Fernando Vieira

à Deriva

Fernando Vieira

Não fazer nada é uma ciência

Desconheço como estão passando o vosso tempo de auto quarentena.
Pois eu cá devo confessar que já não sei o que mais fazer, após duas semanas enclausurado em casa. Ou serão três...?
A sensação marcante por estes dias é que estou a ficar cada vez mais pírulas e, por isso, imploro-vos dicas, para além da minha rotina, que - grosso modo - gira em torno do seguinte teletrabalho:
13h00 – 02h00: Acompanhar na tv os noticiários que dão conta de como o mundo anda às voltas com a pandemia da Covid-19;
02h00 – 04h45: Maratona de programas americanos idiotas sobre adolescentes grávidas e jovens que são surpreendidos pelos pais em farras e festarolas tresloucadas;
04h45 – 07h00: Emissões culinárias de todo o mundo, para captar sugestões para os petiscos do dia;
07h00 – 13h00: Descansar os olhos e o cérebro de tantas baboseiras.

 

Ocasionalmente, circulo pela casa atrás de uma mosca ou um mosquito que teve a infeliz (e derradeira) ideia de entrar pela janela. Modéstia à parte, estou-me a tornar um caçador implacável, fruto da experiência que vou adquirindo.

A nível cultural, e assim de memória, já esgotei o repertório de músicas do Zeca Afonso, dos Xutos & Pontapés, do Marco Paulo, da Maria Leal e do Salvador Sobral (entre tantos outros), ao mesmo tempo que li de trás para a frente a Encyclopædia Britannica e todas as obras do Fernando Pessoa e seus heterónimos.
Também conto com alguma regularidade as folhas dos rolos de papel higiénico que consegui arrecadar antes do Grande Açambarcamento, se bem que esta atividade dure menos tempo a cada dia que passa, devido à redução das unidades, pois das 435 iniciais sobram 396 no momento em que vos escrevo.
Na vertente gastronómica, estou-me a tornar um requintado ‘chef’ no que toca à confeção de entaladinhos de todo o género e até já sei estrelar ovos e fazer gelo.
Em compensação, e para adiar o máximo possível a obesidade galopante que me vem incomodando há algum tempo, pratico – religiosamente - 5 minutos diários de exercícios de meditação na balança da Wii, o que também me ajuda a manter alguma sanidade mental e dá trabalho aos neurónios sobreviventes… embora reconheça que os efeitos comecem a ser algo duvidosos.
E digo isto porquê? Porque vou gradualmente manifestando certas atitudes excêntricas – batizei todos os sofás da sala com apelidos condizentes ao conforto que me proporcionam: ‘nuvenzinha’; ‘duro como a porra’; ‘pés de fora’.
Outra atitude bizarra para preencher o dia é telefonar para toda a gente que consta na lista do meu telemóvel, a ver se alguém atende e troca umas ideias comigo. Curiosamente, já restabeleci contacto com uns 4 ou 5 familiares e conhecidos, dos quais não tinha notícias há anos e anos.
Enfim, não fazer nada de jeito é uma ciência e dá MUUUUITO trabalho.
Bastante mais poderia escrever, mas creio que já entenderam o meu dilema.
Na verdade, o tédio vai-me esgotando as ideias e por isso recorro a todos vós, a ver se contribuem com dicas que refresquem o meu monótono quotidiano, até que vida regresse à – suposta – normalidade...
Venham de lá essas propostas!

2-04-2020