Musique-se


Carreiras musicais à medida
Paulo Cunha

Tomando como referência Portugal, país de onde raramente se tenta sair para, musicalmente, conquistar outros mundos, facilmente enumeramos o nome dos cantores/conjuntos musicais portugueses que nos acompanharam (e continuam a acompanhar) no nosso crescimento. Dessas mãos cheias de músicos que compuseram e interpretaram as músicas que hoje são as das nossas vidas, rapidamente nos vêm à memória os seus nomes, bem como os seus êxitos mais representativos.

Sem nunca terem sido convidados para as nossas casas, muitos cantores e grupos musicais nelas entraram através da sua música e connosco convivem diariamente. Em suma, já fazem parte da família! Todos eles, músicos maduros, experientes e sábios, que contabilizam mais de metade das suas e das nossas vidas a tentar que a música não seja apenas um hobby, um biscate ou um complemento salarial, dão o devido prestígio e dignidade à profissão Músico. Só por isso, já são dignos do respeito dos seus fãs e dos seus pares.

Acumulando décadas de trabalho, resistiram às várias transformações socioculturais que, ciclicamente, ditam as ditatoriais modas musicais. As tais modas que, em empoeiradas prateleiras, facilmente arrumam carreiras que se adivinhavam promissoras. Crescendo connosco são, por isso, motivo de interesse e de aprendizagem por parte dos aspirantes a músicos.

Saber ler os sinais que, escondidos entre os “barulhos das luzes”, inebriam os músicos demasiado ambiciosos, é meio caminho andado para ultrapassar a previsível desilusão ou até o fracasso. Estar atento e aprender com as carreiras musicais dos mais velhos, os tais “dinossauros musicais” que ainda temos a sorte de ter entre nós, é um privilégio só ao alcance de quem sabe que uma carreira é como uma escalada. Por isso mesmo, sempre aconselhei aos aspirantes a ter sucesso musical boas doses de humildade e de reconhecimento por todo o conhecimento que todos os dias a vida nos proporciona.

Mas fará sentido falar em carreiras musicais, hoje? Talvez fosse mais coerente falar em percursos musicais, tal a forma como, neste cantinho luso, se vive dependente da indústria e do comércio ligados à música. Contratualizados e vinculados às poderosas multinacionais discográficas, os novos e atuais “artistas musicais” da nova era, tal como os jogadores profissionais de futebol, veem a sua atividade laboral gerida por outrem.

Sendo Portugal geograficamente pequeno, não há espaço para grande concorrência nos diversos nichos musicais que o servem, por isso, depois de usados, há que dar lugar aos novos músicos/cantores. Fabricados para consumo rápido, provavelmente não terão o tempo devido para o crescimento e envelhecimento que observam nos artistas da “velha guarda”. Tal como os outros com as chuteiras, neste caso, prematuramente, pendurarão os instrumentos e os microfones … e ainda com tanto para dar e mostrar!

É claro que fico feliz por ver tantos jovens músicos e agrupamentos musicais com pouco tempo de percurso firmado a aventurarem-se e a encherem as salas emblemáticas que, antes, consistiam no corolário de uma vida musical. “Empurrados” pelas suas editoras/agências para, em menos de metade do tempo dos seus antecessores, percorrerem um caminho já conhecido, passam pelas várias “casas” deste jogo, que para a indústria musical não é mais do que um simples Monopólio e onde os músicos não passam de peças à espera de serem substituídas.

Seja na música, seja no que for, não basta ser bom, é preciso mostrá-lo, administrá-lo, potenciá-lo e geri-lo. Chama-se a isso maturidade! Têm-na? Ótimo, usem-na, mas nunca percam a humildade, a independência e a dignidade - condimentos certos à mão de semear!

30-09-2019