Paulo Cunha

Musique-se

Paulo Cunha

Música tradicional – um património imaterial que urge apoiar

Há mais de trinta anos, quando ia ao Círculo Cultural do Algarve (Faro) assistir aos ensaios do grupo Dar de Vaia, estava longe de imaginar que, volvidos tantos anos, a representação da música tradicional portuguesa/algarvia no Algarve iria estar restringida a uma meia dúzia de grupos que, estoicamente, resistem ao abandono e desinteresse das entidades produtoras e promotoras musicais.

Entristece-me e confrange-me saber que muitos grupos que por cá (Algarve) existiam, e que ajudavam a preservar, a divulgar, a promover e a enriquecer a música tradicional portuguesa, foram obrigados a terminar ou a virar-se para outros géneros musicais, uma vez que, progressiva e acentuadamente, lhes foi faltando o apoio que lhes garantiria a motivação necessária para continuarem a despender o seu tempo, disponibilidade e algumas poupanças na nobre e meritória função de manter vivo o património imaterial musical português.

Não sendo a música de raiz, cariz e inspiração tradicional portuguesa uma música comparável à música que é tornada popular pelo destaque e promoção que são dados pelos órgãos de comunicação e pelas redes sociais, naturalmente não é solicitada para os eventos e iniciativas a que deveria estar também associada. Não é, de facto, uma música destinada a grandes animações, festas e ações de entretinimento, e por isso tem sido penalizada, ostracizada e esquecida.

Saúdo o investimento que algumas entidades públicas na área da cultura, da educação, do turismo e da administração local têm vindo a efetuar na reabilitação, promoção e divulgação de algum património edificado (material) do Algarve. É claro que gostaria que a mesma atenção, dedicação e investimento fossem também concedidos a quem mantém vivas as tradições musicais portuguesas (património imaterial).

Não gosto muito de ter que recorrer a comparações para que quem de direito e com responsabilidades reflita na importância das suas ações, mas quando determinadas inações têm consequências diretas na vida das pessoas, sinto-me na obrigação de, publicamente, referir o que me é dado a observar nos países que levam a sério o investimento no apoio ao seu património imaterial. Basta atravessar a fronteira e entrar na vizinha Espanha e constataremos o valor que, em qualquer espaço público, qualquer espanhol dá à sua música regional.

Não basta usar o slogan “O que é português é bom!”, quando, recorrentemente, se vota ao esquecimento as raízes musicais que nos fizeram chegar à música portuguesa que, hoje, é dada a fruir ao mundo. Porque quem renega as suas tradições, jamais terá uma perspetiva do que virá a ser o seu futuro!