Vaguear na Maionese

Os novos “loucos de Lisboa”
Paulo Falcão Alves

Para quem passa algum tempo em aeroportos, como é o meu caso, já deve ter reparado nestes novos “loucos de Lisboa” - indivíduos que vagueiam de um lado para o outro como doidos, completamente alienados da realidade que existe à sua volta, falando em voz alta como se o mundo só a eles pertencesse. Claro que me estou a referir à célebre canção do grupo de música portuguesa Ala dos Namorados e que no seu refrão canta algo como: “são os loucos de Lisboa, que nos fazem duvidar, a Terra gira ao contrário e os rios nascem no mar”.

E é isso mesmo que estes novos alucinados nos querem fazer acreditar – que é perfeitamente normal falar em voz alta, com alguém do outro lado da linha, incomodando e invadindo a privacidade de quem, por azar, partilha o mesmo espaço público. Por vezes vagueiam para longe, penso que por algum breve momento de lucidez, mas, logo no momento a seguir lá surgem eles a falar alto como dementes acabados de sair de um Júlio de Matos ou Magalhães Lemos - já não bastava aqueles que se põem a ver vídeos do YouTube ou a jogar Candy Crash no telemóvel com o som nas alturas?

Esta imagem é assustadora principalmente para o transeunte mais distraído ou para um qualquer sénior que tenha o azar de partilhar o seu espaço com estes indivíduos e que não se aperceba que têm uns headphones nos ouvidos e que estão a falar ao telemóvel – sim, estão a falar ao telemóvel sem mãos, UAU!

Francamente, e por muito que tente, não consigo descortinar um motivo para tal fenómeno. Poderia ser por terem as mãos ocupadas e daí não puderem segurar no telemóvel, mas não, as mãos geralmente estão nos bolsos - será que é para se fazerem notar? Também penso que não, pois na maioria, senão na sua totalidade, parecem personagens saídas de um qualquer filme do Quentin Tarantino – então qual será a razão? Será que pelo facto de terem uma tecnologia ainda pouco massificada os faz pensar que têm o direito de se auto exibirem através de um narcisismo parolo? - A discussão é a mesma de sempre – já nada é privado, tudo é publico e exposto sem qualquer pudor, mas, ao contrário do que alguns nos possam querer fazer pensar, estes novos “loucos de Lisboa” nunca nos irão fazer acreditar que os rios nascem no mar!