A Propósito


O Portugal dos pequeninos
Jorge Leiria

Que ternura... Afloram-se-me as caganitas aos olhos, só de pensar como o nosso povo é lindo - humilde; singelo; singular! E para ele, à sua modesta dimensão, o quotidiano rola suave, como que se sobre caroços de azeitona se tratasse. Para quê pensar grande se pequeno é maravilhoso? tudo é consumido com parcimónia, às metades, em tamanhos reduzidos, enfim, elevando a pequenez como sua marca existencial.

Ao pequeno almoço, meia de leite com meia torrada. Talvez depois, uma bica curta e bolinho miniatura, só para adoçar a boca mas manter o regime.

Ao almoço sim, meia dose de cozido à portuguesa. A acompanhar? meio jarrinho de vinho tinto da casa. Como sobremesa? dispensável, ou uma tacinha de arroz doce. Para rematar, café e meio uísque em balão.

Saído do trabalho, a hora é do lanche, e aí surgem duas alternativas:

A tradicional, a tasca, o copinho de dois, tinto do especial, servido ligeiramente acima do risco que indica a metade da quantidade referente ao copo de três, cuja medida é cheio. Quantos? até ter avonde! Como conduto, o pratinho de saladinha de orelha, de ovas ou de grão com bacalhau; o rissol, o pastelinho, agora a chamuça; tudo muito linear, muito terra a terra, muito diminuto.

A moderna, resultante da grande invenção portuguesa das últimas décadas do século passado - a mini, medida, tanto quanto sei, única no mundo. E aí tudo fia mais fino. A mini só pode ser bebida pela garrafa, como posteriormente, à imagem, foi institucionalizado para todas as bebidas engarrafadas. Porque se quer poupar louça? não! porque se duvida da higiene da lavagem dos copos? Não o creio, mas talvez possa estar aí a origem. Seguramente porque se tornou um ritual. Após a remoção da cápsula pelo funcionário do estabelecimento, em movimentos de arrogância e dúvida, a embocadura da garrafa é aplainado com a palma da mão, esteja esta lavada ou emergente dos trabalhos mais rudes ou das limpezas mais íntimas. seguidamente o gargalo é acariciado do rebordo ao rótulo num movimento de cima para baixo como se de um falo se tratasse. A operação é concluída com a introdução do dedo indicador na abertura e a sua remoção rápida emitindo um estalido. Uma, duas, três, ... dez minis, que sei eu (conforme a companhia), aqui acompanhadas da tradicional sandocha, do prego, do cachorro ou da bifana, de um modo geral partida ao meio.

O café acompanha todas os momentos do dia. Bebida tradicional e baratucha, aí, o nosso povo não vai em brincadeiras, alça dos seus galões e torna-se exigente. A bica pode ser curta, pode ser em chávena cheia, pode ser abatanada, pode ser pingada, pode ser com cheirinho, pode ser em chávena fria, pode ser em chávena escaldada, pode ser um garoto, pode ser um carioca (e este até pode ser de limão) sabe-se lá onde a imaginação pode chegar, desde que seja para infernizar a vida ao empregado de mesa ou de balcão, porém numa de óbvia e característica, simulada ou não, ingenuidade.

O jantar é frugal. Restos do que sobrou de anteriores refeições, a tabuinha com o queijo e o chouriço, e a sopinha, não no prato apropriado, mas na simpática e aconchegadora malguinha. Eventualmente peça de fruta da época. O vinho é tirado a copinho do bag-in-box, que é como o nosso povo diz, com algum sarcasmo bem entendido, onde se leva no pacote, o vinho para casa. Voltamos ao mesmo - café, uísque, brande, bagaço, enfim digestivos, tratemo-los por «calmante», «tira-nódoas» ou seja qual for o termo, o que de resto faz vir tudo a dar no mesmo.

E depois o serão, o ansiado e repousante serão, rico em telenovelas - intriga, traição, porrada para cima, ameaças de morte, pistolas e facas - até entupir o imaginário do nosso vulnerável, disponível e abnegado povo do que se não deve fazer e, sendo claro que não se ouvindo alguma voz contra, é louvável intuito de, pela negativa, alertar e prevenir a violência doméstica, a violência nas escolas e a violência em todos os actos do convívio social.

E é este o Portugal dos pequeninos. Bem haja! 


O que seria de nós sem os brasileiros?
Jorge Leiria

Assistia na televisão, não tanto atónito (já nada me surpreende) mas sim incomodado, ao desfile LGBTI+ outro dia em Lisboa. Se a tal comunidade lhes assiste o direito (que não questiono) de exibirem o seu orgulho, a mim ninguém me tirará o direito de reservar a minha sensibilidade.
A influência vanguardista dos nossos irmãos brasileiros nesta matéria é notável, pelo que recordo alguns excertos de um texto cheio de humor e oportunidade do nosso José Vilhena (Gaiola Aberta, n.º 29, 2.ª série Novembro de 2005), temendo a sua eventual perda. Ora tomem nota:

... «Receio bem que este pobre e desajeitado país, privado do engenho, da graça e do calor humano dos nossos irmãos brasileiros, entre em colapso e acabe desabando ... Vão-se embora os dentistas brasileiros, que (melhor ou pior) nos tratam a boquinha ao preço da uva mijona; vão-se os futebolistas e treinadores brasileiros, que fazem andar a bola cá em Portugal, vai-se a Heloisa Gorda, o desembaraçado Frota e os realizadores brasileiros que tocam prá frente as nossas produções televisivas; vão-se os bispos e padres brasileiros da Igreja Universal do Reino de Deus e de outras afreguesadas seitas; vão-se os bruxos e cartomantes brasileiros que adivinham a sorte dos portugueses e acodem às suas aflições. Como vamos viver sem eles? E vão também as inúmeras putas brasileiras, cujas bundas aquecem as noites portuguesas, com elas vão os maricas e travestis brasileiros que trouxeram outra alegria e colorido às nossas ruas. E, é claro, deixam de vir do Brasil os reis e rainhas dos nossos carnavais provincianos.
...E vai-se também o abandalhamento da língua portuguesa - tão legal, com o pessoal a bater papo, a encher o saco, a fofocar e a curtir no bem-bom.".

E foi isto tudo que, a propósito me ocorreu.