Insólita Viagem


Tremores
José Manuel Simões

No próximo dia 10 de Setembro vai fazer 18 anos que estava em Nova Iorque, hospedado no Roosevelt Hotel, a centenas de metros de onde horas depois aconteceria a tragédia. No fim da tarde desse mesmo dia, eu, o Luís Figueiredo Silva, então no Correio da Manhã, e o Alexandre, do Expresso, íamos para entrar no elevador de uma das torres para vermos a metrópole lá de cima e, já com o bilhete nas mãos, visivelmente arrepiado, vocifero: "desculpem, mas eu não vou. Estou a sentir-me mal, uma má vibração horrível, espero-vos aqui em baixo". "Então camarada Zé, o que é que se passa?", questiona-me o Figueiredo Silva enquanto por debaixo das mangas da camisa lhes revelo a pele de galinha, o suor frio a começar a escorrer-me pelo rosto. "Se tu não vais nós também não vamos". Como não os consegui demover sugeri que apanhássemos o metro até ao outro lado do rio Hudson com o objectivo de tirarmos umas fotografias com as torres ao fundo. Garante-me o Luís que guarda religiosamente essa imagem onde por baixo de nós três e das torres está inscrito: 10 de Setembro de 2001. Obviamente que não vislumbrei a tragédia que se iria seguir, mas posso garantir-vos que passei o dia inteiro com um intenso temor de que algo de muito grave estava para acontecer. Nessa manhã de 10 do 9, antes de entrevistar os Incubus — razão pela qual estávamos em Nova Yorque — passeei pela China Town e, por entre o frenesim da metrópole, sirenes de ambulâncias, mendigos a dormir no chão e chineses reafoitos, parei um minuto e disse para mim mesmo: “esta cidade está à beira de um colapso”. Mais à frente entrei numa loja de roupa usada e - fico hoje pasmado com o tamanho da coincidência - comprei um casaco dos bombeiros locais, azul e com uma fita amarela florescente na manga, que nunca usei e acabei por dar ao Igor Gandra, director do Teatro Ferro do Porto, talvez ele o fosse usar numa das suas performances. Ao início da noite, no hotel onde estava hospedado – e isto não é certamente coincidência - o sistema informático avariou, deixando os recepcionistas à beira de um ataque de nervos. Paga a fatura de valor aproximado, a caminho do aeroporto John F Kennedy, rebentou uma trovoada impressionante, horas seguidas de relâmpagos, chuvas torrenciais. Ainda entrámos no avião mas demorámos umas cinco horas a descolar. Li os jornais de ponta a ponta e às tantas, nos resultados e classificações da Regional de Coimbra, minha cidade natal, lia-se: Ala Arriba 0 - Febres 3. Repeti alto e o avião irrompeu numa ansiosa gargalhada geral. Ao anúncio de partida, comecei a bater palmas no que sou seguido pelos passageiros. Quando chegámos a Portugal a tragédia já tinha acontecido. Liga-me o Luís horas depois: "Tudo isto me parece um sonho. Ainda ontem estavámos para entrar lá, tu todo arrepiado, nervoso, a suar. Como é possível teres sentido esta desgraça?”

Hoje, aqui sentado no sofá da minha casa em Zhuhai, na China, lembro aquele episódio e revejo mentalmente as imagens daquela cidade hiper-real, mítica, frenética, a cidade que muitos consideram a capital do Mundo, vivendo numa vertiginosa irrealidade feita de esquecimento, errância e blasfémia. De onde quer que se chegue ali pela primeira vez, tem-se a sensação de que, de súbito, nos tornamos crianças, pasmadas e atentas aos enigmas que vão surgindo ao redor. O jogo pode ser atraente ou perturbador. Contrariamente a outras cidades idealizadas com deslumbre, Nova Iorque não dececiona, mas pode assustar.