Memórias do Futuro


Saudades de Portugal e a alegria de assistir a uma telenovela portuguesa na televisão aberta brasileira
Fábio d'Abadia de Sousa

A televisão aberta brasileira, mais especificamente a Band, está a exibir, desde 15 de julho de 2019, em horário nobre, a telenovela portuguesa Ouro Verde, de autoria de Maria João Costa e direção de Hugo de Sousa. Esta telenovela é um marco, pois parece iniciar uma fase em que o Brasil, que há anos tem suas telenovelas exibidas na TV portuguesa, agora tem a oportunidade de assistir a uma novela feita em Portugal.

Estrelada pelos atores Diogo Morgado, Joana de Verona e Ana Sofia Martins, Ouro Verde também conta em seu elenco com atores brasileiros, como a maravilhosa Zezé Motta, entre outros. Lisboa e Rio de Janeiro e uma imensa fazenda de criação de gado na região amazônica são os principiais cenários da trama envolvente e que é recheada com os elementos clássicos do folhetim capazes de prender a atenção dos telespectadores.

Infelizmente, a telenovela portuguesa é dublada (apesar da opção de ser ouvir o som original). Esta situação tira do grande público brasileiro a oportunidade de conviver com o maravilhoso sotaque da língua portuguesa falado em Portugal. Em Xica de Silva, novela de Walcyr Carrasco, exibida originalmente na extinta TV Manchete, em 1996 e que foi um dos maiores sucessos da TV brasileira, metade do elenco tinha o sotaque português e isso não afetou a audiência da telenovela.

De qualquer forma, a exibição de Ouro Verde na TV brasileira é um fato que deve ser comemorado, pois, de alguma forma é uma maneira sutil de aproximação de parte da audiência brasileira do país que “criou” o Brasil. Uso aqui a palavra “criou”, (em vez dos termos usuais dos historiadores, como “colonizou”, “descobriu”, “conquistou”, “explorou”, “escravizou”, “dizimou”, etc), pois sou um brasileiro que já viveu em Portugal e que se apaixonou profundamente pelo povo português e que, talvez por esta paixão tão forte, consegue ver no povo português principalmente a figura do desbravador de indomáveis oceanos e terras longínquas que se acreditavam indomáveis.

Sei que a colonização teve momentos de extremismos de violência, principalmente contra os nativos brasileiros e os escravos dilapidados da Mãe África. Nunca negarei isso! Mas depois de morar em Portugal, não consigo mais não relativizar a relação Brasil-Portugal. Quem expulsou Dom Pedro II do Brasil, na minha opinião, a partir da leitura de autores  de clássicos sobre o assunto, foi uma elite que queria tomar o poder com objetivo de se locupletar e não de distribuir a enorme riqueza do Brasil com os brasileiros! Prova disso é que o país é um dos 10 mais opulentos do mundo, mas um dos piores em termos de distribuição de renda, e lá se foram 130 anos desde a partida de Dom Pedro II, na minha visão, o maior governante que o Brasil já teve, depois de Luiz Inácio Lula da Silva. Como não puderam expulsar Lula, prenderam-no injustamente!

Depois de morar em Portugal, passei a compreender também o lado dos homens e mulheres portugueses, movidos por uma das condições humanas mais avassaladoras, o desejo de descobrir o que está além, talvez para desafiar a morte e tornar-se parte daquilo que assusta e fascina. É esta característica humana, forjada lá no nosso DNA, que um dia vai nos levar para outros pontos do oceano sem fim, que é o restante do Universo. E, do Alenterra, quem não lembrar do feito inicial dos portugueses  estará sendo injusto e tendencioso. Os portugueses e portuguesas não tinha escolha a não ser jogarem-se no mar, pois covardia nunca combinou com este povo, que também traz em sua linhagem o sangue dos fenícios, dos árabes  e dos romanos.    

Sou um brasileiro de 51 anos, professor do curso de Jornalismo na Universidade Federal do Tocantins e que morou em Portugal parte do ano de 2018, para a realização de um curso de pós-doutoramento na excelente Universidade do Algarve, em Faro. Fui tratado com tanto carinho e respeito -espontâneos e autênticos - pelos portugueses, que jamais tive a sensação de estar num país estrangeiro, mas que estava de volta para casa, uma casa que eu não conhecia, mas que parecia reconhecer que nas minhas veias corre um pouco do sangue dos desbravadores de séculos atrás. Nos olhares acolhedores e no sotaque doce e que, às vezes, parece estar cantando uma canção de ninar, eu sempre me senti acolhido. Cheguei a comentar com os meus orientadores, os maravilhosos professores doutores Carolina Sousa e Francisco Gil, que eu tive, muitas vezes, a sensação de já conhecê-los. Os dois formam para mim uma síntese do povo português que conheci em várias regiões do País: pessoas reservadas, simples, esforçadas (pois trabalham muito), acolhedores e carinhosos com a família e até com estranhos (como foram comigo!). Exatamente a família que gostaria de ter!

Antes de morar em Portugal, eu sempre fazia questão de me definir fisicamente apenas como um negro-índio (e com muito orgulho!), apesar de que nos meus traços físicos predominam características mais acentuadas do elemento africano. Mas a ciência já comprovou que, queiramos ou não, nós, brasileiros típicos, (antes das grandes imigrações italiana, alemã e japonesa e de outros povos afetadas pelas duas grandes guerras mundiais do século XX), temos, quase todos, o sangue formado pela junção dos DNAs de portugueses, indígenas e africanos.

Depois da minha estada em Portugal, eu faço questão de reconhecer que tenho também o sangue português. Gosto de brincar comigo mesmo que agora sou completo, pois herdei do negro a resiliência a situações difíceis; do indígena, me veio uma ligação profunda com a Terra e a Natureza; e, do português, a capacidade de sonhar, principalmente em desbravar mundos distantes nos quais a felicidade parece se esconder. Mas, com os portugueses aprendi também que o Brasil tem um vínculo eterno com Portugal. Um vínculo que vem do sangue de nossos antepassados comuns e que elites egoístas, gananciosas e que só pensam em poder não são capazes de dissolver!

Em Portugal, os portugueses têm enorme respeito pelo Brasil e pelos brasileiros e adoram ressaltar a nossa grandiosidade (que nem sempre nós, brasileiros, prestamos atenção). Mas, eu gosto, sempre que posso, de ressaltar que grandes são os portugueses, que um dia deixaram suas terras, se jogaram no oceano e realizaram feitos incríveis, como a “criação” do Brasil!

É por isso que comemoro a chegada ao Brasil da telenovela Ouro Verde! Espero que venham muitas outras novelas portuguesas (sem dublagem, pelo amor de Deus!) para que possamos, nós, brasileiros conhecer um pouquinho melhor este país que nos “criou”! Amo absolutamente o povo português! Obrigado por terem me tratado como se eu fosse especial!