Joaquim Coelho

sem retorno

Joaquim Coelho

MANTORRAS PRISIONEIRO

11 de março de 2007, domingo.
Na varanda das traseiras do escritório, um dos engenheiros da companhia faz o possível para conter as emoções que o invadem, enquanto fuma um Marlboro vermelho falso, possivelmente comprado ao pessoal do contrabando do Largo do Kinaxixe:

— Amanhã tenho de ir para o Cacuaco, mas eles, até hoje que é domingo e tudo, andavam à caça de portugueses. Tudo por causa daquele filho da puta...

Com a voz arrastada por um soluço, por fim, lá consegue ganhar coragem para mostrar o seu medo. Por entre as lágrimas, as palavras agora escorrem-lhe também, descontroladamente, pela face abaixo:

— Eu não quero ir trabalhar, amanhã. Porra, não quero. Não quero acabar na esquadra de Luanda. Filhos da puta.  

E eu, que sempre tanto prezo a minha eloquência, não encontro nada para lhe dizer. Ainda penso em contar-lhe como o Verynice e o Pula di bala foram penteados[1], hoje mesmo, a caminho da Ilha de Luanda, mas tenho bom senso de, por uma vez, manter a minha bocarra fechada. Ele acaba o cigarro entre soluços silenciosos e volta para dentro; apercebendo-me que já perdi o pôr-do-sol, sento-me no chão da varanda. Encostado ao muro, suspiro e acendo o milésimo Jogador do dia... e o primeiro da noite. Que tabaco horrível: seco, sem pontinha de sabor. Parece palha. 

Nunca atribuas à maldade algo que pode ser
adequadamente explicado como estupidez.

Robert J. Hanlon 

No dia 5 de março de 2007, aproximadamente às 09:40 da manhã, o cidadão angolano Pedro Manuel Torres, mais conhecido como Mantorras, ponta-de-lança do Benfica, foi apanhado numa operação stop na Torre da Marinha, no Seixal, quando se dirigia para o Centro de Estágio do Benfica.
Verificado o crime de condução sem habilitação legal — visto que as cartas de condução angolanas não são reconhecidas pelo estado português — o jogador foi encaminhado até ao Tribunal do Seixal. Ouvido pelo juiz, foi-lhe atribuída a medida menos gravosa, Termo de Identidade e Residência, visto que não tinha quaisquer antecedentes criminais. E, em Portugal, a história acabou aí. 

Já em Luanda, a narrativa foi muito diferente. Durante toda essa semana, os boatos sucediam-se a uma velocidade supersónica: preso, algemado, sovado, torturado... No imaginário popular, não houve violência ou abuso ou humilhação que o pobre Mantorras não tivesse sofrido, nesses dias.
Na sexta-feira, dia 9, o Ministro da Administração Interna angolano decreta pela televisão que, a partir desse momento, as cartas de condução portuguesas deixam de ser válidas em território angolano e, ao mesmo tempo, dá carta branca a todas as forças policiais de Angola para implementarem o novo preceito. A porta estava escancarada para o que seriam onze dias de verdadeira caça — sem aspas — aos condutores portugueses.  

Na prática, porém, pouco mudou. Durante estes onze dias, tirando uma frequência e agressividade maiores, os polícias de Luanda continuaram a fazer jus à sua fama de corruptos e a gasosa — gíria para um pagamento pontual para ser deixado em paz — apenas se limitou a ter a tarifa inflacionada.
Ser penteado por um polícia de trânsito, no entanto, com a camisa azul surrada e suja e luvas brancas cheias de buracos, quase que torna o pagamento num acto de solidariedade social; já ser interpelado por um par de ninjas [2], cada um com quase dois metros de altura, com o inconfundível uniforme negro, armas de guerra nas mãos, bafo a aguardente manhosa e olhos esverdeados pela febre e pela malária, juro-vos, é uma experiência muito mais intensa. 

Claro que houve alguns exageros. Em situações em que o orgulho nacional — seja lá isso o que for — é posto em causa, há sempre alguns personagens um pouco mais inflamados. Podia contar-vos histórias (verdadeiras) de portugueses detidos na ponte do rio Kwanza e obrigados a sentarem-se à beira da estrada, debaixo do sol escaldante, durante todo o dia de sábado... Ou da passeata dos jipes da polícia buzinando por Luanda e exibindo nas traseiras, na caixa aberta, dezenas de "criminosos portugueses" em pânico.  

Money makes the world go around,
The world go around,
The world go around,
Money makes the world go around,
Of that we can be sure.
(shit) on being poor. 

POLÍCIA ANGOLANO — Vocês prenderam o meu compatriota Mantorras, lá na Tuga. 

VERYNICE (com um grande sorriso) — Não, não, não, ele já foi libertado. Já. Já foi. 

POLÍCIA ANGOLANO — Não interessa. Eu agora podia levar-vos para a Esquadra de Luanda para aprenderem...  

PULA DI BALA — Então... e não há outra maneira de a gente resolver isto? 

POLÍCIA ANGOLANO — Tens kumbu? 

VERYNICE — Heuu... 50 dólares... ? 

POLÍCIA ANGOLANO (dando-lhe um envelope branco) — Põe todos aí dentro.


[1]              Pagar para não ser molestado pela polícia;

[2]              Nome popular dado aos membros da Policia de Intervenção;

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