Memórias do Futuro


Muito obrigado, Roberto Leal!
Fábio d'Abadia de Sousa

Aos seis anos de idade, em plena década de 70 do século passado, numa cidade do interior do Centro-Oeste brasileiro, eu aprendi que Lisboa, a capital portuguesa, era uma cidade “cheia de encantos e belezas”. Quem me ensinou isso foi o cantor Roberto Leal, com a canção Lisboa antiga (composição de autoria de José Galhardo, Amadeu do Vale e Raúl Portela).

 Quarenta e quatro anos depois eu pude comprovar, pessoalmente, as observações de Roberto Leal sobre Lisboa. Foi com Roberto também que aprendi muitas outras coisas sobre Portugal, como por exemplo, que o sotaque dos nativos portugueses causou em mim, nas primeiras vezes que o ouvi, a impressão de que se trata de uma língua muito mais bonita do que a que se fala no Brasil, e que parece que não é falada, mas cantada!

E quando ouvia a Língua Portuguesa, cantada na voz de Roberto Leal, parecia mais linda ainda. Linda e alegre! Como o meu primeiro contacto com a canção Lisboa antiga foi através de Roberto Leal, que era um cantor muito popular no Brasil, tive uma impressão diferente da que teria se tivesse conhecido a mesma canção na versão da genial Amália Rodrigues, que é um fado - e que só vim tomar conhecimento muitos anos mais tarde.  O ritmo dançante de Roberto fez com que a primeira de impressão que tive de Lisboa foi a de uma cidade alegre, o que pude comprovar anos depois. É claro que a capital portuguesa também se apresenta, em certos lugares, vestida num forte figurino de fado. Entre as várias capitais europeias que conheci, como Londres, Paris, Madrid e Roma, Lisboa me pareceu a mais alegre. 

Nunca consegui ver Roberto Leal como estrangeiro, pois cresci ouvindo e assistindo ao seu trabalho na televisão e rádio brasileiros, assim como acompanhava a carreira de Roberto Carlos. O estilo dançante e sorridente de Roberto Leal combina muito com a alegria brasileira, principalmente das crianças, como eu, aos seis anos de idade, que tentava imitar um pouco das belas coreografias de Roberto. “Ai, bate o pé\ bate o pé\bate o pé\Ai, bate o pé, faça assim como ...”.

Senti muito a partida de Roberto Leal. Ele faz parte de um período que foi, para mim, de descobrimentos do mundo. Com sua voz e suas danças, eu conheci muito de Portugal, um lugar que parecia, para mim, muito, muito distante. Mas não era! O cantor me guiava pela “Lisboa de ouro e de prata”, cujo “semblante se retrata no cristalino azul do Tejo”. O Portugal de Roberto era tão encantador quanto o Portugal que conheci há dois anos. E enquanto caminhava pelas ladeiras da cidade que ressurgiu das cinzas, já aos meus 49 anos, o canto de Roberto Leal fazia renascer o menino de seis anos e o artista me guiava: “olhai, senhores, esta Lisboa de outras eras...”

Parece que Roberto era, no fundo, um grande elo que unia Brasil e Portugal. Sem pretensão nenhuma de ser um embaixador, ele mostrava, através de sua arte, que no fundo não existem fronteiras entre o Brasil e Portugal. Aliás, para a arte não existe fronteira nenhuma. Nem entre um menino e um homem. E nem mesmo entre a vida e a morte. A voz de Roberto continuará ecoando pelas eternidades! Muito obrigado, Roberto! Muito obrigado!

Socorro, socorro, o meu país está em chamas!
Fábio d'Abadia de Sousa

Geralmente, só percebemos o real valor das coisas quando as perdemos. Eu nunca imaginei que o ar fresco poderia faltar no planeta! Mas ele começa a faltar para mim! Pelo menos é assim que me sinto no meu país! Neste país, que é um dos que apresentam algumas das mais exuberantes florestas da Terra, o que se vê no horizonte é aproximação de uma grande onda de destruição. Implacável e avassalador, o tsunami de fogo, poeira, fumaça, tiros (e muito ódio) se aproxima! Eu tento fugir! Mas tropeço e caio! Tento ignorar, como muitos fazem - inclusive o Supremo Tribunal Federal, a Câmara dos Deputados e o Senado - mas não consigo!

São tantas agressões diárias e recorrentes a grupos minoritários, como os indígenas, gays, idosos, jornalistas, artistas, estudantes, professores, negros, mulheres, sobreviventes das torturas da ditadura militar de 1964, etc. Como fingir que isso não está acontecendo? Impossível! Principalmente quando o oxigênio começa a faltar no ar. Todo vez que lembro que mais de 50 milhões de eleitores votaram nesta pessoa que lidera a gigantesca onda de destruição, o ar me falta completamente. Quase desmaio! Essa pessoa jamais escondeu sua ideologia nazi-facista. Então, há mais de 50 milhões de cúmplices desta massiva onda de ódio que toma conta do meu país. Esta constatação é a que mais entope os meus pulmões com o gás carbônico da floresta em chamas.

Enquanto a fauna e flora riquíssimas viram cinza, eu fico imaginando até quando a cumplicidade desta multidão rancorosa vai continuar. Até a última árvore das terras dos indígenas queimar? Até o último jovem negro ser assassinado? Até o último homossexual ser apedrejado em praça pública pela enorme horda de evangélicos (com a bíblia debaixo do braço) que apóia o “mito”? Até o último jornalista ser censurado? Até o último artista ser agredido no palco? Até o último professor ser afrontado em sala de aula pelos defensores da “escola sem partido”? Até o último opositor ser preso? Até o último crítico ser calado nas redes sociais pelos linchadores virtuais?

A estratégia dos militantes do Partido do Ódio é serem extremamente agressivos com qualquer um que os contrarie ou ameace (real ou imaginariamente), mesmo que seja apenas uma inofensiva professora, como foi o caso da primeira dama da França Brigitte Macron, esposa do presidente Francês Emmanuel Macron, um dos poucos líderes estrangeiros a chamar a atenção para a completa falta de preparo daquele que assumiu a presidência do meu país. Aliás, polidez e elegância não fazem parte do vocabulário e do comportamento dos bárbaros à frente do governo do meu país. Mil desculpas professora Brigitte Macron! Muito obrigado Emmanuel Macron!

Enquanto isso, a floresta queima! Os meus pulmões ardem e a minha respiração falha. Mas, mesmo sufocado, vou lutar e me posicionar contra o Partido do Ódio! Enquanto tiver força, vou enfrentar! Mesmo que me matem, o que importa para mim é que não fui omisso diante dos nazi-fascistas que tomaram conta do meu país.

No meu país, a exuberante floresta arde em chamas e eu mal consigo respirar...

* Foto: Ramon Aquim in https://amazoniareal.com.br


Saudades de Portugal e a alegria de assistir a uma telenovela portuguesa na televisão aberta brasileira
Fábio d'Abadia de Sousa

A televisão aberta brasileira, mais especificamente a Band, está a exibir, desde 15 de julho de 2019, em horário nobre, a telenovela portuguesa Ouro Verde, de autoria de Maria João Costa e direção de Hugo de Sousa. Esta telenovela é um marco, pois parece iniciar uma fase em que o Brasil, que há anos tem suas telenovelas exibidas na TV portuguesa, agora tem a oportunidade de assistir a uma novela feita em Portugal.

Estrelada pelos atores Diogo Morgado, Joana de Verona e Ana Sofia Martins, Ouro Verde também conta em seu elenco com atores brasileiros, como a maravilhosa Zezé Motta, entre outros. Lisboa e Rio de Janeiro e uma imensa fazenda de criação de gado na região amazônica são os principiais cenários da trama envolvente e que é recheada com os elementos clássicos do folhetim capazes de prender a atenção dos telespectadores.

Infelizmente, a telenovela portuguesa é dublada (apesar da opção de ser ouvir o som original). Esta situação tira do grande público brasileiro a oportunidade de conviver com o maravilhoso sotaque da língua portuguesa falado em Portugal. Em Xica de Silva, novela de Walcyr Carrasco, exibida originalmente na extinta TV Manchete, em 1996 e que foi um dos maiores sucessos da TV brasileira, metade do elenco tinha o sotaque português e isso não afetou a audiência da telenovela.

De qualquer forma, a exibição de Ouro Verde na TV brasileira é um fato que deve ser comemorado, pois, de alguma forma é uma maneira sutil de aproximação de parte da audiência brasileira do país que “criou” o Brasil. Uso aqui a palavra “criou”, (em vez dos termos usuais dos historiadores, como “colonizou”, “descobriu”, “conquistou”, “explorou”, “escravizou”, “dizimou”, etc), pois sou um brasileiro que já viveu em Portugal e que se apaixonou profundamente pelo povo português e que, talvez por esta paixão tão forte, consegue ver no povo português principalmente a figura do desbravador de indomáveis oceanos e terras longínquas que se acreditavam indomáveis.

Sei que a colonização teve momentos de extremismos de violência, principalmente contra os nativos brasileiros e os escravos dilapidados da Mãe África. Nunca negarei isso! Mas depois de morar em Portugal, não consigo mais não relativizar a relação Brasil-Portugal. Quem expulsou Dom Pedro II do Brasil, na minha opinião, a partir da leitura de autores  de clássicos sobre o assunto, foi uma elite que queria tomar o poder com objetivo de se locupletar e não de distribuir a enorme riqueza do Brasil com os brasileiros! Prova disso é que o país é um dos 10 mais opulentos do mundo, mas um dos piores em termos de distribuição de renda, e lá se foram 130 anos desde a partida de Dom Pedro II, na minha visão, o maior governante que o Brasil já teve, depois de Luiz Inácio Lula da Silva. Como não puderam expulsar Lula, prenderam-no injustamente!

Depois de morar em Portugal, passei a compreender também o lado dos homens e mulheres portugueses, movidos por uma das condições humanas mais avassaladoras, o desejo de descobrir o que está além, talvez para desafiar a morte e tornar-se parte daquilo que assusta e fascina. É esta característica humana, forjada lá no nosso DNA, que um dia vai nos levar para outros pontos do oceano sem fim, que é o restante do Universo. E, do Alenterra, quem não lembrar do feito inicial dos portugueses  estará sendo injusto e tendencioso. Os portugueses e portuguesas não tinha escolha a não ser jogarem-se no mar, pois covardia nunca combinou com este povo, que também traz em sua linhagem o sangue dos fenícios, dos árabes  e dos romanos.    

Sou um brasileiro de 51 anos, professor do curso de Jornalismo na Universidade Federal do Tocantins e que morou em Portugal parte do ano de 2018, para a realização de um curso de pós-doutoramento na excelente Universidade do Algarve, em Faro. Fui tratado com tanto carinho e respeito -espontâneos e autênticos - pelos portugueses, que jamais tive a sensação de estar num país estrangeiro, mas que estava de volta para casa, uma casa que eu não conhecia, mas que parecia reconhecer que nas minhas veias corre um pouco do sangue dos desbravadores de séculos atrás. Nos olhares acolhedores e no sotaque doce e que, às vezes, parece estar cantando uma canção de ninar, eu sempre me senti acolhido. Cheguei a comentar com os meus orientadores, os maravilhosos professores doutores Carolina Sousa e Francisco Gil, que eu tive, muitas vezes, a sensação de já conhecê-los. Os dois formam para mim uma síntese do povo português que conheci em várias regiões do País: pessoas reservadas, simples, esforçadas (pois trabalham muito), acolhedores e carinhosos com a família e até com estranhos (como foram comigo!). Exatamente a família que gostaria de ter!

Antes de morar em Portugal, eu sempre fazia questão de me definir fisicamente apenas como um negro-índio (e com muito orgulho!), apesar de que nos meus traços físicos predominam características mais acentuadas do elemento africano. Mas a ciência já comprovou que, queiramos ou não, nós, brasileiros típicos, (antes das grandes imigrações italiana, alemã e japonesa e de outros povos afetadas pelas duas grandes guerras mundiais do século XX), temos, quase todos, o sangue formado pela junção dos DNAs de portugueses, indígenas e africanos.

Depois da minha estada em Portugal, eu faço questão de reconhecer que tenho também o sangue português. Gosto de brincar comigo mesmo que agora sou completo, pois herdei do negro a resiliência a situações difíceis; do indígena, me veio uma ligação profunda com a Terra e a Natureza; e, do português, a capacidade de sonhar, principalmente em desbravar mundos distantes nos quais a felicidade parece se esconder. Mas, com os portugueses aprendi também que o Brasil tem um vínculo eterno com Portugal. Um vínculo que vem do sangue de nossos antepassados comuns e que elites egoístas, gananciosas e que só pensam em poder não são capazes de dissolver!

Em Portugal, os portugueses têm enorme respeito pelo Brasil e pelos brasileiros e adoram ressaltar a nossa grandiosidade (que nem sempre nós, brasileiros, prestamos atenção). Mas, eu gosto, sempre que posso, de ressaltar que grandes são os portugueses, que um dia deixaram suas terras, se jogaram no oceano e realizaram feitos incríveis, como a “criação” do Brasil!

É por isso que comemoro a chegada ao Brasil da telenovela Ouro Verde! Espero que venham muitas outras novelas portuguesas (sem dublagem, pelo amor de Deus!) para que possamos, nós, brasileiros conhecer um pouquinho melhor este país que nos “criou”! Amo absolutamente o povo português! Obrigado por terem me tratado como se eu fosse especial!


O que teria acontecido com Bette Davis?
Fábio d'Abadia de Sousa

Uma das vaidades humanas mais intrigantes é a de desejar não ser esquecido após a morte. E não é que as novas tecnologias da informação têm tornado um pouco mais real esta aspiração! Indiferentes se estamos vivos ou não, nossas poses e trejeitos, ostentados nos nossos selfies e vídeos, permanecem nas redes sociais. Numa eventual situação de falecimento, por exemplo, caso um familiar do morto não solicite formalmente a retirada das imagens das redes, elas lá continuam, numa sobrevivência simbólica, através de suas imagens.

Acreditamos que essa “sobrevida simbólica” começou desde que os franceses anunciaram, em1839, a invenção da fotografia, chamada, então, de daguerreótipo, numa referência a Louis Jaques Mandé Daguerre (1787-1851), o francês que aperfeiçoou o processo de captação, pela luz, de cenas da realidade visível, iniciado por vários inventores ao redor do mundo, mas principalmente por Joseph Nicéphore Nièpce (1765-1833).

Parece que, com as redes sociais e a suposta “eternidade” das imagens, a morte não apaga mais totalmente aquilo que fomos. Pelo menos na rede é possível a nossa continuidade! E isso não é pouco, já que os contatos via plataformas digitais se intensificam cada vez mais e, em muitos casos, já substituem as relações reais. Caso tenhamos saudades de alguém falecido que amávamos (e/ou continuamos a amar), uma rápida visita ao seu perfil no Facebook ou no Instagram talvez amenize um pouco a dor da separação. Será?

De qualquer forma, as redes sociais - que têm modificado o comportamento humano em quase todos os ramos - parece que também têm influenciado a nossa forma de lidar com a morte. Percebe-se, por exemplo, que aumentamos o nosso culto aos mortos que um dia foram celebridades no cinema, televisão, música, artes plásticas, esportes, etc. Isso ocorre talvez em virtude da disponibilidade de acesso quase ilimitado a informações visuais dessas pessoas, antes restritas a pequenos grupos da mídia.

Nas redes sociais, são milhares de páginas e canais dedicados a exaltar, diariamente, com fotografias e vídeos, pessoas como Elvis Presley, Marilyn Monroe, Vivien Leigh, Fred Astaire, Elisabeth Taylor, John Lennon, Frank Sinatra Ayrton Senna, Michel Jackson, Amy Winehouse, Frida Kahlo, etc. Esta última é detentora de perfis feitos por pessoas das mais variadas partes do mundo. Surpreendentemente, Frida (1907-1054), que, em vida, dedicou-se mais às artes plásticas, é cultuada, principalmente por jovens, talvez pela sua personalidade forte e insubordinada e, é claro, pela sua original elegância na forma de se apresentar em público, com roupas e acessórios de moda feitos por ela mesma, até hoje considerados chiques e de extremo bom gosto. Considerada uma das pioneiras do feminismo, a artista mexicana também inspira a juventude por ter sido uma pessoa que não se deixou abalar pelos enormes percalços que enfrentou em vida depois de ter sido atropelada por um veículo pesado.

Uma das estrelas do cinema já falecida e com mais seguidores no Instagram parece que é a norte-americana Bette Davis (1908-1989). Considerada uma das melhores atrizes de todos os tempos, a artista é referência principalmente por sua atuação como mulher malvada e de olhos incrivelmente lindos e sedutores. Em muitas de suas entrevistas, cujos trechos são compartilhados diariamente nas redes sociais, Bette Davis fazia questão de ressaltar que o exemplo de beleza feminina invejável no cinema não era ela, mas Audrey Hepburn (1929-1993). Os milhares de criadores de perfis e de seguidores de Audrey Hepburn concordam absolutamente com Betty Davis. O culto a Audrey a coloca num patamar superior a qualquer estrela do cinema que já viveu, acima, inclusive, de Marilyn Monroe (1926-1962), outra campeã de acessos nas redes sociais.

Os adoradores dessas celebridades não as tratam como pessoas que já faleceram, mas como gente absolutamente viva. Mas será que não estão vivas mesmo? As redes sociais potencializaram para outras celebridades aquele mito que só Elvis Presley (1935-1977) parecia ter conquistado: o de que está vivo e recluso em algum lugar e que, a qualquer momento que achar conveniente, poder aparecer.

Será que esta situação paradoxal de aparente indiferença se uma celebridade está morta ou viva pode chegar também a nós, mortais comuns? Talvez sim! Quem um dia foi fotografado, e esta imagem está acessível a alguém, não morre completamente, pois sua lembrança continua em outras pessoas. De alguma forma, a fotografia nos trouxe um pouco de eternidade, quer os deuses gostem ou não! E as redes sociais potencializaram isso! Então, assim como Bette Davis, Frida Kahlo, Audrey Hepburn e Elvis Presley, parece que conquistamos o direito de não morrermos completamente.


O que somos senão uma coleção de memórias?
Fábio d'Abadia de Sousa

“Se você pudesse, você abriria mão das suas memórias mais tristes e desagradáveis?” Ao ouvir esta pergunta, feita a mim, por um amigo, no final do ano passado, sem pensar muito, eu dei uma resposta afirmativa. Mas, depois, comecei a refletir melhor e percebi o quanto memória é assunto sério e complexo.

A chegada aos 50 anos, em 2018, foi, para mim, um momento divisor de águas. Por mais que tentasse me esconder de Chronos, constatei, com mais atenção, que ele (implacavelmente) esteve sempre ao meu lado e começou a ressaltar em mim os traços característicos desta idade: cabelos brancos, calvície, rugas, pele flácida, etc.

Mas nada disso me assustou tanto quanto uma crise de perda de memória. Passei a esquecer coisas simples do dia a dia, mas fundamentais para a sobrevivência de uma pessoa que, como eu, optou por morar só (optei mesmo: antes só que mal acompanhado), como, por exemplo, desligar o gás ou trancar a porta de casa antes de sair ou dormir. Passei a perder cartões de banco e smartphones quase todas as semanas. Esquecia até de comer!

Certo dia, quando tirava a poeira de alguns móveis da sala incrivelmente bagunçada, encontrei, debaixo de uma panela de barro que serve como artefato de decoração, uma quantia de R$ 500,00, o que corresponde a mais ou menos a cem euros. Para um brasileiro, é uma quantia considerável (é a metade de um salário mínimo, a remuneração de quase metade da população brasileira economicamente ativa). As duas únicas possibilidades de esse dinheiro ter sido encontrado na minha casa eram: ou eu o coloquei lá ou o Papai Noel me visitou. Eu sempre acreditei em milagres e magias, e situações vividas ao longo de minha existência comprovam que, para mim, eles existem! Mas, no caso específico do dinheiro encontrado, sou mais tentado a pensar que eu mesmo saquei a referida quantia e a guardei, mas simplesmente esqueci que fiz isso.

Esta situação me deixou muito alarmado, principalmente depois que uma médica me advertiu que talvez pudesse ser o início de um caso de demência. “Mas aos 50 anos?” “Sim, há casos de Mal de Alzheimer até mesmo antes desta idade”, respondeu a neurologista. Tive que me submeter a vários exames para comprovar ou não a suspeita. Enquanto os resultados não saíam, passei a imaginar as conseqüências assustadoras da falta de memória. Foram 15 longos dias de apreensão. O mais tenebroso para mim seria depender de outras pessoas. Logo eu, tão orgulhoso de ser dependente apenas de Deus e de mim mesmo!

Acredito que a resposta para seja lá o que somos, fomos ou seremos está na nossa memória, e perdê-la ainda em vida é perder a nós mesmos. Henri Bergson, na obra Matéria e memória (Martins Fontes, 1999, p. 88-90) aponta que temos dois tipos de memória: uma que imagina e outra que repete “A primeira registraria, sob forma de imagens-lembranças, todos os acontecimentos de nossa vida cotidiana à medida que se desenrolam...”. O segundo tipo de memória é a que, ao invés de representar o nosso passado, ela o encena. “Para evocar o passado em forma de imagem, é preciso poder abstrair-se da ação presente, é preciso saber dar valor ao inútil, é preciso querer sonhar”.

Pelo o que eu entendi da minha situação de falta de memória, e que pareceu comprometida foi a do primeiro caso detalhado por Bergson, a que registra acontecimentos rotineiros. Tal situação teria ocorrido, conforme constatei posteriormente, em virtude da necessidade de produção de trabalhos acadêmicos em tempo muito exíguo, já que sou um procrastinador e que, geralmente, deixo quase tudo para a última hora. Quando mais jovem e sob pressão, eu sempre conseguia produzir muito em pouco tempo, mas agora não. Outra conseqüência da chegada ao meio século de vida!

Quando, finalmente, recebi os resultados dos exames neurológicos, respirei aliviado. Foi descartada, pelo menos por enquanto, qualquer possibilidade de Mal de Alzheimer. Passei a tomar alguns remédios, conforme prescrição médica, e percebo que a memória já está menos falha. Tal situação foi importante para que eu refletisse melhor sobre as dificuldades que enfrentam as famílias com pessoas com Alzheimer. Passei também a prestar mais atenção sobre o quanto somos definidos pelas memórias acumuladas ao longo da vida. Boas ou ruins, somos uma coleção de lembranças acumuladas na nossa existência.

Não, eu não abriria mão de minhas memórias de situações difíceis que atravessei. Depois de refletir muito sobre o assunto, conclui que o melhor que se pode fazer a respeito é lutar para que os eventuais traumas sejam superados e que, assim como as cicatrizes físicas, elas se tornem apenas lembranças de que superamos momentos difíceis e que ficamos mais fortes e sábios por causa disso.