José Maria de Oliveira

Letras e Traços

José Maria de Oliveira

A Flor Cinzenta

O pequeno insecto voou mais uma vez. No seu doce deambular ia colando nas patinhas reluzentes o pólen das mil folhas coloridas que encontrava na sua peregrinação.

De quando em vez quedava-se e saboreava docemente um pouco daquele pó dourado que só as flores mais coloridas têm. Para ele, no fundo, eram esses grãozinhos minúsculos a sua riqueza, os seus bens...

Por vezes rumava ao Sol para, deliciado, retemperar o calor a fim de evitar que o néctar das flores que transportava, solidificasse demais; outras vezes, quando o calor abrasava, temia que tudo se derretesse e mergulhava, por instantes, numa pequena gota de orvalho perdida algures numa folha esquecida nas sombras do caminho...

E assim foi que num belo dia, quando enlouquecido pela fragrância das flores do seu prado, reparou numa linda flor cinzenta que nunca tinha visto. Embevecido e trémulo, aproximou-se e apercebeu-se que aquela flor não tinha néctar, estava sequinha e triste semienrolada na sua solidão. Então, docemente, com as patinhas fervendo de amor depositou um pouco de cada grãozinho de néctar que transportava no seu bornal e que o Sol lhe oferecera.

Atrás do pólen ia também ficando o colorido das muitas flores que visitara em tempos e a pequenina flor cinzenta foi-se matizando de miríades de cores transformando-se na mais bonita flor daquele lugar enquanto o astro rei sorria…

O pequeno insecto olhou a sua obra e ziguezagueando, de novo no espaço, partiu alegremente à procura de mais flores cinzentas.

Distante, o Sol dourado da madrugada começava a iluminar o prado para mais um dia, e no meio daquele imenso mar florido uma pequenina flor sorria lançando ao céu a cintilação radiosa dum alegre arco-íris.

E tudo isto aconteceu num dia em que o teu olhar estava triste…