Contemplações


Cinco artistas em Sintra
Francisco Gil

Cinco artistas em Sintra é uma obra de 1855 da autoria de Cristino da Silva (1829-1877) que regista um país conservador, desigual, em confronto com os novos paradigmas socioeconómicos do século XIX após a chamada revolução liberal.

Na atividade artística, a norma antiga ditava que o mestre e os seus discípulos trabalhassem na oficina com base na observação de modelos à luz da vela e cópia e adaptação de gravuras. Os trabalhos, na maior parte das vezes elaborados por um coletivo, não eram assinados já que o sistema de mercado e de autor não estava instituído. A oficina de um mestre pintor, com os seus assistentes e aprendizes, era uma fábrica de peças, um centro de mão de obra para todo o tipo de pinturas e arranjos estéticos. Até 1834 o funcionamento das oficinas, dos artistas e de todos os ofícios manuais era regulado por um grémio — uma ordem profissional — que ditava quem podia ou não podia exercer a profissão. Com a instauração de um regime liberal, o grémio — chamado de Bandeira de São Jorge — foi suprimido, criaram-se as Academias de Belas Artes em 1836 e passou, em parte, a ser mais livre o exercício artístico em Portugal.

A pintura de Cristino da Silva, integrada no romantismo português, revela os novos conceitos da atividade artística no país, que abandonava pouco a pouco as premissas antigas. Neste retrato pintado, vemos os artistas no exterior da oficina no registo de observação da natureza. Vemos a sua cara, a sua assinatura. A pintura romântica, transmitia uma visão melancólica do mundo, acentuando o egocentrismo e a valorização dos contextos locais, em oposição aos registos anteriores que evidenciavam o formalismo na composição e as temáticas históricas e mitológicas, como reflexo do racionalismo dominante.

A valorização do trabalho artístico e do artista como pessoa é destacado nesta obra, onde é evidente a clivagem social entre os personagens representados. Por um lado, os cinco artistas em destaque e reconhecíveis* que olham no sentido do observador da tela e ostentam uma indumentária urbana, por outro, as figuras populares, anónimas — os chamados saloios das zonas rurais de Lisboa — que observam o trabalho artístico: um velho, uma mulher, um jovem, e três crianças.

Esta visão social, com uma evidente assimetria entre o urbano e o rural, onde uns posam para o retrato pintado como figuras principais e os outros fazem apenas parte da paisagem, resulta de uma construção social secular que promove a desigualdade. É neste contexto de rejeição ao passado, que ao longo de todo o século XX surgiram grandes mudanças sociais como a emancipação feminina, quando as mulheres reivindicaram direitos jurídicos iguais aos homens, ou a educação universal, como direito de todos e de todas.

As melhorias em infraestruturas que surgiram em Portugal no século XIX após a chamada revolução liberal, chegaram, como se sabe, bastante atrasadas em relação ao que já acontecia noutros países europeus. As primeiras estradas de terra batida (pelo método McAdam) são deste período, onde se demorava umas 34 horas de Lisboa ao Porto numa carruagem puxada por duas parelhas de cavalos. Os primeiros liceus criados em cada uma das capitais de distrito, começaram a ser instalados a partir de 1836, sendo que em Faro só foi criado por decreto em 1851.

A nova visão do mundo preconizada no século XIX, permitiu abrir novas portas para um novo contexto social que se desenvolveria posteriormente de forma abrupta e descontrolada. Hoje, no rescaldo de tantas mudanças, necessitamos ainda rever os desequilíbrios sociais e naturais que as diferentes formas de liberalismo não resolveram e que de certa forma acentuaram e continuam a acentuar.

* Cinco artistas em Sintra, de Cristino da Silva (1855). Os cinco artistas são Tomás da Anunciação, em primeiro plano, Francisco Metrass, seguido de Victor Bastos, Cristino da Silva, e José Rodrigues, sentado no chão .

(2019-07-29)

https://doi.org/10.23882/2184-5689-008