Paulo Cunha

Musique-se

Paulo Cunha

O vírus na Educação Musical

Com o novo ano letivo à porta e ainda sem uma solução à vista que evite os nefastos e maléficos efeitos provocados pelo novo coronavírus, resta aos principais intervenientes na ação educativa cumprirem as várias medidas de etiqueta respiratória convencionadas, a devida higienização das mãos e o necessário afastamento social.  

Segundo a Organização Mundial da Saúde, as evidências científicas sugerem que várias vias podem levar ao contágio, mas que a principal via de transmissão é o contacto direto entre pessoas. A infeção transmite-se normalmente através de secreções da boca e do nariz, saliva ou gotículas projetadas quando uma pessoa fala, canta, sopra, espirra ou tosse. Daí a importância do distanciamento de, pelo menos, um metro entre as pessoas. 

Mas como deverão os professores das disciplinas eminentemente práticas proceder em contexto presencial de sala de aula? Qualquer técnico de educação ou encarregado de educação mais atento verificará que nas disciplinas de Educação Visual, Educação Tecnológica, Educação Musical e Educação Física existe grande contacto, manuseamento e troca de materiais por parte de professores e alunos. Então o que fazer para manter uma higiene frequente das mãos, bem como uma etiqueta respiratória eficaz? 

Com as aulas quase a começar aguardam-se as indicações preciosas (e milagrosas) da Direção Geral da Saúde e do Ministério da Educação para que essas disciplinas façam jus ao seu nome. Tomemos como exemplo a Educação Musical, uma disciplina onde grande parte dos alunos usa um tubo (flauta de bisel) no qual sopra para emitir som. Obviamente manda o bom senso que este ano letivo os professores não recomendem a sua utilização, pois para além do som são libertadas e projetadas muitas gotículas de saliva.  

Manda também o bom senso que os professores de Educação Musical não estafem os seus alunos, pedindo-lhes que cantem músicas longas, amordaçados por máscaras que não foram feitas a pensar na música. E o que dizer da execução instrumental com os instrumentos da sala de aula que, naturalmente, são partilhados ao longo do dia? Terão os alunos que ter, individualmente, o seu frasco de gel-desinfetante para passar grande parte da aula a “dar banho” ao instrumento que lhes coube em sorte? 

São questões que preocupam os professores de Educação Musical pois, tal como os seus colegas das outras disciplinas maioritariamente práticas, sabem que as suas aulas podem ser potenciadoras de contágios indesejados. Por isso, dei a quem de direito alguns conselhos da Associação Portuguesa de Educação Musical. Quem sabe, talvez ajudem a minorar a disseminação de um vírus que vai entrar nas escolas sem ser convidado! 

Assim sendo, também eu aconselho a: considerar o desdobramento das turmas na disciplina de Educação Musical; entrar no espaço de aula ou ensaio sempre com máscara; reorganizar a sala de aula de Educação Musical para ganhar espaço; ter sempre disponível material desinfetante; nunca partilhar instrumentos de sopro; manter portas e/ou janelas abertas; recorrer ao espaço exterior da escola e auditórios para atividades de movimento e trabalho de grupo; incluir na planificação das atividades musicais o recurso a plataformas, software e aplicações novas; adaptar instrumentos de avaliação prática assíncronos.

Saudável ano letivo!