sem retorno


"Grab'em, floor'em, jab'em"
Joaquim Coelho

"Grab'em, floor'em, jab'em"
(tradução aproximada: agarrá-los, prostrá-los e injectá-los.)

Era mais ou menos assim o "mantra" de um hospital de saúde mental (privado) onde trabalhei, a alguns quilómetros de Hastings.
Eu ainda não era qualificado para fazer restrição de movimentos a pacientes e, talvez por isso mesmo, causava-me alguma impressão a leviandade (e, por vezes, a agressividade) com que tal procedimento era adoptado.
Depois de me ter qualificado para executar imobilizações, quis a sorte que nunca voltasse a trabalhar nesse sítio, mas a sensação que tenho é que, caso tal tivesse voltado a acontecer, teria, de certezinha, feito queixa do staff do dito hospital.  

Eu explico:
É que ali, em vez de ser encarada com um último recurso — a que se recorria quando todos os outros meios de dissuasão falhavam — a restrição de movimentos "de cara no chão" ("face-down restraint", na gíria profissional) era usualmente utilizada como um castigo. Sendo que a tal prática se recorria frequentemente, inclusive na enfermaria das mulheres com doenças mentais mais graves; lugar onde uma das enfermeiras-chefe, e recordo-a sem qualquer saudade ou simpatia, apresentava tanta empatia com as suas pacientes —  mulheres física e intelectualmente extremamente vulneráveis — como uma "enfermeira" de um campo de concentração nazi... a grande puta. Mas adiante.
 

A primeira restrição de movimentos em que participei em Woodlands, logo no primeiro dia em que voltei ao trabalho, depois da semana de curso de PMVA*, foi inesquecível. Afinal de contas, que me lembre, foi a primeira vez que interferi intencionalmente na vida de uma pessoa, de modo a restringir as suas liberdades individuais e sociais... nomeadamente, a sua liberdade de movimentos e de escolha.
É verdade que ele — o paciente em questão — se encontrava num estado de grande agitação que punha em perigo não só a sua integridade física, como também a dos que o rodeavam. Assim mesmo, deu-me que pensar. 

No hospital de Woodlands, a imobilização de um paciente para o medicar implicava, normalmente, que todos os outros recursos (sejam eles diálogo, medicação voluntária, terapia ocupacional ou o diabo a quatro) tinham sido esgotados.
E percebe-se porquê. Basta pensar um bocadinho. Num estado de direito, as forças policiais são as únicas forças representadas na sociedade que têm — de facto — o poder de inibir o cidadão dos seus direitos humanos. E mesmo assim, com limites.
Rectificação: no Reino Unido, as forças policiais, MAS TAMBÉM os profissionais de saúde mental possuidores de um diploma de PMVA. 

Afinal de contas, imobilizar um paciente significa, só para começar, interferir com a sua liberdade individual. Da mesma maneira que o gesto de espetar uma seringa na sua pele, pode ser facilmente ligado a uma violação da integridade física. E que dizer de injectar um (regra geral, potente) cocktail de drogas que irão alterar significativamente o estado de consciência do paciente, sem que ele nada possa fazer para o impedir?  

Por isso tudo, talvez, cada procedimento semelhante implica sempre também uma montanha de papelada que nunca mais acaba. E todos os intervenientes na imobilização (cinco, definem as boas práticas do NHS*) são entrevistados após o evento e forçados (por lei) a pôr por escrito a sua versão do acontecimento.  

Para mim, no entanto, o mais difícil de esquecer é sempre aquele momento em que o paciente pára de se debater. Quando param os gritos e os movimentos. Quando sente que foi fisicamente subjugado e que não há maneira de evitar o que se vai seguir. Quando se entrega... quando desiste.
E, nesse preciso instante, tudo o que se vê e se ouve e se sente é o seu medo. Medo, talvez, que todos os dias que ainda restam sejam assim? Não sei.  

Já digo: que bom seria sentir resignação uma vez que fosse. Não só o medo denunciado na respiração ofegante e tantas vezes — sobretudo no caso das mulheres — pontuado também por um choro, baixinho. Um choro arrastado pelo desespero e por uma vergonha inexplicável.

E aquele olhar que foge de se fixar e que escolhe olhar para cima e virar-se para dentro. Irremediável e definitivamente.  

* Prevenção e Gestão de Violência e Agressão;
* Serviço Nacional de Saúde;