reflexões in verso


romance II (medo)
Afonso Dias

romance II
(medo)

é o sábio desconforto
a habitar a honestidade
que nos dá a conhecer
as gerberas que florescem
naquele minuto preciso
que arde em deslumbramento
e abre as janelas do espanto
onde esvoaça a verdade  

não há areia que enrede
os pés que  fazem caminho
nem lama que não se faça
calçada a mais portuguesa
quando a vontade de andar
prensa o cascalho mais rude
e não assoma a virtude
na lágrima impertinente
que puxa pelas arrecuas 

o medo essa mula velha
é uma companhia brava
de tão translúcidas manhas
que ‘inda a ver-se através dela
e da névoa que a estrutura
só parede se vislumbra
de rocha negra e tão dura
que escopro algum a melindra
tão fera é e medonha 

no cerne do pesadelo
o coração da peçonha 

afinal passada a nuvem
fenece a sombra   e a luz
floresce no pensamento 

e o pavor que no tempo
de facas e armadilhas
erguia torpes muralhas
desfia por fim as teias
e toca rijas cornetas
no baile da novidade 

e hologramas de pedra
seguem a aragem do vento
e as gerberas florescem
           à vontade


romance I (no mercado)
Afonso Dias

O Romance é uma forma poética construída em versos de sete sílabas métricas - Redondilha Maior - e que, geralmente, conta uma história ou fantasia a partir de situações reais ou imaginadas: júbilos e desgostos amorosos, sorte e azar, aventuras e tormentas, vitórias e fracassos, chacotas e lamentos...
A origem do Romance leva-nos à Idade Média europeia, designadamente a Espanha e a Portugal, onde se impôs nos Séc. XV e XVI e evoluiu até hoje. Foi, em tempos mais remotos, cultivado por Gil Vicente, Camões e muitos outros e, sobretudo, manteve e estendeu raízes na criação popular.
São inúmeros os Romances recolhidos da tradição oral por literatos e académicos desde há séculos. Há um precioso espólio preservado em dezenas de publicações.
No Séc. XX muitos foram os poetas que mantiveram o Romance nas suas escrituras: Lorca, Gedeão, Ary, Cecília Meireles, são exemplos disso.

Tal corrente ainda não foi quebrada. Quer por escritores de poesia, que por repentistas populares que continuam a debitar as suas décimas com mote. No Alentejo, no Minho, nas Beiras, nos Açores.

Trago-vos um modesto Romance e, nas próximas edições, seguirei por aqui.

romance I
(no mercado)

o filho está em bordéus
a filha nem sabe aonde
e ele bebe vinho rasca
aos loros pelo mercado 

“se fosse surrealista
era picasso” decerto
e dá num passo de dança
uma pincelada heróica
nas meninas d’avignon 

“dê licença que me sente
que o mar anda marafado
à reboleta na escada
e o vento lá fora é bruto
gelado como uma bruxa
com aranhas no vestido
e até a chuva é azul
azul azul como o gelo
que nos olhos da maldade
é um bisturi desabrido
que fere o que está ferido 

agora que vou para velho
e a cinza do cabelo
não brilha com o sol de lado
cá dentro liberto um fado
e a madrugada adormece
no colo do esquecimento 

fique sabendo o amigo
sem vinho não aguento
e o dia grande é castigo
vale sem fundo ou abrigo
maior do que longe e  tempo 

não se esqueça do que digo” 

não me esqueço meu amigo 

1.11.2018

* imagem: detalhe de Les Demoiselles d'Avignon (1907) de Pablo Picasso


egipto
Afonso Dias

estive no Egipto, gostei e trouxe isto:
egipto

na rota do cairo
só os camelos passam
pelo cu benzido da agulha
e arrastam a cinza do deserto
rumo a mais deserto
e a mais cinza
todavia
adivinha-se um fogo
na moleza da cáfila

e é perfeita a luz

devoto mahmadou
muçulmano bom
amigo farto
erguido em poucos dias
doou-me o sorriso
mais limpo que se pode

e há uma infusão de menta
a santificar o entendimento

esgotada a pedincha
o preço é revelado
e a perfeita serenidade
releva longínquas
reverências
a navegar
secura

sobre os egípcios
empilham-se
gigantescas
as sombras
de pedra
de submissão
e de martírio
com vales de reis
e pirâmides
em mágica
maravilhosa
e absurda criação

uma massa de
anos e anos
e séculos
e mortos
e ossos
e mortos
mais ossos
mais pedras
e sangue
e mais pó
e oásis
que só há
muito longe
e não se pode

quanta dor
transportou
nefertiti
e Cleópatra
até ao folclore
nas margens do corão
com mar vermelho
wind surf
e bikini
que as mulheres dali
mal ousam

e muitas são
as mulheres que recolhem
trejeitos e sorrisos
nas vestes de noite
e menoridade
litúrgica e sombria

- apenas se adivinha um vislumbre
de lágrimas -

divido-me entre
a beleza
plena e sublime
e o mar
vermelho de dor
daquele deserto infindo

e ali à beira
a palestina
de lágrimas acesas
a arábia de petróleo
meca
e esperança inerte
a síria sempre mártir
em mar vermelho
de sangue
navegada

e israel a pairar
sob o “céu cinzento”
da american navy
sempre em riste

o sorriso limpo
de mahmadou
   de doçura tanta
é esperança pouca
que ele merecia ter
muita

e que eu não trouxe

porque não havia

21.7.2019


poesia aos molhos
Afonso Dias

“A propósito de certos meios que só aceitam uma poesia muito etérea, distante, metafísica. Com pessoas e ralações sociais é que nunca.”

poesia aos molhos

caríssimas caríssimos
sigamos pelo bom caminho

regurgitemos eructemos
uma poesia de etiqueta
sossegadinha quieta
comportada no cantinho
da poesia delicada
com’ássim delicodoce

mimozinha e arrumada
de bochechinha espremida
por dois dedos ternurentos
e beijinhos gordurosos
dos que se dão aos rebentos
amorosos

não queremos dona urraca
deixar que as ralações
- as sociais qué’dizer -
nos infectem a poesia
- a que já pegou de estaca
nas tertúlias preciosas -
deixemo-la arredada
da carne mal amanhada
e com bactérias manhosas

já não sei quem foi que disse
que as rosas senhor as rosas
as do colo da rainha
e o amor aos molhinhos
choroso e com rodriguinhos
é que se devem cantar
e mais as cogitações
matafísicas e tal
quem sou eu para duvidar
de tão sábia indiferença
afinal

então com vossa licença
venho já: vou só bolsar

4.6.2019

inventário
Afonso Dias

inventário

cada vez menos objectos
ocupam o meu espaço

livros discos roupas pesadelos sapatos
insónias contas e adornos
fazem-me pouca falta
quase nenhuma

mas é claro
continuam por cá
cordas de viola
poesia em papéis
asseio pleno
mozart e zeca
paul simon e brel

e também
whitman e pessoa
camões e sophia
e demais cúmplices
da quimera feliz
e cósmica

e é claro
o meu prezado estendal de
silêncios
memórias
café
propósitos heróicos
ternura
amigos
angústias boas
vinho do douro
coentros
e azeite transmontano

e
mais intimamente
o meu acervo
de crianças
pequenas e grandes
belas
como todos os meninos
e muitas
como o elenco dos sonhos

11.5.2019