Joaquim Coelho

sem retorno

Joaquim Coelho

PRIMEIRAS IMPRESSÕES

— E vamos ao Elinga esta noite, certo? — diz-me ele, antes de voltar a entrar na casa.

Fico sozinho na varanda das traseiras da "casa de passagem" que nos serve de escritório e acendo um Jogador, sem nunca deixar de olhar para paisagem que se estende agora sob o meu fumo. A varanda tem vista para uma rua que, noutros tempos certamente, deve ter sido o orgulho dos seus habitantes. Como inúmeras ruas da chamada "parte asfaltada" de Luanda, é estreita e as casas térreas, de um lado e de outro da artéria, quase todas apresentam na parte da frente, restos do que deve ter sido um pequeno jardim murado. Sem que o consiga evitar, o meu Bom João natal vem-me imediatamente à memória.

Mas aqui a realidade é bem diferente:
Nenhuma das janelas tem vidros. Todas as janelas de todas as casas têm barras de ferro. Vidros, nenhuma. Papéis, cartão, plásticos, madeira... Tudo é usado para as cobrir. Tudo menos vidros. Além disso, nos jardins de muros meio-partidos, carcaças secas de carros sem rodas, sem interiores, uns já queimados e outros ainda por queimar, ocupam o lugar das nespereiras e ameixeiras nos quintais do meu Algarve.
Aqui, por todas as aberturas, as casas vertem sacos de plástico que vertem lixo que se acumula, mistura e confunde com a terra suja que cobre a rua estreita. Sim, que o asfalto desta rua da parte asfaltada de Luanda já desapareceu há muito tempo.
Nas paredes sujas das casas, inúmeros tags e grafittis comunicam a omnipresença do gang da zona, "Os de Lenço". Serão estes, porventura, os famosos bandidos de que nos falaram, logo no nosso primeiro dia em Luanda?

"— Luanda não é como Lisboa.
Aqui não se pode sair à noite por causa dos bandidos."

E assim ficámos — eu, o Pula di bala e o Verynice — durante uns dois dias ou coisa que o valha, reféns dessa recém-adquirida ignorância, por detrás dos muros altos de uma enorme casa no Bairro Azul, escondidos dos bandidos, usufruindo apenas da nossa companhia e da dos engenheiros da empresa. Na verdade, nem isso. Os tipos com quem partilhávamos a casa deitavam-se religiosamente às oito da noite, visto terem de se levantar todas as matinas por volta das cinco para enfrentarem — pelo menos, pelo menos — umas três horas de trânsito selvagem, com o único objectivo de percorrem os modestos vinte quilómetros que separavam o Bairro Azul do armazém-sede da empresa situado no Cacuaco, logo ali a seguir às antigas instalações da refinaria de Luanda.

Felizmente, ao segundo ou terceiro dia, um conhecimento externo à empresa, mencionou a existência de "um sítio muito louco" chamado Elinga. O Elinga Teatro, bem no coração da cidade e aberto a partir das oito da noite, tornou-se, desde o primeiro momento em que lá pusemos os pés, o nosso poiso, o nosso segundo lar, o meu oásis.

Em caso de dor, dance.

(Grafitti na parede do Elinga Teatro)

Ou, no meu caso, beba. As quantidades industriais de todos os tipos de bebidas alcoólicas que lá consumi e a sofreguidão com que o fiz, atestam bem como "oásis" é a palavra que mais adequadamente descreve a minha relação com o local.
Situado no topo de um modesto edifício de dois pisos (obviamente, a cair aos bocados), o Elinga será sempre, na minha memória, o equivalente angolano ao saloon nos filmes de cowboys.
Aí, por entre o bar e a meia-dúzia de mesas e cadeiras (todas diferentes), movimentavam-se todos os tipos de clientes que é possível imaginar, pois era toda a fauna nocturna que, inevitavelmente pelos seus degraus apodrecidos, escada acima, por lá passava: de putas até generais do MPLA, passando por artistas, empresários e oportunistas; latifundiários, contrabandistas e falsários; ricos e entediados, pobres ou remediados, o Elinga era o verdadeiro exemplo... O único exemplo de convivência democrática na noite de Luanda.

— Hei, amigo. Pula di bangô. Amigo.

Uma voz de criança faz-me voltar à varanda do escritório. Olho para baixo e uns dos inúmeros miúdos da rua, talvez com uns sete ou oito anos, olha-me ansiosamente, enquanto tenta a sua sorte:

— Amigo, tem uma maçã?... Dá uma maçã, dá.