Musique-se


Para quando o grande “Festival de Música do Algarve”?
Paulo Cunha

Não sendo um grande fã dos apelidados festivais de verão, acompanho com alguma atenção este fenómeno que, tal como noutros países, tem vindo a crescer e a consolidar-se em Portugal, gerando enormes receitas e servindo de âncora para a economia sustentada pela indústria, comércio e turismo. Como muitos de vós, valorizo a música em toda a sua plenitude e por isso tenho alguma dificuldade em vê-la tratada com outros propósitos que não sejam os que a tornaram a nobre arte. Daí algumas reservas em relação a “Festas e vais”… mas isso são outros “quinhentos”!

Sabendo que os festivais em Portugal são uma aposta relativamente barata de entretenimento, com grande grau de satisfação e consistindo numa boa solução de férias em tempos de crise, é natural que as empresas ligadas à produção de eventos musicais procurem patrocinadores privados e institucionais que caucionem a contratação das “estrelas” nacionais e internacionais que garantirão o sucesso dos eventos programados.

Temos, dizem os agentes, um mercado solidificado e rentável que já pertence ao circuito mundial de festivais. Sendo atrativo, pelos preços baixos e pelo clima, ao crescente público estrangeiro que nos visita, em Portugal o número de concertos e os lucros daí resultantes têm crescido consistentemente ao longo da última década, acompanhando assim a tendência mundial.

"Em alturas de crise, as pessoas querem escapar, querem divertir-se, e um festival oferece essa possibilidade (…) Os festivais são em maior número, mas diversificaram-se, o que permite chegar a vários públicos", refere um promotor/produtor, atribuindo a esses fatores a história do sucesso dos festivais em Portugal.

Com os músicos mais disponíveis para digressões devido à quebra acentuada na venda de discos, e com o público habituado à experiência do universo que rodeia os concertos, os festivais tornaram-se parte de um roteiro que já não é apenas para melómanos e apreciadores de música. Apesar das dificuldades que vivemos em Portugal, o nível de vida tem vindo a subir e os festivais de música já integram o cabaz das necessidades de muitos, consistindo até um percurso iniciático de vida para os mais jovens.

Devido à facilidade logística que consiste produzir um concerto ao ar livre, é hoje possível, através da proclamada animação musical, ter qualquer evento, feira, certame, efeméride transformados em minifestivais de música que servirão assim de chamariz para o verdeiro propósito das citadas manifestações de entretenimento e comemoração.

Disputando as vagas ainda disponíveis nas agendas dos artistas da moda, as entidades promotoras e produtoras de todos estes concertos disseminados pelo país pouco ou nada trazem, oferecem ou acrescentam aos músicos independentes, desconhecidos e “suburbanos” que não integram o «mainstream» e a agenda das editoras e agentes sediados na capital.

Estando a escrever-vos duma região que nos meses de verão duplica o seu número de habitantes (Algarve), continuo a estranhar como é que ainda não houve um “tubarão” que, em parceria com uma qualquer multinacional, não se lançou a este mar manso que é a zona sul de Portugal. Tomemos como exemplo a Concentração de Motos de Faro, que no Vale das Almas internacionalizou o Algarve, porque não colocar o Algarve na rota dos Festivais de Música realizados no verão, a exemplo dos que, em Portugal, já se tornaram referências internacionais? Porque perguntar não ofende, aqui deixo esta dica…

28-08-2019