O bom e o bonito (4)

É tudo mentira!
José Júlio Sardinheiro

Grande parte do meu tempo é ocupado a pensar em algo que poderia genericamente circunscrever como “conhecimento”. Neste grande saco meto tudo aquilo que julgo já saber, o que vou tentando aprender, o que desejo conhecer. Interrogo-me muito sobre a razão de querer conhecer o mundo em que vivo e saber coisas… Aquilo que vou percebendo que outros sabem, também me ocupa, às vezes, com uma certa dose de inveja que não gosto de assumir. É que há gente que sabe tão mais do que eu sobre tantas coisas!... Onde realmente eu quero chegar é ao jogo que jogamos uns com os outros quando nos encontramos. Precisamos de saber tanto para realizar esse encontro que seria impossível enumerar. Mas poderá estar aí o grande desafio de algo a que alguns chamam de verdadeira cultura – tudo aquilo que nos permite entrar em contacto com outros e entendermo-nos nas nossas diferenças e nos diferentes modos de ver o mundo e de viver. Se houver alguma medida para avaliar a densidade cultural de cada um, talvez ela se traduza pelo número de pessoas de diferentes contextos de vida com as quais somos capazes de comunicar.

Muita da nossa comunicação com os outros desliza sobre uma capa mais ou menos lubrificada de representações, mitos, histórias, anedotas, provérbios, lugares-comuns, rituais… É por isso que “candeia que vai à frente” se pode ligar a outro provérbio e dizer que “um dia lá deixa a asa” e esta mixórdia sem sentido ter afinal um outro sentido para quem o apanha.

Este discurso pode não ser compreendido por um estrangeiro ou, até mesmo, por um português das gerações mais novas. Já não se vê ninguém de candeia acesa (ou andar de candeias às avessas) nem ir à fonte de cântaro à cabeça. De qualquer modo, este saber baseado em provérbios estará já mais destinado a ficar encerrado em alguma literatura realista e neo-realista do que ter alguma utilidade para os night runners ou para o abastecimento de água às populações.

Olho para uma imagem que representa um quadro de Magritte, aquele que mostra um cachimbo e tem escrito que não é um cachimbo. Penso que estamos ambos num nível de realidade bastante semelhante, ou seja, basicamente coligados por uma artística irrealidade. Eu não vejo o cachimbo que não é cachimbo no quadro que Magritte pintou, mas uma das milhentas fotografias que alguém tirou e que foi reproduzida talvez milhões de vezes e espalhada pelo mundo. Aquele cachimbo que não é um cachimbo, não o é aos milhões. Não sei quanto vale o quadro, mas fica demonstrado que uma mentira, mesmo dizendo que o é à vista de todos, pode valer muito dinheiro.

E será mais ou menos assim em todas as artes. Se não fosse a mentira as artes não tinham piada nenhuma.

O teatro e o cinema ilustram bem até onde o valor da mentira pode chegar. O palco não é um quarto onde um casal confronta as suas angústias e contradições. Um quarto a que falta uma parede para que o público possa assistir a tudo. Os actores sabem que não são aquele casal, mas comportam-se como se o fossem; e sabem que aquele quarto só tem três paredes e tudo se passa como se aquela intimidade fosse verdadeira. O público sabe que o que está a acontecer não é verdade e, apesar disso emociona-se verdadeiramente.

Um romance escrito na segunda metade do século XVIII, pôs os jovens a vestir-se de calças amarelas e coletes azuis e desencadeou uma onda de suicídios por desgosto de amor, tal como o que acontecia com o personagem da ficção de Goethe.

A cumplicidade com a mentira é um fenómeno poderoso. Os políticos sabem isso bem.
E sabem também que toda a história do nariz do Pinóquio é uma redonda mentira.