José Maria de Oliveira

Letras e Traços

José Maria de Oliveira

PESADELOS DUM MEXILHÃO MASOQUISTA

Todos conhecem esse heroico bivalve – preto por fora, vermelho por dentro, cabeleira fortemente enraizada na rocha madrasta que o viu nascer, crescer e findar-se - carnes musculosas rubicudas e casca dura que a agrura das marés, ao longo de milhões de anos de rebentação a cascar-lhe em cima, impiedosamente, foi moldando… tudo isto, sem que alguma vez lhe tenham dado o devido valor como manjar dos assim assim, dos filósofos das fábulas a beira rocha, quer dos artesãos do "bricolage ideológico", a não ser pela sua carga erótico-existencial: É sempre, sempre, desde que o mundo é mundo e que este bivalve existe, que os deuses do diz que disse, vociferam: – já "quando o mar bate na rocha...”.

É essencialmente a sua dedicação masoquista ao calhau "madrasto" a que a sua condição o acorrenta à nascença ao calhau (o mexilhão não é por assim dizer um andarilho) onde é sempre tão maltratado - come mal e parcamente, e leva porrada do mar todo o santo dia enquanto mastiga e quanto mais porrada leva mais se agarra à rocha!!!

Mas donde vem este profundo sentimento de apego ao calhau do mexilhão?

Por que não quis ele seguir as peugadas dos seus irmãos bivalves, deambulantes, muito melhor sucedidos e menos mal tratados?

Veja-se o caso da sua prima a vieira, há tantos anos dedicada, com sucesso, às indústrias petrolíferas!

E algumas das suas irmãs ostras transformadas em industriais de joalharia! Até o estouvado berbigão, conhecido como o marisco dos pobres, a indiscreta conquilha e a pornográfica amêijoa, passando pelo obsceno lingueirão, tiveram todos destinos bem mais felizes!

Há, contudo, na sina do mexilhão essa bizarra analogia com outro "molusco" de polpa mol e casca dura (esta por dentro) – o chamado "Zé Povinho"!

Também ele amarrado ao "calhau" que o viu nascer e a que dá, por vezes, langorosamente o nome de pátria (seria mais correto "madrástia" ou até “bastardia”), se vê permanentemente entalado e fustigado pelas agruras dos flagelos ondulantes que a sua precária e dependente existência busca e tem de suportar para seu tormento! Um molusco masoquista!!! Concretamente, aqui nesta reflecção ao ter inventado, para seu tempero o "destino" e o "credo" e concomitantemente, o baile mandado entre os dois!

Há muitos anos os homens eram todos diferentes e embora parecessem iguais, facilmente se distinguiam pela sua grande verosimilhança!

Hoje, são todos iguais, e, na verdade, embora pareçam diferentes, cada vez mais nos apercebemos que só as moscas é que mudam à sua volta…

Assim, no seu acantonamento obsceno ao solo "madrasto" o mexelhão humano foi produzindo e segregando, com as suas glândulas "mais dotadas", as classes sociais que tradicionalmente o haviam de lixar, espremer, ou, se preferirem, sodomizar "ad eterno" por todo o lado e por todos os cantos …

A sina do mar é malhar nos mexilhões!!! Pessoa e Camões aperceberam-se dessa relação.

Um deles disse:
“Oh, mar salgado quanto do teu sal são lágrimas – (digo eu dos mexilhões) de Portugal” …

No início da História o mexilhão humano começou, logo, a dar o flanco à classe castrense – os pré ancestrais dos consumidores de farda: militares, nobres, clérigos, etc. – que o protegiam das agressões do exterior e, hoje mesmo, sem agressões exteriores à vista, essas classes (incluindo os acionistas) continuam a dominar em todo o mundo dito civilizado… e se o mexilhão refila: Pum, pum! Dois submarinos ao fundo!

Depois apareceram, também, há muitos anos, os iluminados e à conta das “divindades" (com quem diziam falar) e da "vida eterna" (que nunca conheceram, mas que arranjavam para todos a troco de uns trocos bem trocados) mamavam do melhor por cima e por baixo, sem sombra de pecado… O mexilhão (desde que pensou que existia como marisco importante) tem uma droga preferencial que dá pelo nomo de “credoína” e nunca tantos comeram e comem à conta desse apreciado néctar que dá pelo nome de ideologia – para tratar do “corpo” e religiões para tratar do “espírito”. Este S.M.S. – Serviço Mundial de Saúde é universal como não podia deixar de ser! É, no fundo, a forma mais higiénica dos fortes e dos chicos espertos tratarem do mais fraco ou o mais tolo!

Quase na mesma altura em que apareceram estes credores (pessoas que vendem credos) o nosso mexilhão clonou-se num  outro tipo de bivalve afim, mas com a casca mais fina: O primeiro do género apareceu no Egito antigo e teve por patrono o célebre escriba acocorado, que por norma, entre outros serviços mais modestos, fazia a limpeza e lubrificação dos sinetes do faraó e restante família e comensais, fiscalizava a contabilidade dos saques – hoje conhecido pelo pomposo titulo de "contribuições e impostos. Esta classe dos acocorados evoluiu por mil e uma peripécias acrobáticas e progressivas, para os chamados homens públicos (não pudicos nem púbicos), dando origem a todas as coleções de burocratas, artistas, contabilistas, doutores, políticos e treinadores de café, etc., etc., que hoje povoam o planeta.

Como é lógico, toda esta mariscada, de que a princípio "falei", procurou e procurará, sempre, perpetuar o seu domínio sobre o ainda auto denominado "povo" que, das baralhadas que há para aí, neste momento, por causa dum pedaço de DNA mal acabado, só é possível distinguir e encontrar açaimado nas grandes superfícies e agora com os calores nas praias, e a quem se aplica, a velha sentença:

"Quando o mar bate na rocha quem se espreme é o mexilhão" e nós acrescentamos,  para que não restem dúvidas, que  não é só ele quem sente os balanços desta orgia constante das ondas do fisco, que há alguns iluminados bivalves que atingiram a fase madrepérola, procurando nas Nações Unidas e noutras montras de socorros mútuos e afins,  controlar o ímpeto das marés vivas deste tão maltratado marisco!!!

Entrámos, já uns meses, no primeiro ano da E.P.C. – Era Pós Corona – Uma nova classe de moluscos encascados está a nascer juntamente com os "netocratas", são os “caçavírus”! Preparam-se pois, para levar com mais uns vagalhões nas depauperadas cascas… e, enquanto a onda vai e vem, uma nova forma de governação começa a surgir no horizonte com uma divindade virtual, tão de agrado dos povos (adorar seres que não se vêm… os vírus não se vêm mas que existem? Existem!) e que assusta toda agente e dá pelo antisséptico nome de: CORONOCRACIA!