Fernando Vieira

à Deriva

Fernando Vieira

Vem aí o circo da Fórmula 1

O país rejubilou com a notícia do regresso da Fórmula 1, após 24 anos de interregno, para uma corrida a disputar-se na magnifica pista do Autódromo Internacional do Algarve em 25 de outubro próximo. 

Se não houver percalços até lá, o poderoso mundo automóvel vai estar de olhos postos no Sítio do Escampadinho, freguesia da Mexilhoeira Grande, a poucos quilómetros da cidade turística de Portimão… e com público nas bancadas. 

Muitos já consideram aquela como uma das maiores datas históricas do desporto motorizado português, para o que terá concorrido a vontade e os esforços de diversas entidades locais, regionais e nacionais, podendo este projeto, que começou a ganhar corpo há poucos meses, servir de paradigma para outros cometimentos lusos de amplitude internacional. 

Contudo, creio que não se deveria embandeirar tanto em arco com esta vitória relativa, pois convém ter presente que a mesma jamais ocorreria – pelo menos nos próximos tempos – caso não atravessássemos uma pandemia que tudo tem pervertido à sua volta. 

É que os inegáveis dividendos que o retorno da Fórmula 1 ao nosso país poderão trazer, na ordem dos 300 milhões de euros segundo estimativas reservadas, estão ameaçadas pela guilhotina de um novo surto de Covid-19, que alguns especialistas da área da saúde receiam possa ocorrer com o advento do outono e, portanto, da época das viroses gripais e afins. 

Mais apreensivo fico sabendo que este novo Coronavírus, que tantas mortes causou e transtornos sociais provocou, é de uma imprevisibilidade exasperante, reinventando-se como poucos, para mal dos nossos pecados. 

Portanto, reconhecendo que o anúncio da realização no Algarve da prova maior do desporto motorizado deixa-nos a todos de peito inchado e faz muito bem à nossa auto estima, devo chamar a atenção para uma eventual reviravolta, caso os indicadores de controle da pandemia na região (e em Portugal) se revelem até lá inseguros e, como tal, insustentáveis. 

As autoridades regionais têm sabido dar uma eficaz resposta a este problema sanitário, graças ao empenho e competência dos profissionais de saúde e demais envolvidos, proporcionando as garantias de segurança que nos permitirão receber esta espécie de medalha de ouro do desporto mundial. 

A promoção global da prova e, por tabela, do destino turístico algarvio, é algo não quantificável, já que permitirá atingir os quatro cantos do planeta automóvel e mostrar todas as nossas qualidades, da hotelaria de excelência à saborosa gastronomia, das praias magníficas e do deslumbrante interior, ao património histórico-cultural e às marinas que salpicam a costa.  

Por isso, os responsáveis pela empreitada querem que esta não seja uma mera prova de substituição e se consolide no circo da Fórmula 1, constituindo um importante balão para as empresas da região, ao gerar uma forte dinâmica económico-financeira. 

Mas atenção: todos nós deveremos contribuir para que os índices de segurança sanitária sejam o mais elevados possível, quer para que o sonho de trazer a Fórmula 1 para o Algarve se concretize a 25 de outubro e se repita nos anos vindouros, quer – já agora – para o nosso próprio bem-estar.

5-08-2020