José Maria de Oliveira

Letras e Traços

José Maria de Oliveira

A Lenda da Alheira Lusitana

A propósito da censura "escolar" ao poema de Álvaro de Campos...

O gene jesuíta, na sua pior estirpe, continua a fazer parte do genoma da "raça lusitana", quando se censuram versos de Fernando Pessoa (Álvaro de Campos) em livros de "estudo" para jovens de 17/18 anos, por causa de alguns comportamentos sexuais de conhecimento tão comum e corriqueiro à maioria dos jovens. Esquecem-se, esses senhores sensores, de "alma puritana" e "casta" que qualquer garoto, de muito menos idade, (estão fartos de ver pornografia gratuita na net, nas têvês, etc..) sabe muito mais de “sexualidade” que qualquer destes arautos do "parece mal"!!!
Esta gente mete nojo e continua a fazer estragos nos caminhos da liberdade onde a livre escolha, quando não é reprimida, é muito mais saudável, pela sua diversidade e conhecimento de riscos, de certeza, que a vida sexual miserável que muitos desses arautos da venda e da rolha, continuam a proclamar... e muitas vezes em casa onde são péssimos exemplos para os próprios filhos e companheiros…
Falem mais de amor e deixem o sexo em paz !!!
Pena é que essa gente, "iluminada" por uma falsa moralidade, continue a ocupar posições políticos e sociais onde causam mais estragos às gerações jovens (reproduzindo nelas, muitas vezes, através do medo, o seu estigma repressivo e persecutório!
Já o povo diz : "públicas virtudes, vícios privados"...é assim a "nossa" moral judaico cristã !

Por cá ainda não conseguimos sair da "era da alheira"!!!


O Personagem

Toda a gente o conhece! Simpático, cordial, bem parecido, não aparentando minimamente a idade que tem, por vezes irónico, mas lá no fundo o melhor e mais justo dos mortais!
Para desfrutar da sua presença afável, amena e imprescindível, todos os dias, para sentir ao vivo a sua companhia sempre desejada, muito pouco terá de fazer... por outro lado, o que há de maravilhoso nesse personagem é que está sempre crescendo, evoluindo, melhorando, avançando rumo ao infinito, trazendo, por vezes, no olhar, aquela nostalgia da eternidade que o caracteriza!
Como lhe fica bem aquela graça humilde, que ninguém diria...
Podia ser eterno!
Devia ser eterno! Não envelhecer, nem adoecer...
- Um pouco mais de alento... e fora Deus!
- Um pouco mais de sonho... e fora Infinito!
Crescer é, contudo, a sua principal virtude e ambição!
Depois, como não podia deixar de ser, ocupa há muito o centro do Universo?!
Há nele um estranho mistério que o atrai... qualquer coisa que vem de longe, muito longe... algo que é como um apelo!
E é tão seguro! Se assim não fosse porque diabo não haveria ele de vestir a roupagem de todos os grandes personagens?
Capaz de tudo, cientista, poeta, ladrão, deus e diabo, grande e pequeno, alto e baixo, ora morrendo ora ressuscitando, lutador e cobarde, nobre e vilão, povo e rei, rico e pobre, santo e pecador, leal e traidor, apaixonado e distante, novo e velho, louco e  ajuizado... parece incrível tanta diversidade num só ser, tanta amplitude num só abraço...tanto sonho num só alento,  e o mais espantoso é como ele está tão próximo de si, tão perto, tão tangível!
Quer conhecê-lo, finalmente?
Prometa-me que não cai para o lado, depois do conhecer pessoalmente,  e, sem mais delongas, mate já a sua ansiedade crónica, pegue num espelho bem grande, para abrangê-lo todo, depois  olhe-se profundamente dentro dos seus próprios olhos,  deixe correr um pouco a cascata do tempo ...e, se quiser, mais tarde,  logo me diz se não  encontrou este espantoso personagem?!


As Bolhas

Dizem os entendidos que a vida começou no mar... contudo, e se tomarmos em linha de conta a grande propensão "aerofágica" da esmagadora maioria  dos seres vivos – sem "ar" não há vida –  sinto-me fortemente inclinado a afirmar que a vida começou no AR!
O que equivale a dizer que a "vida" antes de meter água começou por meter AR.
Assim, muito antes das famosas trilobites e demais bichinhos do antanho, e muito antes de se precipitarem as chuvas diluvianas que deram origem aos oceanos, já a antiga atmosfera terrestre existia e era povoada por numerosas "espécies" flutuantes, que por motivos óbvios de fragilidade, (as bolhas não têm consistência obsessiva) os respectivos registos fósseis não chegaram ao nosso conhecimento.
Pairavam, então, esses seres esféricos, felizes, policromáticos e ululantes sobre a paisagem antrocolítica terrestre.
Movia-as ora o vento ora um pequeno orifício produzido, para o efeito, na sua superfície e no sentido contrário para onde se queriam deslocar. Esse orifício, a que podemos chamar "pipo", após cumprir a sua função, era imediatamente fechado e não se ficava a notar absolutamente nada. Contudo o que as "bolhas" gostavam efetivamente era de "navegar" ao sabor dos ventos. A "bolina" não era com elas!
Alimentavam-se, como é óbvio, dos gases atmosféricos de então e chegavam a durar milénios, pois como não havia nada que as rebentasse, a sua tensão superficial era praticamente constante, sem desgaste, nem agressões, quase eternas...
Segundo as nossas fontes, foi essencialmente o aparecimento dum composto atmosférico
tipo gás  metano com um forte cheiro a ácido sulfídrico, que as levou a abandonar a vida aérea e a procurarem refúgio nas águas  pouco profundas e quentes do oceano. O resto da história já você pensa que sabe, tal como eu!
A esses espécimes, cuja única sustentação plausível é ainda a atual configuração da cabeça humana, poder-se-iam muito bem ter chamado: BOLHAS! Esses são, pois, os nossos legítimos e "primogénitos" antepassados que a constarem na taxinomia Lamark-Darwiniana seriam os primeiros na escala de evolução das espécies.
As bolhas eram totalmente assexuadas, pelo que nunca se lhes poderia, com propriedade, atribuir a “origem da tragédia”!
Antes dessas "vesículas vivas", apenas existiram as borbulhantes emanações das erupções vulcânicas e de outros meteorismos de não menos importância, que passaram à história.
Ainda hoje, a cega paixão pelos balões, nas crianças, pela bola, nos adultos, pelos preservativos nos amantes, pelas bochechas na política, e pela bolsa, nos acionistas (entre outras), são a prova cabal do que acabei de dizer.
Reparem como tudo o que é perfeito e genuinamente "primitivo" se aproxima do divino formato das esferas, da bolha!
Pitágoras e os seus acólitos é que tinham razão e, quando Alcebiades, no "Banquete" de Platão, disserta sobre esse ser "perfeito de quatro braços e quatro pernas", próximo da esfera, que queria conquistar o Olimpo, está a bater em cheio naquilo que afirmamos… a chamada bolha olímpica!!!
Demorará, certamente, ainda muito tempo para que a "ciência oficial" venha a reconhecer este facto: Não será certamente nas gerações mais próximas, mas, quando o pião do tempo rodar para o segundo centénio da era do Aquário, é que esta verdade insofismável e insuflável, virá a lume, iluminadamente pela mão cristalina dos doutos "conscientistas". (cientistas conscientes).
Até lá, paciência! As nossas fontes são outras!
Contudo, se o meu amigo(a) guardar esta notícia como recorte, de modo que os seus trinetos, ou tetranetos, daqui a mais ou menos, cento e vinte anos a descubram, iria ouvi-los dizer, caso estivesse vivo:
Os velhos é que sabiam!...
(o que é certo é que esta tese já se confirma…)
“Bandarrices minhas”…


A Morte do Pai Natal
José Maria de Oliveira

A última vez que o vi foi no Largo de Camões, em Faro; creio que no início deste frio mês de Dezembro.
Era ele, sem tirar nem pôr, barba branca, bem semeada, mais ou menos no tamanho daquelas searas ondulantes que preparamos para o Presépio, também elas cultivadas na mesma altura e prontas para o grande sucesso da Noite de Natal.
Mas voltemos ao Pai Natal. Vestia um velho colete escarlate, e um surrado fato de vários tecidos, todo puído, com que se disfarça, lindamente, todos os anos, para não ser reconhecido, antes da Noite de Natal.
Não calçara ainda as suas longas botas de pele pretas e bem polidas, em seu lugar, como disfarce, usava umas velhas sapatilhas, sem cor, por onde se vislumbrava, entre as farripas das meias esburacadas, aquilo que adivinhávamos serem os dedos dos pés.
Outra curiosidade, da sua camuflagem: estava deitado no chão, no Largo de Camões, em Faro.
Não eram certamente ainda "Las cinco de la tarde", mas eram, aproximadamente, umas duas ... logo a seguir ao almoço, (daqueles que almoçam) ...
Aproximei-me, cauteloso, pois ao vê-lo com o rosto encostado ao chão pensei que se tivesse deitado assim, tentando perscrutar, com o ouvido no chão, já, lá ao longe, o característico barulho do seu magnífico trenó, de muitos cavalos...
Mas não parecia dormir...  pensei então, que talvez estivesse contando, mentalmente, o número de meninos que viria visitar este ano, em Faro, no nosso Algarve, ou talvez sonhando com os muitos beijos, abraços, e desejos de conversar, que muitos pediam aos pais e que ele não conseguia satisfazer – Apenas dava brinquedos, brinquedos, tralha, trapos, chocolates, mas nada daquilo que todas as crianças do mundo mais gostam de receber... no Natal (e todo o ano). As carícias e o respeito dos pais!!!
Mas não seria caso que ele estivesse dormindo, por ter chegado mesmo agora, cansado, muito cansado?
Aproximei-me, mal conseguia ouvir  a sua respiração e não apresentava evidentes sinais de alcoolismo, dir-se-ia que fora surpreendido por uma daquelas "doenças súbitas fatais" que costumam levar muitos "pais natais", deste mundo, para o Céu, pela via mais rápida, a fim de lhes evitar conflitos alfandegários, nas portagens do Purgatório, do Limbo, ou, sabe-se lá, se até para lhes evitar algum mau encontro com  Diabos à solta, dos mais danados!!!
Eu sou ainda daqueles que acreditam que estes "Pais Natais" que morrem na praça pública, vão directamente para o CÉU!
O "Pai Natal" pareceu-me mal! Instantaneamente liguei para a P.S.P. e pedi uma ambulância, com urgência.
Não lhe quis mexer, com medo do "acordar" da sua condição de Pai Natal caído no Largo de Camões (que ironia) e limitei-me a aguardar, um pouco afastado, atento ao que me envolvia, até que os socorros chegassem.
Entretanto, desfilaram pelo insólito "espectáculo", algumas dezenas de pessoas, tudo boa gente, homens e mulheres que olharam, remiraram, alguns até sorriam, e lá foram seguindo o seu percurso, sem que me tenha apercebido que qualquer daqueles transeuntes esboçasse o mais pequeno gesto, para segurar num "filha da puta dum telemóvel" e pedir socorro nem que fosse ao Inferno!...
Lembrei-me do Zeca (O Afonso) e do refrão dos que andam "na noite de breu (ou será de Natal?) à procura, e não há quem lhes queira valer"!
Sem me aperceber tinha caído um espesso nevoeiro. Senti os óculos completamente embaciados e quase que perdido na bruma que me envolvia, mal consegui conter na garganta um grito de Natal à Portuguesa...
A P.S. P. chegou, passado pouco tempo, bem como uma ambulância para "tomarem conta da ocorrência".
Naquele dia, tinha assistido, petrificado, sem convite, na primeira fila, do areópago do mundo, onde todos representamos a comédia da vida, onde todos à enésima MORTE DO PAI NATAL!
À minha memória vieram, então, imagens dos milhares de Pais Natais que pelo nosso País fora – católico, apostólico e romano – vamos despejando por esses "Presépios" para "Pais Natais no Desemprego, já sem saco" que dão pelo disfarçado nome de "lares para a terceira idade"!!!
Em que tipo de gente nos estamos transformando?
É cada vez mais imperioso e urgente alertar todas as crianças, monstruosamente ludibriadas e defraudadas, que o PAI NATAL está MORTO, e há testemunhas, e que foram os seus pais que o ajudaram a matar, em plena praça pública, como é apanágio dos grandes Heróis, numa hora de trânsito, algures também em Faro... e não eram certamente ainda "as cinco de la tarde"...
Mas nós ainda acreditamos em si, especialmente em si, estimado leitor, que conseguiu ler a nossa mensagem, e que ainda não "morreu por dentro" para ajudar, dentro das suas possibilidades, a dizer ao seu "vizinho" o que é esta coisa maravilhosa do Natal, donde vem, o que é, para o que serve...

Ainda vamos todos a tempo de passar a mensagem!!!