Joaquim Coelho

sem retorno

Joaquim Coelho

MALÁRIA, CONSTIPAÇÕES E O BAIRRO DOS BANDIDOS

Éramos os três de sempre: eu, o Verynice e o Pula di bala. E lá estavamos nós, ainda nem era manhã, à porta de uma clínica privada, muito fora da nossa zona de conforto, no meio do largo dos candongueiros do musseque do Cazenga, uma dezena de quilómetros a sul... A sueste do centro de Luanda.
A Luísa, a empregada da casa do Bairro Azul onde eu e o Pula di bala vivíamos, estava bastante doente. Malária. Evidentemente, o contrato que tinha (se é que tinha) com a empresa não incluía qualquer ajuda financeira para medicamentos, consultas hospitalares ou direito a baixa por doença.
— Se ela não consegue trabalhar porque está doente, arranja-se outra empregada. Querem que vos arranje outra empregada? — perguntou-nos um dos gajos porreiros que dirigia o circo.
Não queríamos. E não queríamos ser responsáveis pela sua demissão. Na noite anterior, tínhamos falado com os restantes quatro habitantes da casa, perguntando-lhes se estariam dispostos em participar numa vaquinha para pagar uma consulta — e comprar medicamentos — para a empregada. Claro que recusaram.
Pagar? Para a empregada ir ao médico? Que ideia ridícula. Se ela não conseguia trabalhar, o melhor seria arranjar outra pessoa para o cargo.

Resultado ao intervalo: Estou-meACagar 4 – Compaixão 0.

Recordo-me perfeitamente do dia em que pensei que tinha malária.
Sentado no escritório — na favelinha privilegiada dos brancos ricos — lembro-me que o calor, mesmo com o ar condicionado ligado, apresentava-se-me como absolutamente insuportável. Enfermiço, num estado de semi-letargia, a única coisa que me mantinha apegado à realidade era a curiosidade acerca de um som intermitente, toc-toc-toc, que parecia existir sem motivo. Percebi depois que se tratava do ruído das gotas de suor que me corriam abundantes pela cara abaixo, embatendo contra as páginas de uma moto-jornal antiga que eu estava, supostamente, a ler.

Felizmente, não era malária.
Apenas uma constipação mais robusta. Nada que uma mão cheia de cêgripes não destruísse no espaço de um dia ou dois. Não creio que nenhum dos nós pensasse (honestamente) que alguma vez teria problemas sérios com a doença. A malária seria sempre, quanto muito, uma adversidade passageira.
Tanto assim que a toma semanal da dose de quinino que tínhamos levado de Lisboa, cedo se transformou numa piada privada, uma vez que descobrimos que o Mephaquin — para além de uma ligeira comichão (e algumas manchas) nas mãos — nos provocava, fatalmente, uma noite de sonhos absolutamente surreais, quase... Opiáceos; isso, vou chamar-lhes assim. Sonhos opiáceos.

Em 2007,
o crescimento percentual do PIB dos EUA foi de 1,9%;
nesse mesmo ano, em Portugal cresceu 2,5%.

o PIB de Angola cresceu CATORZE PORCENTO.

A realidade da malária, porém, é muito mais séria, sobretudo para quem não vive num Bairro Azul como nós vivíamos, mas leva uma vida inteira no meio do fedor misturado de água podre, terra suja e merda pura que cobre as ruas sem nome dos bairros de lata de Luanda.

Será talvez curioso comentar nesta altura que, quando posteriormente informámos os nossos empregadores da forma como tínhamos passado essa manhã, fomos rispidamente repreendidos pelo nosso gesto perfeitamente inconsciente: arriscar-se assim num bairro assim — para mais, para levar a criada à clínica — era indesculpável e um completo absurdo.

— E os bandidos? Não pensaram nisso, claro. Lembram-se? Isto aqui não é Lisboa.

Os bandidos, claro. Os famosos bandidos de Luanda. Pois não sei. Não vimos.
Vimos, um pouco depois das seis, diria eu — ainda mal o sol começava a sua escalada quotidiana pelo azul acima — as centenas, os milhares de angolanos, vindos de todos os pontos cardeais à nossa volta, a desaguar como um rumor, no largo dos candongueiros.
Vimos, numa maré agitada por ondas azuis e brancas, mar alteroso acolhendo o rio de murmúrios matinais, os ditos candongueiros... A carregar duas mamãs e mais seis estudantes e mais três kotas e mais os sacos e mais as bilhas de gás e mais o cão e mais duas cabras. Bem arrumados ainda iam cabiam mais três — mas os onze clientes, amontoados pelos oito lugares disponíveis — protestavam que não eram gado.
Vimos o pó habitual: matinal, fino e teimoso; persistente e insolente.
Vimos corpos magros e secos, sorrisos sérios, olhos desencantados, cegos para ver mais longe do que o aqui.
Vimos um verdadeiro exército com ordem de marcha. O exército das empregadas com malária e da criadagem variada das casas dos grandes patrões brancos da Luanda asfaltada.

Bandidos, ainda não seria dessa.  

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* Foto: a parte "boa" da cidade. Luanda, 2007
foto por Beth Balbon / wiki commons