José Júlio Sardinheiro

O bom e o bonito

José Júlio Sardinheiro

Espantar males

Não sou capaz de imaginar alguém que nunca tivesse cantado. Talvez uma pessoa surda de nascença. Fora isso, parece que o canto surge quase como “instinto inato” de protecção, provavelmente com a função de estabelecer uma conexão, um laço ou vínculo. Deve ser por isso que surge tão espontaneamente entre uma mãe e o seu bebé na mais tenra idade. Canta-se a alimentar uma criança, enquanto se veste, para adormecer; canta-se para brincar, para aprender movimentos; canta-se quando se passeia… E se pensarmos na presença do cantar na história da humanidade, encontramos testemunhos bem longínquos do canto associado a diferentes funções da vida e até a diferentes temperamentos dos povos, como por exemplo, na antiga Grécia, donde herdámos os chamados “modos gregos”.

Por vezes encontramos pessoas que se recusam a cantar e dizem não saber cantar. Apetece-me sempre perguntar: como é que aprendeu? Mas contenho a pergunta. Debaixo do aparente nonsense pode estar a questão fundamental. Se alguém diz não saber cantar, essa pessoa deve ter aprendido a dizê-lo e a tornar-se a si própria uma espécie de “deficiente” do canto. Há quem sustente que se passa o mesmo com o desenhar. Dêem um papel e um lápis a uma criança pequena e sai um desenho. E cedo começa a traduzir o que desenhou. Até “desaprender”. E aprende a dizer que não tem jeito para o desenho…

O mais maravilhoso do cantar surge quando se canta em grupo. Sabe-se que cantar em grupo faz parte das actividades comunitárias há milhares de anos e que é das mais emocionantes e transformadoras de todas. Diz a investigação nesta área que os cantavam em grupo desenvolviam uma união mais forte e foram os que sobreviveram. Pensa-se que a libertação conjunta de serotonina e ocitocina produz uma forte ligação entre as pessoas e até é capaz de sincronizar as batidas do coração. Cantar torna-nos mais fortes, constrói lealdades e traz melhores sentimentos e cooperação.

Cantar enche-nos de alegria e traz, de borla, extraordinários benefícios para a saúde quer do ponto de vista físico, como emocional e social. Entre estes benefícios contam-se o reforço do sistema imunológico, o exercício respiratório e circulatório, a melhoria da postura corporal, do sono; cantar é um antidepressivo natural, reduz o stress, melhora a concentração e a memória; alarga o círculo de amizades, aumenta a confiança e as habilidades de comunicação. É também uma forma de promover a apreciação de outros cantores, de outras formas e estilos musicais. Cantar abre-nos para o mundo.

Porque é que não cantamos mais?