Joaquim Coelho

sem retorno

Joaquim Coelho

A SINETA

Devo ter batido um recorde qualquer, com toda a certeza, pois detestei aquele bardamerdas desde o primeiro segundo em que o vi.
Ainda O Merdas não tinha aberto aquela bocarra, disposto a ofender toda a inteligência humana com as suas alarvidades pomposas e boçais, e já a sua presença — a sua presença apenas, sim — só essa, já me irritava muito para lá do aceitável.
Nesse primeiro dia, à medida que as apresentações iniciais se diluíam no álcool das conversas informais, mesmo no extremo oposto da sala, eu não conseguia deixar de escutar as tiradas espirituosas e divertidíssimas que O Merdas — encorajado pelo tinto — berrava para quem quisesse, ou não, ouvir. O facto de semelhante besta estar viva e claramente de boa saúde, no mesmo continente que eu, foi suficiente para que me amaldiçoasse, bem como a todos os erros do passado que me tinham levado até àquela sala, no Bairro Azul, em Luanda.
Por alturas da hora de jantar, já eu tinha renegado a Deus e a Darwin e amaldiçoado Lúcifer, um milhão de vezes, pela ousadia e pela criatividade de conseguir criar e aplicar-me semelhante tortura enquanto eu ainda era vivo.
Mas a pior parte ainda estava para vir.

E apesar de tudo,
ainda sou a mesma!
Livre e esguia, filha eterna de quanta rebeldia
me sagrou.
Mãe-África!

ALDA LARA
(1930–1962)

Sentada à entrada da "favelinha" — como chamávamos à rua sem saída onde se situava o escritório — Mamã África, presenteava-nos todos os dias, logo pela manhã, com um sorriso franco e branco. Ali, na berma do passeio, com uma pequena fogueira de pedaços de madeira e carvão aprisionada entre umas pedras e uns pedaços de tijolo, a Mamã vendia, a quem quisesse comprar, a mandioca que cozinhava a toda a hora numa frigideira enorme e preta.
A princípio, eu pensava que ela era habitante das Ingombotas, no entanto, mais tarde, soube que todos os dias de madrugada viajava até ali de candongueiro, desde um musseque pestilento, vizinho ao Mercado do Areal, lá muito mais a sul que Luanda Sul, já bem próximo de onde o diabo perdeu as botas.

Vai pr'a tua terra, branco filho-da-puta!!

(frase menos afectuosa que me foi dirigida,
logo na primeira semana, por um jovem habitante de Luanda).

Depois, surgiu a maldita da sineta.
Não me custa nada a acreditar que, hoje em dia, os angolanos tenham uma imagem ainda pior dos portugueses do que tinham, digamos, no tempo das colónias. Todos os representantes da nova geração de empresários portugueses, os novos senhores e patrões brancos com que me cruzei no país, pareceram-me, regra geral, absolutamente detestáveis. Gente sem qualquer espécie de escrúpulo e que, amiúde, não se inibia de tratar os angolanos, na sua própria terra, como cidadãos de segunda classe.
Como O Merdas, por exemplo, que fazia questão de, a cada momento do dia, dificultar ainda mais a vida da empregada da casa, Luísa [nome fictício], uma angolana de idade indecifrável que, por um punhado de miseráveis dólares por mês, se rebaixava a todos os caprichos do "Grande Patrão Branco".
Para tal, O Merdas usava uma sineta — sim, uma sineta, leram bem — que recebera do anterior "Grande Patrão Branco" da casa e que servia para chamar "a preta"; assim, ficou definido que sempre que a ouvisse, Luísa deveria deixar tudo o que estava a fazer e acorrer às ordens e desejos do Senhor Merdas.
Mas a imensa "supremacia racial" desse borra-botas fazia-se notar também junto de outros habitantes da casa, como em relação a um engenheiro brasileiro, de quem abusava frequentemente da boa vontade, fazendo-o trabalhar para si como um servo preto, como um moleque.

E aquilo foi-me enchendo o bucho.
Um dia, deixei simplesmente de jantar com os outros na sala de refeições e comecei a fazê-lo numa zona de transição, algures entre a cozinha e a garagem. Era mais fresco e mais sossegado, mas, mesmo assim, o retinir constante da sineta, lá dentro, não parava de me infernar o espírito. Decidi que iria pôr fim àquela palhaçada tropical, acontecesse o que acontecesse. E aconteceu. Aconteceu num domingo à noite, quando todos já dormiam, passando por acaso pela sala de jantar, deparar-me com o abjecto objecto à cabeceira da mesa.

— Não é tarde nem é cedo. — disse-lhe em voz baixa — tu vens já comigo.

Ao rufo do tambor e dos zabumbas,
Ao som de mil aplausos retumbantes,
Entre os netos da Ginga, meus parentes,
Pulando de prazer e de contentes —
Nas danças entrarei d'altas caiumbas.

(Luís Gama
(1830-1882)

O Pula di bala sugeriu que fossemos até à Baía de Luanda e, num cerimonial meio-punk, atirássemos a porcaria do badalo para o meio do oceano. Mas eu disse-lhe que não.
A verdade é que eu já tinha traçado um plano para ter a segunda-feira mais fantástica de toda a minha vida. E era assim: chegar ao trabalho, no Bairro das Ingombotas e, à entrada da favelinha, dizer à velhota mais simpática do bairro:

— Mamã, tenho um presente para si. Para atrair mais clientes. 

A satisfação nos olhos, a alegria emocionada na voz, só podem ser comparadas com o prazer que me causou, durante todo o dia, o som celestial da sineta entrando pela janela — propositadamente aberta — do escritório.