José Maria de Oliveira

Letras e Traços

José Maria de Oliveira

O GARANHÃO

(crónica virulenta duma tarde sonolenta de agosto no Alentejo profundo)

Só quem o viu naquele dia!

Largo e profundo, narinas tensas e erectas, olhos em sangue, semicerrados e aquele resfolgar trovejante que lhe fazia jorrar  a baba farta e espessa que lhe brincava nos beiços, como um aditivo catalisador ao anseio espermático  a ferver-lhe nas entranhas,  pronto a inundar o mundo e a reiniciar, assim, um novo capítulo do sempre eterno milagre da Criação!

A fêmea, doce e fecunda, preparara já nas suas entranhas, sem "sombra de pecado", os paramentos biológicos com que a vida a dotara e que haviam de receber aquela embaixada de amor a percorrer-lhe processionalmente, fremente e avassaladora, a antecâmara escaldante e por onde fluímos todos!

Tudo se passou, mais uma vez, numa sonolenta tarde de finais de agosto, na antiga ganadaria, algures perdida num dos muitos montes do agora bem tratado e sequioso Alentejo...

.....

Se alguém o visse, naquele dia, iria encontrá-lo mais uma vez desvairado e arquejante, olhando para o sexo, sem vida, de soslaio, como se alguma maldição lhe tivesse sido lançada – imagine-se a rogo de quem!?

Na aldeia, todos o apontavam à socapa, mas havia mais; muitos encharcavam-se, lá para o fim da tarde, com uma mistela que o taberneiro lhes impingia à guisa de vinho... de outros, dizia-se que o abade enfeitiçara as mulheres  com estranho sermões e "rezas do fim do mundo", o que é certo é que muitas se recusavam  já a cumprir "os deveres" com os  seus homens, tementes, quiçá da sida, do mafarrico mascarado de corona, se do cansaço de serem cobertas, uma vida inteira, como vacas e sempre, sempre, com aquela estranha sensação que estavam sendo agredidas por eles... por vezes, algumas choravam em silêncio. Depois, havia também, na terra,  funcionários... muitos deles a funcionar há mais de quarenta anos, naquela pasmaceira, sem horizontes que não fossem aquela imprecisa linha, ao fundo, que no rigor do verão desfocava o olhar e não fosse um ou outro estafado calendário com lindas mulheres nuas que lhes decoravam o fundo das gavetas das ressequidas  secretárias de pinho, e o jornal, dito desportivo que, depois de devorado na sanita do serviço, ainda servia para outras azáfamas.

Em casa era sempre a mesma coisa. Televisão aos berros ou celulares balbuciantes para esquecer o calor, muitos tiros, um roço permanente de corpos escaldantes e aquelas estafadas histórias de corrupção, todos os dias, a todas as horas,  como uma maldição,  de que todos falavam, dispunham e "faziam", enquanto diariamente  morria gente indefesa, virosa, e sempre sem  ninguém fazer a ponta dum corno a não ser o ódio dos beligerantes e a impotência dos circunspectos. Vergonhas!

Os albergas da Mitra continuavam vivos e recomendavam-se!...

Ah, mas as carnes... na tevê, fartas, cheirosas, sem pelos, tão lindas e limpas   que até por vezes parecia que os corpos cevados, de tanto delírio, espalhavam estranhos aromas por toda a casa e pátios de entradas deixavam, nas bocas ressequidas de tantas e tantas famílias, aquela estranha e perturbadora sensação que a "vida adiada" ainda não  tinha passado por eles... como se o que viam (virtual) fosse também vida!

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Naquela tarde, a multidão estava ululante. Largos milhares de pessoas enchiam a velha praça de terra batida, mascarado a rigor, com os focinhos tapados com coloridos “açaimos” rodeada de tapumes, onde fora improvisado à pressa, um hipotético curro, quase a desmanchar-se por si próprio, à espera da hora decisiva.

Um silêncio de morte antecedeu, por milésimos de segundo, a entrada da "fera".

Destro, enraivecido, mas não louco, trepidante mas não senil, viril até ao tutano dos  ossos, com toda a sua dignidade de macho que lhe era possível assumir naquela tarde sinistra,  o touro  foi empurrado à pressa para a arena onde fedia, há muito, um cheiro pútrido a morte, mas não a dele, que os touros morrem de pé!

Mirou  em redor a massa hilariante que não lhe dizia absolutamente nada - por isso era genuinamente  uma  besta - onde nem sequer havia desprezo, depois foi a estrafega total, a luta bárbara, aos encontrões, desigual, desleal, os ferros traiçoeiros a rasgar-lhe as carnes suadas, o confronto sem motivo a que o sujeitavam, pois não lutava por nenhuma fêmea, e aquele chão coberto de pó, sem pastos, também não era o seu, e aquele berrar de fundo que o enlouquecia, avassalador, vindo das gargantas roucas que em seu redor não paravam de gritar: MATA! MATA! MATA! MATA!!!

Esquálido e cúmplice, o presumível "lidador", mais uma vez escondia, o ferro da morte debaixo da capa onde se amortalhara a poeira suja e babada da tarde.

A luta chegava ao fim, não seria mais uma vez leal:  Cornos com cornos, ou se quiser à mão! Pois assim mesmo é que devia ser, para ser nobre, embora continuasse a faltar ainda um motivo, de frente, sem ferros espetados e já sangrado com as forças desvanecidas, como fazem alguns forcados!

Herói? Aquele gajo? – Uma merda!!!

Depois, foi o fim, ou talvez, quem sabe, o princípio do fim!

Ferido de morte o animal, arquejou, barbaramente assassinado na praça pública, mas  não sem antes ter deixado de  limpar, como por desprezo, por  segundos o falo desencabrestado que sempre exibira durante a refrega, pelas calças borradas do heroico e  famoso toureiro, que, entretanto desaparecera,  como qualquer criminoso de segunda, depois  de perpetrado o crime!

Havia, na assistência, quem se sentisse intimamente vingado, pois o desgraçado bovino, ao fim e ao cabo, sem se aperceber, arrestara  na sua morte inglória, as frustrações odiosas de muitas "vacas" mal cobertas e de muitos "touros" do nosso vasto  sequeiro lusitano e provinciano, há muito com "os ferros"  em baixo e impróprios para as "lides"!...

Finalmente, oremos para que a curto prazo seja retomado, em Portugal, o ancestral e salutar culto do "BOI APIS"! Que melhor bênção nos podia calhar, entre outras, para despedida deste milénio dito "das luzes" e agora dos vírus?!

Entretanto, do outros pontos do planeta,  o  povo continua a ser abatido às "manadas", pois talvez seja também uma "tradição" que venha de longe - sim, porque estas coisas da morte podem tornar-se tradicionais e entrar para o "folclore";  ante a passividade de quem se habituou a comer índios ao pequeno almoço,  a brincar aos polícias e ladrões e a "participar" em Guerras, via tevê!.

Qualquer dia a guerra é considerada uma tradição folclórica…

Mas não pensem que sou puritano: adoro comer um bom bife – seja de vaca ou de boi...  sou, no entanto, daqueles que defendem que a morte, qualquer morte, deve ter recato, motivo natural e dignidade q.b.!