Paulo Cunha

Musique-se

Paulo Cunha

A pandemia na música coral

Como resultado da proibição de todas as manifestações coletivas, durante o primeiro surdo pandémico da Covid-19, também os grupos corais se ressentiram da paragem forçada dos ensaios presenciais. Por mais que tenham tentado manter a chama acesa (o prazer e o gosto pela atividade coral) através de reuniões síncronas por meios telemáticos, estes “ensaios” virtuais não conseguiram substituir a verdade coral dos ensaios presenciais.  

Ensaiar e cantar num coro pressupõe usar todos os sentidos, dando assim sentido a quem, como eu, defende que um coro canta o que vive. Formado por unidades tímbricas distintas, encontra o seu propósito quando, na sua perfeita junção e fusão, coloca os naipes vocais a soar como autênticas famílias instrumentais. Ora, tal propósito só se adquire através de ensaios presenciais, onde a vivência, a convivência e a empatia operam o efeito desejado. 

Como resultado de um desconfinamento progressivo (e ansiado), muitos coros deste país estão, neste momento, divididos no que deverão fazer e como agir. Ao contrário dos jogadores de futebol que são testados quanto ao seu estado de saúde antes de qualquer treino ou jogo, os vinte coralistas com permissão de se juntar no “estado de alerta” (que se antevê prolongado) não o farão. 

É compreensível que a vontade de cantar e conviver musicalmente em grupo é muita, que grande parte dos diretores corais queiram justificar os seus honorários e que, sem atuações corais, muitos coros amadores venham a perder uma das suas principais fontes de receita. Por isso, têm decorrido uma série de webinar (seminários realizados através da internet) com diretores corais, coralistas e elementos dos órgãos sociais de coros de Portugal e doutros países.  

Tomando como referência de debate e de discussão os pareceres de peritos em vários setores da saúde pública e diretores corais de outros países que desconfinaram mais cedo do que nós, cantar em grupo com o uso da máscara, de viseiras ou com grandes distâncias entre coralistas, mais uma vez não reúne o consenso da comunidade coral nacional. E para reforçar tais receios e alguma apreensão, vamos dando conta do contágio de coralistas nalguns coros que já começaram a ensaiar. 

Cantar, rir, tossir, espirrar ou tossir são atividades libertadoras de gotículas e aerossóis que propagam os vírus no ar. Um estudo publicado no New England Journal of Medicine, a meio de abril, estima que o tempo de vida infecioso de partículas aerossol do novo coronavírus no ar, em condições propícias, é de três horas. Por concentrar várias dezenas de pessoas no mesmo sítio, há especialistas que recomendam que os coros não deveriam ensaiar presencialmente na atual situação de pandemia.

Cantar de máscara colocada é difícil, cansativo e penoso. Cantar com uma viseira colocada desvirtua as qualidades sonoras que se exigem na interpretação coral, mascarando assim o resultado. Talvez, por isso, alguns coros tenham optado por cantar em ambiente exterior, com a distância devida de dois metros entre os seus membros. Mas, para além de ser pouco prático, quantos coros terão ao seu dispor as condições necessárias para ensaiar em locais exteriores não públicos?

Ao cantar, um coralista realiza respirações mais profundas e projeta a voz. Tendo na acústica um aliado necessário e nas cordas vocais o seu utensílio, é difícil que as pessoas estejam distanciadas umas das outras. Por isso, é-me difícil aconselhar seja quem for na decisão a tomar relativamente ao reatamento dos ensaios corais. Tal como noutras vertentes artísticas, primeiro deve-se preservar a saúde dos coralistas e das suas famílias para que, a seu tempo, possamos – todos – cantar a uma só voz!