Musique-se


Quando a boa música aterra no Algarve
Paulo Cunha

Ver as principais salas algarvias repletas de público vindo de várias localidades para ouver os seus músicos nacionais e internacionais de eleição é um sinal mais do que suficiente para que os promotores e produtores musicais comecem a incluir, todo o ano, o Algarve na programação das suas agendas. Os residentes e visitantes algarvios há muito tempo que dão sinais de serem um público interessado, presente e participativo. Os vários concertos lotados comprovam-no!

No dia 10 de julho de 2019, o Teatro das Figuras, em Faro, testemunhou, uma vez mais, a apetência e o acolhimento de um público fiel e interessado em artistas de comprovada relevância e excelência criativa, técnica e interpretativa. Depois do ano passado ter efetuado três concertos no (costumeiro) Coliseu dos Recreios, em Lisboa, desta feita o clã Veloso aterrou em Faro para presentear e deleitar todos os fãs e admiradores que, num ápice, esgotaram os ingressos para o concerto realizado na maior sala de espetáculos da capital algarvia.

Segundo Caetano Veloso, não foi fácil juntar os seus três filhos, Zeca, Moreno e Tom, para tocarem e cantarem consigo ao vivo. Depois de convencer Zeca (o único dos três que inicialmente estava mais reticente), o cantor brasileiro levou quase três anos para conciliar as agendas dos quatro. Por não passar tanto tempo com os filhos desde a altura em que estes eram pequenos, Caetano Veloso considerou o concerto de quase duas horas como uma oração a um tempo fecundo e uma homenagem à reprodução.

Permitindo, finalmente, a reunião de um pai com os seus três filhos, num palco onde todos os momentos foram impregnados de afetos, cumplicidades, risos, danças, inconfidências e criatividade, foi possível partilhar, conhecer e assimilar histórias da música e da vida desta genial família brasileira.

Com a participação do deliciado, encantado e participativo público presente, o jovem homem velho, patriarca de 76 anos, recordou e homenageou a sua mãe Claudionor Viana Teles Veloso (Dona Canô), interpretando o tema Ofertório, música e letra que compôs para a celebração dos 90 anos de quem, em Santo Amaro da Purificação, no interior da Baía, o colocou no nosso mundo.

Perto das 23h30, eu e o meu filho Miguel saímos deste ofertório musical num estado de autêntico encantamento musical e espiritual. Tudo se conjugou para que tal tivesse acontecido: a sala esteve cheia com um público atento, respeitador e participativo; o cenário, sóbrio e atraente, foi servido e complementado por uma muito profissional e eficaz luminotecnia e sonoplastia; os músicos revelaram um grande profissionalismo e mestria interpretativa aliadas à naturalidade, empatia e comportamentos afetuosos próprios duma família que se quer e se gosta.

Quando alguém, depois do concerto, me disse que não tinha ido porque o preço dos bilhetes era demasiado caro, respondi-lhe apenas que, além do que os algarvios pouparam ao não terem que se deslocar até à capital, o preço foi similar ao de uma consulta médica ou psicológica e o efeito, provavelmente, foi o mesmo.

Não posso terminar esta minha singela homenagem à música brasileira, através da apreciação à música da família Veloso, sem recordar um ato revelador da importância que a harmonia, o ritmo, a melodia e a palavra vindas do outro lado do Oceano Atlântico têm para o mundo. Muito me sensibilizou o facto do meu amigo Francisco Gil, tendo ido de férias ao Brasil, ter-se deslocado propositadamente à casa da Dona Canô (na altura ainda viva), unicamente para lhe agradecer ter dado ao mundo tão grandes filhos (Caetano Veloso e Maria Bethânia). Não lhe abriu a porta, pois, segundo a vizinha, a mesma estaria na casa de uma das filhas. Mas o recado ficou dado! É inquestionável: o Brasil existe e sempre existirá na música que há em nós.


Crónica sobre um concerto a que não assisti
Paulo Cunha

Tendo a Universidade do Algarve (UAlg) completado quarenta anos de existência, incluiu na programação das suas atividades a realização, no dia 7 de junho de 2019, do Concerto Comemorativo do 40º Aniversário da Universidade do Algarve. Contando com a participação da Orquestra Clássica do Sul e do estreante Coro da Orquestra Clássica do Sul, o Grande Auditório do Campus de Gambelas foi pequeno para o vasto público que, nesse dia, lá acorreu.

Para além do simbolismo da data que se pretendia festejar, a mesma iria constituir um marco histórico através da estreia pública de um novo coro sedeado na capital algarvia. Sendo o mesmo composto por muitos algarvios que, em comum, têm o gosto pela música coral, muito naturalmente, tenho com alguns deles uma relação afetiva construída, cimentada e solidificada ao longo do tempo.

Logo que soube do evento, marquei-o na minha agenda como imperdível, para que a minha presença efetiva fosse mais um motivo de apoio e de alento para todos os elementos do novel coro. Sabendo que esta era uma estreia muito aguardada, devido ao facto de muitos dos coralistas integrarem coros da região, e os outros coralistas, por nunca terem cantado num coro, veriam nela a sua “prova de fogo”, cedo percebi que o concerto (gratuito) iria esgotar a lotação da sala. Bastava que, para além do público ligado à UAlg, lá fossem os familiares, amigos e colegas dos coralistas.

Mais do que a música, seria a atração pela novidade o principal tónico para que muitos farenses se deslocassem ao Grande Auditório do Campus de Gambelas. Também eu, antigo professor, diretor coral, colega e amigo de alguns coralistas, não quis deixar de lá estar para, através das palavras, poder aqui expressar o que vi, ouvi e frui.

Quis o destino que, por motivos familiares, não tivesse podido sair de casa, pelo menos, uma meia-hora antes da hora marcada. Ora não sendo eu uma individualidade com acesso garantido aos costumeiros convites, ou chegava a tempo da abertura da porta do auditório ou arriscava-me a não entrar. Bem dito, bem feito: quando lá cheguei, deparei-me com algumas pessoas paradas à entrada. Figuras que, tal como eu, tentavam que a diligente e intransigente porteira lhes facultasse a entrada para, assim, poderem juntar-se a uma parte do público que já ocupava um bocado da escada.

Educadamente, como é meu apanágio, solicitei à senhora com o poder de me deixar entrar (ou não!) que me permitisse entrar e assim sentar-me, partilhando com outros um bocado de chão. Perentória e sobranceira exerceu o seu pequeno/grande poder, negando-me a pretensão. Como não estou habituado a mendigar seja o que for, dei meia-volta e às 21h30, hora do início do concerto, já estava dentro do meu automóvel, preparado para regressar a casa. Não lhe critiquei a atitude, mas sim a forma como expressou a sua autoridade!

Como seria de esperar, no dia seguinte, muita gente, através de mensagens nas redes sociais e no telemóvel, quis saber qual foi a minha opinião sobre a sua participação no concerto, à qual, obviamente, respondi que não iria fazê-lo tomando apenas como base pequenos excertos de vídeo partilhados nas redes sociais.

Mais do que eles, coralistas e diretor coral, lamento não poder aqui ter escrito um artigo sobre um concerto que, por certo, constituiu um marco no seu percurso de vida e uma data histórica no panorama musical algarvio. Não tendo conseguido ouvi-los cantar, contaram-me, posteriormente, a alegria e a satisfação que sentiram ao cantar em grupo. Por eles, pela música e pelo Algarve fiquei feliz!

07.2019


O Algarve Musical está bem e recomenda-se!
Paulo Cunha

Na qualidade de agente cultural, músico, professor de música e, principalmente, enquanto apreciador e consumidor de música, é com grande orgulho, prazer e satisfação que aqui registo, constato e convosco partilho a evolução que observei e vivenciei no panorama musical algarvio ao longo do último meio século.

Tendo sido surpreendido pela revolução dos cravos com apenas dez anos, ainda consegui, principalmente através da minha família, aperceber-me da parca oferta nas áreas da formação musical de base e genérica e na produção, criação e realização musicais registadas no Algarve num período em que também a música era condicionada pelos imutáveis e superiores interesses do Estado Novo.

Tomando como referência - e até ponto de partida - a data de 25 de abril de 1974, enquanto espetador e ator atento à praxis musical algarvia, posso hoje afirmar que, fruto de determinadas conjunturas económico/financeiras e políticas culturais, também na área cultural a democracia (enquanto escolha das maiorias) passou a ser a mola impulsionadora da maioria das decisões culturais até hoje tomadas.

Só quem anda muito desatento ou tem fraca memória é que não se recordará de um tempo em que o Algarve musical era pobre, acanhado, subaproveitado, esquecido e menosprezado. Em cerca de cinquenta anos passámos de uma província que só era relembrada e merecia atenção nos meses de verão para uma região que durante todo o ano já consta na agenda musical de Portugal e até noutras internacionais.

Fruto duma (ainda que tímida e insuficiente) descentralização cultural e duma aposta e investimento na educação e nas produções musicais por parte de alguns políticos e decisores visionários, criativos e empreendedores, muito tem vindo a mudar para melhor no espetro musical algarvio. Face às condições que, nas últimas décadas, têm sido dadas aos artífices e interventores musicais algarvios, podemos hoje constatar que a região algarvia, vista e assumida enquanto laboratório musical, está bem e recomenda-se!

Muito me apraz registar que os nossos descendentes têm hoje uma oferta cultural (onde a música tem uma considerável quota parte) que é motivo de satisfação e de regozijo. É hoje possível ter acesso a uma educação especializada, profissional e genérica nos vários estabelecimentos de ensino público, associativo, cooperativo e privado que, ao longo das últimas décadas, se disseminaram pelo barlavento e sotavento algarvios.

Vêm hoje à região algarvia músicos de várias proveniências gravar e produzir os seus discos, tal a qualidade dos estúdios de gravação, dos seus componentes técnicos e, principalmente, dos técnicos e engenheiros de som que neles trabalham. Basta ouvir o resultado e, através dos sentidos, fruir e apreciar a qualidade dos nossos músicos e intérpretes para intuir que, em termos de criação/execução/interpretação musicais estamos ao melhor nível do que se produz em Portugal.

Temos (algarvios), hoje, uma programação musical distribuída por todos os meses do ano, que nos permite, quase todos os dias, ter um ou mais concertos a acontecer nas várias localidades do barrocal ao litoral algarvio. Basta estarmos atentos e assim querermos para encontrar vários tipos de manifestações musicais a acontecer periodicamente nas programações semestrais das múltiplas salas e equipamentos culturais ao dispor, nos eventos de vária índole, nos festivais, nas feiras, nos encontros, nos congressos, etc. Todas elas, eficaz e profissionalmente, conduzidas por técnicos de som e de luz algarvios ou residentes no algarve.

A Música, uma vertente artística e cultural que, para além do sol e mar, está, objetiva e consistentemente, a colocar o Algarve na memória de muitos que o visitam… e nós agradecemos!

06.2019