Afonso Dias

reflexões in verso

Afonso Dias

soneto

o meu lugar

não me anima a intriga, faz-me azia
e a clubes de fãs não sou atreito
eu em grupos de moda não me ajeito
faz-me o verniz das unhas alergia

aquilo por que tenho simpatia
mora sossegadinho aqui no peito
com cantigas e abraços bem ao jeito
da vida com verdade e poesia

é tanto o brilharete, a lantejoula
tanto salamaleque afiambrado
e tão farta a finesse decantada

que eu quero escapulir-me a tal gaiola

no espaço dos amigos do meu lado
está sempre a minha porta escancarada

3.6.2020


poemas da pandemia

poemas da pandemia - IV

hoje dei por mim a pensar desertos
(por causa da sofia costa)
e fiquei feliz
o que é esquisito nesta modorra
cinzenta e insalubre

acontece que
a geografia perfeita dos desertos
é uma exactidão de hora e de lugar
uma disciplina do silêncio
integral e puro

e por isso são respeitáveis
os desertos
por isso e pela grandeza calma
o recolhimento de templo
a veneração saboreada
da lentidão
sensual e sábia

a sabedoria
é uma arquitetura
demorada e segura
e é na  leveza da demora
que se aprimoram
a edificação dos sonhos
a cozinha e o amor

na calma vénia dos sabores

esta pausada inquietação
desperta
uma poesia serena

mas aqui o deserto não é real
aqui há pessoas
e aqui faltam as pessoas

nesta paisagem calada
os pombos 

e as ervas à solta no quintal
são a liberdade visível
e desobediente
às leis condicionais

indiferentes as ervas
às gavetas do articulado

entretanto  às sete e meia da manhã
há um só homem
no largo do mercado
aqui onde não é deserto

estranha felicidade esta
que me chegou
com o pensamento nos desertos
(por culpa da sofia costa)

aguardo
urgentes enxurradas de riso
à solta

19.3.2020


poemas da pandemia - III

este nevoeiro
com fantasmas e mistério feio
empurra-me para o campo
não para o meu campo
que já não tenho
nem há
mas para o campo grande e só
que avisto
do terraço das esquivas

é certo que no campo
não mora o veneno
das estirpes
e se pode saborear o brilho do silêncio
sem discursos e estatística

mas não tem meninos
o campo
nem a algazarra fresca
das corridas
com arranhões no joelho
e mães a embalar
o choro que apetece

mas pode ser que o nevoeiro de veneno
que escorraça a ternura
e o petisco
me venha a devolver o campo
o meu campo
do tempo
com tempo
e com amoras
e mistérios
e sustos
e com o pai a morar nos abrigos

pode ser…

18.3.2020


poemas da pandemia - II

 morrer é uma variável
que não auguro
mesmo que de fartura gulosa
ou amor pleno e vário
 

tenho mais o que cozinhar
e esculpir
enquanto visto de música os sonhos
e observo
a florescência juvenil
e esfusiante
do desfiar das madrugadas
uma a uma

 houve um tempo em que
morrer
foi uma ideia sedutora
como as paixões vorazes
o inverso de uma escalada
a vencer a fera guerra
pela brandura da paz
toda 

mas essa morte morreu
de ausência
e novidade

e aqui estamos
vivos
sem a morte ao postigo dos radares
e com projectos
de lágrimas e riso
caldeiradas e vinho
homens  mulheres
e meninos
música e poesia
mãos carícia e raiva 

assim estando
morrer de uma qualquer
epidemia
é uma carneirada
sem classe
nem elegância 

um anonimato
enfadonho
que rejeito 

16.3.2020


pandemia

e o medo voou ondas de vazio
sobre o oráculo dos druidas
com bruxas e astrólogos
e brutos e cartomantes

embotaram os neurónios
da temerosa urbe
e nem o rosado
da coroa exposta
coroou de lucidez
a boçalidade
cinzenta
volúvel e tola

voaram as palavras
e o veneno
alertou os pássaros
e açaimou o canto

os meninos
passaram a rir de longe
como guizos de coleira
em névoa encoberta
e os amigos
algemaram
abraços de pudor
e os amantes
emigraram
segredos de frio

todavia
havia
homens gordos
a permanecerem gordos
e brilhantes
a pairarem como harpias
sobre o frio esquelético
dos vagabundos
da distância velha

e alarves
a rirem dentes podres

e ministros
a exibirem odores
de distinção
e a maquilhagem
emplumada
da tranquilidade
loira e fria

loira e fria
e nula

cancelados foram
os jogos e as festas
e as revoluções
   as sexuais
   e as demais
   menos urgentes
e proibidas foram
as novidades
porque novas
e azuis
de água fresca

a doença
fechou o céu
e ensandeceu
de susto

e os olhos
escancarados
na expectativa
das lágrimas a vir

só a poesia
que morava na ciência
acendia luas
no caminho novo

que havia de abrir-se

10.3.2020


despertar

despertar

depois do longo sono
e da apatia doce
chegou o espanto feio
de carvão e aço
a desvendar o medo

e revelou-se um inferno
que do céu não vinha
parido pela cloaca

da ganância
fétido dos bolores
e do veneno
cinza

então acordaste
para o verde
que esmorecia triste
e vestiste
as rendas de bilros
da avó
que velava desde o longe
e recolheste o azul
da madrugada antiga
e amassaste o pão
cheiroso e fresco
e despertaste
para os guizos
com o melro
e a erva
e os ovos loiros
da satisfação clara

então
esvaziaste os bolsos
da roupa nova
de que não tinhas falta
e atravessaste a rua
devagar
a caminho das contas claras
e do sossego da descoberta
que sorri e assobia
com as crianças todas
e os animais
que nadam
e voam
e caminham
e se movem
como as ideias
e o olhar

então
bebeste um vinho feliz
e foste novo

assim serás


26.1.2020


sabedoria

sabedoria

sei dos treze biliões
e meio
de anos do universo
dos quatro biliões
e meio
de tempo da nossa terra

sei da magia genética
e do código às bolinhas
que põe o azul nos olhos
ou o preto nos cabelos

sei de classes
e famílias
dos animais e das nossas
e das plantas
e das aves
e mais dos outros bichinhos
e duns tantos bicharocos
que vagam
voam
vagueiam
tontos
de tanto
labor

sei de modos e balanços
de modulações tonais
de paletas e esquadrias
de regras e temporais
de revoluções perdidas
de maldades infernais
de mares e condimentos
óvulos e embriões
do vai-vem das estações
de parténons e sinais
de tábuas que ditam ordens
que ninguém respeita mais

sei de molhos e mezinhas
de tizanas e de vinho
sei de mozart e camões
de tropeços no caminho
sei de quixote e ghandi
de males de amor sei demais
filosofias viagens
dulcineias imortais

de risos sei e de sonhos
e da essência da espera
do mistério dos amigos
do sabor a primavera

não sei contudo a ciência
que conduz à alquimia
ao ouro desta incerteza
que apenas balbucia
o fio da inteligência
que saboreia o saber
que está na tranquilidade

sei de prodígios celestes
sei os desastres humanos

mas em resumo e verdade
não sei demais sei de menos

30.12.2019


romance IV (da ria formosa)

romance IV
(da ria formosa)

leve e formosa é a ria
morada de pão e água
e homens sal e marisco
no bailado das marés
cujas se elevam no embalo
das medusas que esbeltas
coram vergonhas à vista
do hippocampus guttulatus
cavalo marinho chamado
altivo como um solista
em ondulante bailado
na transparente humidade

e tantos que a ria tinha
e que agora já não tem
pois que da china a crendice
de ressuscitar firmezas
e saudosas competências
da endocrinologia
fez voar redes furtivas
e pelo espanto embarcou
o peixe da extravagância
rumo à insana tolice

e o hippocampo abalado
fez-se deserto na ria

certo é que rara santola
e alguma ameijoa boa
inda por ali passeiam
com lingueirões e douradas
pequeninas dos viveiros
mas o berbigão a monte
que em tempos foi tapete
de areias que mal se viam
debaixo da tal fartura
já não se pisa na borda
da laguna espoliada
da população que tinha

pois que até a holotúria
pepino do mar chamada
que não tinha serventia
na petisqueira de amigos
é rapinada pela névoa
e pela sombra é levada
a ser manjar do japão
servida em prata lavrada

pobre ria transvestida
em estaleiro e vazadouro
que a navegar-lhe saudades
‘inda tem gente teimosa
que semeia amor na água
espelho que não se acanha
de brilhar a correnteza

ninfa é a ria formosa
tão de mágoa e de beleza
de esperança tão sequiosa

11.11.2018
















e holotúrias roliças


asmática papelada


romance III (peregrinar a miséria)
Afonso Dias

romance III
(peregrinar a miséria)

folhas secas pó de pedra
sombra imensa do passado
salpicado de esqueletos
com muita cruz e crescente
a arrastar romarias
à rés do arame farpado

como rosário de enguias
na correnteza do mar
de sargaço sempre longe
enxurradas de mulheres
em febril sonambulismo
com meninos e meninas
desabridos de fadiga
e homens cor de tristeza
peregrinam em demanda
do verde azul dum destino
tão promessa e incerteza
tão miragem de milagre
que mal se sabe se há

vêm do longe mais ermo
que há na rosa dos ventos
dos dois pontos cardeais
feitos de pedra e metralha
fome a rodos medo e sangue
vêm do sul e do leste
onde o inferno parece
ter instalado as lixeiras
da imundície mais podre
de que a maldade é capaz

são rios de gente e brilho
nos olhos que avistam seda
e portas escancaradas
de braços brancos à espera

mas só rouquidão fardada
e muralhas de indiferença
acham à porta do céu
fechada a sete trancas
e onde a humanidade
                   se escondeu

4.11.2018


romance II (medo)
Afonso Dias

romance II
(medo)

é o sábio desconforto
a habitar a honestidade
que nos dá a conhecer
as gerberas que florescem
naquele minuto preciso
que arde em deslumbramento
e abre as janelas do espanto
onde esvoaça a verdade  

não há areia que enrede
os pés que  fazem caminho
nem lama que não se faça
calçada a mais portuguesa
quando a vontade de andar
prensa o cascalho mais rude
e não assoma a virtude
na lágrima impertinente
que puxa pelas arrecuas 

o medo essa mula velha
é uma companhia brava
de tão translúcidas manhas
que ‘inda a ver-se através dela
e da névoa que a estrutura
só parede se vislumbra
de rocha negra e tão dura
que escopro algum a melindra
tão fera é e medonha 

no cerne do pesadelo
o coração da peçonha 

afinal passada a nuvem
fenece a sombra   e a luz
floresce no pensamento 

e o pavor que no tempo
de facas e armadilhas
erguia torpes muralhas
desfia por fim as teias
e toca rijas cornetas
no baile da novidade 

e hologramas de pedra
seguem a aragem do vento
e as gerberas florescem
           à vontade


romance I (no mercado)
Afonso Dias

O Romance é uma forma poética construída em versos de sete sílabas métricas - Redondilha Maior - e que, geralmente, conta uma história ou fantasia a partir de situações reais ou imaginadas: júbilos e desgostos amorosos, sorte e azar, aventuras e tormentas, vitórias e fracassos, chacotas e lamentos...
A origem do Romance leva-nos à Idade Média europeia, designadamente a Espanha e a Portugal, onde se impôs nos Séc. XV e XVI e evoluiu até hoje. Foi, em tempos mais remotos, cultivado por Gil Vicente, Camões e muitos outros e, sobretudo, manteve e estendeu raízes na criação popular.
São inúmeros os Romances recolhidos da tradição oral por literatos e académicos desde há séculos. Há um precioso espólio preservado em dezenas de publicações.
No Séc. XX muitos foram os poetas que mantiveram o Romance nas suas escrituras: Lorca, Gedeão, Ary, Cecília Meireles, são exemplos disso.

Tal corrente ainda não foi quebrada. Quer por escritores de poesia, que por repentistas populares que continuam a debitar as suas décimas com mote. No Alentejo, no Minho, nas Beiras, nos Açores.

Trago-vos um modesto Romance e, nas próximas edições, seguirei por aqui.

romance I
(no mercado)

o filho está em bordéus
a filha nem sabe aonde
e ele bebe vinho rasca
aos loros pelo mercado 

“se fosse surrealista
era picasso” decerto
e dá num passo de dança
uma pincelada heróica
nas meninas d’avignon 

“dê licença que me sente
que o mar anda marafado
à reboleta na escada
e o vento lá fora é bruto
gelado como uma bruxa
com aranhas no vestido
e até a chuva é azul
azul azul como o gelo
que nos olhos da maldade
é um bisturi desabrido
que fere o que está ferido 

agora que vou para velho
e a cinza do cabelo
não brilha com o sol de lado
cá dentro liberto um fado
e a madrugada adormece
no colo do esquecimento 

fique sabendo o amigo
sem vinho não aguento
e o dia grande é castigo
vale sem fundo ou abrigo
maior do que longe e  tempo 

não se esqueça do que digo” 

não me esqueço meu amigo 

1.11.2018

* imagem: detalhe de Les Demoiselles d'Avignon (1907) de Pablo Picasso


egipto
Afonso Dias

estive no Egipto, gostei e trouxe isto:
egipto

na rota do cairo
só os camelos passam
pelo cu benzido da agulha
e arrastam a cinza do deserto
rumo a mais deserto
e a mais cinza
todavia
adivinha-se um fogo
na moleza da cáfila

e é perfeita a luz

devoto mahmadou
muçulmano bom
amigo farto
erguido em poucos dias
doou-me o sorriso
mais limpo que se pode

e há uma infusão de menta
a santificar o entendimento

esgotada a pedincha
o preço é revelado
e a perfeita serenidade
releva longínquas
reverências
a navegar
secura

sobre os egípcios
empilham-se
gigantescas
as sombras
de pedra
de submissão
e de martírio
com vales de reis
e pirâmides
em mágica
maravilhosa
e absurda criação

uma massa de
anos e anos
e séculos
e mortos
e ossos
e mortos
mais ossos
mais pedras
e sangue
e mais pó
e oásis
que só há
muito longe
e não se pode

quanta dor
transportou
nefertiti
e Cleópatra
até ao folclore
nas margens do corão
com mar vermelho
wind surf
e bikini
que as mulheres dali
mal ousam

e muitas são
as mulheres que recolhem
trejeitos e sorrisos
nas vestes de noite
e menoridade
litúrgica e sombria

- apenas se adivinha um vislumbre
de lágrimas -

divido-me entre
a beleza
plena e sublime
e o mar
vermelho de dor
daquele deserto infindo

e ali à beira
a palestina
de lágrimas acesas
a arábia de petróleo
meca
e esperança inerte
a síria sempre mártir
em mar vermelho
de sangue
navegada

e israel a pairar
sob o “céu cinzento”
da american navy
sempre em riste

o sorriso limpo
de mahmadou
   de doçura tanta
é esperança pouca
que ele merecia ter
muita

e que eu não trouxe

porque não havia

21.7.2019


poesia aos molhos
Afonso Dias

“A propósito de certos meios que só aceitam uma poesia muito etérea, distante, metafísica. Com pessoas e ralações sociais é que nunca.”

poesia aos molhos

caríssimas caríssimos
sigamos pelo bom caminho

regurgitemos eructemos
uma poesia de etiqueta
sossegadinha quieta
comportada no cantinho
da poesia delicada
com’ássim delicodoce

mimozinha e arrumada
de bochechinha espremida
por dois dedos ternurentos
e beijinhos gordurosos
dos que se dão aos rebentos
amorosos

não queremos dona urraca
deixar que as ralações
- as sociais qué’dizer -
nos infectem a poesia
- a que já pegou de estaca
nas tertúlias preciosas -
deixemo-la arredada
da carne mal amanhada
e com bactérias manhosas

já não sei quem foi que disse
que as rosas senhor as rosas
as do colo da rainha
e o amor aos molhinhos
choroso e com rodriguinhos
é que se devem cantar
e mais as cogitações
matafísicas e tal
quem sou eu para duvidar
de tão sábia indiferença
afinal

então com vossa licença
venho já: vou só bolsar

4.6.2019

inventário
Afonso Dias

inventário

cada vez menos objectos
ocupam o meu espaço

livros discos roupas pesadelos sapatos
insónias contas e adornos
fazem-me pouca falta
quase nenhuma

mas é claro
continuam por cá
cordas de viola
poesia em papéis
asseio pleno
mozart e zeca
paul simon e brel

e também
whitman e pessoa
camões e sophia
e demais cúmplices
da quimera feliz
e cósmica

e é claro
o meu prezado estendal de
silêncios
memórias
café
propósitos heróicos
ternura
amigos
angústias boas
vinho do douro
coentros
e azeite transmontano

e
mais intimamente
o meu acervo
de crianças
pequenas e grandes
belas
como todos os meninos
e muitas
como o elenco dos sonhos

11.5.2019