à Deriva


Falência com estrondo
Fernando Vieira

A estrondosa falência do operador turístico britânico Thomas Cook, que há algumas semanas deixou meio mundo em estado de choque e a outra metade a fazer contas de sumir, nomeadamente algumas empresas do setor na região algarvia, fez-me recordar como esta indústria – de uma enorme importância para as economias regional e nacional – é tão instável e precária.
A bancarrota de uma entidade com 178 anos de atividade implica dívidas de valor muito elevado a algumas dezenas de credores, o que representa um impacto assinalável – principalmente – nas empresas de pequena e média dimensão.
Não quero dissecar o infeliz encerramento de portas de um autêntico monstro como era a Thomas Cook, detentora de mais de cem aviões e 200 hotéis.
Escuso-me dissertar sobre o que aconteceu e o que era para ter acontecido, se houve ou não houve boa gestão de ativos e passivos.
O que me traz aqui é outra vertente da questão, que considero bem mais preocupante, pois muito provavelmente afetará a vida dos milhares e milhares que trabalham no e para o setor turístico.
Já não bastava o fenómeno da sazonalidade, que deixa a região de portas semifechadas de outubro a março, surge agora este gravíssimo rombo na contabilidade de algumas das maiores empresas do ramo, o que certamente terá repercussões na sua balança de pagamentos, nos seus projetos de negócio e, portanto, na sua capacidade empregadora.
Há anos e anos que leio e ouço ajuizados pensadores, teóricos da economia, sociólogos bem documentados e demais estudiosos alertando para este problema, pois hoje em dia a nossa bela região está a ser toda espremida, turisticamente falando, e nenhuma outra atividade industrial ou produto financeiro se afigura como alternativo.
Acresce ainda o facto de o Algarve não ter qualquer peso político, apesar deste ser o primeiro destino turístico do país, representar 40 por das dormidas registadas em Portugal, e ter um contributo económico fortíssimo para os cofres do país.
Creio que a única forma de se combater a famigerada sazonalidade é atrair a fatia de mercado mais disponível para fazer férias “fora de horas”, que prefere pausas longas e que tem mais rendimento disponível para gastar: os chamados ‘seniores’.
Que quem de direito se debruce sobre esta dica, pois não paga mais por isso.
 


Invasão brasuca
Fernando Vieira

É provável que tenham reparado no vosso dia-a-dia o aumento do Português com sotaque brasileiro, sobretudo nas filas dos supermercados.
Na verdade, há um forte surto de brasileiros, que na sua esmagadora maioria aqui procuram melhor qualidade de vida, nomeadamente em termos de segurança, saúde e educação.
Este fenómeno não é novo, pois há cerca de 20 anos o Algarve recebeu milhares de brasileiros, que por cá foram ficando até à eclosão da crise económica e social de 2008.
Mas esta onda de migrantes é claramente diferenciada da primeira, a qual estava nitidamente impreparada, e é estimulada por políticas governamentais, cuja lógica se prende com o envelhecimento da população portuguesa e a necessidade de sangue novo na sociedade local.
Os brasileiros de hoje estão, em grande medida, melhor preparados. Fizeram um planeamento tão aprofundado quanto possível, organizaram um pé-de-meia razoável para enfrentar os primeiros meses de procura de residência e trabalho e têm uma noção mais aproximada do que os espera.
No entanto, e por aquilo que vou percebendo em conversas com esses emigrantes, desconhecem praticamente a nossa cultura e julgam encontrar cá, apenas e só, um Brasil melhorado.
É que o brasileiro continua a ter dos portugueses uma imagem tacanha, resultado de décadas de anedotas de gosto duvidoso e totalmente descontextualizadas da realidade. Muitos acreditam que as portuguesas têm buços descomunais e que os portugueses são todos padeiros carrancudos. No imaginário do Brasil, o português diz a cada instante “Ora pois!”, por tudo e por nada.
Além disso, têm uma inesperada dificuldade em entender o genuíno português,… que eles alteraram, talvez com demasiada criatividade, no último século.
São anos e anos de costas ostensivamente voltadas para o país colonizador, desprezado em favor das grandes nações do momento, seja os Estados Unidos, seja a Inglaterra, a França ou até mesmo a Espanha.
Cá chegados, é a surpresa total, o deslumbramento indisfarçado: afinal o decrépito Portugal é um país moderno e muito organizado, os transportes públicos funcionam, as escolas estão bem apetrechadas, o Serviço Nacional de Saúde é um mimo, o país é lindo e, pasme-se, os portugueses são extremamente bem-educados e atenciosos.
A segurança pública é das melhores do mundo, podendo o brasileiro andar à vontade com o seu celular a qualquer hora do dia ou da noite e fazer transações monetárias nas caixas multibanco a céu aberto, sem nenhum risco de assalto.
Mas, qual será o futuro imediato desta onda brasuca que nos escolheu para refazer as suas vidas, logo numa altura do ano em que a principal indústria empregadora, o turismo, tem uma elevada percentagem de empreendimentos fechados?
Haverá alojamentos, a preços justos, para tanta gente? E empregos?
Como serão os próximos meses desta gente, em muitos casos famílias com crianças de tenra idade?


Maré de E.coli
Fernando Vieira

Há dias, foi destaque noticioso de nível nacional a interdição de banhos na Praia do Alemão, ou mais corretamente na Praia do Barranco das Canas, no concelho de Portimão, devido à elevada presença da bactéria E.coli na água do mar.

A bactéria deu positivo na análise de uma amostra recolhida pela Agência Portuguesa do Ambiente, o que levou ao hastear da bandeira vermelha durante dois dias, salvaguardando-se assim o risco de os banhistas serem afetados por sintomas deveras constrangedores, como ataques incontroláveis de cólicas abdominais, enjoos e diarreias, muitas diarreias.

Dizem as más línguas que o problema se ficou a dever a uma descarga de dejetos sanitários no oceano, por obra e graça do proprietário de uma embarcação turística, vulgo iate, ancorada à vista da praia.

Em escassas semanas, este foi o segundo caso de presença da bactéria E.coli na costa algarvia, depois de uma situação idêntica verificada na Praia de Faro, e em ambos os casos a situação justificou grande alarido na comunicação social, que não perde uma oportunidade para falar do Algarve, geralmente pelos piores motivos, ignorando tantas e tantas vezes as coisas boas que acontecem nesta região.

Sei que há valores máximos permitidos por lei relativos à bactéria 'Escherichia coli', vulgarmente conhecida por E.coli.

Também sei que a legislação impõe uma contraordenação e coima entre os 55 e os 250 euros aos banhistas que desrespeitarem a sinalização e se fizerem ao mar, para além de arcarem com os sintomas inerentes à ingestão massiva de coliformes fecais.

Desconheço é o tipo de castigo aplicável ao eventual prevaricador que se terá estado positivamente a borrifar para as consequências do seu irrefletido acto, ficando o mesmo por identificar e punir, para efeitos pedagógicos e moralização do setor.

Ignoro igualmente se são sancionados os turistas da classe javardo que conspurcam as praias com todo o tipo de dejetos, desvalorizando assim os nossos areais, do mais fino e puro que possa existir no planeta Terra, mas que nesta altura do ano se transformam em campos minados por beatas, garrafas, latas, sacos e demais materiais não biodegradáveis, onde abunda o terrível microplástico.

Certo é que, mais uma vez, a região andou nas bocas do mundo e não pelos melhores motivos, mas simplesmente porque algum turista dos altos mares se terá marimbado para as mais elementares normas de respeito pela saúde pública e, como tal, cá vai disto ó Evaristo.

Esse mediatismo sensacionalista que tanto prejudica a imagem da região, sempre em busca de uma boa-má notícia, podia ter sido originado por mais de duas alforrecas a dar à costa simultaneamente e no mesmo local ou por uma natural invasão de algas à beira-mar, tratadas da forma mais alarmista possível…. Afinal, desta vez tudo não passou de uma questão de… biomassa borda fora.