José Maria de Oliveira

Letras e Traços

José Maria de Oliveira

RUMO À VITÓRIA FINAL

(vem aí o verão e os seus pequenos percalços nouturnos…)

Isto já está a durar demais!

Ou eu, ou ele!

Neste preciso momento, estou em crer que o universo é terrivelmente pequeno para os dois!

Porra, Estou farto!!!

Em plena Idade do Ouro Apocalíptica, quando todas as forças Anti-Eros se congeminam para a arrancada final que dará início ao princípio do fim do terceiro milénio, em que tudo leva a crer, quando os quatro Cavaleiros do Apocalipse formaram a "holding", prevista, com quatro novos maiores empresários da atualidade: o Lixo, o Consumo, o Ruído e a Globalização, quando tudo isto acontece a uma escala nunca vista, dizíamos, o Lacerda teima. Insiste, remorde, intenta, remexe, chateia, empertiga, em não me deixar dormir e beber-me o sangue, vai para dez noites consecutivas!

Já tentei tudo, desde o ligeiro ao pesado, passando por emboscadas, cercos, tácticas de terra queimada, golpes de mão, guerrilha de elástico, armadilhas de fita gomada, xeltox, D.D.T., ácido sulfúrico, vudu, processos crime, telefonemas anónimos, cartoons, meditação, notas de imprensa, impostos, promessas eleitorais, tolerância zero, em sei lá, e o F. D. P. não descola!

Basta começar a cerrar os olhos e deixar-me embalar nos braços de "Morfina" (nunca gostei de Morfeu; prefiro a sósia), e aí vem ele qual Kamikaze, turbinas ao rubro, no máximo, pronto a ferrar-me pela enésima vez, e a procurar alimentar-se "ad eterno" à custa do meu precioso sangue (1º colheita 42, Serra da Estrela, meia encosta, carrascão)!

Os estragos não param lá em casa e, quando eu mais uma vez vou pensar que o limpei – o bandido tem dezenas de clones a trabalhar para ele – lá vem ele de novo, no silêncio da noite, em voo picado a fazer "rasemotes", "himellmens", "chik munkes", "folhas caídas", "loopings" "oito cubano", e outras acrobacias aéreas radicais, por cima da minha cabeça, totalmente aturdida e enterrada sob as mantas e apenas com a ponta do nariz de fora por motivos de sobrevivência, óbvia!

Tenho o divórcio à porta por causa dele, já dei dez murros na mulher em pleno sono, para além de indiretamente a ter agredido com dois sapatos, um pufo persa, uma prótese dentária da minha avó, em pirex, que serve de pisa papéis, e uma bíblia asteca!

Da minha mobília de quarto, estilo Império, já só resta inteiro o baú, que foi a arranjar vai para seis meses, bem como a arrastadeira que herdei dos meus antepassados, em loiça da Provença, que só escapou ao meu "apocalypse now" porque tem servido de gamela à minha bichana, e eu só ainda não pus a casa à venda, porque esta raiva cega, surda e sibilante que me invade e ferve em mim até aos tutanos, qual vulcão das Filipinas, me diz que mais tarde ou mais cedo hei-de apanhá-lo!

O nosso último confronto foi demolidor: os candeeiros de cabeceira, um anjinho de terracota de Barcelos, um aplique de porcelana, dos "cento e cinquenta", e a coleção de budas da patroa foram à vida!

A minha raiva, nesse dia, atingiu o paroxismo. A minha noite de sono foi igual a zero! O pulha, quando sentiu a minha perseguição impiedosa, fez-me uma finta de mestre, deixei do ver e logo a seguir enfiou-se-me pela orelha direita adentro, quase até ao córtex, assobiou uma valsa lenta e ainda teve tempo para me chamar de tudo!

Passei-me! Peguei no jarro de água que tenho sobre a mesa de cabeceira e despejei-o por cima de mim na esperança do afogar! Fiquei feito num pinto!

E o mais dramático disto tudo é que ele nunca vai morder a minha mulher, nem que seja uma vez por outra, para me dar tréguas!

Mas agora, finalmente, depois de muito pensar, creio que tenho a solução final para o problema: Vou apanhar uma real piela e a patroa; e ela, que é mais artista do que eu a apanhar mosquitos, vai ficar de atalaia, pois talvez ele se embebede, quando me picar pela décima vez e ela, a minha mulher a quem já prometi o testamento por inteiro, se me ajudar apanhá-lo, zás! Vai certamente deitar a mão ao Lacerda vivo, que é como eu o quero, para depois lhe fazer o mesmo, ou... melhor, ainda!

Não sei bem quais as tácticas que vou usar devido às nossas grandes diferenças de cultura e de escala, mas vou consultar a Internet e, depois, logo vos narro o resto... se sobrar alguém para contar!