O bom e o bonito

Absoluta  mente
José Júlio Sardinheiro

“Se creio em Deus? Não, creio em algo… muito maior”
(Umberto Eco, citando um dito atribuído a Rubinstein)

Vou lendo aos poucos um livro de Umberto Eco (Aos ombros de gigantes, Gradiva, 2018). Leio devagar e páro frequentemente para pensar. E volto atrás e releio um capítulo (o quarto, na ordem, já que não são numerados) chamado Absoluto e Relativo. O que se segue é mais ou menos o que me acontece no espaço de uma entrelinha. Os percursos da mente são tramados. Não há sentidos proibidos, cancelas, barreiras… O espaço e o tempo são galgados num voo imparável…

É relativamente comum ouvir-se dizer “Ah, isso é relativo!”, ou até “Tudo isso é muito relativo”. Parece que isto tem a ver com o Einstein. Provavelmente é verdade, mas também é provável que não seja bem pela razão que a maioria das pessoas que usam estas expressões julgam. Sem nunca ter lido uma linha escrita por Albert Einstein, um grupo de adolescentes, com arrogos de intelectualidade, discutia o que julgava ser a Teoria da Relatividade quando na verdade o que acontecia era um fascínio quase erótico pelos paradoxos emergentes (um dia voltarei a este soberbo enunciado) que misturava física com filosofia e confundia a relatividade com o relativismo. Dizer que “tudo é relativo” era assim uma espécie de moda a que não se escapava apesar daquele espinho contraditório cravado à nascença naquela declaração absoluta. Mas isso não assustava aqueles adolescentes de há quase cinquenta anos e rapidamente a formulação evolui para “tudo é relativo, incluindo esta afirmação”. Depressa alguém se apercebeu do carácter também absoluto desta afirmação e deve ter sido por isso que começamos a interessar-nos por outros temas e alguns de nós até se encontravam amiúde num certo “baile de garagem” que, por acaso eram num sótão transformado em boite.

Pouca gente se terá continuado a interessar pela teoria da relatividade, em boa parte devido ao poder absoluto das hormonas. Tirando um ou outro, mais nerd (o conceito não se usava na altura) com o destino marcado para seguir para o Técnico (Instituto Superior Técnico) excitar-se com Física Teórica, os outros eram rapazes relativamente normais e estavam mais interessados na “química” com a rapariga que tinham conhecido no tal baile… E excitavam-se com isso. Absolutamente. Isto é, sempre.

Muito mais tarde é que percebi que o interessava ao Einstein era o absoluto e não o relativo. Quando publicou a sua teoria, em 1905, nunca lhe chamou “da Relatividade”, nome que só se viria a utilizar mais tarde, mas sim, “Electrodinâmica dos corpos em movimento”.

Pois é exactamente a electrodinâmica dos corpos em movimento que sempre me interessou. A energia coregráfica fascina-me mais que todos os mapas do universo. Claramente.


o bom e o bonito (vai ser) 1
José Júlio Sardinheiro

"É mais cómodo acreditar no que nos consola. Mais difícil é perseguir a verdade. Pois o verdadeiro não precisa limitar-se ao belo e ao bom. O amigo da verdade não deve pretender paz, calma e felicidade, pois a verdade pode ser muito feia e repulsiva".
(Nietzsche).

Dizia-me que ia montar um negócio…
E eu que às vezes sou moço assim de acintes ao contrário mandei-lhe logo sem pensar: – E eu vou montar um ócio!
A minha leviandade leva-me por vezes para becos-sem-saída ou, para apurar mais a redundância aforística, a meter-me em camisas de onze becos, ou bicos onde uns trazem água e outros apenas um grão de metafísica na asa.
Lembrei-me então que ócio, ao contrário do que muita gente julga, não significa não fazer nada e ficar ali de papo para o ar – embora isso do papo para o ar até possa ser a verdadeira alma do ócio – e não produzir algo que possa contribuir para o PIB e ser tributado pelo valor acrescentado. Não. O ócio é coisa de pensar para além das minudências dos negócios e nem sequer fica logo assim ao alcance directo de quem nada tem para fazer, por estar desempregado.
O verdadeiro ocioso deverá ter a barriga cheia quanto baste, sentir-se reconhecido na sua existência como pessoa, ser capaz de amar e de se deixar amar e estar mais ou menos disponível para se dedicar a uma actividade que lhe pode ocupar a maior parte do tempo… Estão a ver?
Eu não estudei grego e nunca percebi como é que me podia ver grego para entender aquelas palavras feitas de pis, alfas, lambdas, ómegas e rós, mas que felizmente há sempre alguém que translitera isso para algo a que estamos mais habituados.
Há uma palavra grega que podemos escrever skholé que significa “o lugar do ócio” – “o tempo dedicado ao estudo e à meditação”. Em latim, língua onde se chega mais comodamente, temos schola ou scholae. Ócio é o que se devia aprender na escola.
Pois. Vou então montar uma escola de ócio. Preciso dum sócio.
A lassidão do post-prandium costuma ser boa para o ócio. É assim um de papo-para-o-ar frequentemente bastante produtivo e que também é uma grande escola.
Procurar respostas a perguntas pouco comuns tais como:
Como se chamam os irmãos da irmã Lúcia?
De que se alimentava Buda?
Maomé bebia chá de Ceilão?
Que número de sapatos calçava Jesus Cristo?
Dizem-me aqui que isto não tem utilidade nenhuma…
Ah não? Então, seria bom que o demonstrassem!
Agora vou tomar um chá e escutar saturno.