Joaquim Coelho

sem retorno

Joaquim Coelho

Matrix Total

Peter Gold, Estrela do Glam Rock
e comandante-operacional do Baader-Meinhof no Sussex

Ele tinha acabado de chegar a Woodlands para ser internado ― compulsoriamente, como era hábito ― quando me perguntaram se eu me importava de ficar com ele na sala de reuniões até que o psiquiatra de serviço, o enfermeiro e aquela malta toda que tem de estar presente na consulta de internamento estivesse disponível. É óbvio que não me importei. Que é que ia dizer-lhes: "Ah... não, hoje já tenho outros planos?" Adiante. Entrei na sala e lá estava ele: uma figura... elegante; um ar de artista decadente, sei lá eu, barbudo, guedelhudo, de aspecto um pouco cansado, mas sobretudo, com um olhar feroz.

Na sua maneira de ver ― contou-me mais tarde ― nada justificava aquele internamento forçado. Tudo não passava de (mais) um plano da irmã e, claro estava, da enfermeira-chefe Camelia para lhe ficarem com a fortuna resultante dos milhões de álbuns vendidos nos anos 70, quando era uma estrela do glam rock e conhecido mundialmente com o nome artístico Golden Star. E eis que, no meio dessa injustiça descarada e furiosa, apareci eu e, para mais, com a lata de lhe dizer o quê? ― Boa-tarde!  É claro que não podia dar bom resultado.

― Boa tarde? Boa tarde? Que é que há de bom nesta tarde? Suponho que a seguir ainda me vais dizer que está tudo bem e que me vou sentir muito melhor?!? ― gritou-me. ― "Pois bem, não faço a mínima ideia de quem és, não te quero ouvir e não te digo mais nada".

A verdade é que, com o passar do tempo, e apesar desta apresentação não muito famosa, acabámos por falar frequentemente. Acontece que, quando já estava melhor, não obstante usufruir de section 17* para três ou quatro saídas semanais, a maior parte dos trabalhadores de Woodlands tinha medo dele e, assim sendo, era-lhe bastante difícil arranjar alguém que o acompanhasse. Bastante difícil... excepto nos dias em que eu estava de serviço, claro.
(Sempre tive uma atitude descontraída em relação às saídas supervisionadas com pacientes e, tirando um puto escocês que se atirou para cima de um carro em andamento mal saímos as portas da clínica de Langford, nunca apanhei assim grandes sustos.)

Apesar do tom um bocadinho áspero na voz e no aspecto, Peter Gold ― o tempo também se encarregou de mo mostrar ― podia ser, na maior parte das vezes, um paranóico esquizofrénico bastante sereno. O seu destino favorito, a loja de conveniência na esquina da Ridge com Harrow Lane, situava-se a uns vinte ou trinta minutos de caminho do hospital... isto porque caminhávamos sempre pela Ridge afora da mesma maneira como conversávamos: sem objectivo aparente.

Nunca me lembro de o ter visto comprar senão tabaco, chocolates, refrigerantes... e, envelopes e papel de carta. Magotes de envelopes e de papel de carta que usava, obviamente, para escrever cartas.
Sim, cartas endereçadas à rainha Elizabeth II e respectivos ministros.
Aproveitava também, obviamente, para colocar no marco do correio as cartas escritas nos dias anteriores. Pelo caminho, invariavelmente, falava-me dos temas das cartas desse dia... que, invariavelmente também, eram os mesmos das cartas dos dias anteriores: as cartas endereçadas à rainha relacionavam-se com o seu problema de saúde mental (inexistente, segundo ele) e denunciavam e demandavam a justiça de Sua Majestade quanto ao já referido assunto dos dinheiros acumulados nos anos setenta enquanto Golden Star. Sobre as outras, era um bocadinho mais secretista, visto que eram assuntos de estado entre o Reino Unido e ele, o comandante-operacional para a região do Sussex do Baader-Meinhof. Sim, esse mesmo. O famigerado grupo terrorista alemão dos anos setenta.

Eu sempre tive inúmeros problemas em lidar com esta incapacidade que certas pessoas têm (ia escrever "pacientes", mas depois lembrei-me que há muita gente assim que nunca viu o lado de dentro de um hospital psiquiátrico)... a incapacidade que certas pessoas têm, dizia eu, de distinguir entre o real e o fruto da sua imaginação e, uma vez por outra, apanhavam-me completamente desprevenido e, essas situações, confesso, eram bastante difíceis de gerir. Por exemplo: uma vez, depois de uma viagem de retorno praticamente sem diálogo, vínhamos já dentro dos muros que circundam a zona do hospital, já a chegar à porta do St. Anne's Centre, quando ele pára e me diz assim:
― Sabes, Joe... ― ele chamava-me Joe, aliás, tal como toda a gente em Inglaterra; "Joaquim" parece ser uma impossibilidade verbal para esta gente ― "Sabes, Joe... neste sábado, ia eu a passear em Londres, à porta da estação de metro de Tottenham Court Road... Sabes onde é? Em Londres? Tem aquele passeio muito largo..."
― Até sei. ― digo-lhe eu. E ele: ― Ok, no meio do passeio, estás a ver a enfermeira-chefe Camelia, sim?… Então, vejo-a completamente nua em plena rua. Tudo de fora. E em Tottenham Court Road (!!!) e não só nua... nua e ajoelhada no passeio, a fazer broches a todos os homens que passavam. Exactamente, de joelhos. Nua. Olha, nem joelheiras tinha... Nem joelheiras.

* Section 17 é uma alínea do Mental Health Act que reconhece ao doente o direito de usufruir de saídas do ambiente hospitalar e é considerada uma parte essencial da sua reabilitação e recuperação. Essas saídas são normalmente supervisionadas por um membro da equipe hospitalar. Com o tempo, se as experiências de saída acompanhadas forem positivas, o paciente pode passar a usufruir de saídas não-supervisionadas.

NOTA: soube, não há muito tempo, que P.S., o homem que inspirou este relato verídico, morreu em 2017. Descansa em paz, grande Golden Star. E podes ficar descansado, se voltar a encontrar a enfermeira-chefe Camelia, eu ofereço-lhe as joelheiras da fotografia.