Fernando Correia

Crónica

Fernando Correia

NÓS SOMOS TEMPO

“Nós somos tempo!” – Eduardo Lourenço dizia isto no tempo em que tinha tempo de ser tempo.

Mas, agora que o mundo o transformou em história e em saudade, o que fica dele é a memória. A memória grandiosa de quem dedicou a sua vida a pensar, provando que do Ser Humano o que resta é o pensamento, quando ele nos atinge transformado em inesgotável lição.

Eduardo Lourenço era um pensador, dos poucos que Portugal teve, na sucessão de Fernando Pessoa e de Agostinho da Silva. E tal como estes, mesmo morrendo não nos deixou, porque teve espaço de vida suficiente para nos legar as ideias escritas.

E mesmo não sendo os portugueses um povo que prime pela afirmação colectiva, não podemos deixar de pensar ao lado do Mestre que: “Nós somos tempo. Compreender aquilo que somos é compreender o tempo que nós somos, aquilo que o tempo exterior, o tempo da história, o tempo da sociedade, é em nós. Não se faz essa aprendizagem sem que ela seja uma metamorfose permanente daquilo que nós somos.”

Saibamos entender o alcance deste pensamento e o que ele encerra de crítica, de verdade e de futuro aconselhado a gente boa que se desculpa permanentemente com a falta de tempo e que faz dessa ideia, transformada em dogma, um modo de vida.

Pensar Portugal continua a ser preciso. Procurar a razão de ser do tão proclamado “Quinto Império” é a explicação que mais se deseja. Perceber a índole sebastiânica de gente marcada pela instante procura de si mesma e pelo reencontro com o Mundo é algo que se impõe como tarefa transformadora de um desígnio de sofrimento e dor.

É uma tarefa enorme. Mas é nossa.

Termino recordando palavras do Cardeal José Tolentino de Mendonça: “O caixão de Eduardo Lourenço tem, qualquer que seja a sua forma, a forma de Portugal.” 


CHEGA OU É DEMAIS

Não gosto muito da via política para me debruçar sobre o que está mal e podia estar bem, nem sobre o que estando bem podia estar melhor.

Também não sei se os Partidos Políticos resolvem todos os problemas das pessoas e se contribuem, sem equívocos nem bandeiras artificiais, para que os cidadãos tenham uma vida melhor.

O que sei é que os seus membros são, de uma forma geral, demagogos e que todos afinam pelo mesmo diapasão, ou seja, se não estás do meu lado é porque estás contra mim!

E, a verdade é que muitas vezes não é assim e uma diferença de opinião pode não querer dizer que estejamos em polos opostos.

Reconhecendo o direito à liberdade de opinião e ao voto, não entendi muito bem a argumentação de alguns Partidos que votaram contra o Orçamento de Estado na generalidade. E não entendi por debilidade argumentativa; porque determinada esquerda especulativa votou ao lado de uma direita conservadora e oposicionista por tradição; e porque não se tinha discutido, ainda o orçamento na especialidade que é a discussão que, na verdade, interessa.

Ou seja: o voto contra é um voto às escuras, é um voto cego, é um voto “porque sim”.

E, sendo assim, não é sério.

Também li uma entrevista do único Deputado do “Chega” na AR, em que, por entre muitas afirmações de enorme gratuitidade e de sentido claramente agitador, afirma ser contra algumas posições assumidas pelo Papa Francisco, porque as considera anti – cristãs e, com jeitinho, anti – clericais.

Não sei se por apoiar o casamento civil entre homossexuais; não sei se por condenar a pedofilia de uma maneira geral e, nomeadamente, na Igreja Católica; não sei se por estar contra as desigualdades sociais; não sei se por ser contra as guerras; não sei se por admitir o casamento dos sacerdotes em determinadas condições; não sei se por ser contra a ostentação, o luxo e a riqueza na Igreja; não sei se por dar mais força ao espírito do que à religião, sem negar a importância da oração.

Não sei.

O que sei é que para mim já é demais!


VÊM Aí OS FUNDOS EUROPEUS

As comemorações do “5 de Outubro” foram, obviamente, mais simbólicas do que vividas ao pormenor, não só pelos efeitos das possíveis celebrações em grupo e suas consequências, mas também porque vários protagonistas dessas celebrações ainda viviam, com alguma apreensão viral, os efeitos do último Conselho de Estado onde participou António Lobo Xavier, já infectado com o “covid-19”.

Mas, apesar da contensão e da apreensão, o Presidente da República voltou a ser bem claro no seu discurso comemorativo da data, tendo a inteligência e a capacidade política de o orientar para aquilo que, na verdade, parece ser neste momento mais importante. Ou seja, o interesse colectivo dos portugueses e a necessidade de uma convergência no essencial das forças políticas.

No primeiro caso, a leitura interpretativa vai no sentido de ser fundamental, numa altura em que estão a chegar os fundos europeus, manter o interesse colectivo acima dos interesses individuais, que o mesmo é dizer muita atenção porque o dinheiro que aí vem não é só para alguns. Por outro lado, também há uma leitura política orientada para a necessidade de haver cedências para que a convergência seja viável no essencial e o Orçamento de Estado permita uma governação séria e cuidada.

Mas a leitura pode ir ainda mais longe baseada no pressuposto que deve imperar uma ética republicana contra a corrupção. No fundo são duas faces da mesma moeda que só pode chamar-se “Euro da transparência e da integridade”.

Sabe-se que palavras e actos percorrem distâncias diferentes, mas bom seria que, de uma vez por todas, se pensasse nos País e não numa dúzia de portugueses privilegiados, os tais que são sempre os “protegidos” e “beneficiados” nestas ocasiões.

Fundos passados já demonstraram onde está o problema, permitindo uma distribuição muito pouco equitativa.

Chegou a hora de se mostrar ao Mundo a tal transparência e a tal integridade, para que possamos dizer que, em Portugal, nos encontramos todos a trabalhar para o mesmo fim, pensando na sociedade global, nos problemas da comunidade e nas crescentes zonas de pobreza.

FERNANDO CORREIA
(Jornalista e Autor)


AS OBJEÇÕES DE CONSCIÊNCIA

A frequência obrigatória das aulas da disciplina de “Educação para a Cidadania” está a ser posta em causa por alguns sectores políticos e católicos da sociedade portuguesa, não se sabe se por alguma razão plausível, se por mera conveniência de contexto.

Tenta-se, por essa razão, que os alunos não sejam obrigados a frequentar as aulas e a obter na disciplina uma classificação positiva, argumentando-se com a figura da objeção de consciência que, aparentemente não encontra no caso vertente qualquer campo aceitável de análise e de aceitação.

Porquê? Porque não se encontra na sua fundamentação nenhum conteúdo ideológico que esteja aquém ou para além da Constituição da República Portuguesa e porque defender que seja uma disciplina opcional permite um aprofundamento das muitas desigualdades, infelizmente, já existentes na nossa sociedade.

Não vejo que faça mal, que seja contraproducente, que ancilose os sentidos, não tratar da matéria ambiental, da defesa do consumidor, das finanças, das necessidades culturais, da segurança, da defesa, da paz, da igualdade de género, dos direitos humanos, do voluntariado ou da saúde.

Sinceramente não vejo que alguma destas matérias possa motivar objeção de consciência, a não ser por comodismo dos alunos que não estão para perder tempo, ainda por cima apoiados por alguns pais, com uma disciplina obrigatória como esta, “inventada” pela sociedade atual.

Fico preocupado com os objetores, por temer que eles estejam, de facto, a seguir um condenável caminho político, absolutamente contrário à Constituição Portuguesa, aprovada em acto democrático pela Assembleia da República.

Só por essa razão dou visibilidade a esta matéria.

FERNANDO CORREIA
(Jornalista e Autor)


CONFESSO QUE NÃO PERCEBO

Afinal queremos, ou não, turistas estrangeiros em Portugal e, nomeadamente, no Algarve?
O turismo é incompatível com a luta, em Portugal, contra a “covid-19”?
Queremos os turistas e, depois, não os deixamos sair dos hotéis?
Tenho dúvidas quanto aos procedimentos.

Portugal precisa da indústria turística e reclama (com razão) da decisão de Boris em excluir o nosso país dos destinos seguros.

Recentemente chegaram ao Algarve 2.400 jovens holandeses. Olha que bom! Mas atenção: vão um bocadinho à praia, mantendo as regras do distanciamento, bebem água ao jantar e, a seguir, toca a ir para a caminha.

Está-se mesmo a ver!...

Por isso não escondo as minhas dúvidas e quero partilhá-las para me sentir útil à comunidade.

As regras internas estão estabelecidas e as fronteiras estão abertas. A livre circulação de pessoas voltou a ser (quase) um facto.

Precisamos urgentemente de relançar a economia e necessitamos de turistas como de pão para a boca.

Os hotéis, restaurantes, bares e discotecas têm de funcionar.

A própria Inglaterra reabriu os “Pubs”.

Bom. E nós? Mandamos patrulhas da GNR para as ruas da Oura e corremos com a malta toda, por causa dos ajuntamentos.

Acabou.

E não há um pouco de flexibilidade racional?

Claro que os turistas vão procurar outros destinos. Claro que a Espanha rejubila. Claro que a Grécia bate palmas. A Itália põe colchas à janela e a França abre o Louvre e o Moulin Rouge com a mesma vontade de cativar a rapaziada que vem da estranja, seja lá como for.

Pensemos, então, com alguma clareza.

Bem-vindos os turistas. Que tragam dinheiro e o gastem cá. Que bebam umas cervejas. Que comam marisco. Que cumpram as regras possíveis para evitar contágios. Que riam. Que cantem. Quer se sintam bem. Que passeiem. Que visitem. Que vejam. Que fiquem. Que voltem.

Isto não é uma “balda”. De facto, não é. Mas sejamos coerentes e pensemos que se não fizermos o mesmo que os outros países, vamos certamente ficar sozinhos a “chorar baba e ranho de todo o tamanho”, sem dinheiro, sem turismo, com mais desemprego, com mais dívida pública, com a hotelaria fechada e… com “covid”.

Isto só vai lá quando a doença conhecida como “covid-19” deixar de ser avaliada como uma pandemia e passar a ser tratada como uma endemia.

Mais uma, entre muitas que andam por aí à solta, e que matam todos os dias.

FERNANDO CORREIA
(Jornalista e Autor)


OS VÂNDALOS DA HISTÓRIA

Andou o Padre António Vieira pelo Brasil a pregar aos peixes, defendendo os índios e lutando contra a escravatura, para ser vandalizado por quem não sabe “História” e transforma as palavras de pedra em arma insultuosa de arremesso.

Andou o Padre António Vieira a pregar, por D. João IV e pelo reino português, contra a inquisição e não lhe bastou ser preso como agora insultado na sua morada esfíngica.

Andou o Padre António Vieira a consumir a alma pela justiça dos homens, pondo em causa a justiça de Deus, para lhe agradecerem com as cores do demónio pintadas no rosto.

Andou o Padre António Vieira a lutar contra os comerciantes de carne humana pelo imenso Brasil, para ser agora escorraçado e pela calada da noite afastado das páginas de gratidão e reconhecimento da história universal.

Andou o Padre António Vieira a semear a sua palavra, em sermões de fé e esperança, para nos dias de hoje, ditos de civilização avançada, fazerem chover granizo para evitar uma boa colheita.

Ando eu, como Santo António, de menino ao colo, à espera que este povo, abençoado pelo quinto império de Pessoa, olhe para dentro de si e resgate do passado quem merece.

A verdade, por vezes, transforma – se em mentira. A mentira repetida transforma – se em verdade para quem a deseja. A história escrita, contada e perpetuada em memórias de pedra e bronze, jamais pode ser apagada, mesmo que não se goste dela.

E o Padre António Vieira merecia que se soubesse da sua luta interior contra as almas penadas do comércio fácil da carne humana, essas sim, a valerem a revolta dos que nobremente lutam pela igualdade, pela fraternidade e pelo amor entre os povos.

FERNANDO CORREIA
(Jornalista e Autor)


A “NAMORADINHA DO BRASIL” NÃO TEM NAMORADO

Regina Duarte deixou de namorar o Brasil mas, ao que parece, isso não lhe custa nada. Pelo menos percebe–se que foi o Brasil a acabar com o namoro, provavelmente por já estar farto dela, o que nem se deve censurar. Os namoros são assim e servem para isto mesmo. Ou seja, tudo começa por aquilo quer se pode definir como compreensão mútua, por entendimento mútuo, por se achar que não há ninguém igual, mas depois, a pouco e pouco, verifica–se que há pormenores que não são ultrapassáveis, que afinal a beleza não é tudo, que o corpinho apetitoso não esconde os defeitos da alma e que as palavras são tão feias que nem uns lábios carnudos as disfarçam.

Não se sabe se Regina Duarte ainda gosta do Brasil, mas percebe-se que o Brasil já não gosta de Regina Duarte. Pelo menos, muito do que se vê e do que se ouve aponta nesse sentido, correndo até “abaixo–assinados” contra o facto de Regina continuar a ser Secretária da Cultura, o que ultrapassa de longe o facto de ser uma simples namorada do País.

E porquê?

Exactamente por não ter feito fosse o que fosse pela cultura brasileira, que tem um belíssimo historial de poetas, escritores, músicos, actores, compositores, pintores, pensadores e por aí fora. E tem, também, um historial pouco recomendável de falta de apoio a todas as pessoas que poderiam contribuir para a subida do nível cultural do país e para o projectar no desejável universo da arte e da sabedoria mundiais.

Regina foi uma esperança. Mas não passou disso. Regina tinha um passado artístico que podia dar garantias de apoio e compreensão das necessidades culturais. Mas não passou disso. Regina foi uma boa actriz. Mas não passou disso.

Actualmente, o papel que representa é de um absurdo e inconveniente cariz político e, os brasileiros assim o dizem, muitíssimo mal representado. Já não passa disso.

E para aqueles que olham o mundo global com olhos de ver e percebem o que nele se passa com coração de sentir, estes casos de ascensão ao poder (sempre efémero e enganador) são reveladores de algo que está disfarçado, ou escondido, na alma de determinadas pessoas, personagens de si mesmas no palco da vida, ainda que durante algum tempo estejam sentadas na plateia do dia a dia a baterem palmas aos outros. Claro que são aplausos de inveja, palmas de conveniência, sorrisos forçados de mentira para compor a falsidade da peça que estão a representar.

E há quem se lembre daquela “Malu Mulher” – que por pouco escapou à feroz censura da ditadura brasileira – protagonizada por Regina Duarte, nessa altura apenas para espectador ver, uma grande defensora dos direitos humanos, dos direitos do seu povo, essencialmente dos direitos das mulheres.

O tempo é outro e, agora, nem o “senhôzinho Malta” lhe pode valer, porque até ele deixou de estar enamorado pela “viúva porcina”!

FERNANDO CORREIA


UM AVISO SÉRIO

Estamos a assistir a uma espécie de revolta da natureza contra todos aqueles que tanto mal lhe têm feito.
Essa revolta surgiu através da propagação de um vírus, um pequeno elemento proteico, proveniente de animais selvagens vendidos num mercado público da China e que infectou o Ser Humano, de forma violenta, pela sua facilidade de propagação (daí a pandemia) embora de efeitos individuais pouco violentos.
Ou seja: a pandemia é perigosa por esse facto, por ser mundial, e por atingir pessoas de débil sistema imunitário ou com doenças respiratórias agudas.
Quando se diz que é uma revolta da natureza é preciso entender que se trata de uma figura de retórica, mas de significado abrangente, que obriga a pensamentos de uma outra ordem, talvez mais visíveis nos planos mental, astral, universal e metafísico, percebendo – se que o Homem resolveu, por sua própria iniciativa, adulterar a forma e o conteúdo da matéria a seu belo prazer, entrando em conflito directo com o planeta, com a sua formação original, o seu conteúdo, a sua génese e a sua fórmula de vida.
As guerras, os químicos, o aquecimento global, a poluição desenfreada, as constantes experiências atómicas, as armas nucleares, etc. não podem continuar a existir, não é viável, o planeta não suporta.
As transformações sucessivas operadas na Terra são um aviso muito sério, mas até agora ignorado.
Por isso se usa a linguagem simbólica da revolta da natureza.
Para perceber isto basta pensar que, após uns dias (no máximo um ou dois meses, conforme os países e a proliferação pandémica) já há peixes nos canais de Veneza que estavam fortemente poluídos; já se respira em cidades onde a atmosfera era irrespirável; os níveis de dióxido de carbono na atmosfera baixaram consideravelmente;  o aquecimento global, provocado pelo efeito estufa no planeta, desce progressivamente para níveis aceitáveis; a chuva regressa aos valores normais; as temperaturas voltam, a pouco e pouco, a definir as estações do ano; os animais começam a ter condições naturais de sobrevivência; e o Ser Humano obriga – se a alterar os seus hábitos de vida.
Este será o aspecto fundamental da pandemia denominada “covid 19”: nada será como dantes!
O Ser Humano vai alterar a sua forma de viver e o dinheiro, se continuar a existir, terá um outro valor qualquer, provavelmente muito mais racional e lógico.
O egoísmo também baixará significativamente, porque é o único caminho para o entendimento da egrégora da vida.
A noção de fraternidade terá de ser, necessariamente, ampliada, para que o Homem veja, de uma vez por todas, que não pode viver sozinho, sem se preocupar com os outros que lhe estão próximos.
A família voltará a ter um papel definitivo na construção da sociedade.
A vida no campo, incluindo o justo e correcto aproveitamento das terras, deve passar a ser uma constante, porque a desertificação do interior transmitiu, como se sabe, uma falsa imagem de desenvolvimento individual e colectivo.
Os políticos, apologistas de acções ditatoriais ou autocráticas, estão no fim do seu caminho e jamais poderão voltar a usar a ignorância do povo em seu proveito.
A tarefa das nações será prioritariamente a de educar, instruir e formar a sua gente.
O caminho para uma sociedade global está à vista.
Os Templos devem abrir portas aos fiéis desde que sejam, eles próprios, fiéis ao ideário que os criou.
Os valores humanos têm de estar acima dos interesses pessoais.
A religião está dentro de cada individuo e desde que se proceda de acordo com os ensinamentos da criação, os guias espirituais terão o caminho aplanado.
Se Deus (seja ele qual for e o que for) se deve traduzir no Universo Criador da Humanidade, então, a humanidade terá de dar abrigo, dentro de si, ao Deus que a criou.
O aproveitamento dos recursos de cada País é sempre uma dádiva da natureza e terá de ser equitativo.
A lista é imensa e a sua grandeza depende de cada um de nós e daquilo que quisermos para o futuro da humanidade.
Mas estamos na hora certa.
Não é possível esperar mais.
A natureza avisou.
Basta cumprir.

FERNANDO CORREIA


TODA A CAUSA TEM O SEU EFEITO

A notícia é amarga e surge logo a seguir ao apregoado e proclamado mês da fraternidade: Dezembro!
E a notícia é esta: cresce o número de portugueses endividados, ao mesmo tempo que duplica o número dos que não têm abrigo ou tendo abrigo não têm dinheiro para comer, nem para remédios, nem para sustentar os filhos, muito menos para os educar, nem para comprar roupa, nem para a electricidade, nem para os transportes, nem para sorrir!...
A maré enche e vaza com a força dos fluxos e refluxos da natureza e se do Natal ficou a história cristã, também ficou a aridez de um bolso vazio ou de uma vida penhorada. O Ser Humano é assim e, por vezes, gasta o que tem e o que não tem, apoiado num enganador cartão de crédito que só serve a quem o emite; outras vezes gasta – se a si mesmo, a reivindicar os direitos que não lhe dão e quando procura trabalho para “sair da rua”, as portas fecham – se -lhe na cara, com as mais variadas e invulgares justificações.
É por isso que o Estado Social se deveria envergonhar do que faz na maioria das suas acções, deixando como herança histórica o facto de cada vez haver mais gente rica e, como consequência, mais pessoas na miséria ou no limiar da miséria.
Não pensarmos no que isto quer dizer é iludirmos o significado da nossa própria existência e ignorarmos a razão de ser da humanidade, tal como foi concebida e criada.
Ou seja: o cidadão abastado (que não divide o que tem) e se serve dos outros para conseguir, para si, mais riqueza, é um simples Ser abastardado que tem uma visão distorcida da realidade, não sendo capaz de perceber a importância do esforço colectivo, nem de avaliar a grandeza de uma existência repartida e, certamente, mais de acordo com o significado da vida terrestre, da vida material. E, por essa via de procedimento, jamais encontrará o caminho do espírito, jamais será iluminado pela grandeza da dádiva, pela importância da partilha, pela nobreza do caracter que, afinal, não tem e pela alegria de estender a sua mão a quem dela precisa.
Alguns justificam – se dizendo que foi o acaso que lhes deu o dinheiro, o poderio, a voz de comando, a supremacia…
Falácia. Justificação que nada justifica. Sombra da realidade.
Para esses recomenda – se vivamente a consulta do “Caibalion”, se tiverem a coragem de o ler e de o entender, ou mesmo só de o ouvir. Se o fizerem encontrarão a “voz” de uma consciência diferente: TODA A CAUSA TEM O SEU EFEITO; TODO O EFEITO TEM A SUA CAUSA; TODAS AS COISAS ACONTECEM DE ACORDO COM A LEI SUPERIOR; O ACASO É SIMPLESMENTE O NOME DADO A UMA LEI NÃO ENTENDIDA E NÃO CUMPRIDA.
É preciso, então, perceber e tomar boa nota do que estas palavras significam, porque, de facto, toda a causa tem o seu efeito.
Quando os Seres Humanos menos avisados entenderem o que isto quer dizer, poderá ser demasiadamente tarde.


A Galinha dos Ovos de Ouro

Portugal e Lisboa continuam a ser destinos preferidos internacionalmente, o que contribui largamente para que a economia, a nível do Estado, “sorria” feliz. Alguns senhorios, infelizmente, mas porque a lei o permite, desataram a despedir inquilinos e a promover o turismo local que é uma espécie de galinha dos ovos de ouro, mas que só pode ser “comida” por alguns. Ou seja: cria-se a galinha, ela põe os ovos de ouro e, depois, quando se esgotam os ovos, ainda dá para fazer uma cabidela, servida à mesa dos tais privilegiados, mas cozinhada com o sangue dos que ficam sem casa.

A história repete-se. Nunca se sabe donde vem a riqueza, mas normalmente é sempre feita à custa da pobreza dos outros.

Para além desta dura realidade a que ninguém consegue pôr cobro (por enquanto), o abuso turístico é uma constante e se não houver uma vigilância constante e atenta, a especulação sobe de tom e aqueles que nos visitam, porque o destino é bom e atractivo, começam a perceber que alguma coisa vai mal e que, por vezes, os custos são exagerados.

É importante perceber o que se está a passar e exercer uma vigilância atenta e um controlo total das situações para que este magnífico destino turístico não feche as suas portas, por culpa dos que querem enriquecer a qualquer custo.

Também se torna importante recordar alguns exemplos anteriores ocorridos com outros destinos portugueses, onde a especulação deu cabo das belezas turísticas, transferindo os visitantes para Espanha, onde lhes deram (e dão) condições mais vantajosas. É, por isso, o momento de travar o que está errado, de incentivar o que está bem e não ter contemplações com os do costume que não olham a meios para atingir os seus objectivos imediatos.

Portugal é um destino turístico de eleição. São múltiplas as belezas e o povo é carinhoso, tranquilo e fraterno. Com toda a naturalidade, abre as portas de casa aos visitantes e partilha o que tem sem querer nada em troca. Pois bem. Que este exemplo seja seguido pelos grandes proprietários, hoteleiros e comerciantes e que juntos, defendam e tratem bem a nossa “galinha dos ovos de ouro”.