Joaquim Coelho

sem retorno

Joaquim Coelho

O CIGANO VELHO
Uma Fantasmagoria Ibérica Em Quatro Actos

(1º acto – Os Trogloditas)

Num dia de um ano, há muitos anos atrás, em 1997, vinha eu fresquinho da concentração dos Hell's Angels em Puy-de-Dôme, quando, já no sul de Espanha, numa aldeola próxima de Granada — em La Peza, ou lá como se chama aquele degredo andaluz — dei comigo num posto da Guardia Civil por motivos que não são para aqui chamados.

 Muito bem, para não pensarem que fiz asneira e me estou a esquivar a contar a verdade, a verdade é que dois toscos da Guardia Civil marraram comigo numa bomba de gasolina da A-92... sabem aquela área de serviço do Centro de Interpretación y Hábitat Troglodita Almagruz? Os trogloditas, amigos. Quem vem de leste, pela A-92, a uns quarenta minutos antes de Granada. Ajudem-me aqui, vá lá... os trogloditas... a que tem montes de barracas a vender cerâmicas e um bar simpático onde servem umas tostas mistas geniais?

Sim, claro que sabem, com toda a certeza: perto do Rio Fardes; do lado da auto-estrada oposto àquele puticlub vermelho, enorme, que se vê a mais de um quilómetro de distância? Exacto, vêem? Enfim, aí mesmo... onde é que eu ia? Sim, os trogloditas. 

Então, estava eu a atestar a minha Triumph e os moços, dois putos novos sem cara pra levarem uma chapada, só porque tinham uma farda vestida decidiram implicar comigo convencidos que eu trazia "hachís"... que eu não trazia, certo? Por esses dias, já haveria uma meia-dúzia de anos, pelo menos, que não fumava "hachís" nem qualquer outra porcaria do género. Olhem, fumava Camel nessa altura. Camel. 

Chatearam-me, chatearam-me... obrigaram-me a desfazer os sacos e a mochila e a tenda — só quem anda de mota é que sabe o trabalhão que é acomodar a tralha toda em cima da dita —, depois queriam ver no meio da minha roupa suja... e queriam que pusesse tudo ali, bem no meio do chão nojento da bomba de gasolina. Sem vergonha nenhuma.

Às tantas, acabei por me chatear a sério e obrigá-los a levarem-me até ao posto da Guardia Civil mais próximo, dez quilómetros a sul da auto-estrada, na já referida aldeola de La Peza, onde apresentei uma queixa formal acerca do seu comportamento.

Foi aí, enquanto esperava pelo superior hierárquico daqueles retardados, que vi pela primeira vez o personagem que dá nome a esta história:  

o cigano velho. 


(2º acto - O Desterro)

Num dia de um ano de há muitos anos atrás, em 1997, regressava eu de mota do único Free-Wheels em que participei, quando ainda era em Puy-de-Dôme e vai que, já no sul de Espanha, numa terriola próxima de Granada — em La Peza, ou lá como se chama aquele desterro andaluz — dei comigo num Puesto da Guardia Civil por razões que não são agora para aqui chamadas. 

La Peza é um lugarejo sem graça: mil e duzentas almas — se calhar — salpicadas por um amontoado de betão novo e feio e mal sarapintado de branco. Branco, sim, mas sem aquela beleza dormente, continuamente resplandecente dos pueblos blancos do muy antiguo y dadivoso Al Andaluz. 

Situado na parte norte do povoado, o posto da Guardia Civil, esse então, é apenas um caixote neutro: aborrecido, burocrático e mal-parecido. Gradeado. Por grades completamente rodeado. Inesperadamente alto — quatro andares — não fui, com toda a certeza, o primeiro a interrogar-se o que diabo se passaria ali, naquele fim-do-mundo ibérico, capaz de justificar um edifício policial com tantos pisos?

No lado de dentro, a fealdade anónima fazia pandã com o lado de fora, monotónica, e a única coisa genuinamente boa era aquele arrepio que até congela almas tão típico dos aparelhos de ar-condicionado espanhóis; uma frescura que ali se colava às paredes enfadonhas dos corredores cobertas de azulejos entediantes, contrariando assim a canícula costumeira do exterior naquela época do ano. 

Quando me sentei no banco corrido da sala de espera, bem de frente para o guiché administrativo, não reparei logo no cigano velho. Na verdade, foi ele o primeiro a trocar palavras entre nós.

O gordo que o guardava — esticando-se desde o outro lado do banco — agarrou-lhe rápida e brutamente no braço quando ele, apontando para o maço de tabaco que eu colocara sobre o banco a meu lado, me perguntou se "podia". Só pela reacção do imbecil, que me irritou solenemente, só para chatear, disse logo que sim e eu mesmo abri, sem mais demoras, o topo do pacote de Camel e ofereci-lhe o conteúdo. Desta vez sem qualquer oposição, lá conseguiu retirar um cigarro do interior. O cretino que o guardava parecia já não se importar. Isso desagradou-me, confesso.  

Saquei o zippo do bolso do blusão de cabedal e dei-lhe lume.

Saboreou o fumo com lentidão e inclinou a cabeça para trás, quase até tocar na parede gelada. Por inveja, acendi também um para mim.  

Não ofereci nada ao parvalhão, claro. 


(3º acto - O Fantasma)

Num dia de um ano de um grupo de anos diferentes, em 1997, vinha eu cansado, mas tranquilo da vida da concentração dos Hell's Angels de Puy-de-Dôme e não é que dou por mim no sul de Espanha, numa aldeola não longe de Granada — em La Peza, ou lá como se chama aquele exílio andaluz — na sala de espera de um posto da Guardia Civil por motivos que não são para aqui chamados, fumando cigarros com um fantasma cigano? 

Segundos depois, quando voltou a sentar-se direito, lembro-me que ele olhou para mim como se me conhecesse desde sempre. Com a naturalidade de um reencontro entre velhos amigos, falou. E lembro-me perfeitamente que, como numa seguiriya[1], a voz era triste, funda e fúnebre, arrastada. Falava devagar, suspirava muitas vezes entre as palavras e dizia pequenas frases (mais ou menos) relacionadas:

Sou de Jerez e fui rei
dos gitanos sob o céu.
Mas família e amigos, de mim apenas dizem:
mira El Loco Mateo. 

Antes de vos contar o restante da história, porém, tenho de confessar uma coisa bem estranha que então sucedeu; por si só, os andaluzes já têm o hábito quotidiano de estropiar a seu bel-prazer o vocabulário da língua de Cervantes, transformando cada palavra de cada frase numa autêntica charada encriptada. Até para mim, que aprendi o linguarejar do Sul, primeiramente, nas lojas da rua das lojas de Ayamonte e, mais tarde, nos bares e tablaos de Sevilla e da Isla Cristina, até para mim, dizia, a andaluzada é — não raramente — difícil de entender. Ora, no presente caso, se à algaraviada andaluza, juntarmos igualmente o pesado sotaque do caló[2] que a voz de Mateo carregava, ainda hoje estou para perceber como compreendi tudo, mas tudo mesmo, o que ele me dizia.

Tal fenómeno, só o voltaria a testemunhar seis anos mais tarde no Japão. Mas divago. Adiante que o drama, por fim, se desenrola. 

Levava o cigarro à boca entre as tiradas obscuras que gerava e inspirava o fumo, sôfrego. A dada altura, deixou-o cair no chão axadrezado e foi quando notei que lhe faltava um dos sapatos. Reparou que eu tinha reparado e sorriu tristemente, emitindo um som, estranho, algures entre um riso e um suspiro. Resmungou então qualquer coisa em caliche[3] e descalçou o outro também. Introduziu a mão lá dentro e produziu, à frente de toda a gente, uma excessiva e pontiaguda navalha que, de um gesto só, abriu e cuja lâmina logo me enterrou no pescoço, dois dedos abaixo da minha orelha direita.

Desta vez, o gordo que o devia guardar, nem buliu.  

Cabrón.



[1]    Seguiriya (de seguidilla): estilo de cante flamenco geralmente composto por quadras com versos de seis (ocasionalmente sete) sílabas, excepto o terceiro verso composto de onze (ocasionalmente doze) sílabas;

[2]    Caló (ou Zincaló): língua de origem romena falada pelas comunidades ciganas de Espanha e Portugal;

[3]    Caliche: mesmo que caló;


(4º acto – A Morte Do Artista)

Num dia de um ano de um universo diferente, em 1997, vinha eu já cansado desde a concentração dos Hell's Angels de Puy-de-Dôme e não é que dou por mim, por motivos que não são para aqui chamados, no sul de Espanha, numa aldeola não longe de Granada — em La Peza, ou lá como se chama aquele remanso de pó andaluz — ... não é que dou por mim, dizia, esfaqueado no pescoço por um fantasma cigano na sala de espera de um posto da Guardia Civil? 

Caí. Sem espectáculo, sem coreografia, sem salero. Simplesmente deitei-me sem pressa no banco corrido da sala de espera sobre o lado esquerdo do meu corpo estafado. Depois deslizei — devagar, como que em câmara lenta — sem música ou efeitos especiais, até ao sossego frio do chão. Apesar do medo, soube-me bem, pois o sangue quente que golfejava ininterrupto do meu pescoço, por motivos que não consigo esclarecer, queimava-me as mãos e os pulsos. 

Eu nunca vira a morte, assim, tão próxima. Já algumas vezes a tinha visto lá fora, na estrada, em fugaz relance. Sempre tinha tido a impressão que não ia chegar a velho e imaginava — confesso que sim — imaginava como seria morrer num acidente de mota: como um míssil de duas rodas, num sonoro estoiro de pompa e circunstância. Nunca assim, no silêncio derrotado de um chão rubicundo, aquecido pelo meu próprio sangue.  

E, para complicar tudo, à medida que o meu sangue largava o meu corpo como lastro, a minha... huum... alma... o meu espírito começava desprender-se e a elevar-se. Sim, isso mesmo. Como nos relatos esotéricos de morte temporária, alguns instantes depois de tocar no chão, comecei a sentir a minha consciência, todo o meu campo de visão, a solevar-se e a ver — claramente vista — a cena de uma posição superior, como se esvoaçasse pela sala de espera do posto da Guardia Civil de La Peza, perto de Granada, na Andaluzia, em Espanha: lá estava eu, lá em baixo, como uma ilha, rodeado por aproximadamente cinco litros de mar vermelho.

Que situação tão perturbadora para me aperceber que, se calhar, o padre Henrique tinha razão nalgumas coisas que dizia. Para juntar à miséria, só me faltava uma luz muito intensa e música celestial. 

Todavia, tudo o que senti foi um vento cortante e sonoro que — literalmente — me regelou o espírito, pois enquanto esvoaçava pela sala, aconteceu a minha alma pairar muito próxima do enorme aparelho de ar-condicionado.

O efeito esternutatório foi imediato. Senti o meu nariz vibrar e o meu corpo contrair-se num espasmo impossível de conter. Fechei os olhos e... espirrei estrondosamente.

Tão forte foi o ruído que abri os olhos assustado e dei por mim sozinho, sentado no banco corrido da sala de espera. Num reflexo, procurei a facada, dois dedos abaixo da orelha direita. Sem sucesso. Nem facada, nem sangue... apenas algum ranho e saliva nos queixos, devidos, sem dúvida, ao violento espirro que me trouxera de volta a este universo diferente do ano de 1997, num pardieiro questionável na Andaluzia profunda.

Olhei de novo à volta, agora já mais tranquilo: tudo tranquilo. Do lado de dentro do guiché, os versos de uma seguiriya típica de Jerez de La Frontera ecoavam, doridos:

Yo no soy de esta tierra
no conozco a nadie.
El que jisiera un bien por mis niños
Dios se lo pague.

Nada de inusual na sala de espera do posto da Guardia Civil de La Peza... excepto, talvez, um sapato de homem, preto, sem dono, mesmo debaixo do banco corrido.


El Loco Mateo
Mateo de las Heras Carrasco (Jerez de la Frontera 1839 – 1887?) fez escola como
um dos mais perfeitos seguireyeros da história do cante flamenco. Alguns historiadores
atribuem o seu nome artístico a uma sensibilidade muito extrema, outros a neurose.


UN BON MAITRE D'ARMES

Era ainda um adolescente quando pratiquei esgrima pela primeira vez.
Nessa altura, no fim dos anos 70, ainda era possível praticar o sabre na minha cidade natal; sendo que hoje, curiosamente, não se pratica esgrima nenhuma. Enfim, fui sabrista durante pouco mais do que meio-ano. Apesar da curta duração do
affaire, devo dizê-lo a bem da verdade, foi uma experiência bastante interessante.

Das três disciplinas de esgrima olímpica, o sabre é a que apresenta regras de combate ligeiramente diferentes: por exemplo, é a única que não admite ataques em flèche[1], mas permite, por outro lado, que o toque seja válido não só quando executado com a ponta, mas também com própria lâmina da arma, algo que não acontece com o florete e a espad... mas reparo que estou a esticar-me com esta conversa num sentido (tecnicista) que não me interessa agora para nada. Já o que me interessa sempre, sim, são as partes "mais filosóficas" destas actividades mais brutais. Um pouco como se precisasse de justificar – perante mim mesmo, sobretudo – esta minha tendência natural (?) para a violência... ou, pelo menos, a minha evidente predilecção por passatempos de cariz mais... confrontante.

Já Molière dizia acerca dela:
“o objectivo da esgrima é dar e nunca, de modo algum, receber.”

Sob esta estrutura frásica construída em tons de aparente altruísmo, esconde-se a brutalidade essencial desta actividade: Molière refere-se – obviamente – a dar e receber estocadas.

Precisei de ler “O Mestre de Esgrima” de Arturo Pérez-Reverte para me lembrar que não recordo nada acerca do meu primeiro instrutor: nome, idade, nacionalidade... nada. Talvez por isso mesmo vingou a minha indisciplina adolescente sobre a disciplina do sabre olímpico e não mais a voltei a praticar essa arma.
E precisei de quase vinte anos para que voltasse a praticar esgrima, mais exactamente, kendo. Uma esgrima diferente, japonesa, com um sabre diferente, mas uma esgrima na mesma.
Só que, desta vez, recebi instrução de um verdadeiro mestre. E tanto assim é que, apesar das imensas limitações físicas e logísticas que me limitam a prática, continuarei – pelo menos em espírito – a considerar-me um kendoka.

Engraçado como, ao ler as aventuras de Don Jaime Astarloa, maitre d'armes na Madrid de fins do século XIX, de Pérez-Reverte, foram muitas as vezes que me lembrei do meu maitre d'armes de esgrima (japonesa) na Lisboa dos fins do século XX.

As paradoxais lições de vida – retiradas de uma actividade cujo objectivo primário é a matar – sempre me fascinaram. Esta idealização da actividade bélica como representação de um estilo de vida exemplar, quase mítico, intrigou-me desde o primeiro momento.

Afinal, quem melhor para conhecer e, sobretudo,
transmitir o valor intrínseco da vida do que
alguém cujo mister principal é terminá-la?

Por outro lado, o valor simbólico do acto do confronto, ressoa-me sempre muito para além das meras medições de forças do reino animal. Sim, porque o resultado natural do conflito é – sempre –, mais tarde ou mais cedo, o (re)conhecimento dos próprios limites físicos. Se, para além disso, for ainda necessário lidar/gerir uma situação de derrota face a um adversário reconhecidamente mais forte, então aí, entramos no campo da educação cívica... pura e simples. 

E é precisamente nessas situações de frustração pessoal, física e intelectual – nesses momentos em que “morremos um pouco” – que o mestre d’armas tem o poder de nos ressuscitar, ao relativizar e transformar as mais amargas derrotas em lições de vida indispensáveis para o futuro. 

Um bom maitre d’armes é um oráculo. 


[1]    Segundo as regras, é proibido a um sabrista executar uma "flecha" antes de um ataque, ou seja, um passo para frente ou qualquer movimento em que o pé de trás ultrapasse completamente o pé da frente. Qualquer golpe feito desta forma é cancelado.

 


O OFÍCIO

99% das vezes, as nossas manhãs não eram assim lá muito produtivas. Há que dizê-lo.
Quer dizer, o Verynice — que morava numa casa cheia de crucifixos pelas paredes que já nem me lembro onde era — frequentemente apanhava-nos na casa do Bairro Azul, logo a seguir ao pequeno-almoço. Pequeno-almoço esse, cuja hora dependia, e muito, não só da hora, mas também do estado de alcoolemia em que tínhamos saído do Elinga na noite anterior.
Encerrado o episódio alimentar matinal, seguíamos para as Ingombotas, onde ficavam as instalações da agência. Para isso, porém, havia que enfrentar as "manadas de bois-cavalos", como o Verynice baptizara as hordas de veículos indisciplinados que se atropelavam e entupiam — literal e diariamente — todas as ruas de Luanda, a toda a hora.
Quando finalmente conseguíamos chegar ao fundo da Avenida do 1º Congresso do MPLA, e antes de virarmos à direita em direcção ao Largo das Ingombotas, já estávamos dentro do carro — num dia de viagem rápida — havia pelo menos meia-hora.
Depois de cumprimentarmos Mamã África e pararmos o carro, mesmo em frente aos guardas armados de AK-47 que faziam a segurança do escritório provisório, tínhamos feito, em média, quarenta e cinco minutos de condução para percorrer uns míseros três quilómetros e picos de distância. A pé teria sido mais rápido. Mas os mestres do universo que geriam a empresa tinham-nos proibido — salvo seja —  de andar a pé. Por causa de quê? Quem disse "bandidos" siga directamente para o parágrafo seguinte.  

Além do mais, o termo "rápido" é praticamente inexistente na linguagem de Angola. Aliás, ousaria dizer mesmo que a noção de tempo é, em terras da rainha Ginga, completamente distinta do resto do mundo.
Eu explico: por exemplo, quando chegámos a Luanda e, logo no primeiro dia, nos levaram a ver o que seriam as instalações definitivas da agência, todo o material de escritório — mesas, cadeiras, secretárias, computadores, impressoras, etc, etc — a fazer fé no relato que nos foi feito, já tudo chegara ao porto de Luanda, havia alguns meses. Faltava só desalfandegar. Só.
Três meses depois, no último dia da minha vida que passei na capital de Angola, o dito material foi finalmente entregue.
Pelo caminho ficaram, percebia-se facilmente, três meses em busca do contentor que "não se sabia bem" onde estava e que era, obviamente, preciso pagar a alguém para o "encontrar". Depois pagar a alguém para o retirar do meio dos outros milhares de contentores. Depois, pagar a alguém para ter a certeza que todas as coisas que estavam lá dentro, lá dentro permaneceriam... enfim, estão a ver a ideia, certo? Pois bem, tudo leva a crer que foi um processo rápido. 

Obviamente, não é muito difícil de perceber que a pontualidade, essa, para grande tristeza minha, seja de uma subjectividade total na antiga pérola do império português. Mas sejamos justos: como se pode ser pontual num país onde nada funciona?.

— Mandaste-me uma mensagem a cancelar a reunião??? Quando?
— Ontem... às sete e meia.
— Aaaah, f***-se pá... o móvel ficou sem bateria por volta das sete.
— E porque não o recarregaste?
— Quando cheguei a casa já não havia luz.
— E o gerador?
— Está sem gasóleo.
— E não foste comprar mais?
— Fui, mas as bombas estavam fechadas, como é costume...
— E foste a quais?
— Fui só àquela ao pé da minha casa, na avenida.
— E porque não foste a mais?
— Pá, já não tenho muita gasolina no carro.
— Então, na mensagem eu dizia-te que...

Luanda era, nesses dias, uma cidade complicada. Tirando uma vez em que demorei "apenas" quarenta e cinco minutos, às três da manhã (na bomba da Sonangol ao pé do largo do Lumeji) nunca me lembro de estar menos de uma hora na fila para a gasolina. Num dos maiores produtores de petróleo da África, as bombas de gasolina estavam amiúde encerradas e sem combustível e, quando abertas, as filas estendiam-se por quilómetros, muitas vezes acabando-se o carburante antes mesmo de todos os condutores conseguirem abastecer.
Nunca me lembro de uma noite, uma, em que a rede eléctrica não tenha ido abaixo. De ver (ou ouvir) um camião do lixo na rua. De um dia sem histórias sobre polícias corruptos ou funcionários do serviço de imigração abusadores; de outro dia sem os acostumados comentários abertamente racistas, agressões verbais de uso constante que fariam enrubescer de indignação qualquer coraçãozinho mais politicamente correcto. Não me lembro de um minuto em que não pensasse: "mas o que é que nós estamos a fazer aqui, afinal?" 

Trabalhávamos. Isso. Sim e trabalhámos bem e até fizemos coisas interessantes. Infelizmente, para coroar completamente a frustração, também não me lembro de um só trabalho que tenha sido publicado — ou produzido sequer — enquanto lá estivemos. Um verdadeiro desperdício, mas não tínhamos outra hipótese. Sem qualquer material profissional, usando os nossos próprios computadores, internet a vapor e uma impressora ranhosa do período neolítico, desunhávamo-nos para conseguir criar, desenvolver e maquetizar campanhas publicitárias e apresentá-las a tempo e horas aos clientes que as tinham encomendado:

CLIENTE (meio-trôpego e cheirando a whisky) — Ah... você já aqui está?
VERYNICE (com um sorriso) — Pois, marcámos... marcou ao meio-dia, lembra-se?
CLIENTE — Huum, não. E que horas são agora?
VERYNICE — Quase duas e meia.
CLIENTE — Já? Eh pá, vamos lá despachar esta merda que o Benfica joga às quatro e eu quero ir ver o jogo com uns kambas.

.....
* Foto: Verynice e Pula di Bala (Angola 2007)


MALÁRIA, CONSTIPAÇÕES E O BAIRRO DOS BANDIDOS

Éramos os três de sempre: eu, o Verynice e o Pula di bala. E lá estavamos nós, ainda nem era manhã, à porta de uma clínica privada, muito fora da nossa zona de conforto, no meio do largo dos candongueiros do musseque do Cazenga, uma dezena de quilómetros a sul... A sueste do centro de Luanda.
A Luísa, a empregada da casa do Bairro Azul onde eu e o Pula di bala vivíamos, estava bastante doente. Malária. Evidentemente, o contrato que tinha (se é que tinha) com a empresa não incluía qualquer ajuda financeira para medicamentos, consultas hospitalares ou direito a baixa por doença.
— Se ela não consegue trabalhar porque está doente, arranja-se outra empregada. Querem que vos arranje outra empregada? — perguntou-nos um dos gajos porreiros que dirigia o circo.
Não queríamos. E não queríamos ser responsáveis pela sua demissão. Na noite anterior, tínhamos falado com os restantes quatro habitantes da casa, perguntando-lhes se estariam dispostos em participar numa vaquinha para pagar uma consulta — e comprar medicamentos — para a empregada. Claro que recusaram.
Pagar? Para a empregada ir ao médico? Que ideia ridícula. Se ela não conseguia trabalhar, o melhor seria arranjar outra pessoa para o cargo.

Resultado ao intervalo: Estou-meACagar 4 – Compaixão 0.

Recordo-me perfeitamente do dia em que pensei que tinha malária.
Sentado no escritório — na favelinha privilegiada dos brancos ricos — lembro-me que o calor, mesmo com o ar condicionado ligado, apresentava-se-me como absolutamente insuportável. Enfermiço, num estado de semi-letargia, a única coisa que me mantinha apegado à realidade era a curiosidade acerca de um som intermitente, toc-toc-toc, que parecia existir sem motivo. Percebi depois que se tratava do ruído das gotas de suor que me corriam abundantes pela cara abaixo, embatendo contra as páginas de uma moto-jornal antiga que eu estava, supostamente, a ler.

Felizmente, não era malária.
Apenas uma constipação mais robusta. Nada que uma mão cheia de cêgripes não destruísse no espaço de um dia ou dois. Não creio que nenhum dos nós pensasse (honestamente) que alguma vez teria problemas sérios com a doença. A malária seria sempre, quanto muito, uma adversidade passageira.
Tanto assim que a toma semanal da dose de quinino que tínhamos levado de Lisboa, cedo se transformou numa piada privada, uma vez que descobrimos que o Mephaquin — para além de uma ligeira comichão (e algumas manchas) nas mãos — nos provocava, fatalmente, uma noite de sonhos absolutamente surreais, quase... Opiáceos; isso, vou chamar-lhes assim. Sonhos opiáceos.

Em 2007,
o crescimento percentual do PIB dos EUA foi de 1,9%;
nesse mesmo ano, em Portugal cresceu 2,5%.

o PIB de Angola cresceu CATORZE PORCENTO.

A realidade da malária, porém, é muito mais séria, sobretudo para quem não vive num Bairro Azul como nós vivíamos, mas leva uma vida inteira no meio do fedor misturado de água podre, terra suja e merda pura que cobre as ruas sem nome dos bairros de lata de Luanda.

Será talvez curioso comentar nesta altura que, quando posteriormente informámos os nossos empregadores da forma como tínhamos passado essa manhã, fomos rispidamente repreendidos pelo nosso gesto perfeitamente inconsciente: arriscar-se assim num bairro assim — para mais, para levar a criada à clínica — era indesculpável e um completo absurdo.

— E os bandidos? Não pensaram nisso, claro. Lembram-se? Isto aqui não é Lisboa.

Os bandidos, claro. Os famosos bandidos de Luanda. Pois não sei. Não vimos.
Vimos, um pouco depois das seis, diria eu — ainda mal o sol começava a sua escalada quotidiana pelo azul acima — as centenas, os milhares de angolanos, vindos de todos os pontos cardeais à nossa volta, a desaguar como um rumor, no largo dos candongueiros.
Vimos, numa maré agitada por ondas azuis e brancas, mar alteroso acolhendo o rio de murmúrios matinais, os ditos candongueiros... A carregar duas mamãs e mais seis estudantes e mais três kotas e mais os sacos e mais as bilhas de gás e mais o cão e mais duas cabras. Bem arrumados ainda iam cabiam mais três — mas os onze clientes, amontoados pelos oito lugares disponíveis — protestavam que não eram gado.
Vimos o pó habitual: matinal, fino e teimoso; persistente e insolente.
Vimos corpos magros e secos, sorrisos sérios, olhos desencantados, cegos para ver mais longe do que o aqui.
Vimos um verdadeiro exército com ordem de marcha. O exército das empregadas com malária e da criadagem variada das casas dos grandes patrões brancos da Luanda asfaltada.

Bandidos, ainda não seria dessa.  

.....
* Foto: a parte "boa" da cidade. Luanda, 2007
foto por Beth Balbon / wiki commons


A SINETA

Devo ter batido um recorde qualquer, com toda a certeza, pois detestei aquele bardamerdas desde o primeiro segundo em que o vi.
Ainda O Merdas não tinha aberto aquela bocarra, disposto a ofender toda a inteligência humana com as suas alarvidades pomposas e boçais, e já a sua presença — a sua presença apenas, sim — só essa, já me irritava muito para lá do aceitável.
Nesse primeiro dia, à medida que as apresentações iniciais se diluíam no álcool das conversas informais, mesmo no extremo oposto da sala, eu não conseguia deixar de escutar as tiradas espirituosas e divertidíssimas que O Merdas — encorajado pelo tinto — berrava para quem quisesse, ou não, ouvir. O facto de semelhante besta estar viva e claramente de boa saúde, no mesmo continente que eu, foi suficiente para que me amaldiçoasse, bem como a todos os erros do passado que me tinham levado até àquela sala, no Bairro Azul, em Luanda.
Por alturas da hora de jantar, já eu tinha renegado a Deus e a Darwin e amaldiçoado Lúcifer, um milhão de vezes, pela ousadia e pela criatividade de conseguir criar e aplicar-me semelhante tortura enquanto eu ainda era vivo.
M
as a pior parte ainda estava para vir.

E apesar de tudo,
ainda sou a mesma!
Livre e esguia, filha eterna de quanta rebeldia
me sagrou.
Mãe-África!

ALDA LARA
(1930–1962)

Sentada à entrada da "favelinha" — como chamávamos à rua sem saída onde se situava o escritório — Mamã África, presenteava-nos todos os dias, logo pela manhã, com um sorriso franco e branco. Ali, na berma do passeio, com uma pequena fogueira de pedaços de madeira e carvão aprisionada entre umas pedras e uns pedaços de tijolo, a Mamã vendia, a quem quisesse comprar, a mandioca que cozinhava a toda a hora numa frigideira enorme e preta.
A princípio, eu pensava que ela era habitante das Ingombotas, no entanto, mais tarde, soube que todos os dias de madrugada viajava até ali de candongueiro, desde um musseque pestilento, vizinho ao Mercado do Areal, lá muito mais a sul que Luanda Sul, já bem próximo de onde o diabo perdeu as botas.

Vai pr'a tua terra, branco filho-da-puta!!

(frase menos afectuosa que me foi dirigida,
logo na primeira semana, por um jovem habitante de Luanda).

Depois, surgiu a maldita da sineta.
Não me custa nada a acreditar que, hoje em dia, os angolanos tenham uma imagem ainda pior dos portugueses do que tinham, digamos, no tempo das colónias. Todos os representantes da nova geração de empresários portugueses, os novos senhores e patrões brancos com que me cruzei no país, pareceram-me, regra geral, absolutamente detestáveis. Gente sem qualquer espécie de escrúpulo e que, amiúde, não se inibia de tratar os angolanos, na sua própria terra, como cidadãos de segunda classe.
Como O Merdas, por exemplo, que fazia questão de, a cada momento do dia, dificultar ainda mais a vida da empregada da casa, Luísa [nome fictício], uma angolana de idade indecifrável que, por um punhado de miseráveis dólares por mês, se rebaixava a todos os caprichos do "Grande Patrão Branco".
Para tal, O Merdas usava uma sineta — sim, uma sineta, leram bem — que recebera do anterior "Grande Patrão Branco" da casa e que servia para chamar "a preta"; assim, ficou definido que sempre que a ouvisse, Luísa deveria deixar tudo o que estava a fazer e acorrer às ordens e desejos do Senhor Merdas.
Mas a imensa "supremacia racial" desse borra-botas fazia-se notar também junto de outros habitantes da casa, como em relação a um engenheiro brasileiro, de quem abusava frequentemente da boa vontade, fazendo-o trabalhar para si como um servo preto, como um moleque.

E aquilo foi-me enchendo o bucho.
Um dia, deixei simplesmente de jantar com os outros na sala de refeições e comecei a fazê-lo numa zona de transição, algures entre a cozinha e a garagem. Era mais fresco e mais sossegado, mas, mesmo assim, o retinir constante da sineta, lá dentro, não parava de me infernar o espírito. Decidi que iria pôr fim àquela palhaçada tropical, acontecesse o que acontecesse. E aconteceu. Aconteceu num domingo à noite, quando todos já dormiam, passando por acaso pela sala de jantar, deparar-me com o abjecto objecto à cabeceira da mesa.

— Não é tarde nem é cedo. — disse-lhe em voz baixa — tu vens já comigo.

Ao rufo do tambor e dos zabumbas,
Ao som de mil aplausos retumbantes,
Entre os netos da Ginga, meus parentes,
Pulando de prazer e de contentes —
Nas danças entrarei d'altas caiumbas.

Luís Gama
(1830-1882)

O Pula di bala sugeriu que fossemos até à Baía de Luanda e, num cerimonial meio-punk, atirássemos a porcaria do badalo para o meio do oceano. Mas eu disse-lhe que não.
A verdade é que eu já tinha traçado um plano para ter a segunda-feira mais fantástica de toda a minha vida. E era assim: chegar ao trabalho, no Bairro das Ingombotas e, à entrada da favelinha, dizer à velhota mais simpática do bairro:

— Mamã, tenho um presente para si. Para atrair mais clientes. 

A satisfação nos olhos, a alegria emocionada na voz, só podem ser comparadas com o prazer que me causou, durante todo o dia, o som celestial da sineta entrando pela janela — propositadamente aberta — do escritório. 


MANTORRAS PRISIONEIRO

11 de março de 2007, domingo.
Na varanda das traseiras do escritório, um dos engenheiros da companhia faz o possível para conter as emoções que o invadem, enquanto fuma um Marlboro vermelho falso, possivelmente comprado ao pessoal do contrabando do Largo do Kinaxixe:

— Amanhã tenho de ir para o Cacuaco, mas eles, até hoje que é domingo e tudo, andavam à caça de portugueses. Tudo por causa daquele filho da puta...

Com a voz arrastada por um soluço, por fim, lá consegue ganhar coragem para mostrar o seu medo. Por entre as lágrimas, as palavras agora escorrem-lhe também, descontroladamente, pela face abaixo:

— Eu não quero ir trabalhar, amanhã. Porra, não quero. Não quero acabar na esquadra de Luanda. Filhos da puta.  

E eu, que sempre tanto prezo a minha eloquência, não encontro nada para lhe dizer. Ainda penso em contar-lhe como o Verynice e o Pula di bala foram penteados[1], hoje mesmo, a caminho da Ilha de Luanda, mas tenho bom senso de, por uma vez, manter a minha bocarra fechada. Ele acaba o cigarro entre soluços silenciosos e volta para dentro; apercebendo-me que já perdi o pôr-do-sol, sento-me no chão da varanda. Encostado ao muro, suspiro e acendo o milésimo Jogador do dia... e o primeiro da noite. Que tabaco horrível: seco, sem pontinha de sabor. Parece palha. 

Nunca atribuas à maldade algo que pode ser
adequadamente explicado como estupidez.

Robert J. Hanlon 

No dia 5 de março de 2007, aproximadamente às 09:40 da manhã, o cidadão angolano Pedro Manuel Torres, mais conhecido como Mantorras, ponta-de-lança do Benfica, foi apanhado numa operação stop na Torre da Marinha, no Seixal, quando se dirigia para o Centro de Estágio do Benfica.
Verificado o crime de condução sem habilitação legal — visto que as cartas de condução angolanas não são reconhecidas pelo estado português — o jogador foi encaminhado até ao Tribunal do Seixal. Ouvido pelo juiz, foi-lhe atribuída a medida menos gravosa, Termo de Identidade e Residência, visto que não tinha quaisquer antecedentes criminais. E, em Portugal, a história acabou aí. 

Já em Luanda, a narrativa foi muito diferente. Durante toda essa semana, os boatos sucediam-se a uma velocidade supersónica: preso, algemado, sovado, torturado... No imaginário popular, não houve violência ou abuso ou humilhação que o pobre Mantorras não tivesse sofrido, nesses dias.
Na sexta-feira, dia 9, o Ministro da Administração Interna angolano decreta pela televisão que, a partir desse momento, as cartas de condução portuguesas deixam de ser válidas em território angolano e, ao mesmo tempo, dá carta branca a todas as forças policiais de Angola para implementarem o novo preceito. A porta estava escancarada para o que seriam onze dias de verdadeira caça — sem aspas — aos condutores portugueses.  

Na prática, porém, pouco mudou. Durante estes onze dias, tirando uma frequência e agressividade maiores, os polícias de Luanda continuaram a fazer jus à sua fama de corruptos e a gasosa — gíria para um pagamento pontual para ser deixado em paz — apenas se limitou a ter a tarifa inflacionada.
Ser penteado por um polícia de trânsito, no entanto, com a camisa azul surrada e suja e luvas brancas cheias de buracos, quase que torna o pagamento num acto de solidariedade social; já ser interpelado por um par de ninjas [2], cada um com quase dois metros de altura, com o inconfundível uniforme negro, armas de guerra nas mãos, bafo a aguardente manhosa e olhos esverdeados pela febre e pela malária, juro-vos, é uma experiência muito mais intensa. 

Claro que houve alguns exageros. Em situações em que o orgulho nacional — seja lá isso o que for — é posto em causa, há sempre alguns personagens um pouco mais inflamados. Podia contar-vos histórias (verdadeiras) de portugueses detidos na ponte do rio Kwanza e obrigados a sentarem-se à beira da estrada, debaixo do sol escaldante, durante todo o dia de sábado... Ou da passeata dos jipes da polícia buzinando por Luanda e exibindo nas traseiras, na caixa aberta, dezenas de "criminosos portugueses" em pânico.  

Money makes the world go around,
The world go around,
The world go around,
Money makes the world go around,
Of that we can be sure.
(shit) on being poor. 

POLÍCIA ANGOLANO — Vocês prenderam o meu compatriota Mantorras, lá na Tuga. 

VERYNICE (com um grande sorriso) — Não, não, não, ele já foi libertado. Já. Já foi. 

POLÍCIA ANGOLANO — Não interessa. Eu agora podia levar-vos para a Esquadra de Luanda para aprenderem...  

PULA DI BALA — Então... e não há outra maneira de a gente resolver isto? 

POLÍCIA ANGOLANO — Tens kumbu? 

VERYNICE — Heuu... 50 dólares... ? 

POLÍCIA ANGOLANO (dando-lhe um envelope branco) — Põe todos aí dentro.


[1]              Pagar para não ser molestado pela polícia;

[2]              Nome popular dado aos membros da Policia de Intervenção;

.


PRIMEIRAS IMPRESSÕES

— E vamos ao Elinga esta noite, certo? — diz-me ele, antes de voltar a entrar na casa.

Fico sozinho na varanda das traseiras da "casa de passagem" que nos serve de escritório e acendo um Jogador, sem nunca deixar de olhar para paisagem que se estende agora sob o meu fumo. A varanda tem vista para uma rua que, noutros tempos certamente, deve ter sido o orgulho dos seus habitantes. Como inúmeras ruas da chamada "parte asfaltada" de Luanda, é estreita e as casas térreas, de um lado e de outro da artéria, quase todas apresentam na parte da frente, restos do que deve ter sido um pequeno jardim murado. Sem que o consiga evitar, o meu Bom João natal vem-me imediatamente à memória.

Mas aqui a realidade é bem diferente:
Nenhuma das janelas tem vidros. Todas as janelas de todas as casas têm barras de ferro. Vidros, nenhuma. Papéis, cartão, plásticos, madeira... Tudo é usado para as cobrir. Tudo menos vidros. Além disso, nos jardins de muros meio-partidos, carcaças secas de carros sem rodas, sem interiores, uns já queimados e outros ainda por queimar, ocupam o lugar das nespereiras e ameixeiras nos quintais do meu Algarve.
Aqui, por todas as aberturas, as casas vertem sacos de plástico que vertem lixo que se acumula, mistura e confunde com a terra suja que cobre a rua estreita. Sim, que o asfalto desta rua da parte asfaltada de Luanda já desapareceu há muito tempo.
Nas paredes sujas das casas, inúmeros tags e grafittis comunicam a omnipresença do gang da zona, "Os de Lenço". Serão estes, porventura, os famosos bandidos de que nos falaram, logo no nosso primeiro dia em Luanda?

"— Luanda não é como Lisboa.
Aqui não se pode sair à noite por causa dos bandidos."

E assim ficámos — eu, o Pula di bala e o Verynice — durante uns dois dias ou coisa que o valha, reféns dessa recém-adquirida ignorância, por detrás dos muros altos de uma enorme casa no Bairro Azul, escondidos dos bandidos, usufruindo apenas da nossa companhia e da dos engenheiros da empresa. Na verdade, nem isso. Os tipos com quem partilhávamos a casa deitavam-se religiosamente às oito da noite, visto terem de se levantar todas as matinas por volta das cinco para enfrentarem — pelo menos, pelo menos — umas três horas de trânsito selvagem, com o único objectivo de percorrem os modestos vinte quilómetros que separavam o Bairro Azul do armazém-sede da empresa situado no Cacuaco, logo ali a seguir às antigas instalações da refinaria de Luanda.

Felizmente, ao segundo ou terceiro dia, um conhecimento externo à empresa, mencionou a existência de "um sítio muito louco" chamado Elinga. O Elinga Teatro, bem no coração da cidade e aberto a partir das oito da noite, tornou-se, desde o primeiro momento em que lá pusemos os pés, o nosso poiso, o nosso segundo lar, o meu oásis.

Em caso de dor, dance.

(Grafitti na parede do Elinga Teatro)

Ou, no meu caso, beba. As quantidades industriais de todos os tipos de bebidas alcoólicas que lá consumi e a sofreguidão com que o fiz, atestam bem como "oásis" é a palavra que mais adequadamente descreve a minha relação com o local.
Situado no topo de um modesto edifício de dois pisos (obviamente, a cair aos bocados), o Elinga será sempre, na minha memória, o equivalente angolano ao saloon nos filmes de cowboys.
Aí, por entre o bar e a meia-dúzia de mesas e cadeiras (todas diferentes), movimentavam-se todos os tipos de clientes que é possível imaginar, pois era toda a fauna nocturna que, inevitavelmente pelos seus degraus apodrecidos, escada acima, por lá passava: de putas até generais do MPLA, passando por artistas, empresários e oportunistas; latifundiários, contrabandistas e falsários; ricos e entediados, pobres ou remediados, o Elinga era o verdadeiro exemplo... O único exemplo de convivência democrática na noite de Luanda.

— Hei, amigo. Pula di bangô. Amigo.

Uma voz de criança faz-me voltar à varanda do escritório. Olho para baixo e uns dos inúmeros miúdos da rua, talvez com uns sete ou oito anos, olha-me ansiosamente, enquanto tenta a sua sorte:

— Amigo, tem uma maçã?... Dá uma maçã, dá.


BEM-VINDO A LUANDA

O fedor.
Um cheiro a podre, quente e orgânico, quase doce.

Foi a primeira coisa que senti. Como um soco. Ainda as portas do avião não estavam completamente abertas e já o meu estômago se dobrava sobre si próprio e, com muita dificuldade, lá conseguia evitar que os meus primeiros momentos em África coincidissem com o meu primeiro vómito do ano de 2007. 

Nos três meses que se seguiram, seguindo o adágio popular que diz que, com o tempo, nos habituamos a tudo, acabei também eu por me habituar àquele cheirete húmido, fétido e omnipresente. Habituei-me também a não esperar nada do que tinha esperado em qualquer outro dos lugares onde já tinha estado. Coisas simples como água, luz, sei lá eu... gasolina, segurança.
Por exemplo, habituei-me à ideia que a partir das sete e meia, oito da noite, a distribuição de electricidade da rede pública, em absoluta sobrecarga, simplesmente parava, mergulhando a cidade simultaneamente na escuridão e no silêncio. Nessas alturas, habituei-me a ir até ao velho gerador a gasóleo, no quintal, e a pô-lo a funcionar, o que, se por um lado, de imediato resolvia a situação da iluminação, por outro, acrescia um fumo ensurdecedor por toda a casa.
Habituei-me a nunca beber água da torneira e a tomar duches rápidos com a boca e os olhos fechados; a ligar a ventoinha do tecto do quarto, a toda a velocidade, dez minutos antes de ir dormir, e a borrifar lá para dentro – generosamente – um spray insecticida pestilento e muito pouco ozone friendly.

Mas para falar verdade, o pior foi ter de me habituar a imensas outras coisas que nunca pensei que seria capaz:, nomeadamente, às pessoas em pedaços, mendigando pelas ruas entupidas de jipes e carros de luxo; sem mãos, sem pernas, braços... sem metade da cara. Habituei-me a conviver com a miséria humana numa escala como nunca tinha visto antes. Habituei-me... não me habituei nada. Quer dizer, habituei-me apenas a olhar pro outro lado.
E, para esquecer tudo, habituei-me a beber (muito) álcool e a dormir dez horas por noite... afinal de contas, enquanto estava a dormir não tinha de aturar aquela merda toda, certo?

EU – Estás aí há uma dezena de anos, como é que é a vida aí?
O MEU AMIGO – Pá, não te consigo explicar. Quando cá chegares vais perceber porquê.

Dormi a quase totalidade desse voo nocturno de Lisboa para Luanda.
Para que não houvesse dúvidas acerca do pesadelo que começava, a apresentação de passaportes na alfândega da capital africana roçou... não, passou muito para além do ridículo.
Chegada minha vez, encaminhei-me para o funcionário que, segurando meu passaporte aberto na mão esquerda e o carimbo fronteiriço na mão direita, me disse assim: 

FUNCIONÁRIO – Hoje ieufhawek reljfi um cafezinho.

EU – Hein???

FUNCIONÁRIO – Hoje (mesmo discurso incompreensível) um cafezinho.

EU – O quêê? 

Ele, fazendo uma cara misto de cansaço e paciência, esclareceu-me, por fim:

FUNCIONÁRIO – Hoje eu ainda não bebi nenhum cafezinho.

EU – (sem perceber) E...?

FUNCIONÁRIO – Tens dinheiro?

Olhou para mim. Olhou para o meu passaporte na mão esquerda. Olhou para o carimbo levantado na mão direita. Repetiu, em voz alta:

FUNCIONÁRIO – Tens dinheiro?

Balbuciei que sim, que tinha 5 euros. Perguntou-me se eram 5 euros em moedas ou em notas. Disse-lhe que era uma nota. Ordenou-me que lha desse, o que eu fiz. Depois, passados alguns segundos (suponho) que pareceram uma eternidade, misericordiosamente, aquele filho de uma grandessíssima puta, lá fez o favor de carimbar o meu maldito passaporte.


O MAU EMIGRANTE

Traduzo. Nunca penso em inglês.
Pelo menos, nunca coisas sérias.
Os meus pensamentos involuntários criados em língua inglesa são sempre (e apenas?) sound-bites, provavelmente
recuerdos inconscientes e involuntários de milhentos filmes americanos e de letras de músicas rap — onde abundam os "fuck", os "shit", os "motherfucker" e outras pérolas semelhantes — obviamente ofensivas para os nativos da língua de Shakespeare.

“estes imigrantes são como baratas (…)
conseguem sobreviver a uma bomba atómica.

Katie Hopkins
(colunista do jornal The Sun)

Na minha família, a emigração — sobretudo a da "época de ouro" do êxodo lusitano para fora de portas, nas décadas de 60 e 70 do século passado — é uma instituição com alicerces tão profundos quanto remotos: da Europa (Bélgica, França, Holanda, Suécia, por exemplo) aos continentes americano e africano (Brasil, Venezuela, Canadá, EUA, Angola e África do Sul) e, passando ainda além da Taprobana, até na desgraçadamente longínqua Cangurulândia. E isto são apenas os sítios que a minha mãe se lembra.
Por vezes, passeando pela aldeia da Alcaria, em Paderne, apontando para uma casa qualquer, no meio de um monte, ela diz-me: 

— Aquela casa além foi mandada construir por uma prima do teu pai, a Guilhermina, dos Lentiscais, que está na Austrália e que casou com um moço (de ali de ao pé, do Esteval dos Mouros) chamado Manel dos Cucos.  

Ou uma coisa assim desse género. Aliás, os nomes dos primos emigrantes da família são sempre "muito algarvios", nomes como Gregório, Arsénio (que nome espectacular), Patrício e Inácio; frequentemente casados com Quitérias, Zélias, Amélinhas e Felisminas. Eles e elas oriundos de lugares cujas designações parecem sempre falsas ou inventadas à pressa: Almeijoafras de Baixo, Monte do Parral, Cerro da Monchina, Casa dos Pires... Mas, como se vê, todas dignas de figurar nas palavras cruzadas do jornal da Associação Portuguesa de Toponímia.

Todo o imigrante que aqui chega devia ser obrigado a aprender inglês
durante cinco anos ou a abandonar o país.

Theodore Roosevelt

Começa que não consigo aturar esta estrangeirada durante muito tempo. Tudo bem, eu também já reparei que, como vivo e trabalho no estrangeiro, as probabilidades de me cruzar com estrangeiros são (bastante) elevadas... Eu sei, eu sei... Mas é mais uma questão de tempo. O que quero dizer é que, ao fim de dois anos (mais mês, menos mês) fora de Portugal, tudo me começa a irritar: a começar pela língua, lá está.
Nem vou falar de coisas mais corriqueiras como o clima de caca, a circulação rodoviária do lado errado da estrada ou a total inexistência de qualquer coisa semelhante a uma noção básica de culinária nesta gente. Não. Só o facto de ter de comunicar constantemente em inglês, coisa que — vejo agora — nunca me senti muito bem a fazer, só isso já me deixa estafado e mal-humorado, em média, dez minutos depois de sair à rua. 

Juro, nunca percebi como os meus familiares emigrantes conseguem meter tanta estrangeirice no seu discurso, enquanto eu não quero ter de falar inglês nem em Inglaterra. Eles, não; eu bem que os ouço aí, em Portugal, quando falam uns com os outros: em cada três palavras, uma é em português, uma na língua do país onde estão emigrados e a terceira, acho eu, em klingon.

No próximo mês, "o bom emigrante". 


UMA DERROTA ENSINA MAIS DO QUE MIL VITÓRIAS
(2ª parte)

(Primeira entrevista de emprego em Woodlands ― Hospital de Saúde Mental em Hastings, Reino Unido).

ENTREVISTADOR ― Jiuâkuime (é assim que se pronuncia?), ok, então Jiuákuiu...me... heu... está um grupo de seis pessoas num bar. Se eu lhe disser que uma delas sofre de uma doença mental, você, só de olhar para elas, sabe qual delas é?
EU (apanhado de surpresa) ― Heuu... bom, assim de repente, não sei...
ENTREVISTADOR ― Exacto, Jóyâcueimmeh. Exacto. Essa é resposta certa! Exacto.

Não foi capaz de dizer com uma qualquer percentagem de certeza: foi nessa hora ou nesse dia ou nessa semana... E, um pouco como na anedota verídica contada logo acima, por fora não houve nada que fizesse reparar numa mudança. Por dentro, no entanto, as coisas foram mais complicadas.

Sei que o meu amigo deu por ele sentado numa conversa informal com uma psicóloga nas instalações da Fundação Isabel Blackman em St. Leonards-On-Sea.
Aí, às quintas-feiras ― se a memória não me trai ― a organização Health in Mind patrocinava uma tarde de consultas pro-bono (e, pormenor muito importante, anónimas) com uma série de jovens e não-tão-jovens psicólogos que, muito gentilmente, cediam o seu tempo para ajudar a comunidade, efectuando uma espécie de retrato psiquiátrico, voluntário e gratuito, da população do bairro.

Uma vez, enquanto jantávamos ― às 3 da matina
na sala do pessoal em Woodlands ― o melhor enfermeiro
de saúde mental que conheci disse-me uma coisa assim do género:
"Só há dois tipos de pessoas: umas que têm medo da morte
e outras, da loucura."

Não sei se é verdade ou apenas uma tirada pseudopsicológica, mas esse meu amigo de que vos falo, nesse ano de 2014 (confessou-mo), teve inúmeras vezes ― genuinamente ― medo de estar a enlouquecer.
O acumular de contactos disruptivos que a convivência (quase) diária com os pacientes de Woodlands lhe proporcionava, começou a provocar algumas brechas na sua (já de si não muito famosa) estrutura psíquica. Para sua defesa, há que ter em conta uma série de factores que contribuíam bastante para a situação; senão, vejamos: encontrava-se numa terra ― para todos os efeitos ― estranha, forçado a comunicar uma língua que não lhe era (nem nunca lhe será) nativa, a trabalhar numa área que nunca tinha sido sequer sonhada nos seus devaneios profissionais mais alucinados; distanciado de todos os que amava, gostava ou simplesmente conhecia... Enfim, longe de tudo aquilo que, uns meros três anos antes, tinham sido as suas zonas de conforto pessoal, social e ocupacional.
E sim, a vida romântica, ou sentimental, do meu amigo ― caso estejam a perguntar-se ― também era uma perfeita merda, nessa altura.
Por isso tudo, talvez, soube-lhe bem, a ideia de ter alguém com quem falar.

E bem queria, mas esta vergonha ― dos homens da Europa do sul? ― de mostrar (qualquer tipo de) vulnerabilidade é mesmo fodida.
Não deixa de ser curioso que podes escrever poesia, prosa ou teatro sobre as tuas fraquezas; podes pintá-las, podes filmá-las, podes musicá-las... olha, compor desde faduchos choradinhos de três minutos a óperas heróicas de três horas, tudo dedicado às tuas misérias mentais e/ou psicológicas que não há qualquer problema: é apenas arte. Está tudo bem. Não é a realidade. É uma grande metáfora. Ele não é assim... Ele tem uma grande imaginação, lá está.
Lá está, podes fazer tudo... Só não podes queixar-te. E quando te queixas, se te atreves a tal, falas sempre como se estivesses a falar de uma terceira pessoa:
― Ah e tal, tenho um amigo que assim e assado...

Mas, também, que diabo, homem que é homem não anda por aí a lamentar-se a estranhos. Come e cala, e aguenta-se à bronca... E, para mais, o quê? Saúde mental e depressão e paranóia e essas paneleirices modernas? Antigamente não havia nada disto. Pareces uma gaja, pá. Tás triste, bebe uns copos que isso passa.
Somos todos machos latinos.
Mas o meu amigo não queria ser macho latino.
Nada disso. Aos cinquenta e poucos anos, queria era finalmente identificar o mal que o atormentava. Fitar a forma exacta do punhal que, traiçoeiro ― sempre cobardemente ―, lhe esfaqueava a lucidez e a sangrava até que, da realidade, não lhe sobrassem mais do que dúvidas.

Voltou para casa, derrotado.
Silenciado pelo medo de falar e pela vergonha do seu silêncio.
Deu por si, sozinho na segurança do seu quarto, adornado com um adereço improvisado e, como quem busca preservar uma lição de vida inestimável, decidido a fotografar a sua vergonha, a sua loucura.

Mas só por fora:


UMA DERROTA ENSINA MAIS DO QUE MIL VITÓRIAS
(1ª parte)

Acerca de uma doente mental, dizia-me o patrício da Fuseta assim:
― Foda-se, esta já não lhe bastava ser preta, também tinha de ser muçulmana ― e acrescentava, porventura convencido que eu lhe estava a achar grande piada ―, o Afonso Henriques é que tinha razão.

Fruto, possivelmente, de um desejo de melhor ruminar (e, posteriormente, digerir) algumas das situações com que fui confrontado ao longo dos anos em que servi como ― vamos chamar-lhe assim ― Auxiliar de Acção Médica (AAM) em vários hospitais e clínicas de saúde mental, acontece por vezes, em situações sociais, vir à baila uma ou outra situação mais estranha de que me sirvo para ilustrar no que consistia a minha actividade profissional em Inglaterra até há aproximadamente seis meses atrás.

No meu CV costumava descrevê-la assim: "permanecer, tanto quanto possível, mentalmente são, enquanto se ajuda pessoas que (pelos motivos mais variados) têm alguma dificuldade em fazer isso mesmo;"

A verdade é que, nessas ocasiões, na maior parte das vezes, as reacções que recebo por parte dos meus interlocutores pouco variam em "género e em número" das ideias preconcebidas que eu próprio levava da primeira vez que entrei numa enfermaria de saúde mental ― Daffodil de seu nome ― no Langford Centre, em Bexhill, há alguns anos atrás.
Nessa noite assustadora, e apesar do treino básico que tinha recebido na agência, "saúde mental" ainda era para mim ― há que dizê-lo ― um conceito bastante indefinido e lato, que incluía no seu seio os estereótipos mais vulgares e inexactos, desde "o inocente da aldeia", passando pelo "louco furioso" e acabando no "psicopata canibal", e considerei-me muito sortudo quando, ao fim de um turno de 12 horas, acabei por sair incólume do edifício.
Nunca o sol da manhã, baço e macambúzio do sul de Inglaterra, me pareceu tão prazenteiro.

Com o tempo, porém, acabei por me aperceber que as coisas não são assim tão lineares. Quero eu dizer com isto que um doente maníaco-depressivo sofre de uma maneira diferente de outro esquizofrénico, que por sua vez não tem nada em comum com um terceiro... Digamos, psicopata, ou o que quer que nos possamos lembrar... Bom, não têm em nada em comum a não ser nisso mesmo: no sofrimento.
Um jovem, filho ilegítimo de uma estrela da pop dos anos 80, que parte um taco de snooker ao meio e o espeta nas costas de um enfermeiro, não tem senão sofrimento em comum com uma mulher, na casa dos quarenta, que, à frente de duas AAM ― sem qualquer emoção que lhe traia a face repleta de serenidade ― morde, mastiga e engole a falange do seu dedo indicador direito.

Ser um cuidador significa (ao contrário do exemplo do "patrício da Fuseta" que abre este texto) que não se está acima dos pacientes, está-se ao lado deles. Arrogância e saúde mental não rimam.
Mas significa também nunca encarar os problemas no trabalho como pessoais.
Deixem-me exemplificar:
em princípio de Maio de 2019, um paciente de Ticehurst deu-me um soco nos queixos.
E não o fez porque queria dar aquele soco a mim em particular... Nós até que nos dávamos bem. Até jogávamos à carta na sala de jantar e tudo. Mas ele ia dar aquele soco nos queixos, de qualquer maneira, a quem estivesse lá naquele instante. Calhou-me a mim.
A situação é tão simples ― e tão importante ― quanto isto: se o paciente que me deu o soco nos queixos estivesse mentalmente saudável, não estaria internado.
Ponto final, parágrafo. 

Pode ser extremamente frustrante ser AAM de saúde mental e, neste caso, foi mesmo! Até porque, como já dizia o outro

 (...) Eu, que, quando a hora do soco surgiu, me tenho agachado
Para fora da possibilidade do soco. (...)

Pois também eu nunca antes tinha sido agredido no exercício das minhas funções.
Ofensas verbais? Tive milhões. Ameaças à minha integridade física? Centenas. Tentativas de agressão... Uma dezena, talvez mais.
Socos nos queixos? Um.

Que porra! Não podia ter sido nos queixos do outro imbecil da Fuseta?

NOTA FINAL: tenho sempre imenso receio que estas palavras que escrevo acerca da minha experiência enquanto auxiliar de saúde mental, se transformem numa procissão de faits divers ― mais ou menos tragicómicos ― ou, pior ainda, num mero inventário das bizarrias que tive o azar de testemunhar.
Talvez por isso, decidi, se o editor da revista ainda assim o desejar, escrever apenas mais uma vez sobre este tema.


Matrix Total

Peter Gold, Estrela do Glam Rock
e comandante-operacional do Baader-Meinhof no Sussex

Ele tinha acabado de chegar a Woodlands para ser internado ― compulsoriamente, como era hábito ― quando me perguntaram se eu me importava de ficar com ele na sala de reuniões até que o psiquiatra de serviço, o enfermeiro e aquela malta toda que tem de estar presente na consulta de internamento estivesse disponível. É óbvio que não me importei. Que é que ia dizer-lhes: "Ah... não, hoje já tenho outros planos?" Adiante. Entrei na sala e lá estava ele: uma figura... elegante; um ar de artista decadente, sei lá eu, barbudo, guedelhudo, de aspecto um pouco cansado, mas sobretudo, com um olhar feroz.

Na sua maneira de ver ― contou-me mais tarde ― nada justificava aquele internamento forçado. Tudo não passava de (mais) um plano da irmã e, claro estava, da enfermeira-chefe Camelia para lhe ficarem com a fortuna resultante dos milhões de álbuns vendidos nos anos 70, quando era uma estrela do glam rock e conhecido mundialmente com o nome artístico Golden Star. E eis que, no meio dessa injustiça descarada e furiosa, apareci eu e, para mais, com a lata de lhe dizer o quê? ― Boa-tarde!  É claro que não podia dar bom resultado.

― Boa tarde? Boa tarde? Que é que há de bom nesta tarde? Suponho que a seguir ainda me vais dizer que está tudo bem e que me vou sentir muito melhor?!? ― gritou-me. ― "Pois bem, não faço a mínima ideia de quem és, não te quero ouvir e não te digo mais nada".

A verdade é que, com o passar do tempo, e apesar desta apresentação não muito famosa, acabámos por falar frequentemente. Acontece que, quando já estava melhor, não obstante usufruir de section 17* para três ou quatro saídas semanais, a maior parte dos trabalhadores de Woodlands tinha medo dele e, assim sendo, era-lhe bastante difícil arranjar alguém que o acompanhasse. Bastante difícil... excepto nos dias em que eu estava de serviço, claro.
(Sempre tive uma atitude descontraída em relação às saídas supervisionadas com pacientes e, tirando um puto escocês que se atirou para cima de um carro em andamento mal saímos as portas da clínica de Langford, nunca apanhei assim grandes sustos.)

Apesar do tom um bocadinho áspero na voz e no aspecto, Peter Gold ― o tempo também se encarregou de mo mostrar ― podia ser, na maior parte das vezes, um paranóico esquizofrénico bastante sereno. O seu destino favorito, a loja de conveniência na esquina da Ridge com Harrow Lane, situava-se a uns vinte ou trinta minutos de caminho do hospital... isto porque caminhávamos sempre pela Ridge afora da mesma maneira como conversávamos: sem objectivo aparente.

Nunca me lembro de o ter visto comprar senão tabaco, chocolates, refrigerantes... e, envelopes e papel de carta. Magotes de envelopes e de papel de carta que usava, obviamente, para escrever cartas.
Sim, cartas endereçadas à rainha Elizabeth II e respectivos ministros.
Aproveitava também, obviamente, para colocar no marco do correio as cartas escritas nos dias anteriores. Pelo caminho, invariavelmente, falava-me dos temas das cartas desse dia... que, invariavelmente também, eram os mesmos das cartas dos dias anteriores: as cartas endereçadas à rainha relacionavam-se com o seu problema de saúde mental (inexistente, segundo ele) e denunciavam e demandavam a justiça de Sua Majestade quanto ao já referido assunto dos dinheiros acumulados nos anos setenta enquanto Golden Star. Sobre as outras, era um bocadinho mais secretista, visto que eram assuntos de estado entre o Reino Unido e ele, o comandante-operacional para a região do Sussex do Baader-Meinhof. Sim, esse mesmo. O famigerado grupo terrorista alemão dos anos setenta.

Eu sempre tive inúmeros problemas em lidar com esta incapacidade que certas pessoas têm (ia escrever "pacientes", mas depois lembrei-me que há muita gente assim que nunca viu o lado de dentro de um hospital psiquiátrico)... a incapacidade que certas pessoas têm, dizia eu, de distinguir entre o real e o fruto da sua imaginação e, uma vez por outra, apanhavam-me completamente desprevenido e, essas situações, confesso, eram bastante difíceis de gerir. Por exemplo: uma vez, depois de uma viagem de retorno praticamente sem diálogo, vínhamos já dentro dos muros que circundam a zona do hospital, já a chegar à porta do St. Anne's Centre, quando ele pára e me diz assim:
― Sabes, Joe... ― ele chamava-me Joe, aliás, tal como toda a gente em Inglaterra; "Joaquim" parece ser uma impossibilidade verbal para esta gente ― "Sabes, Joe... neste sábado, ia eu a passear em Londres, à porta da estação de metro de Tottenham Court Road... Sabes onde é? Em Londres? Tem aquele passeio muito largo..."
― Até sei. ― digo-lhe eu. E ele: ― Ok, no meio do passeio, estás a ver a enfermeira-chefe Camelia, sim?… Então, vejo-a completamente nua em plena rua. Tudo de fora. E em Tottenham Court Road (!!!) e não só nua... nua e ajoelhada no passeio, a fazer broches a todos os homens que passavam. Exactamente, de joelhos. Nua. Olha, nem joelheiras tinha... Nem joelheiras.

* Section 17 é uma alínea do Mental Health Act que reconhece ao doente o direito de usufruir de saídas do ambiente hospitalar e é considerada uma parte essencial da sua reabilitação e recuperação. Essas saídas são normalmente supervisionadas por um membro da equipe hospitalar. Com o tempo, se as experiências de saída acompanhadas forem positivas, o paciente pode passar a usufruir de saídas não-supervisionadas.

NOTA: soube, não há muito tempo, que P.S., o homem que inspirou este relato verídico, morreu em 2017. Descansa em paz, grande Golden Star. E podes ficar descansado, se voltar a encontrar a enfermeira-chefe Camelia, eu ofereço-lhe as joelheiras da fotografia.


A primeira vez
Joaquim Coelho

Sempre encarei o meu trabalho de auxiliar de acção médica como uma coisa temporária.
Mas da primeira vez que impedi um paciente de se suicidar no hospital psiquiátrico onde agora trabalho, percebi que, se calhar, não se tem obrigatoriamente só uma profissão na vida.

Ao fazer as observações intervaladas de quinze minutos ao quarto número 1 (às onze e quinze minutos, precisamente), dei-me conta que A.J., uma paciente que chegara no dia antes, não estava no quarto. Ou que, pelo menos, não estava à vista.
A minha primeira reacção – natural – foi pensar que poderia estar no pátio, a fumar com os outros doentes ou em qualquer outro lugar do hospital. Afinal de contas, os doentes não são obrigados a estar constantemente nos seus quartos.
Mas, seguindo um pressentimento esquisito – e, pelo sim pelo não – abri a porta do quarto e, chamando-a pelo nome, entrei.

Puxei imediatamente o alarme que trazia à cintura e o som típico do mesmo, “a corneta das desgraças”, como carinhosamente lhe chamo, disparou, ruidoso como é seu dever, ouvindo-se por todo o hospital.

Lembro-me de pensar “oh pá, esta gaja vai lixar-me o dia.” enquanto tentava desesperadamente enfiar os meus dedos entre a pele e o fio eléctrico – um fio eléctrico de rádio, daqueles normalíssimos, com uma ficha na ponta para ligar a uma tomada? Isso mesmo. – dizia eu?… ah sim, o fio eléctrico que ela apertara à volta do pescoço, já marcado com inúmeras cicatrizes de outras tantas inúmeras tentativas.

E, enquanto olhava para aquela cara já claramente adornada de tons de azul, a única coisa que eu conseguia pensar era: “esta tipa não pode morrer… vai-me estragar a porra do dia”. E, pior ainda, vou passar o resto da vida a responder a inquéritos e investigações nos tribunais ingleses.

Confesso: a verdade é que tudo o que me saía boca afora eram palavrões, todos demasiado ofensivos para poderem ser repetidos neste espaço e a ideia assustadoramente clara que eu desempenhava – naquele momento decisivo – um papel com uma importância que dificilmente voltaria a ter em toda a minha vida.

Lá consegui, por fim, inventar um pouco de espaço para inserir uma das pontas de aço arredondado da tesoura de serviço. Tudo corria a mil à hora e os membros da equipa, alertados pelo alarme, começavam a chegar ao quarto número 1: eu, já a tentar cortar o fio eléctrico e ela, jovem, pequenina e magra; de cabelo cinzento-estranho e carinha azul, sentada no chão, aos pés da cama, com um casaquinho de lã preta pelos ombros (“deve ser para se proteger do frio no outro mundo” lembro-me de ironizar).
Alguém ordenou que se fosse buscar oxigénio no preciso instante em que, impotente perante o poder das mandíbulas da tesoura, o malfadado fio cedeu finalmente, num "SNAP" que abriu os pulmões a todos os presentes e nos permitiu, também a nós, expirar. Finalmente.
Não seria desta, ainda.

Ainda sob o efeito da adrenalina, controlei o melhor que pude, mas sem grande sucesso, o tremor que me agitava da cabeça aos pés e voltei ao meu trabalho.

Ao fim do dia, antes de me ir embora, passei de novo pelo quarto número 1 e ela, agora com um auxiliar permanentemente sentado à sua cabeceira, dormia tranquilamente como se nada se tivesse passado. Vinda lá de um fundo incerto, pelo corredor deserto, uma melodia ressoava: 

“But maybe I’m crazy,
maybe you’re crazy,
maybe we’re crazy
probably…” 

Woodlands, Hastings - 04/07/2014


"Grab'em, floor'em, jab'em"
Joaquim Coelho

"Grab'em, floor'em, jab'em"
(tradução aproximada: agarrá-los, prostrá-los e injectá-los.)

Era mais ou menos assim o "mantra" de um hospital de saúde mental (privado) onde trabalhei, a alguns quilómetros de Hastings.
Eu ainda não era qualificado para fazer restrição de movimentos a pacientes e, talvez por isso mesmo, causava-me alguma impressão a leviandade (e, por vezes, a agressividade) com que tal procedimento era adoptado.
Depois de me ter qualificado para executar imobilizações, quis a sorte que nunca voltasse a trabalhar nesse sítio, mas a sensação que tenho é que, caso tal tivesse voltado a acontecer, teria, de certezinha, feito queixa do staff do dito hospital.  

Eu explico:
É que ali, em vez de ser encarada com um último recurso — a que se recorria quando todos os outros meios de dissuasão falhavam — a restrição de movimentos "de cara no chão" ("face-down restraint", na gíria profissional) era usualmente utilizada como um castigo. Sendo que a tal prática se recorria frequentemente, inclusive na enfermaria das mulheres com doenças mentais mais graves; lugar onde uma das enfermeiras-chefe, e recordo-a sem qualquer saudade ou simpatia, apresentava tanta empatia com as suas pacientes —  mulheres física e intelectualmente extremamente vulneráveis — como uma "enfermeira" de um campo de concentração nazi... a grande puta. Mas adiante.
 

A primeira restrição de movimentos em que participei em Woodlands, logo no primeiro dia em que voltei ao trabalho, depois da semana de curso de PMVA*, foi inesquecível. Afinal de contas, que me lembre, foi a primeira vez que interferi intencionalmente na vida de uma pessoa, de modo a restringir as suas liberdades individuais e sociais... nomeadamente, a sua liberdade de movimentos e de escolha.
É verdade que ele — o paciente em questão — se encontrava num estado de grande agitação que punha em perigo não só a sua integridade física, como também a dos que o rodeavam. Assim mesmo, deu-me que pensar. 

No hospital de Woodlands, a imobilização de um paciente para o medicar implicava, normalmente, que todos os outros recursos (sejam eles diálogo, medicação voluntária, terapia ocupacional ou o diabo a quatro) tinham sido esgotados.
E percebe-se porquê. Basta pensar um bocadinho. Num estado de direito, as forças policiais são as únicas forças representadas na sociedade que têm — de facto — o poder de inibir o cidadão dos seus direitos humanos. E mesmo assim, com limites.
Rectificação: no Reino Unido, as forças policiais, MAS TAMBÉM os profissionais de saúde mental possuidores de um diploma de PMVA. 

Afinal de contas, imobilizar um paciente significa, só para começar, interferir com a sua liberdade individual. Da mesma maneira que o gesto de espetar uma seringa na sua pele, pode ser facilmente ligado a uma violação da integridade física. E que dizer de injectar um (regra geral, potente) cocktail de drogas que irão alterar significativamente o estado de consciência do paciente, sem que ele nada possa fazer para o impedir?  

Por isso tudo, talvez, cada procedimento semelhante implica sempre também uma montanha de papelada que nunca mais acaba. E todos os intervenientes na imobilização (cinco, definem as boas práticas do NHS*) são entrevistados após o evento e forçados (por lei) a pôr por escrito a sua versão do acontecimento.  

Para mim, no entanto, o mais difícil de esquecer é sempre aquele momento em que o paciente pára de se debater. Quando param os gritos e os movimentos. Quando sente que foi fisicamente subjugado e que não há maneira de evitar o que se vai seguir. Quando se entrega... quando desiste.
E, nesse preciso instante, tudo o que se vê e se ouve e se sente é o seu medo. Medo, talvez, que todos os dias que ainda restam sejam assim? Não sei.  

Já digo: que bom seria sentir resignação uma vez que fosse. Não só o medo denunciado na respiração ofegante e tantas vezes — sobretudo no caso das mulheres — pontuado também por um choro, baixinho. Um choro arrastado pelo desespero e por uma vergonha inexplicável.

E aquele olhar que foge de se fixar e que escolhe olhar para cima e virar-se para dentro. Irremediável e definitivamente.  

* Prevenção e Gestão de Violência e Agressão;
* Serviço Nacional de Saúde;