aprendi que Lisboa, a capital portuguesa, era uma cidade “cheia de encantos e belezas”. Quem me ensinou isso foi o cantor Roberto Leal, com a canção Lisboa antiga (composição de autoria de José Galhardo, Amadeu do Vale e Raúl Portela).

 Quarenta e quatro anos depois eu pude comprovar, pessoalmente, as observações de Roberto Leal sobre Lisboa. Foi com Roberto também que aprendi muitas outras coisas sobre Portugal, como por exemplo, que o sotaque dos nativos portugueses causou em mim, nas primeiras vezes que o ouvi, a impressão de que se trata de uma língua muito mais bonita do que a que se fala no Brasil, e que parece que não é falada, mas cantada!

E quando ouvia a Língua Portuguesa, cantada na voz de Roberto Leal, parecia mais linda ainda. Linda e alegre! Como o meu primeiro contacto com a canção Lisboa antiga foi através de Roberto Leal, que era um cantor muito popular no Brasil, tive uma impressão diferente da que teria se tivesse conhecido a mesma canção na versão da genial Amália Rodrigues, que é um fado - e que só vim tomar conhecimento muitos anos mais tarde.  O ritmo dançante de Roberto fez com que a primeira de impressão que tive de Lisboa foi a de uma cidade alegre, o que pude comprovar anos depois. É claro que a capital portuguesa também se apresenta, em certos lugares, vestida num forte figurino de fado. Entre as várias capitais europeias que conheci, como Londres, Paris, Madrid e Roma, Lisboa me pareceu a mais alegre. 

Nunca consegui ver Roberto Leal como estrangeiro, pois cresci ouvindo e assistindo ao seu trabalho na televisão e rádio brasileiros, assim como acompanhava a carreira de Roberto Carlos. O estilo dançante e sorridente de Roberto Leal combina muito com a alegria brasileira, principalmente das crianças, como eu, aos seis anos de idade, que tentava imitar um pouco das belas coreografias de Roberto. “Ai, bate o pé\ bate o pé\bate o pé\Ai, bate o pé, faça assim como ...”.

Senti muito a partida de Roberto Leal. Ele faz parte de um período que foi, para mim, de descobrimentos do mundo. Com sua voz e suas danças, eu conheci muito de Portugal, um lugar que parecia, para mim, muito, muito distante. Mas não era! O cantor me guiava pela “Lisboa de ouro e de prata”, cujo “semblante se retrata no cristalino azul do Tejo”. O Portugal de Roberto era tão encantador quanto o Portugal que conheci há dois anos. E enquanto caminhava pelas ladeiras da cidade que ressurgiu das cinzas, já aos meus 49 anos, o canto de Roberto Leal fazia renascer o menino de seis anos e o artista me guiava: “olhai, senhores, esta Lisboa de outras eras...”

Parece que Roberto era, no fundo, um grande elo que unia Brasil e Portugal. Sem pretensão nenhuma de ser um embaixador, ele mostrava, através de sua arte, que no fundo não existem fronteiras entre o Brasil e Portugal. Aliás, para a arte não existe fronteira nenhuma. Nem entre um menino e um homem. E nem mesmo entre a vida e a morte. A voz de Roberto continuará ecoando pelas eternidades! Muito obrigado, Roberto! Muito obrigado!

Socorro, socorro, o meu país está em chamas!
Fábio d'Abadia de Sousa

Geralmente, só percebemos o real valor das coisas quando as perdemos. Eu nunca imaginei que o ar fresco poderia faltar no planeta! Mas ele começa a faltar para mim! Pelo menos é assim que me sinto no meu país! Neste país, que é um dos que apresentam algumas das mais exuberantes florestas da Terra, o que se vê no horizonte é aproximação de uma grande onda de destruição. Implacável e avassalador, o tsunami de fogo, poeira, fumaça, tiros (e muito ódio) se aproxima! Eu tento fugir! Mas tropeço e caio! Tento ignorar, como muitos fazem - inclusive o Supremo Tribunal Federal, a Câmara dos Deputados e o Senado - mas não consigo!

São tantas agressões diárias e recorrentes a grupos minoritários, como os indígenas, gays, idosos, jornalistas, artistas, estudantes, professores, negros, mulheres, sobreviventes das torturas da ditadura militar de 1964, etc. Como fingir que isso não está acontecendo? Impossível! Principalmente quando o oxigênio começa a faltar no ar. Todo vez que lembro que mais de 50 milhões de eleitores votaram nesta pessoa que lidera a gigantesca onda de destruição, o ar me falta completamente. Quase desmaio! Essa pessoa jamais escondeu sua ideologia nazi-facista. Então, há mais de 50 milhões de cúmplices desta massiva onda de ódio que toma conta do meu país. Esta constatação é a que mais entope os meus pulmões com o gás carbônico da floresta em chamas.

Enquanto a fauna e flora riquíssimas viram cinza, eu fico imaginando até quando a cumplicidade desta multidão rancorosa vai continuar. Até a última árvore das terras dos indígenas queimar? Até o último jovem negro ser assassinado? Até o último homossexual ser apedrejado em praça pública pela enorme horda de evangélicos (com a bíblia debaixo do braço) que apóia o “mito”? Até o último jornalista ser censurado? Até o último artista ser agredido no palco? Até o último professor ser afrontado em sala de aula pelos defensores da “escola sem partido”? Até o último opositor ser preso? Até o último crítico ser calado nas redes sociais pelos linchadores virtuais?

A estratégia dos militantes do Partido do Ódio é serem extremamente agressivos com qualquer um que os contrarie ou ameace (real ou imaginariamente), mesmo que seja apenas uma inofensiva professora, como foi o caso da primeira dama da França Brigitte Macron, esposa do presidente Francês Emmanuel Macron, um dos poucos líderes estrangeiros a chamar a atenção para a completa falta de preparo daquele que assumiu a presidência do meu país. Aliás, polidez e elegância não fazem parte do vocabulário e do comportamento dos bárbaros à frente do governo do meu país. Mil desculpas professora Brigitte Macron! Muito obrigado Emmanuel Macron!

Enquanto isso, a floresta queima! Os meus pulmões ardem e a minha respiração falha. Mas, mesmo sufocado, vou lutar e me posicionar contra o Partido do Ódio! Enquanto tiver força, vou enfrentar! Mesmo que me matem, o que importa para mim é que não fui omisso diante dos nazi-fascistas que tomaram conta do meu país.

No meu país, a exuberante floresta arde em chamas e eu mal consigo respirar...

* Foto: Ramon Aquim in https://amazoniareal.com.br


Saudades de Portugal e a alegria de assistir a uma telenovela portuguesa na televisão aberta brasileira
Fábio d'Abadia de Sousa

A televisão aberta brasileira, mais especificamente a Band, está a exibir, desde 15 de julho de 2019, em horário nobre, a telenovela portuguesa Ouro Verde, de autoria de Maria João Costa e direção de Hugo de Sousa. Esta telenovela é um marco, pois parece iniciar uma fase em que o Brasil, que há anos tem suas telenovelas exibidas na TV portuguesa, agora tem a oportunidade de assistir a uma novela feita em Portugal.

Estrelada pelos atores Diogo Morgado, Joana de Verona e Ana Sofia Martins, Ouro Verde também conta em seu elenco com atores brasileiros, como a maravilhosa Zezé Motta, entre outros. Lisboa e Rio de Janeiro e uma imensa fazenda de criação de gado na região amazônica são os principiais cenários da trama envolvente e que é recheada com os elementos clássicos do folhetim capazes de prender a atenção dos telespectadores.

Infelizmente, a telenovela portuguesa é dublada (apesar da opção de ser ouvir o som original). Esta situação tira do grande público brasileiro a oportunidade de conviver com o maravilhoso sotaque da língua portuguesa falado em Portugal. Em Xica de Silva, novela de Walcyr Carrasco, exibida originalmente na extinta TV Manchete, em 1996 e que foi um dos maiores sucessos da TV brasileira, metade do elenco tinha o sotaque português e isso não afetou a audiência da telenovela.

De qualquer forma, a exibição de Ouro Verde na TV brasileira é um fato que deve ser comemorado, pois, de alguma forma é uma maneira sutil de aproximação de parte da audiência brasileira do país que “criou” o Brasil. Uso aqui a palavra “criou”, (em vez dos termos usuais dos historiadores, como “colonizou”, “descobriu”, “conquistou”, “explorou”, “escravizou”, “dizimou”, etc), pois sou um brasileiro que já viveu em Portugal e que se apaixonou profundamente pelo povo português e que, talvez por esta paixão tão forte, consegue ver no povo português principalmente a figura do desbravador de indomáveis oceanos e terras longínquas que se acreditavam indomáveis.

Sei que a colonização teve momentos de extremismos de violência, principalmente contra os nativos brasileiros e os escravos dilapidados da Mãe África. Nunca negarei isso! Mas depois de morar em Portugal, não consigo mais não relativizar a relação Brasil-Portugal. Quem expulsou Dom Pedro II do Brasil, na minha opinião, a partir da leitura de autores  de clássicos sobre o assunto, foi uma elite que queria tomar o poder com objetivo de se locupletar e não de distribuir a enorme riqueza do Brasil com os brasileiros! Prova disso é que o país é um dos 10 mais opulentos do mundo, mas um dos piores em termos de distribuição de renda, e lá se foram 130 anos desde a partida de Dom Pedro II, na minha visão, o maior governante que o Brasil já teve, depois de Luiz Inácio Lula da Silva. Como não puderam expulsar Lula, prenderam-no injustamente!

Depois de morar em Portugal, passei a compreender também o lado dos homens e mulheres portugueses, movidos por uma das condições humanas mais avassaladoras, o desejo de descobrir o que está além, talvez para desafiar a morte e tornar-se parte daquilo que assusta e fascina. É esta característica humana, forjada lá no nosso DNA, que um dia vai nos levar para outros pontos do oceano sem fim, que é o restante do Universo. E, do Alenterra, quem não lembrar do feito inicial dos portugueses  estará sendo injusto e tendencioso. Os portugueses e portuguesas não tinha escolha a não ser jogarem-se no mar, pois covardia nunca combinou com este povo, que também traz em sua linhagem o sangue dos fenícios, dos árabes  e dos romanos.    

Sou um brasileiro de 51 anos, professor do curso de Jornalismo na Universidade Federal do Tocantins e que morou em Portugal parte do ano de 2018, para a realização de um curso de pós-doutoramento na excelente Universidade do Algarve, em Faro. Fui tratado com tanto carinho e respeito -espontâneos e autênticos - pelos portugueses, que jamais tive a sensação de estar num país estrangeiro, mas que estava de volta para casa, uma casa que eu não conhecia, mas que parecia reconhecer que nas minhas veias corre um pouco do sangue dos desbravadores de séculos atrás. Nos olhares acolhedores e no sotaque doce e que, às vezes, parece estar cantando uma canção de ninar, eu sempre me senti acolhido. Cheguei a comentar com os meus orientadores, os maravilhosos professores doutores Carolina Sousa e Francisco Gil, que eu tive, muitas vezes, a sensação de já conhecê-los. Os dois formam para mim uma síntese do povo português que conheci em várias regiões do País: pessoas reservadas, simples, esforçadas (pois trabalham muito), acolhedores e carinhosos com a família e até com estranhos (como foram comigo!). Exatamente a família que gostaria de ter!

Antes de morar em Portugal, eu sempre fazia questão de me definir fisicamente apenas como um negro-índio (e com muito orgulho!), apesar de que nos meus traços físicos predominam características mais acentuadas do elemento africano. Mas a ciência já comprovou que, queiramos ou não, nós, brasileiros típicos, (antes das grandes imigrações italiana, alemã e japonesa e de outros povos afetadas pelas duas grandes guerras mundiais do século XX), temos, quase todos, o sangue formado pela junção dos DNAs de portugueses, indígenas e africanos.

Depois da minha estada em Portugal, eu faço questão de reconhecer que tenho também o sangue português. Gosto de brincar comigo mesmo que agora sou completo, pois herdei do negro a resiliência a situações difíceis; do indígena, me veio uma ligação profunda com a Terra e a Natureza; e, do português, a capacidade de sonhar, principalmente em desbravar mundos distantes nos quais a felicidade parece se esconder. Mas, com os portugueses aprendi também que o Brasil tem um vínculo eterno com Portugal. Um vínculo que vem do sangue de nossos antepassados comuns e que elites egoístas, gananciosas e que só pensam em poder não são capazes de dissolver!

Em Portugal, os portugueses têm enorme respeito pelo Brasil e pelos brasileiros e adoram ressaltar a nossa grandiosidade (que nem sempre nós, brasileiros, prestamos atenção). Mas, eu gosto, sempre que posso, de ressaltar que grandes são os portugueses, que um dia deixaram suas terras, se jogaram no oceano e realizaram feitos incríveis, como a “criação” do Brasil!

É por isso que comemoro a chegada ao Brasil da telenovela Ouro Verde! Espero que venham muitas outras novelas portuguesas (sem dublagem, pelo amor de Deus!) para que possamos, nós, brasileiros conhecer um pouquinho melhor este país que nos “criou”! Amo absolutamente o povo português! Obrigado por terem me tratado como se eu fosse especial!


O que teria acontecido com Bette Davis?
Fábio d'Abadia de Sousa

Uma das vaidades humanas mais intrigantes é a de desejar não ser esquecido após a morte. E não é que as novas tecnologias da informação têm tornado um pouco mais real esta aspiração! Indiferentes se estamos vivos ou não, nossas poses e trejeitos, ostentados nos nossos selfies e vídeos, permanecem nas redes sociais. Numa eventual situação de falecimento, por exemplo, caso um familiar do morto não solicite formalmente a retirada das imagens das redes, elas lá continuam, numa sobrevivência simbólica, através de suas imagens.

Acreditamos que essa “sobrevida simbólica” começou desde que os franceses anunciaram, em1839, a invenção da fotografia, chamada, então, de daguerreótipo, numa referência a Louis Jaques Mandé Daguerre (1787-1851), o francês que aperfeiçoou o processo de captação, pela luz, de cenas da realidade visível, iniciado por vários inventores ao redor do mundo, mas principalmente por Joseph Nicéphore Nièpce (1765-1833).

Parece que, com as redes sociais e a suposta “eternidade” das imagens, a morte não apaga mais totalmente aquilo que fomos. Pelo menos na rede é possível a nossa continuidade! E isso não é pouco, já que os contatos via plataformas digitais se intensificam cada vez mais e, em muitos casos, já substituem as relações reais. Caso tenhamos saudades de alguém falecido que amávamos (e/ou continuamos a amar), uma rápida visita ao seu perfil no Facebook ou no Instagram talvez amenize um pouco a dor da separação. Será?

De qualquer forma, as redes sociais - que têm modificado o comportamento humano em quase todos os ramos - parece que também têm influenciado a nossa forma de lidar com a morte. Percebe-se, por exemplo, que aumentamos o nosso culto aos mortos que um dia foram celebridades no cinema, televisão, música, artes plásticas, esportes, etc. Isso ocorre talvez em virtude da disponibilidade de acesso quase ilimitado a informações visuais dessas pessoas, antes restritas a pequenos grupos da mídia.

Nas redes sociais, são milhares de páginas e canais dedicados a exaltar, diariamente, com fotografias e vídeos, pessoas como Elvis Presley, Marilyn Monroe, Vivien Leigh, Fred Astaire, Elisabeth Taylor, John Lennon, Frank Sinatra Ayrton Senna, Michel Jackson, Amy Winehouse, Frida Kahlo, etc. Esta última é detentora de perfis feitos por pessoas das mais variadas partes do mundo. Surpreendentemente, Frida (1907-1054), que, em vida, dedicou-se mais às artes plásticas, é cultuada, principalmente por jovens, talvez pela sua personalidade forte e insubordinada e, é claro, pela sua original elegância na forma de se apresentar em público, com roupas e acessórios de moda feitos por ela mesma, até hoje considerados chiques e de extremo bom gosto. Considerada uma das pioneiras do feminismo, a artista mexicana também inspira a juventude por ter sido uma pessoa que não se deixou abalar pelos enormes percalços que enfrentou em vida depois de ter sido atropelada por um veículo pesado.

Uma das estrelas do cinema já falecida e com mais seguidores no Instagram parece que é a norte-americana Bette Davis (1908-1989). Considerada uma das melhores atrizes de todos os tempos, a artista é referência principalmente por sua atuação como mulher malvada e de olhos incrivelmente lindos e sedutores. Em muitas de suas entrevistas, cujos trechos são compartilhados diariamente nas redes sociais, Bette Davis fazia questão de ressaltar que o exemplo de beleza feminina invejável no cinema não era ela, mas Audrey Hepburn (1929-1993). Os milhares de criadores de perfis e de seguidores de Audrey Hepburn concordam absolutamente com Betty Davis. O culto a Audrey a coloca num patamar superior a qualquer estrela do cinema que já viveu, acima, inclusive, de Marilyn Monroe (1926-1962), outra campeã de acessos nas redes sociais.

Os adoradores dessas celebridades não as tratam como pessoas que já faleceram, mas como gente absolutamente viva. Mas será que não estão vivas mesmo? As redes sociais potencializaram para outras celebridades aquele mito que só Elvis Presley (1935-1977) parecia ter conquistado: o de que está vivo e recluso em algum lugar e que, a qualquer momento que achar conveniente, poder aparecer.

Será que esta situação paradoxal de aparente indiferença se uma celebridade está morta ou viva pode chegar também a nós, mortais comuns? Talvez sim! Quem um dia foi fotografado, e esta imagem está acessível a alguém, não morre completamente, pois sua lembrança continua em outras pessoas. De alguma forma, a fotografia nos trouxe um pouco de eternidade, quer os deuses gostem ou não! E as redes sociais potencializaram isso! Então, assim como Bette Davis, Frida Kahlo, Audrey Hepburn e Elvis Presley, parece que conquistamos o direito de não morrermos completamente.


O que somos senão uma coleção de memórias?
Fábio d'Abadia de Sousa

“Se você pudesse, você abriria mão das suas memórias mais tristes e desagradáveis?” Ao ouvir esta pergunta, feita a mim, por um amigo, no final do ano passado, sem pensar muito, eu dei uma resposta afirmativa. Mas, depois, comecei a refletir melhor e percebi o quanto memória é assunto sério e complexo.

A chegada aos 50 anos, em 2018, foi, para mim, um momento divisor de águas. Por mais que tentasse me esconder de Chronos, constatei, com mais atenção, que ele (implacavelmente) esteve sempre ao meu lado e começou a ressaltar em mim os traços característicos desta idade: cabelos brancos, calvície, rugas, pele flácida, etc.

Mas nada disso me assustou tanto quanto uma crise de perda de memória. Passei a esquecer coisas simples do dia a dia, mas fundamentais para a sobrevivência de uma pessoa que, como eu, optou por morar só (optei mesmo: antes só que mal acompanhado), como, por exemplo, desligar o gás ou trancar a porta de casa antes de sair ou dormir. Passei a perder cartões de banco e smartphones quase todas as semanas. Esquecia até de comer!

Certo dia, quando tirava a poeira de alguns móveis da sala incrivelmente bagunçada, encontrei, debaixo de uma panela de barro que serve como artefato de decoração, uma quantia de R$ 500,00, o que corresponde a mais ou menos a cem euros. Para um brasileiro, é uma quantia considerável (é a metade de um salário mínimo, a remuneração de quase metade da população brasileira economicamente ativa). As duas únicas possibilidades de esse dinheiro ter sido encontrado na minha casa eram: ou eu o coloquei lá ou o Papai Noel me visitou. Eu sempre acreditei em milagres e magias, e situações vividas ao longo de minha existência comprovam que, para mim, eles existem! Mas, no caso específico do dinheiro encontrado, sou mais tentado a pensar que eu mesmo saquei a referida quantia e a guardei, mas simplesmente esqueci que fiz isso.

Esta situação me deixou muito alarmado, principalmente depois que uma médica me advertiu que talvez pudesse ser o início de um caso de demência. “Mas aos 50 anos?” “Sim, há casos de Mal de Alzheimer até mesmo antes desta idade”, respondeu a neurologista. Tive que me submeter a vários exames para comprovar ou não a suspeita. Enquanto os resultados não saíam, passei a imaginar as conseqüências assustadoras da falta de memória. Foram 15 longos dias de apreensão. O mais tenebroso para mim seria depender de outras pessoas. Logo eu, tão orgulhoso de ser dependente apenas de Deus e de mim mesmo!

Acredito que a resposta para seja lá o que somos, fomos ou seremos está na nossa memória, e perdê-la ainda em vida é perder a nós mesmos. Henri Bergson, na obra Matéria e memória (Martins Fontes, 1999, p. 88-90) aponta que temos dois tipos de memória: uma que imagina e outra que repete “A primeira registraria, sob forma de imagens-lembranças, todos os acontecimentos de nossa vida cotidiana à medida que se desenrolam...”. O segundo tipo de memória é a que, ao invés de representar o nosso passado, ela o encena. “Para evocar o passado em forma de imagem, é preciso poder abstrair-se da ação presente, é preciso saber dar valor ao inútil, é preciso querer sonhar”.

Pelo o que eu entendi da minha situação de falta de memória, e que pareceu comprometida foi a do primeiro caso detalhado por Bergson, a que registra acontecimentos rotineiros. Tal situação teria ocorrido, conforme constatei posteriormente, em virtude da necessidade de produção de trabalhos acadêmicos em tempo muito exíguo, já que sou um procrastinador e que, geralmente, deixo quase tudo para a última hora. Quando mais jovem e sob pressão, eu sempre conseguia produzir muito em pouco tempo, mas agora não. Outra conseqüência da chegada ao meio século de vida!

Quando, finalmente, recebi os resultados dos exames neurológicos, respirei aliviado. Foi descartada, pelo menos por enquanto, qualquer possibilidade de Mal de Alzheimer. Passei a tomar alguns remédios, conforme prescrição médica, e percebo que a memória já está menos falha. Tal situação foi importante para que eu refletisse melhor sobre as dificuldades que enfrentam as famílias com pessoas com Alzheimer. Passei também a prestar mais atenção sobre o quanto somos definidos pelas memórias acumuladas ao longo da vida. Boas ou ruins, somos uma coleção de lembranças acumuladas na nossa existência.

Não, eu não abriria mão de minhas memórias de situações difíceis que atravessei. Depois de refletir muito sobre o assunto, conclui que o melhor que se pode fazer a respeito é lutar para que os eventuais traumas sejam superados e que, assim como as cicatrizes físicas, elas se tornem apenas lembranças de que superamos momentos difíceis e que ficamos mais fortes e sábios por causa disso.