Fernando Vieira

à Deriva

Fernando Vieira

Futuro devoluto

Qualquer um de nós pode confirmar, se é que ainda não teve noção do fenómeno, o elevado número de habitações devolutas existentes nos principais centros urbanos do Algarve, na esmagadora maioria em mau estado de conservação.

Qualquer um de nós também pode aferir, se é que nunca passou pela traumática experiência, como a demanda por uma casa para arrendar constitui uma exasperante busca de agulha em palheiro, principalmente por jovens casais no início da vida a dois.

Talvez devido à atual conjuntura, está a verificar-se um pouco por toda a região um curioso fenómeno; o regresso de jovens que aqui pretendem constituir família e alicerçar futuro junto dos seus, depois de terem feito formação académica e/ou tentado emprego nos principais centros urbanos do país.

Assim de repente, e nos últimos dias, soube de 4 ou 5 casos… e das imensas dificuldades que estão a ter para conseguirem um lar dentro das suas possibilidades financeiras, evitando logo à partida um compromisso bancário para toda a vida, que lhes impõe implacavelmente uma disponibilidade monetária, na ordem dos 5 por cento do custo final (mais alcavalas), que muitos não têm.

Porém, face ao paupérrimo cenário dos alugueres disponíveis, só lhes resta “meterem-se com os bancos” a contragosto, pois a alternativa impõe-lhes condições verdadeiramente obscenas.

Na verdade, havendo tantos imóveis fechados a sete trancas e tão escassa oferta, a procura é confrontada com um ror de ilicitudes e imoralidades que se confundem entre si, desde rendas surreais face à qualidade medíocre dos habitáculos, até à exigência de várias cauções, tudo sem contratos e, como tal, sem recibos ou controle legal.

Para piorar ainda mais, grande parte das casas apenas está disponível entre outubro e maio, porque os proprietários não abdicam de faturar à tripa-forra durante os meses da chamada “época alta”.

Sem entrar em mais detalhes, pois o espaço escasseia, considero uma lástima a não existência efetiva – repito, efetiva – de um programa, ou plano, ou projeto, que estimule estes jovens algarvios a regressarem às origens e, como tal, a contribuírem para o bem-estar de todos nós com o seu potencial.

Como se compreende, o problema não passará só pela habitação, mas dela depende muito, já que é extremamente desolador querer voltar para junto dos seus e esbarrar com este panorama.

Para reflexão por quem de direito.

1-09-2020