Joaquim Coelho

sem retorno

Joaquim Coelho

O OFÍCIO

99% das vezes, as nossas manhãs não eram assim lá muito produtivas. Há que dizê-lo.
Quer dizer, o Verynice — que morava numa casa cheia de crucifixos pelas paredes que já nem me lembro onde era — frequentemente apanhava-nos na casa do Bairro Azul, logo a seguir ao pequeno-almoço. Pequeno-almoço esse, cuja hora dependia, e muito, não só da hora, mas também do estado de alcoolemia em que tínhamos saído do Elinga na noite anterior.
Encerrado o episódio alimentar matinal, seguíamos para as Ingombotas, onde ficavam as instalações da agência. Para isso, porém, havia que enfrentar as "manadas de bois-cavalos", como o Verynice baptizara as hordas de veículos indisciplinados que se atropelavam e entupiam — literal e diariamente — todas as ruas de Luanda, a toda a hora.
Quando finalmente conseguíamos chegar ao fundo da Avenida do 1º Congresso do MPLA, e antes de virarmos à direita em direcção ao Largo das Ingombotas, já estávamos dentro do carro — num dia de viagem rápida — havia pelo menos meia-hora.
Depois de cumprimentarmos Mamã África e pararmos o carro, mesmo em frente aos guardas armados de AK-47 que faziam a segurança do escritório provisório, tínhamos feito, em média, quarenta e cinco minutos de condução para percorrer uns míseros três quilómetros e picos de distância. A pé teria sido mais rápido. Mas os mestres do universo que geriam a empresa tinham-nos proibido — salvo seja —  de andar a pé. Por causa de quê? Quem disse "bandidos" siga directamente para o parágrafo seguinte.  

Além do mais, o termo "rápido" é praticamente inexistente na linguagem de Angola. Aliás, ousaria dizer mesmo que a noção de tempo é, em terras da rainha Ginga, completamente distinta do resto do mundo.
Eu explico: por exemplo, quando chegámos a Luanda e, logo no primeiro dia, nos levaram a ver o que seriam as instalações definitivas da agência, todo o material de escritório — mesas, cadeiras, secretárias, computadores, impressoras, etc, etc — a fazer fé no relato que nos foi feito, já tudo chegara ao porto de Luanda, havia alguns meses. Faltava só desalfandegar. Só.
Três meses depois, no último dia da minha vida que passei na capital de Angola, o dito material foi finalmente entregue.
Pelo caminho ficaram, percebia-se facilmente, três meses em busca do contentor que "não se sabia bem" onde estava e que era, obviamente, preciso pagar a alguém para o "encontrar". Depois pagar a alguém para o retirar do meio dos outros milhares de contentores. Depois, pagar a alguém para ter a certeza que todas as coisas que estavam lá dentro, lá dentro permaneceriam... enfim, estão a ver a ideia, certo? Pois bem, tudo leva a crer que foi um processo rápido. 

Obviamente, não é muito difícil de perceber que a pontualidade, essa, para grande tristeza minha, seja de uma subjectividade total na antiga pérola do império português. Mas sejamos justos: como se pode ser pontual num país onde nada funciona?.

— Mandaste-me uma mensagem a cancelar a reunião??? Quando?
— Ontem... às sete e meia.
— Aaaah, f***-se pá... o móvel ficou sem bateria por volta das sete.
— E porque não o recarregaste?
— Quando cheguei a casa já não havia luz.
— E o gerador?
— Está sem gasóleo.
— E não foste comprar mais?
— Fui, mas as bombas estavam fechadas, como é costume...
— E foste a quais?
— Fui só àquela ao pé da minha casa, na avenida.
— E porque não foste a mais?
— Pá, já não tenho muita gasolina no carro.
— Então, na mensagem eu dizia-te que...

Luanda era, nesses dias, uma cidade complicada. Tirando uma vez em que demorei "apenas" quarenta e cinco minutos, às três da manhã (na bomba da Sonangol ao pé do largo do Lumeji) nunca me lembro de estar menos de uma hora na fila para a gasolina. Num dos maiores produtores de petróleo da África, as bombas de gasolina estavam amiúde encerradas e sem combustível e, quando abertas, as filas estendiam-se por quilómetros, muitas vezes acabando-se o carburante antes mesmo de todos os condutores conseguirem abastecer.
Nunca me lembro de uma noite, uma, em que a rede eléctrica não tenha ido abaixo. De ver (ou ouvir) um camião do lixo na rua. De um dia sem histórias sobre polícias corruptos ou funcionários do serviço de imigração abusadores; de outro dia sem os acostumados comentários abertamente racistas, agressões verbais de uso constante que fariam enrubescer de indignação qualquer coraçãozinho mais politicamente correcto. Não me lembro de um minuto em que não pensasse: "mas o que é que nós estamos a fazer aqui, afinal?" 

Trabalhávamos. Isso. Sim e trabalhámos bem e até fizemos coisas interessantes. Infelizmente, para coroar completamente a frustração, também não me lembro de um só trabalho que tenha sido publicado — ou produzido sequer — enquanto lá estivemos. Um verdadeiro desperdício, mas não tínhamos outra hipótese. Sem qualquer material profissional, usando os nossos próprios computadores, internet a vapor e uma impressora ranhosa do período neolítico, desunhávamo-nos para conseguir criar, desenvolver e maquetizar campanhas publicitárias e apresentá-las a tempo e horas aos clientes que as tinham encomendado:

CLIENTE (meio-trôpego e cheirando a whisky) — Ah... você já aqui está?
VERYNICE (com um sorriso) — Pois, marcámos... marcou ao meio-dia, lembra-se?
CLIENTE — Huum, não. E que horas são agora?
VERYNICE — Quase duas e meia.
CLIENTE — Já? Eh pá, vamos lá despachar esta merda que o Benfica joga às quatro e eu quero ir ver o jogo com uns kambas.

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* Foto: Verynice e Pula di Bala (Angola 2007)