Paulo Cunha

Musique-se

Paulo Cunha

O que é necessário para ser músico?

Em pleno séc. XXI, ainda é hoje difícil para muitos encarar a música como um modo de vida. Por muitas razões, a música é muitas vezes dissociada da esfera do trabalho, por ser entendida, para muitos, como uma atividade pouco lucrativa ou rentável. Tendo em conta que o nosso entendimento sobre o que é considerado profissão é relativo e limitado à construção social que fazemos das profissões e do trabalho, podemos perguntar-nos se as artes constituem, ainda, uma esfera distinta de outras, na qual nenhum dos princípios de funcionamento é comparável aos dos vulgares mundos de produção, ou se, pelo contrário, deve o trabalho artístico ser considerado também como uma profissão?  

Infelizmente, as condições em que os músicos trabalham são precárias: as oportunidades de trabalho escasseiam com o aumento da oferta; a instabilidade é constante; o acesso a uma posição de prestígio é longo e demorado; os salários são baixos, tendo em conta os gastos elevados (formação, atualização e manutenção); o esforço diário e o investimento pessoal são grandes.  

O que leva então os músicos a querer abraçar a carreira profissional? O constante desejo em ver reconhecida a sua atividade e a sua obra; a possibilidade de fazerem coisas diferentes com grande frequência e de fazerem aquilo de que mais gostam, permitido assim o acesso a um conjunto de outros benefícios (adrenalina, prazer, união, companheirismo, convivência, reconhecimento, prestígio, etc.); as recompensas que atuam ao nível da satisfação e do bem-estar psicológico e social. Em resumo, são os argumentos não monetários que permitem compensar a parca retribuição pecuniária.  

O mercado de trabalho musical é limitado em termos de oportunidades, oferecendo poucas possibilidades para o integrar. Nesse sentido, muitos veem-se obrigados a assumir diversas atividades, de forma a sobreviver e a combater as situações de maior fragilidade laboral. A maioria dos músicos assume ter mais do que uma atividade, seja dentro ou fora do ramo musical. A incerteza laboral é uma constante na atividade destes profissionais e são muitos os obstáculos e as dificuldades diárias. Mas, mesmo assim, para lá da exigência, da necessidade de adaptação, da instabilidade, do trabalho, do rigor e do estudo constante, continuam a almejar uma carreira profissional promissora e estável.  

Poderemos então considerar que é músico quem estudou música e vive unicamente da execução musical, tendo para isso que estar coletado, passar recibos, pagar impostos, ser sindicalizado e reconhecido pelos pares como tal? Se afirmarmos que sim, levantam-se então outras questões pertinentes: e aqueles que, não tendo aprendido música, através das suas capacidades inatas e prática musical, compõem, produzem e interpretam música? E aqueles que tendo outra profissão, tocando ocasionalmente, ombreiam e até superam qualitativamente alguns músicos profissionais? E aqueles que, não sendo remunerados, usam a música apenas para satisfação própria e de outrem? Imaginem-se a fazer estas perguntas relativamente a outras profissões. Pareceriam disparatadas, não é? Na arte não… felizmente! Da soma e na mistura de uma série de fatores, “fabricam-se” todos aqueles que, através dos sons e dos silêncios, nos tornam a vida mais bela: os Músicos.

Sendo uma classe pouco unida, muitos músicos, por múltiplas razões, olham-se de lado, reclamando o título de músico apenas para si. Serão os músicos profissionais, os poucos que conseguem (sobre)viver exclusivamente da música em Portugal, os únicos músicos do nosso país? Tal como noutros setores profissionais, também a desunião é o “calcanhar de Aquiles” na área musical. A grandiosidade e a força duma classe cimentam-se na luta contra os preconceitos e a desunião interna. Para que, de uma vez por todas, nos bons e nos maus momentos, todos os músicos ajam como profissionais, urge que pensem também como tal!